Nota intermilenar: sobre a poética de Haroldo de Campos

Em Entremilênios (2009), livro publicado muito depois da sua morte, já no final da primeira década do século 21, Haroldo de Campos é capaz de configurar a tópica de outro momento cultural e criativo, com incisões mobilizadoras no que toca à poesia hoje. Atrai, especialmente, a atenção na leitura de “2000” a abertura dada ao gesto intempestivo do anjo da história (extraído de Klee/Benjamin) em face da imagem da gárgula-desespero. Esta sustenta, “no seu gótico esqueleto de pedra” (Campos, 2009, p. 62), a senha mântrica do “não há nada novo/ sob o sol” (p. 62) para a garantia e o prosseguimento de “o-que-sabe/ por entre as névoas/ do nada” (p. 62). Interessantemente, o verbo jubilar – a gárgula-desespero jubila – se associa ao continuum monocromático da história finalista estampado pela divisa temporal 2000, tal como figuram “os portais do terceiro milênio” (p. 59), tendo na pilastra esquerda o princípio-esperança em contraponto à moira-desespero no lado da direita.

Há, certamente, no desenho sígnico traçado por Haroldo de Campos todo um legado negativo, movido por assertivas de fim e melancolia, que o poema acolhe em observância do que produz refrão e se confirma como caixa-de-ecos do já feito, de horizontes sonoramente proféticos, preexistentes, também, no campo da criação, precisamente naquele da poesia. Encontram-se, nesse momento do texto, nítidas pontuações da experiência moderna no seu confronto entre progresso e distopia, ante o processar histórico de sua meta evolutiva, unilinear.

Provocante se mostra, no entanto, o interesse do poeta paulista em marcar o enfrentamento das imagens contidas nas pilastras que ostentam e suportam os portais intermilenares. Lê-se nesse até agora último de livro de Campos o contrário do que podia ser aguardado a respeito de um autor vanguardista, tornado o máximo representante, no contexto das poéticas de língua portuguesa, da noção e da ação militante prospectiva das formas e das revoluções, das linguagens encerradas em paideuma e linhagens. Seu escrito póstumo promove o avesso da óptica condenatória sobre a emergência do que pode haver de novo depois da, assim chamada por ele, fase utópica da história e da cultura.

As mutações sofridas pelo concretismo e pelos escritos dos irmãos Campos, assim como de outros poetas alinhados ao grupo, como Pignatari, evidenciáveis, também, nos que vieram depois como Leminski e Bonvicino, já podiam ser observadas desde os anos 1980, com clara menção às transformações do período contemporâneo. De todo modo, soam instigantes, precisamente nesses textos produzidos no “fim do futuro”, a pauta distendida, o pacto expandido a partir da descrença e do desencantamento do mundo, culminados no “nada de novo sob o sol” tal como replica a figura da gárgula.

o anjo-esperança
e a gárgula-desespero
se confrontam
no aprazado convergir do
calendário
ao longo do estelário
do futuro que se entre-
mostra vaziopleno de latentes
acasos
o anjo e a gárgula se defrontam
do mais fundo
dos séculos…
(pp. 60-61)

Se o mais fundo dos séculos pode ser apreendido, também, como o advento da nova era milenar, o poema “2000” deixa entrever o que Sigrid Weigel observa a respeito do Angelus Novus pintado por Klee tal como descreve Walter Benjamin, em “Sobre o conceito de História’: uma figuralidade não sincrônica. Como pontua a estudiosa em sua análise, várias mudanças de perspectiva em relação ao tempo, ao posicionamento da figura angélica no quadro, no que se refere à visão, ao seu desejo, aludem a uma “constelação topográfica e espacial” (Weigel, 1995, p. 57). Conjunção multiforme que se afina com a captação das tensões intermilenares da parte de Campos na composição de suas imagens duais, em confronto, complexamente relacionadas. Pois o desespero da gárgula não se descarta, gerador que é do solo do qual se projeta o pacto com a esperança e o angelismo (em vez da estatuária pétrea enfatiza-se o plano da imaterialidade, da invisibilidade).

Por outro lado, o tantas vezes descrito movimento realizado pelo Anjo Novo da História, impelido pela força da tempestade que o desloca para a frente, tem como eixo o ato de virar-se para a contemplação do que é deixado para trás (vestígios, ruínas, fragmentos). Esta figuração subjaz no conjunto pictórico erguido por Campos e poderia ilustrar o sentido de progresso simultâneo àquele da manutenção do vasto corpus de referências ao passado, tal como encampou a noção de vanguarda experimentada pelo concretismo. Entretanto, a força iniludível do presente, acentuada como passagem, contém a crítica ao progresso e à postura negativa quanto ao tempo que transcorre (tudo o que sabe e profere a gárgula diante da possível materialização do futuro em uma única via). Vibra a força direcionada para o ponto de multicentelhamento que a espada angélica faz flamejar de modo inopinado, assincrônico (salto/raio intempestivo em relação à fixação e à linearidade sucessiva da história).

o arcanjo-esperança
tomado de sagrado
furor
flameja sua espada
multicentelhante
e rasga um claro
no ob-
nubilado
horizonte onde
se engendra o
futuro
(p. 62)

Não obstante, a carga de desespero de que se imbui o anjo-esperança – de acordo com a leitura benjaminiana feita de Afinidades eletivas, de Goethe, tal como cita Haroldo em nota ao poema; a outra referência-matriz de “2000” vem de sua própria recriação do Eclesiastes, dizendo respeito ao “sábio melancólico”, autor anônimo do hebraico Qohélet – mostra-se nitidamente a aposta em uma espécie de vidência do presente, da parte do poeta de Entremilênios. É o que mais se imprime nos versos, a partir da inteireza de um repertório, de um embasamento de leituras produzidas no passar dos tempos entre retrospecções e futuridades. Visível se faz a ênfase no dimensionamento da dorsalidade (como conceitua de modo original o filósofo David Wills) figurada pelo Angelus Novus à luz-centelha de Campos.

A capacidade do poeta se dispor à mirada da face controversa e expansiva de um presente que não induz ao gesto de virar as costas para o passado, e não condena o que-há-de-vir (o devir), cria compasso com o giro dorsal de corpo e pensamento. Faz ressaltar a reconstelação da passagem passado/futuro na cena aberta, bem real, de um defrontamento – “o anjo e a gárgula se defrontam” – epocal. Uma orientação ocorre além da visibilidade do rosto (da ratio contida no olhar como saber frontal, valorizador de uma ideia parcial e suprema da humana inteligência). Vejam-se, como suplemento, “as formas em morfose […] a inteléquia viva”, no poema a Goethe, publicado em A educação dos cinco sentidos (Campos, 1985, p. 31). Nessa gradação, tal como Wills estuda o Anjo da História, sob uma dinâmica crítica do esclarecimento racionalista, alcança a posição da frente o “passado irrefreável e o futuro imperceptível” toma um posto “por trás” (Wills, 2008, p. 203).

Compreende-se, nessa figuratividade dada dorsalmente, a própria vivência presente, tornada futuro, de um modo imperceptível, não mais planificadora, constante de um programa. Como está em “2000”, e coroa o “rasgo” do anjo-esperança, inevitável se apresenta o engendramento do futuro – a contar de um corpo ativo, atualizado, sob a multivariação de um corpus de textos, imagens e experiências históricas, para a instauração do tempo (que só decorre) agora.

Dorso (Intercurso)

Reverente à inteireza corporal, ao plano receptivo – outro rosto, nova relação com o espaço-tempo apreendida pela dorsalidade (não mais pelo front/avant la lettre óptico-racional de uma imagem abstrata e imobilizante do “humano”) –, Haroldo de Campos contraria as linhas programáticas, encerradas em manifestos (r)evolucionários. Mesmo que se trave contato com um poeta no intercurso de uma época e de uma experiência, a expor o embate de sua formação concretista ante um panorama de relações e extensões com a política, a sexualidade, os afetos, a memória, observável é uma espécie de teatralidade combinatória da palavra regida de modo mais livre pela imaginação, por uma performatividade em mesclagem com referenciais diversos.

A seção “Musa militante”, integrante do livro, revela uma amostra da poética desprogramada de Campos, indicando mais um excesso de pauta do que o regramento do objeto construtivista, autocentrado. Frisa-se o decurso da constelação ao longo do estelário do futuro – a construção arquitetônica extraída da cosmografia de Dante, autor traduzido admiravelmente por ele, se torna passível de ser lida como insígnia das projeções no espaço e no tempo do nosso país continental. Rasure-se futuro, em proveito de um centelhamento, que é corte e rasgo de ponta de lança, para vermos um Haroldo capaz da indignação em “Senatus populusque brasiliensis”, no qual se inscreve o grafema/grafite “artigo (nem se tire nem se ponha)/ primeiro & único:/ todo brasileiro é obrigado a ter vergonha” (p. 97).

Intriga ver neste poema a refiguração do estado nacional das coisas e dos signos a contar das premissas desenvolvimentistas do período político de Juscelino Kubitschek, da plataforma contextual na qual o concretismo emergiu: “chove/ lama/ sobre o/ plano-piloto/ de/ Brasília” (p. 87). Em outro momento histórico e cultural, o plano-piloto da poesia de vanguarda brasileira se mostra refeito, em atenção a um foco retrospectivo que não descarta a aventura pela realidade imediata, palmilhando a cena de seu surgimento com um poder de pregnância que se impõe sobre a quadratura de um projeto meramente formalista: “chove na capital federal/ do planalto/ na cartesiano-burocrático-/ espermático-neobarroca cidade zenital do altiplano/ urbe radiosa no trópico entrópico” (p. 89).

Há um sentido de acúmulo, de deriva – proveniente de uma abertura pluritópica na escrita e no pensamento crítico de Haroldo de Campos apreensível, por exemplo, em seu diálogo com o neobarroco latino-americano –, que não se mostra só como uma postura de teor estilístico. É o que pode ser captado no poema “Réquiem”, em memória a Néstor Perlongher, poeta argentino que viveu em São Paulo nos anos 1980-1990. A assimilação do ethos contemporâneo a envolver corporalidade, uma polifonia não somente textual, mas advinda de registros da vocalidade e da subjetividade, é marcante em Perlongher e contamina a composição de Campos.

Em consonância com a escrita do autor argentino e de suas marcas acentuadamente pós-modernistas, como bem lê Gabriela Moura Ferro, o texto de Entremilênios captura o que se presentifica como uma desterritorialização temporal e espacial de significantes em proliferação na página (Ferro, s.d., p. 900). Incide, assim, no modo de pautar e cortar a enunciação do escrito-homenagem, seguindo-se a combinação de imagismo exacerbado com a crueza da linguagem “afectual”, transmitida pela imediaticidade, pela desordem, erguidas como princípio construtivo. A alta sexualização do discurso poético de “Réquiem” se dá em contágio pela pluralidade vocal desentranhada do trabalho escritural de Perlongher: “des-tres-a-loucada vária pau-/ -liceia nonsênsica e variopinta – tam –/ -bém túrbida tigresa panespérmica – sob” (p. 51).

No limiar, a demarcar-se sob – na emergência receptiva, dorsal, de outro rosto, a poesia refuta a localização da casa/linguagem/clareira de cariz heideggeriano em favor da ética da doação, da errância (Wills, 2008, p. 61). Insufla o desmascaramento, ou melhor, o ingresso no jogo de máscaras ultraurbano, sob o influxo drag queen de todos os sexos, em “a morte vestida de verde-jade”, poema em que um gosto trash se modula entre extratos de Sarduy, mitografias e lenda portuguesa: “perucas em fogo/ ruivo-incendiadas […] explodem do/ chão belas/ cabeças de cogumelos/ umbelas esfogueando […] esta dríade/ colou seus pelos/ púbicos na/ fachada estilo new-/ england daquele/ cottage” (pp. 103-104). Ou, então, atua pelo contrasenso/contramundo do mundanismo e do terror globais “apresenta afrocondolências a uma afro-/ americana condoleezza verde-hirta/ ferrúgeo-parda como a estátua da liberdade (vista)/ de perto” (p. 76). Disseca-se, assim, a deliberação neoliberal, no horizonte progressista-capital unidimensionado: “no céu neon/ do neoliberal/ anjos-yuppies/ bochechas cor-de-bife/ privatizam/ a rosácea do paraíso” (p. 80). E, de novo, no backstage, é a corporalidade transbarroco-portenha-são-paulina que avulta: “internas entranhas/ (a esta santipau-/ -lista megalópolis bestafera) com esse/ seu (dele néstor) cunilinguineopor-/ tunhol lubrificante até levá-la (a paulistérica) a um/ paro(sísmico)xismo de orgasmo transtelar –“ (p. 47).

“Réquiem” pulsa em uma viva fragmentação e ressalta o reforço do júbilo através do adjetivo espermático (presente, também, no poema dedicado ao Planalto Brasil). Sublinhada fica a “afectualização” de Campos pela vida presente em uma variedade que ele explicita na via dual em combate (entre o já dito e a explosão verbal da centelha), contida em “2000”, como bem resume a imagem-valise caixa-de-ecos (a evidenciar tanto a recepção, a ressonância, quanto a renúncia ao lugar-comum das reiterações e clichês de linguagem).

Sensorialmente afinado com as constelações do mundo (veja-se a leitura de Kostas Axelos sobre o lugar e a expansão de possibilidades da poesia no contexto da cosmotécnica contemporânea, em Métamorphoses), Haroldo de Campos fornece um percurso de palavras/imagens inquietantes em seu mais novo livro de viagem. Um mapa a ser visitado e descoberto por força de seu poder interferente nesse tempo posterior à ideia de vanguarda, sinalizado por outros lumes e lances da história, da escrita. Liberta-se, contudo, a experimentação, no que se refere a um momento preciso, efêmero, dado depois. Bem depois do futuro, do fim, sem salvaguarda – um descontínuo, incessante, corpus-galáxia se projeta sob o giro do acaso.

 

 


Referências bibliográficas

Axelos, Kostas. Métamorphoses. Paris: Minuit, 1991.
Benjamin, Walter. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Vol. 1. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Campos, Haroldo de. A educação dos cinco sentidos. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Campos, Haroldo de. Entremilênios. São Paulo: Perspectiva, 2009.
Ferro, Maria Gabriela. “Neobarroco/pós-moderno: potlatch cultural América Latina/mundo. www.letras.ufmg.br/espanhol/Anais.
Weigel, Sigrid. Body and Image-Space. Re-Reading Walter Benjamin. Trad. Georgina Paul e Rachel McNicholl. Londres e Nova York: Routledge, 1995.
Wills, David. Dorsality. Thinking Back through Technology and Politics. Minneapolis e Londres: University of Minnesota Press, 2008.


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