Nota sobre “Poetry”

A tradução mais recente de Augusto de Campos é a de um conhecido poema de Marianne Moore, “Poetry”. Qual a necessidade de se traduzir este poema hoje? A pergunta é pertinente, pois a tradução pode ser um caprichoso jogo intelectual ou uma importante intervenção cultural, injetando nas veias da língua de chegada a vitalidade da poesia de saída, para gerar ideias. Marianne Moore é considerada nos EUA uma autora modernista importante. Ainda assim, não desperta o mesmo interesse de outros pares de sua geração. Sua presença histórica existe, digamos, a despeito de não ter a força de Eliot, Williams ou Stevens. Destaque-se que “Poetry” já obteve versões para o português, anteriores a esta feita por Campos, mas uma razão segura para ele traduzi-lo seria a própria qualidade da tradução. Pois, apesar de tudo, assim o repertório da língua de chegada resultaria enriquecido. “Poetry” tem várias versões, de distintas dimensões, mas a mais conhecida é a sua redução a um terceto:

In Poetry, 1919, Marianne Moore engages directly in a debate with Tolstoy and William Butler Yeats, quoting Tolstoy’s dislike of business documents and / school-books and Yeats’s condemnation of literalists of / the imagination, before defending the roots of poetry in the literal, businesslike raw material of everyday life, her equivalent of Eliot’s variety and complexity. In its original version (1919), the poem offers a defense of poetry along the lines of Stevens’s later quest for a poem of pure reality. As she revised the poem over the years, however, Moore cut out the lists of possible subjects for poetry and condensed the poem to just its three original opening lines. The condensation represented in a sense a return to the miniature forms of imagism, but now seeming to contain the whole relation of poetry to the social world in just three lines:

I, too, dislike it: there are things that are important beyond all this fiddle. Reading it, however, with a perfect contempt for it, one discovers in it after all, a place for the genuine. [1]

Esse possível enunciado da relação da poesia com o mundo social ganha, através da redução, uma notória ironia, que marca o primeiro verso: “Eu também não gosto dela…”. Trata-se de um gesto cult afoot da explícita evocação de Baudelaire: “Hypocrite lecteur, – mon semblable, – mon frère!”. Mas o que no gigante francês era desmascaramento em Marianne Moore é um dizer sutil: “Sim, eu também não gosto dela, mas…”. Não há esse mas, but, no poema – ao menos, não de modo imediato. Ele aparece um pouco adiante, na forma de however, contudo, no entanto… O que confirma a ironia envolvente e fina, que faz seu giro nesse however: “I, too, dislike it. / Reading it, however…”. A concordância inicial não passava de uma forma sedutora de preparar a discordância com o frontal “hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère”:

In her well-known poem, Poetry, Miss Moore begins, I too, dislike it. This line has been interpreted as ironic, as an attempt to disarm, or as evidence that she practices her art only half-seriously. Quite obviously, however, her reasoning is serious. [2]

  Além de sutil e irônica no tom, a linguagem de Moore é natural e coloquial na sintaxe, o que combina com a ideia de envolver, de pactuar com o leitor. Nada há disso, ao que parece, na versão de Augusto de Campos. Nem a ironia e o coloquialismo, que tentam capturar a atenção do leitor para uma arte que “contain the whole relation of poetry to the social world”. Tudo é perdido pela hipérbole semântica: “Eu também a abomino”. Abominar é “ter horror, detestar, execrar, odiar”. O que isso tem a ver com o simples desgosto contido nesse dislike? Dislike pode também significar detestar, odiar, execrar, mas esses significados não estão autorizados pelo contexto do poema de Moore. O que explica essa escolha, ainda que não a justifique, é a opção imprópria por uma rima perfeita com “genuíno” no terceiro verso:

Eu também a abomino. Lendo-a, porém, com total desdém, a gente des- cobre ali, afinal, um lugar para o genuíno.

A dicção e a sonoridade de Marianne Moore são elegantes (talvez, elegantes demais): “I, too, dislike it./ Reading it, however, with a perfect contempt for it…”. Augusto de Campos, no entanto, impõe-lhe um ritmo entrecortado, além de comprometido por encontros e destaques vocálicos abertos, em eco, que absolutamente não existem no original:

Eu também a abomino [ah ah] Lendo-a [ah], porém, com total [au] desdém, a [ah] gente des- cobre ali [ah], afinal [ah au], um lugar para [ah ah] o genuíno.

Notar que o corte em descobrir, “des-/cobrir”, além de inexistente em “Poetry”, pretende realçar a duplicidade de descobrir e ocultar, um duplo sentido cansado e óbvio, verdadeira malversação do original.  “One” significa “alguém”. Pode igualmente significar “a gente”, mas, Moore diz, com simplicidade,  o seguinte: “o leitor, mesmo fazendo pouco-caso da poesia, poderá encontrar nela um “sítio” para o genuíno”, que, no poema, quer dizer o desafetado, o real, a realidade, condenando, deste modo, os poemas decorativos da época. Ela foi uma poeta modernista. “Contempt” significa desprezo orgulhoso, menosprezo, descaso. “Desdém” não está muito autorizado pelo original, embora possível, mas revela a atração do tradutor por rimas e por uma poética velha: “porém” (uma adversativa bacharelesca) e “desdém”, forçado, como interpretação. Tão forçado quanto  “a gente” (“one”), que, aqui, Moore usa, de fato, na acepção de  “descobre-se”:  “contudo, lendo poesia,  mesmo com menosprezo, descobre-se nela, enfim, um lugar para o genuíno”. A tradução de Augusto de Campos mina o sentido original, porque interpõe o verbo “cobrir” na cadeia semântica, quando só existe o verbo descobrir. Vejamos então o que o tradutor pretende encobrir. Wallace Stevens define o poema de Marianne Moore como investigação da realidade, que, por isso, em sua versão de 1919, enumera, segundo ele, possíveis temas para outros poemas de gume duro. Pode-se então concluir que, ao que tudo indica, Augusto de Campos investiga aqui a investigação alheia. Mas, ao final, oculta a investigação da investigação, que é a tradução do poema, pela ilegibilidade kitsch do travestivemento gráfico de um então poema próprio, pilhado do trabalho alheio (cf. http://www.musarara.com.br/marianne-moore-em-tres-dimensoes). E o que era uma proposta de investigação de gume duro da realidade, a ser investigada pela tradução, torna-se show room tipológico. Um show room paradoxal, que se exibe, que se dá a ver, para ocultar tanto a realidade investigada pelo original como sua própria tradução. (Em 12 de março de 2012)


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Notas

[1] From Pericles Lewis’s Cambridge Introduction to Modernism, Cambridge UP, 2007, pp.150-1 (http://modernism.research.yale.edu/wiki/index.php/Poetry_(Marianne_Moore)#column-one).
[2] Donald Hall, http://www.english.illinois.edu/maps/poets/m_r/moore/poetry.htm.