Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Thérèse Bachand

THÉRÈSE BACHAND, nascida em Oakland, Califórnia, em 1953, é poeta e consultora de política social. Cresceu em uma grande família de sete filhos; seu pai, de origem franco-canadense, foi um advogado e, mais tarde, juiz de direito. Sua mãe, uma professora de escola, manteve laços estreitos com amigos que viviam em um convento nas proximidades. Bachand fez o Cowell College em Santa Cruz, Califórnia, onde estudou com o grande pensador Norman O. Brown. Ela se mudou para Marin em 1975, onde trabalhou primeiro como faxineira, e depois como técnica de continuidade no filme Black Stallion.

Em 1983, Bachand e sua família se mudaram para Los Angeles; seu foco principal era criar as duas filhas. Trabalhou como voluntária em pré-escolas. Em 1996, ela também trabalhou como voluntária no Centro de Artes Literárias da Califórnia chamado Beyond Baroque.

Bachand foi editora de 1996 a 2000 na Sun & Moon Press, lendária editora fundada por Douglas Messerli, e, depois, na Green Integer, também de Douglas Messerli. Ao longo desses anos, sempre escreveu e foi se engajando aos poucos nas comunidades de poesia locais, embora sempre relutante. Atualmente é voluntária num centro de tutoria e escrita sem fins lucrativos em Los Angeles. Publicou: luce a cavallo (Los Angeles: Green Integer, 2009); Mercury in Retrograde (Los Angeles: Mindmade Books, 2012); A440: a fairy tale (Los Angeles: Domain 22, 2014). Seu livro luce a cavallo recebeu o Gertrude Stein Book Award. Sua poesia é, de modo geral, inspirada pelo cinema dos anos 1960 e 1970.
Cf.: http://read.hipporeads.com/author/bachand/.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Bachand: Sim, claro!

Sibila: Que poesia você lê?

Bachand: Leio todos os tipos de poesia, mas ultimamente minha propensão é ler poesia em tradução.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Bachand: Isso é um mistério. Ler poesia desacelera as palavras, é uma forma curta de comunicação e acarinha os cacos, os detritos elusivos das palavras.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Bachand: O fato de escrever poesia ou de não escrevê-la (que parece requerer mais tempo, mas reside na urgência de se pensar na poesia) é uma necessidade. Não tenho muitas expectativas quanto a escrever poesia pelo fato de ser uma necessidade e, quanto às necessidades, só se podem colocar demandas hipotéticas.

Estudei piano por quase doze anos, por isso aplico muito do que aprendi lá na minha prática. Matemática foi uma matéria mais importante para mim do que Inglês, mas não fui muito longe com isso (Escola católica para moças).

Pelo fato de haver crescido em uma coletividade numerosa (isto é, uma família de sete crianças – um dinossauro da experiência familiar, nesses dias), eu também estava compenetrada em ser católica e estava rodeada por católicos muito ideologizados. O lado materno – os croatas – eram realistas e bastante taciturnos quanto a suas crenças religiosas, enquanto os outros – os franco-canadenses – tinham uma relação mística e emocional com os santos, os beatos e os recém-falecidos. Quando adolescente, foi um alívio, para mim, visitar um mosteiro das Carmelitas, por achá-lo tão tranquilo e afastado do caos de minha vida cotidiana. Numa família grande você aprende a falar em voz alta. Mais tarde, é claro, deixei de lado esses dogmas e configurei meu próprio domínio criativo e espiritual.

Penso que a poesia possa haver-se tornado meu espaço egoístico, um espaço onde eu não tinha que me explicar para os outros e onde eu podia fazer o que quisesse. O irônico disso é que, ao mesmo tempo em que a poesia se origina como uma intensidade individual, eu gosto da companhia de outros poetas que pensem como eu, ou seja, dos espíritos-irmãos nesse mundo insular.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Bachand: A prática, que se aninha em sua mente como um problema de matemática não resolvido, um pensamento recorrente, um mantra, um desejo ou uma oração. E, com o tempo, alucina.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Bachand: Não tenho muita certeza. Quando uma pessoa me pergunta o que escrevo e eu respondo “poesia”, isso geralmente põe um fim à conversa. Os que, anonimamente, estão à minha volta lembram-me constantemente de que isso não é considerado ou respeitado como um emprego prático do tempo – embora, em tempos de crise, muitas pessoas pareçam ser atraídas por isso. Certamente, a poesia tem valor público para aqueles grupos coesos de poetas que costumam frequentar as leituras de poesia. E a poesia acabou por encontrar ressonância entre alguns de meus companheiros de trabalho, embora pareça um luxo viver nessa floresta.

Somos uma nação em guerra, consigo mesma e com os outros, e nessas circunstâncias “a prosa é um digestivo imperial”. A ideologia se tornou uma espécie de isolacionismo – pense-se numa caixa de ferramentas conceptuais – tudo o que move rumo ao texto “coletivo” e para longe da bagunça do self, dos selfs. Para mim, há um conflito interno, natural, que pode adicionar um pouco mais de resistência à forma.

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Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Bachand: A natureza. A música. A arte. O tédio. E estar ligada com aqueles que também amam e escrevem poesia.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Bachand: Que alguém queira lê-la.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Bachand: Não sei dizer. Não tive ainda ocasião de ver ninguém à minha volta realmente sequioso por ler um meu novo texto. Minha mãe e minha irmã Karen leem realmente tudo o que escrevo. Mas elas pertencem a essa categoria especial chamada “família”.

Sempre fico surpresa quando alguém que conheço muito pouco, ou alguém de meu passado vem e me diz que esteve acompanhando meu trabalho. O melhor leitor pode ser alguém que leia e que só conheça você pelo seu trabalho – alguém que simplesmente se imerja na leitura, sem expectativas ou demandas-clichês a respeito dos poemas, que outro, poeta ou acadêmico, possa ter.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Bachand: Quando estou lendo algum livro que me cativa particularmente, carrego-o comigo, da mesa de cabeceira ao café, da cadeira do jardim ao gabinete do médico, do banco do parque ao trabalho. Isso é o que você pode esperar de melhor: que seus poemas sejam lidos em algum lugar no multiplex da vida.

*  *  *

Reading poetry

Sibila: Do you read poetry?

Bachand: Yes, of course!

Sibila: What kind of poetry do you read?

Bachand: All kinds, but lately I tend towards poetry in translation.

Sibila: Do you think that reading poetry would produce any effect?

Bachand: It’s a mystery. It slows down words, the short form of communication, and embraces the shards, the elusive detritus of thoughts.

Writing poetry

Sibila: What do you expect from writing poetry?

Bachand: Writing poetry, and the not writing (which seems to take up more time, but resides in the urgency of the thinking about poetry) is a necessity. I don’t have many expectations about writing poetry, because it’s a necessity, and one can only compose hypothetical demands on necessities.

I studied piano for almost 12 years, so I apply a lot of what I learned there to my practice. Math was, for me, a stronger subject than English, although I really didn’t get very far (Catholic girls’ school).

Having grown up in a large collective (i.e., a family of 7 children – a dinosaur of familial experience these days), I was also immersed in being Catholic, and surrounded by very ideological Catholics. The maternal side, the Croatians, were pretty realistic and taciturn about their spiritual beliefs, while the other, the French Canadians, had a mystical and deeply emotional relationship with the saints, the would-be saints, and the recently deceased. It was a relief to visit a Carmelite monastery, as I did as an adolescent, because it was so quiet and removed from the chaos of my everyday life. You learn to yell in a large family. Later, of course, I moved away from these dogmas and fashioned my own spiritual and creative domain.

I think that maybe poetry became my selfish place, a place where I didn’t have to explain myself to others and where I could do what I pleased. The irony of this is that while poetry first originates as a singular intensity, I enjoy the company of other like-minded poets, i.e., the kindred spirits of this insular world.

Sibila: In your opinion, which is the best effect one can get from practicing poetry?

Bachand: The practice, which preys on your mind like an unresolved math problem, a recurring thought, mantra, desire, or prayer. Hallucinating in time.

Sibila: Do you think your poetry has any public value?

Bachand: I’m not sure. When a person asks me what I write, and I say “poetry”, that usually terminates the conversation. I am constantly reminded, by those who anonymously surround me, that it’s not regarded or respected as a practical employment of one’s time – although in times of crisis, people seem to be attracted to it in droves. Certainly, poetry has public value for the close-knit groups of poets who attend poetry readings. And poetry found resonance among some of my working companions, although it seems a luxury to live in that forest.

We are a nation at war, with ourselves and others, and in such circumstances “prose is an imperial digestive.” Ideology has become a form of isolationism – think the conceptual toolbox – all that motions towards the collective “text” and away from the messiness of the self, the selves. For me, there is a natural, internal conflict, which may add to a little more resistance to the form.

Publishing poetry

Sibila: Which is the best support for your poetry?

Bachand: Nature. Music. Art. Boredom. Being engaged with those who also love and write poetry.

Sibila: Which is the best result you expect from the publishing of your poetry?

Bachand: That someone will want to read it.

Sibila: Who is the best reader of your poetry?

Bachand: I don’t know. I haven’t yet noticed anyone around me breathlessly awaiting my next text. My mother and my sister Karen pretty much read most everything I write, but then they are in that special category called “family.”

I’m always surprised when someone I don’t know that well, or someone from my past, tells me that they’ve been following my work. The best reader may be someone who is a reader, and only knows you through your work – someone that loses themselves in reading and doesn’t place expectations, or trending demands, on the poem that another poet or academic might.

Sibila: What would you most like to happen after the publication of your poetry?

Bachand: When I’m reading a book that I’m particularly entranced by, I carry it with me, from nightstand to café, from garden chair to doctor’s office, from park bench to work. That’s the best the can be hoped for – that your poems are read somewhere within the multiplex of living.

*  *  *

Dance comigo (de Você é um menino grande, agora)

uma menina bonita está na lista de como chamá-
lo quem é ela? claro
que ele deve estar pronto para ouvir
da dupla face do juízo
o fato que a perpetuidade
tolera o efêmero tanto
quanto o eterno o elenco
de nomes de meninas é de qualquer
modo uma desajeitada forma
de amar uns incunábulos
de primeiros olhares o paraíso em
bocas amigas como o pai
e tão pouco o filho você
com perna de pau e cílios
albinos você que está calmo
ao lado do volume da vitrola
de cascos de cavalo
enevoado copo de leite dance
comigo

Tradução: Aurora Bernardini

Dance with me (from You’re A Big Boy Now)

a beautiful girl lists inside the
eyeglasses of what to call
him who is she? naturally
he must be ready to listen
to judgment’s double
face the fact that perpetuity
tolerates the passing as well
as the eternal the library
of girls’ names is by all
accounts an awkward form
of loving incunabula of
first looks paradise in
friendly mouths like father
and so unlike son you
with the wooden leg al-
bino eyelids you stand
calm beside record player
volume of horse hooves
misty glass of milk dance
with me

*  *  *

Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.

Sobre Thérèse Bachand

Nascida em Oakland, Califórnia, em 1953, é poeta e consultora de política social. Cresceu em uma grande família de sete filhos; seu pai, de origem franco-canadense, foi um advogado e, mais tarde, juiz de direito. Sua mãe, uma professora de escola, manteve laços estreitos com amigos que viviam em um convento nas proximidades. Bachand fez o Cowell College em Santa Cruz, Califórnia, onde estudou com o grande pensador Norman O. Brown. Ela se mudou para Marin em 1975, onde trabalhou primeiro como faxineira, e depois como técnica de continuidade no filme Black Stallion.