Adeus, Macunaíma

Adeus, Macunaíma! Porque, afinal, ele está morto, e com ele deveria sucumbir essa condescendência tão tipicamente paulista, a que fez do “nenhum caráter” apanágio da malandragem mestiça, refúgio sentimental da brasilidade recôndita, narrativa apascentadora em face do extermínio antigo, moderno e contemporâneo dos povos da floresta. Que mais ilumina essa Ursa Maior melindrosa, além das covas rasas dos milhões de desterrados sem escrita, sem nome nem memória? Será mesmo uma rapsódia que o bardo Andrade quis solfejar, ou tudo não passou de uma pastoral turístico-aprendiz, uma visão triste-sorridente dos enredos dispostos por Koch-Grunberg, uma brincadeira para enganar o calor e salvar-se do spleen araraquarense?

Porque tudo se passa como se não passasse. E daí os folcloristas do pé-quebrado de hoje querem fazer desse folclorismo fantasista de antanho signo da identidade nacional-popular modernista. E juntam e rejuntam Mário de Andrade com Paulo Prado (flagrantemente racista com negros e índios em Retrato do Brasil) e de cambulhada ainda nos querem impingir aquela estátua hórrida do Brecheret, monumento à violência das bandeiras – cúmulo do ideal integralista de fazer do bandeirismo o mito fundador da nação –, e tentam nos fazer crer que aquela “coisa” a desafiar a poeira dos passos de corredores convictos e o clique dos celulares-câmeras de turistas chineses no portão 9 do Ibirapuera é digna de um panteão das “maravilhas nacionais”. Só mesmo se for no que tem de mitificação romântico-conservadora da violência expansionista da colonização, de afirmação de seu poder pela escravidão e extermínio, a alma gêmea de tantos outros genocídios. Só mesmo assim, despojada de suas vestes domesticadoras, a monumentalidade do mito-Macunaíma não engana. Mas, se até o santo Sérgio Buarque de Holanda caiu na esparrela do bandeirismo, que esperar?

Adeus, Macunaíma, vai com a Ursa para a Maior! Mesmo que brasilianistas deslumbrados, como Richard Morse, tentem fazer da malandragem revisitada um lugar de liberdade dos sentidos, uma opereta tropical boa para turista como toda macumba que assim se venda. Mesmo que luso-tropicalistas amantes da “democracia racial” à moda de Salazar em África, como o neoglamouroso Gilberto Freyre, foram capazes de conceber – o “sem-caráter” como pecadilho identitário mais conforme às práticas de “integração”. Mesmo que Joaquim Pedro Andrade, no aggiornamento tropical-carnavalesco de um Macunaíma negro light com Grande Otelo, tenha desejado converter o sentimentalismo em humor mais debochado, não menos preconceituoso. Mesmo que Antunes Filho tenha tentado salvar a bandeira nacional das andanças e pieguices do indolente numa encenação que substitui a palavra pela dança, bela quadratura do estereótipo.

Porque é próprio da natureza da ideologia paulista, como cristalização de lugares-comuns duradouros, ser dura na quebra de seus encantos.

Não bastaram as vozes lúcidas solitárias de Mário Pedrosa, duvidando do nacionalismo dos modernistas paulistas e de Maria Sylvia de Carvalho Franco, criticando com agudeza as raízes do conservadorismo romântico na historiografia da identidade nacional. Ou de colegas da minha geração, como Carlos Eduardo Berriel, pondo o dedo na ferida do provincianismo colonizado e retrógrado desses vanguardistas do “pau oco”, ou mesmo de jovens pesquisadores brilhantes como Roberto Akira Goto e Daniel Faria, desmistificando o legado de 1922. Ou as pesquisas de Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro, avessas a qualquer euforia modernista. Ou as crônicas contemporâneas do grande mestre de memória social e estudos indígenas, José Ribamar Bessa Freire, em geral elegíacas. Ou, mais agora, a crítica sem medo de Jessé Souza a essa tolice marchetada como “inteligência brasileira”.

O “mito modernista” e a identidade nacional macunaímica se insinuam e prosseguem sua jornada de engodos e cômodas reduções, em seu trabalho perene de silenciamento dos etnocídios e ecocídios. E, como em toda repetição do falso, há os que vivem dela como parasitas da crítica e do pensamento, os que dela se retroalimentam no circuito do mercado de mitos.

E não bastou, tampouco, a elegia de Antonio Callado em Quarup e Concerto Carioca. E não bastou Darcy Ribeiro na batida seca de Maíra. Nem mesmo Jorge Bodanzky com seu manifesto imagético em Iracema, Uma Transa Amazônica. E não bastaram as trágicas pegadas de um indígena à deriva em Serras da Desordem, de Andrea Tonacci. E não bastarão, por certo, as vozes abafadas das vítimas em Pssica, de Edyr Augusto Proença. Continuarão, por muito tempo, abafadas.

Duvida? Volte, então, ao monte Roraima. E pergunte aos deuses do tempo o que foi feito dos narradores de Makunaima. Responderão os rumores de Pacaraima, insondáveis. Responderá o vento, aquele que assobia rascante, na interminável relva sobre valas comuns dos ancestrais da pátria perdida de poderes podres e pífios. De governantes insensíveis, como a atual, ao avanço do desmatamento e à invasão continuada das terras indígenas. E de intelectuais apascentadores de novas cláusulas e clausuras da dominação. E não me venham, por favor, com efemérides mesquinhas. Macunaíma hoje é mera forçação de barra. Como o é o pretenso sistema cultural-literário que o entronizou.

 

Francisco Foot Hardman é historiador e professor de Teoria Literária da Unicamp.

 

Publicado em O Estado de S. Paulo, 21 fev. 2016.