Daniil Kharms para crianças

Aos poucos Daniil Kharms (1905-1942), um dos principais nomes da vanguarda russa do início do século XX, vem sendo apresentado aos leitores brasileiros: em 2013, a editora Kalinka publicou Os sonhos teus vão acabar contigo, uma antologia de textos em prosa e verso do escritor, para adultos e crianças, organizada e traduzida por Aurora Bernardini, Daniela Mountian e Moissei Mountian. Em 2014, Robert Wilson esteve no Brasil com a peça “A velha”, baseada no conto homônimo do autor russo.

Em 2015, a editora Cosac Naify publicou Esqueci como se chama, uma seleção de textos de Kharms escritos especialmente para crianças, numa edição dedicada a elas. A tradução é assinada por Luis Felipe Labaki e as ilustrações são de Gonçalo Viana. O projeto editorial é, contudo, bastante confuso. Consta, ao final da edição, que “as ilustrações de Esqueci como se chama foram premiadas em 2011 pela revista norte-americana 3×3”, e expostas na Feira de Bolonha, em 2012, deixando o leitor sem saber se as ilustrações de Viana foram feitas especialmente para esse livro ou não, já que a premiação e a exposição delas foram anteriores à publicação dessa edição.

Apesar de ter (ou ter tido) a coleção infantojuvenil mais ousada do mercado, apostando em títulos que extrapolam faixas etárias, como é o caso de Esqueci como se chama, o fato é que a Cosac Naify tem sido (ou foi), algumas vezes, bastante negligente nas informações de sua coleção infantojuvenil. O encerramento de suas atividades deixará, contudo, muitos leitores órfãos.

Voltando a Daniil Kharms, o escritor tem uma forte ligação com literatura infantojuvenil. Ele foi colaborador assíduo em duas revistas dedicadas às crianças: ëж (Ouriço) e Tchij Чиж (Pintassilgo), ambas de Leningrado. Escreveu uma peça para os pequenos, Circus Shardam, que estreou em 1935, no Teatro de Marionetes de Leningrado. Dedicou-se também à tradução do alemão de textos de Wilhelm Busch, conhecido pelas aventuras de Juca e Chico, dois meninos arteiros com atitudes politicamente incorretas, como se diria hoje.

A violência encontrada nas aventuras de Juca e Chico parece ter reverberado na obra de Kharms. Juca e Chico matam galinhas, queimam professores, entre outras bizarrices. Nos contos infantis de Kharms, o leitor também encontrará crueldades dessa mesma ordem. “Conto de fada”, por exemplo, narra a história de uma rainha que “se enfureceu e bateu no rei com um prato. E o rei bateu na rainha com uma tigela. E a rainha bateu no rei com uma cadeira […]. Aí então a rainha agarrou o rei pelos cabelos e o arremessou pela janela […]”.

Essa violência gratuita, à moda dos filmes dos três patetas, ou do teatro de títeres, ganha uma dimensão cômica, já que o leitor percebe nela um certo exagero que vai além da realidade. A edição da Cosac Naify parece ter optado, porém, em oferecer aos leitores textos mais “brandos”, pois deixou de lado aqueles mais “cruéis”.

Embora a literatura de Kharms para crianças seja de uma qualidade excepcional, lê-se nos seus diários que o escritor não tinha nenhum apreço pelos pequenos: “É cruel dar fim às crianças. Mas não há nada mais que se possa fazer com elas”.  Kharms acreditava que as crianças exigiam muito dos adultos sem lhes oferecer nada de volta. O escritor não tinha igualmente nenhum apreço pelos velhos, que considerava inúteis. Na obra de Kharms é comum ver velhos caindo de janelas, sendo mortos à toa etc.

A aversão às crianças não interferia no seu interesse pela literatura infantojuvenil, de cujos livros, sabe-se por seus cadernos de anotações, ele costumava copiar ideias e frases. Foi grande leitor de Lewis Carroll, entre outros. Parece ser sintomática, portanto, a sua afirmação de que estava “interessado somente em ‘nonsense’, somente naquilo que não tem um significado prático”. E prosseguia: “eu estou interessado nas manifestações mais estranhas da vida”.

Segundo Branislav Jakovljevic, Kharms não estava interessado no poder de comunicação da palavra, que ele via como impossibilidade. Ideia herdada talvez da literatura nonsense.

O conto “Esqueci como se chama”, que dá título ao livro, lembra muito um episódio do romance Silvia e Bruno, de Lewis Carroll. Se Bruno não consegue contar a história de um ratinho, porque ele é tão pequenininho que nada pode ser dito a seu respeito, um determinado inglês do mencionado conto de Kharms também não consegue contar a história de uma galinha, pois se esqueceu do seu nome: “Esqueci como essa ave se chama. Se eu não tivesse esquecido, contaria a vocês a história sobre essa gulalialililuanhinha”.

Sobre Dirce Waltrick do Amarante

Professora do curso de artes cênicas da UFSC. Coorganizou e cotraduziu, com Sérgio Medeiros, De santos e sábios, uma antologia de textos estéticos e políticos de James Joyce (Iluminuras, 2012), e Cartas a Nora. Autora de As antenas do caracol: notas sobre literatura infanto juvenil e Pequena biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores. É autora de Para ler ‘Finnegans wake’ de James Joyce (Iluminuras).