Managers culturais e bosses políticos

No declínio do binômio ciência-ideologia, aquilo que acaba não é somente a possibilidade de uma democratização do saber e do poder, mas algo mais global e fundamental: a socialização do saber e do poder. A situação atual parece caracterizada por uma multiplicação de saberes e de poderes locais, não no sentido de sua limitação ou fraqueza, mas no sentido de que eles não mais consideram a sociedade na sua globalidade. Àquilo que Habermas chama o “desengate do sistema cultural”, ou seja, a redução do saber a mero objeto do prazer e do interesse privado, corresponde um análogo desengate do poder pela formulação ideologicamente comprometedora de uma vontade política.

A gestão dos saberes e dos poderes locais é assumida por managers culturais e por bosses políticos, que reduzem a cultura a uma dimensão meramente mafiosa. Nesse contexto, ciência e ideologia parecem encontrar uma nova vitalidade, no sentido de que a sua encenação através dos mass-media é sem comparação mais estrondosa e espetacular do que aquela que lhes garantiam os canais tradicionais da escola e da opinião pública pensante; porém, essa amplificação exclui ao mesmo tempo todo o seu saber e poder. Realiza-se, assim, não só a superação da ciência e da ideologia, mas o seu esvaziamento e a sua depreciação: realizam-se a equiparação do saber científico a produtos culturais privados de todo método e de toda disciplina e a utilização bossística das ideologias.

Management cultural
e bossismo político não podem, de fato, percorrer o espaço pós-científico e pós-ideológico que o fim da modernidade abre. Eles vivem na gestão do patrimônio cultural da modernidade, desmembrado e enervado, porque separado da relação com a sociedade. Management cultural e bossismo político fazem crônica da crise sociocultural. Diante do rigor da ciência, diante da coerência da ideologia, o niilismo managerial-bossístico, que faz um uso completamente arbitrário e oportunista da contradição e das incompatibilidades, pode também dar a impressão da liberdade: mas essa liberdade é apenas a dissolução do saber por toda efetividade e motivação, a dissolução do poder por toda legitimidade e eficácia.

Para sair dessa crise, é necessário mais do que a gestão niilista da modernidade. Por isso, é correto falar da relação entre “saber e poder” no singular, em vez da relação entre “saberes e poderes”, como seria a partir do ponto de vista foucaultiano mais lógico. No entanto, isso não significa, de fato, que a adoção de uma perspectiva total e hierárquica do saber e do poder, destinando a cada um o seu lugar, controle toda mudança e exerça uma vigilância capilar sobre todas as atividades e sobre todos os indivíduos: semelhante utopia, positiva ou negativa, segundo os pontos de vista, não é mais nem mesmo pensável, já que a sociedade contemporânea é radicalmente outra, diferente, refratária a uma posição carcerária-disciplinar, que, assim como o Panopticon benthamiano, pretenda totalmente assumir.

Essa ótica não é menos absurda do que aquela managerial-bossística que considera a história uma festa de carnaval tanto melhor quanto mais alto for o preço da entrada. Um pensamento da totalidade é, hoje, o mais fraco que se possa imaginar, porque a sociedade não é reduzível a um todo.

A ligação entre saber e poder não renasce, portanto, de um voluntarismo tecnocrático-totalitário que sobre as cinzas das tradicionais mediações científico-ideológicas aspira a um controle universal. Todas as premissas de um profundo copertencimento de conhecimento e sociedade, na realidade, já foram dadas. Nunca como hoje o social foi tão potencialmente cultural, nem a cultura tão potencialmente social: o significado essencial dos mass-media está justamente nesse duplo processo de socialização do imaginário e de culturalização da sociedade. Mas exatamente a diferença dessa ligação direta entre saber e poder, em relação às formas tradicionais em que ela se manifestou na história do Ocidente, solicita a intervenção de pensadores e de operadores que possam e que saibam explicitá-la, evidenciá-la, ativando o aspecto construtivo; eles agem como obstetras de uma situação que requer, antes de tudo, ser conhecida e praticada, não abandonada às palhaçadas do niilismo managerial-bossístico.

Essa situação é caracterizada pela globalidade, pelo fato de que qualquer acontecimento local se insere e se conecta com outros, não mediante uma série de passagens ordenadas hierarquicamente, mas mediante uma relação que diz respeito ao conjunto das relações. Ela implica e exige uma dimensão estruturada, mas não rígida, como a existência de uma rede que permita não apenas o movimento através dela, mas também a sua mesma extensão e ramificação indefinida.

É na coincidência de uma ordem sem fundamento e de uma liberdade sem sujeito que pode ser resolvido o conflito tradicional entre ordem e liberdade. O esforço mais importante nessa direção permanece ainda aquele de Heidegger: consiste em considerar, por um lado, o Gefüge (‘estrutura, equipe’; em francês, ajointement) como uma dimensão mais ampla do sistema, e, por outro, o Offene (‘o aberto’) como uma dimensão mais ampla da libertação. Se continuarmos pensando a ordem como sistema disciplinar e a liberdade como emancipação do sujeito, não conseguiremos sair do horizonte do saber científico e do poder ideológico. (Tradução de Davi Pessoa).

*Trecho do livro Ligação direta, de Mario Perniola, publicado, em 2011, pela EDUFSC http://www.editora.ufsc.br/publicacao/detalhe/id/6; publicado em Sibila com autorização expressa de Sérgio Medeiros em 9 de março de 2012.

Sobre Mario Perniola

Nasceu em Asti, província italiana pertencente à região de Piemonte, em 1941. Formou-se em Filosofia na Universidade de Turim sob a orientação de Luigi Pareyson. Esteve ligado entre os anos de 1966 e 1969 ao grupo da Internacional Situacionista (I. S.), no qual pôde ter uma estreita relação de amizade e de debate teórico com Guy Debord. O filósofo possui vasta produção na área de Estética, Teoria da Arte e Arte Contemporânea. Dirigiu as revistas Agaragar (1971-3), Clinamen (1988-92), Estetica News (1988-95) e Ágalma - Rivista di Studi Culturali e di Estetica (desde 2000). A sua obra está traduzida em várias línguas, como inglês, alemão, francês, espanhol, dinamarquês, chinês, japonês e português.