Quando vim m’imbora: a migração nordestina para São Paulo

A migração de dezenas de milhares de sertanejos em direção ao sul deixou a elite política nordestina em dificuldades. Apesar da gravidade da situação, os governadores não sabiam o que fazer. Octávio Mangabeira, da Bahia, estado que contribuiu com o maior número de migrantes da região, tentou por todos os meios justificar a inoperância governamental: “Os que censuram os cuidados do atual governo em favor da imigração europeia, com o desinteresse pela sorte de tantos baianos que emigram para outros estados, esquecem ou ignoram: 1º) que um dos meios de evitar o desequilíbrio proveniente da mobilidade de uma população é estabelecer outra mobilidade, no sentido inverso, isto é, a uma corrente emigratória anteponha-se uma corrente imigratória; 2º) esses movimentos em sentido horizontal, na Bahia, têm-se compensado com a entrada de outros brasileiros provindos do norte; e 3º) a uma mobilidade no sentido horizontal, se se opuser outra no sentido vertical, ou seja, a entrada de elementos mais bem qualificados para ascender na escala econômica e social, vale por acrescer essas economias, criando um fator de equilíbrio”.[1]

Há meio século, o governo estadual estava tentando viabilizar a imigração, concorrendo com outras áreas do sul do país, mas com escasso sucesso. Em 1900, o governador Luis Vianna incentivou a vinda de estrangeiros para a Bahia: “De uma leva de quatrocentos que aqui aportaram e foram recebidos na Hospedaria dos Imigrantes, teve o governo conhecimento de que mais de duzentos fizeram seguir logo suas bagagens para o Rio e Santos, desembarcando tão somente a fim de fazerem jus à passagem que haviam tido para o nosso porto”. [2] Nove anos depois se mantinham a preocupação e o fracasso: “As nossas condições não nos permitem a preocupação de raça e precedências. Os imigrantes jornaleiros, versados em artes e ofícios, que nos procuram, não sendo veículos de ideias subversivas, são preciosos fatores econômicos”. [3]

A “mobilidade vertical” de Mangabeira eram os imigrantes “mais bem qualificados”. Entre 1949-50, apesar dos esforços oficiais, entraram na Bahia somente quinhentos, entre italianos, franceses, portugueses e japoneses. Portanto, não ocorreu qualquer mobilidade no sentido inverso, como apregoado por Mangabeira, e também o número de migrantes de outros estados que acabaram fixando-se na Bahia foi muito inferior em relação ao número de baianos que migraram para o Sul. Se no decênio dos 40 entraram em São Paulo 104.609 baianos, somente nos anos 1950-51 o número saltou para 109.917, [4] com média diária de 1500 migrantes, três vezes superior ao total de imigrantes entrados em dois anos, com amplo financiamento do governo baiano. Em 1952 saltou para 113 mil – maior número da história das migrações para São Paulo – e caiu no ano seguinte, devido ao abrandamento da seca, para 38 mil. [5]

Nos anos seguintes, a argumentação dos governadores baianos foi mudando, pois não era mais possível ignorar a grande leva de migrantes que abandonava o estado. O fenômeno foi considerado “um problema nacional”, de “proporções assustadoras”, um “deslocamento alarmante de braços para a zona mais próspera do país”, “êxodo terrível”, como se as autoridades locais não tivessem condições de enfrentá-lo, dada a sua grandiosidade. Uma das razões apontadas era o atraso na esfera técnica: a “agricultura baiana, sem mobilidade e mecanização, quase retratando condições de trabalho da Idade Média”. [6] Apesar da importância, o tema foi desaparecendo do debate político, substituído pelas velhas divergências oligárquicas. Dada a complexidade do problema, encontrou-se um meio de evitá-lo: foi esquecido, subtraído da agenda política.

No caso baiano, o deslocamento populacional foi o maior de todos os estados brasileiros em termos numéricos. O coeficiente de emigração anual para São Paulo, que foi de 0,7% no quinquênio anterior à Segunda Guerra Mundial, dobrou em 1951 e quadruplicou em 1952. Mesmo assim, a população do estado não parava de crescer, à razão de 2,4% ao ano, de um lado devido à elevada taxa de natalidade; de outro, devido à entrada de migrantes vindos de outros estados do Nordeste e que se fixaram na Bahia. [7] Em 1950 a Bahia deveria ter 8 milhões de habitantes, contudo o censo registrou aproximadamente 5 milhões: a sensível diferença – que correspondia à época à população do Paraná – deveu-se ao processo de migração.

A presença dominante das mulheres baianas era inequívoca: representavam a maioria em 130 dos 150 municípios baianos, [8] fenômeno típico de uma migração desordenada, fruto do desespero e da inépcia governamental, pois um “aumento na taxa de crescimento só podia significar uma baixa na produtividade, um aumento da população flutuante e uma maior pressão na busca de novas fronteiras”. [9] Por outro lado, segundo dados do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, pesquisando o trânsito dos migrantes na Rio-Bahia, “os baianos, uma vez emigrados, raramente regressaram a seu estado natal, ao contrário do que sucede com os naturais de outras unidades do Polígono das Secas. Assim, a taxa de retorno dos baianos é de apenas 8% contra 70% dos pernambucanos, 60% dos cearenses, paraibanos, sergipanos e rio-grandenses-do-norte e 44% dos alagoanos”. [10]

Os governos estaduais estavam paralisados e temiam enfrentar as questões estruturais que levariam, inevitavelmente, ao enfrentamento do poder coronelístico e teriam, portanto, alto custo político. Também deve ser lembrado que as áreas de maior migração eram as mais atrasadas economicamente e que pouco interesse tinham para o poder público. Em alguns estados, como na Bahia, o fluxo migratório passava longe da capital e dos olhares do governo e da oposição. O tema só reaparecia, momentaneamente, quando se transformava em moeda de troca na barganha por verbas federais para a região, especialmente em época de seca. Contudo, logo era esquecido.

Já em São Paulo, os jornais cobravam insistentemente do governo federal medidas urgentes para conter o êxodo. O Estado de S. Paulo publicou um editorial exigindo providências para “mantê-los na terra natal, pois havia o receio do “despovoamento do Nordeste” e de “revoltas no Sul”. [11] Em outro, conclamou o presidente a “interromper o êxodo imediatamente.” [12] De acordo com o jornal, só em janeiro de 1952 tinham entrado em São Paulo 23 mil nordestinos: era necessário limitar o transporte dos migrantes,[13] muitos “dos quais são portadores de doenças contagiosas”. [14]

Sem ter uma política para enfrentar este deslocamento, o governo federal inicialmente transformou um problema socioeconômico em uma questão de trânsito. Para Costa Miranda, do Departamento Nacional de Imigração, como não havia lei que impedisse o livre trânsito pelo território nacional, sugeriu que fosse aplicado o Código Nacional de Trânsito, que, segundo ele, “proíbe o transporte humano em carros de carga”.

O governador da Paraíba, José Américo de Almeida, que tinha tomado posse no governo estadual em 1951, permanecendo até 1953, quando assumiu o ministério da Viação e Obras Públicas [15], resolveu proibir pelas estradas do estado o tráfego dos caminhões pau-de-arara, medida sabidamente inconstitucional, e logo esquecida. [16] O Departamento Nacional de Estradas de Rodagem decidiu aplicar o código de trânsito e proibiu o tráfego de caminhões paus-de-arara pela Rio-Bahia e a Via Dutra. De nada adiantou, somente aumentou o risco da viagem – pois muitos motoristas optaram por viajar à noite para fugir da fiscalização, além de aumentar o valor da propina a ser paga para os guardas rodoviários pelos motoristas de caminhão. [17]

Na passagem pelos postos de vigilância da Polícia Rodoviária Federal, o caminhão geralmente era parado. Muitos motoristas subornavam os policiais para autorizarem seguir viagem, pois o Código Nacional de Trânsito proibia transporte coletivo em veículos de carroceria aberta, tais quais os paus-de-arara. Como não era prevista a reincidência, o motorista levava o recibo da multa durante toda a viagem para mostrar aos outros guardas pelo caminho, era uma espécie de salvo-conduto, durante 72 horas. [18] A multa em 1952 era de quinhentos cruzeiros. Como uma passagem custava entre seiscentos e setecentos cruzeiros, [19] o prejuízo do motorista não era superior ao de uma passagem. Simplesmente acrescentava aos custos da viagem a multa, junto com os gastos de combustível, óleo, pneus e eventuais consertos do veículo, além da remuneração do ajudante. Se os motoristas eram simplesmente multados e seguiam viagem, o mesmo não ocorria com os sertanejos. Seus pertences eram sempre revistados. Como disse um policial: “Esta gente do Norte é ruim e todo cuidado é pouco”. [20]

Pneus carecas, carrocerias em mau estado de conservação, motores velhos, tudo isso transformava a viagem em uma arriscada aventura. A “Rio-Bahia transformou-se num cemitério. Suas curvas são assinaladas por cruzes. E cada cruz é uma história: caminhões que perderam o freio e se chocaram com barrancas, outros que saltaram da estrada nos abismos laterais, outros que pegaram fogo, explodiram”. [21] Os jornais registravam um sem-número de acidentes pelas rodovias por onde transitavam os paus-de-arara. Em um deles, em 5 de fevereiro de 1952, nas proximidades de Montes Claros, morreram dois passageiros e seis ficaram feridos em estado grave. [22] Três semanas depois, outro acidente na estrada de Petrópolis, onde um caminhão lotado de migrantes caiu em um abismo: oito morreram e 79 ficaram feridos. [23] Em Salinas, norte de Minas Gerais, um caminhão com 83 passageiros caiu em um riacho e 21 morreram. [24]

A poesia popular registrou este momento:

Estribilho
– Não quero i a S. Paulo
A caminhão

Eu não vou

– Eu tenho medo de morrê

– Eu não vou

– Eu tenho medo de morrê

Não saio não
Eu fico por aqui
Não quero i
A S. Paulo a caminhão
Quando há razão
Para o sinhô compreendê
Bota a perdê,
Queima-se o carboradô
E eu não vou
Tenho mêdo de morrê

Só se fô de avião
Olhe lá eu fico aqui
Não quero i
A S. Paulo a caminhão
Pode perdê a dereção
E ele pode bebê
E matá o meu amô
Mas eu não vou
Eu tenho medo de morrê

Vou brincá no cardeirão
Eu quero fica alí
Porque eu não quero i
A S. Paulo a caminhão
Representa uma paixão
queria compreendê
Pode o chofrê bebê
Matá eu e meu amô
Mas eu não vou
Tenho medo de morrê. [25]

A chegada a São Paulo era um misto de alegria e temor. Depois dos sofrimentos da viagem e de ter superado tantos obstáculos, agora era hora de encontrar os parentes – quando os tinha – e buscar um emprego o mais rápido possível, pois não havia como sobreviver na grande cidade. A situação era pior quando coincidia a chegada com a estação do inverno. Na época, a cidade era muito mais fria do que no final do século XX. Era, ainda, a cidade da garoa, do final da tarde enevoado: “Chegamos num domingo de frio, com fome, sem dinheiro ou documento”. Em seguida foi abrigado na Hospedaria dos Imigrantes: lá tomei “uma sopa que era só água suja e quente, com um osso sem carne, que a gente ia empurrando de um lado a outro”. [26] Era rotineiro na Hospedaria encontrar crianças espalhadas “pelos pátios ou nas salas frias, tiritando de frio sem agasalho porque no Nordeste não faz frio. Meninas com ralos vestidos de algodão, encolhidas no colo das mães, chorando de frio, buscando calor nos corpos magros e também sem agasalho das genitoras. Meninos com calcinhas de brim, descalços, enfrentando a brusca mudança de temperatura, sem ter uma roupinha de flanela, uma blusinha de lã para vestir”. [27]

Entre 1950-52, em vários dias a temperatura mínima, no inverno, alcançou três graus, isto quando, em Salvador, as mínimas no inverno, nestes anos, nunca foi inferior a dezoito graus. [28] Daí o choque térmico dos recém-chegados: “Meninas com ralos vestidos de algodão, encolhidas no colo das mães, chorando de frio, buscando calor nos corpos magros e também sem agasalho das genitoras. Meninos com calcinhas de brim, descalços, enfrentando a brusca mudança de temperatura, sem ter uma roupinha de flanela, uma blusinha de lã para vestir”. [29] Diz outro relato: “Naquela época ainda caía geada em São Paulo. Não é os frios que faz hoje em dia. Quando peguei aquele frio, bah, deu vontade de voltar. Dá o desespero, velho, dá o desespero. Um dia, dois, três, uma semana”. [30]

A recepção nem sempre era calorosa. Por um lado, encontravam apoio de parentes e amigos da cidade de onde vinham; por outro, havia uma latente hostilidade por parte da elite dirigente. A escritora Raquel de Queiroz, cearense, morando no Rio de Janeiro, foi testemunha dos preconceitos que acompanharam a chegada em massa dos migrantes: “Muitos de vocês sofrem de uma prevenção tradicional contra o nordestino – cabeça chata, amarelo e baixote, entrão e falador, que mete o ombro a qualquer porta, empurra os outros, conta vantagem, e disputa asperamente o seu lugar ao sol. Como toda caricatura, esse retrato tem muito de verdade; temos um pouco disso tudo, mas também temos muita coisa boa. E grande parte dos nossos defeitos se explica: se lutamos mais de rijo que os outros, é porque somos mais sofridos. Se temos tamanho, cor, estatura e cara e cabeça chata de índio, é porque na nossa terra pobre não houve escravaria tratando ricas lavouras que nos desse mais forte e boa pinta de negro; e igualmente a terra pobre não atraiu emigrantes, que nos irmanassem com os meios-sangues europeus do Sul. E somos pacientes, sofredores, resistentes. Corajosos, agradecidos, decentes, com quem é decente conosco. E brasileiros como o diabo”. [31]

Se os migrantes eram importantes em um momento de expansão econômica e carência de força de trabalho, a chegada de milhares de nordestinos, a cada mês, criava uma série de problemas aos poderes públicos, tanto de habitação, [32] transporte, educação [33] e de saúde, especialmente em uma cidade que crescia rapidamente e sem nenhum planejamento. Com relação à saúde pública, na Câmara Municipal, diversos vereadores manifestaram o temor de alguma epidemia em São Paulo. Para um deles, “grave perigo para a saúde dos paulistanos representa o lastimável estado sanitário dessa pobre gente (…) portadoras de moléstias infectocontagiosas, entre as quais a lepra e a tuberculose”. Outro solicitou a “vacinação contra a varíola de todos os imigrantes que cheguem à divisa do nosso estado”.

Efetivamente havia muitos casos de migrantes doentes, o que poderia levar à transmissão de doenças, como ocorreu outras vezes na história, quando do deslocamento de grandes levas de um continente para outro ou no interior de um mesmo país. Porém, era um exagero imaginar que a cidade estava próxima, segundo os vereadores, de “um surto epidêmico”, devido à “afluência desordenada dos nordestinos, pondo em perigo a saúde da população”. Em 1957, o relatório anual do governador Jânio Quadros, referente às atividades do ano anterior, informa que tinham chegado ao estado 100 mil migrantes, a maioria deles da Bahia, Pernambuco e Alagoas. Destes foram atendidos 32 mil como doentes, quase um terço do total. [34] Isto ampliava a discriminação aos recém-chegados. Como disse um personagem do romance Chão, de Oswald de Andrade: “Esses não dão nada. É gente que vem a pé de Pirapora. Sem família. Não tem parada. Chamam eles de morrendo-andando. Dão 50% de rendimento do europeu ou do amarelo”. [35]

Foi mais um momento para retomar o discurso da velha oligarquia paulista, do Partido Republicano Paulista, partido dominante durante a República Velha, e a metáfora de que São Paulo era a locomotiva que puxava os vagões vazios, os outros estados da federação. O vereador Gabriel Quadros, pai de Jânio Quadros, resumiu este sentimento: “Sai uma verdadeira fortuna para a Nação e com esse ônus arca São Paulo, pois é o que mais contribui com a sua tributação para o erário. Ainda desta vez é São Paulo que paga o pato. Quero dizer que não somos contra os nordestinos. Os queremos em nossa terra, mas é preciso que o Governo Federal contribua com recursos para que São Paulo tenha meios de prover esses pobres coitados, cujas necessidades não são apenas de alimentação e moradia, mas também tratamentos de saúde. Sabemos como podem disseminar verdadeiras epidemias, enchendo nossos nosocômios e ocasionando verdadeiros problemas sociais, problemas de ordem sanitária e higiênica”. [36]

Por outro lado, surgiam denúncias de maus tratos dos migrantes em São Paulo, e tanto na capital federal, como nos estados nordestinos. No Rio Grande do Norte, em 1950, os migrantes sertanejos se concentravam nas cidades de Florânia, São Vicente e Currais Novos: “Chegados esses retirantes àquelas localidades, imediatamente os agenciadores entram em ação pagando mais aos que se apresentam em melhores condições. Para um lado são atirados os ‘perfeitos’; para outro, os inválidos, como se ali não se tratasse de cristãos, mas sim de animais, como se procede nos currais quando se vai fazer a escolha da boiada para a matança”. [37]

Foi sugerida – mas não foi criada – uma comissão parlamentar de inquérito pelo deputado Colombo de Sousa (PSP-PI) para investigar estas denúncias. Em resposta foram produzidas reportagens mostrando São Paulo como “o paraíso de nordestinos”. Os sertanejos, suas mulheres e filhos são mostrados sempre alegres. Os bebês ganhavam enxovais completos e recebiam assistência médico-hospitalar. Como escreveu o jornalista, era “um oásis nunca dantes imaginado”. [38] Em contrapartida, a Hospedaria Presidente Vargas, em Fortaleza, com capacidade para seiscentas pessoas, tinha, em 1958, 12.300 retirantes. Era um quadro macabro: “crianças esquálidas, no último estágio da subnutrição, mulheres que são verdadeiros molambos, homens que de homem só têm a vaga forma, sujeira indescritível, miséria difícil até de calcular, fome, promiscuidade, doenças”. [39]

Dado o grande afluxo de migrantes e o rápido crescimento da economia paulista e da cidade de São Paulo, a todo instante era necessário reforçar o papel do estado como locomotiva do país e da cidade como a representação do novo, do futuro. As comemorações do IV Centenário da fundação da cidade, em 1954, serviram para, a todo momento, insistir na paulistanidade e ignorar a participação dos nordestinos na história da cidade. Foi o momento em que os mitos da história paulista voltaram ao primeiro plano: o padre Anchieta, os bandeirantes, o desbravamento do interior, o pioneirismo econômico (café, indústria). Para estes, “os ‘verdadeiros paulistanos’, a rigor, são os descendentes dos imigrantes estrangeiros”. [40]

Em um processo de fortalecimento ideológico dos setores mais conservadores da elite paulista – mais ainda devido ao retorno de Getúlio Vargas à presidência da República, em 1951 –, tornou-se fundamental a comparação entre São Paulo, como símbolo do progresso, e o Nordeste, como representação do atraso, do passado: “São Paulo é um viçoso broto de 400 anos! Nas ruas e logradouros centrais não há uma capela, uma casa, um muro de taipa, uma ruína sequer a anunciar ancianidade. Um único prédio que seja, com mais de 100 anos! Todo o seu passado arquitetônico foi varrido. A famosa ‘picareta do progresso’ tem friccionado continuamente as suas faces, desfazendo as marcas do tempo. Vive a cidade muito mais em função do futuro do que das glórias arquitetônicas do passado. O orgulho dos paulistas jamais era o de possuir a Igreja de São Francisco, como os baianos e sim de construir 6 casas por hora e sustentar o título de ‘cidade que mais cresce no mundo’”. [41]


Notas

1. Mensagem do Governador do Estado da Bahia. Bahia. Imprensa Oficial da Bahia. 1950, p. 5. Octávio Mangabeira governou a Bahia entre 1947-51.
2. Mensagem apresentada à Assembleia Geral Legislativa pelo Dr. Luiz Vianna. Bahia: Typographia Correio de Notícias, 1900, p. 14.
3. Mensagem apresentada à Assembleia Geral Legislativa pelo Dr. João Ferreira de Araújo Pinho. Bahia: Oficinas da Empresa ‘A Bahia’, 1909, p. 6.
4. Diário de São Paulo. 18 de março de 1952. Nesta edição está transcrita na íntegra a Mensagem Presidencial de 1952.
5. Conjuntura Econômica. Ano VIII. nº 7. Julho de 1954, p. 76.
6. Ver Mensagem apresentada pelo dr. Luiz Régis Pacheco Pereira, governador da Bahia, à Assembleia Legislativa. Bahia: Imprensa Oficial da Bahia, 1951, 1952 e 1953.
7. Ver Migrações internas no Brasil, p. 14.
8. CALMON, Jorge. Op. cit., pp. 216 e 140.
9. BALÁN, Jorge. Op. cit., p. 46.
10. CAPES. Estudos de desenvolvimento regional. Rio de Janeiro: Sem editora, 1958, p. 38.
11. O Estado de S. Paulo, 26 de fevereiro de 1952. Três dias depois, o jornal voltou ao tema em um editorial.
12. O Estado de S. Paulo, 6 de março de 1952.
13. O Estado de S. Paulo. 24 de fevereiro de 1952.
14. O Estado de S. Paulo, 1 de março de 1952.
15. José Américo de Almeida já tinha sido ministro desta pasta entre 1930 e 1934, durante o Governo Provisório de Getúlio Vargas, como vimos no capítulo 1.
16. O Estado de S. Paulo, 14 de março de 1952.
17. Ver, respectivamente, O Estado de S. Paulo, 5 e 7 de março de 1952; 12 de abril de 1951.
18. Ver O Cruzeiro, 14 de abril de 1951. O texto e as fotos da reportagem são de João Martins; ARAÚJO, Alceu Maynard. Op. cit., pp. 66-7.
19. O Cruzeiro, 12 de abril de 1952. O texto da reportagem é de Álvares da Silva e as fotos de Eugênio H. Silva.
20. Para acompanhar uma viagem, ver CARVALHO, Júlio Jesum. Pau de arara. Recife: Sem editora. 1957; ANDRADE, Otávio Carvalho. Homem na estrada. São Paulo: Francisco Alves. 1963. A citação do policial é do último livro, p. 55.
21. O Cruzeiro, 22 de outubro de 1955.
22. O Estado de S. Paulo, 6 de fevereiro de 1952 e 28 de fevereiro de 1952.
23. O Estado de S. Paulo, 28 de fevereiro de 1952.
24. Anais da Câmara dos Deputados, 1954. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1960, pp. 39-40.
25. Vilaça, Marcos Vinicios. Op. cit., p. 88. Informa o autor que o poema foi recolhido em Alagoas por Théo de Barros.
26. Depoimento para o autor de Moacir Assunção, cearense, 80 anos. 1 de junho de 2007.
27. Folha da Manhã, 5 de maio de 1953.
28. Ver Anuário Estatístico do Brasil. Rio de Janeiro, IBGE. 1950-1952.
29. Folha da Manhã, 5 de maio de 1953.
30. MEDINA, Cremilda (org.). Op. cit., p. 23.
31. O Cruzeiro, 7 de março de 1953. O título da crônica é “Seca: assunto nacional”.
32. No mesmo momento, no Rio de Janeiro, expandiam-se as favelas: eram 58. Em 1950, o número de favelados alcança 140 mil, dos quais 72% não eram cariocas. Ver Conjuntura Econômica. Ano VI. Nº 5. Maio de 1952, pp. 34-42.
33. Em 1953, dos 153 mil migrantes chegados a São Paulo, apenas 4,8% eram alfabetizados. Ver CALMON, Jorge. Op. cit., p. 211.
34. Mensagem à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, 1957, p. 51.
35. ANDRADE, Oswald de. Marco Zero II (Chão). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 26.
36. Ver, respectivamente, Anais da Câmara Municipal de São Paulo, 1952. Volumes 1, 2 e 6. São Paulo, 1952, pp. 353, 29, 475, 100, 105 e 106.
37. Notícia de A Ordem de 11 de março de 1950. Citado em SOUZA, Itamar de e MEDEIROS FILHO, João. Op. cit., p. 61.
38. Manchete, 22 de outubro de 1955. A reportagem tem texto de Daniel Linguanotto e fotografias de Ivo Barretti. O prédio da hospedaria tinha ficado entre 1945 a 1952 sob responsabilidade do ministério da Aeronáutica, e utilizado para fins militares. Os migrantes, neste período, eram abrigados nos “hotéis e pensões localizados nas proximidades da Estação Roosevelt, improvisados em hospedarias.” (JORDÃO NETTO, Antonio. Aspectos econômicos e sociais das migrações internas para o Estado de São Paulo. São Paulo, PUCSP. 1973 (tese de doutorado). p. 16.
39. Manchete, número 347, de 13 de dezembro de 1958. A reportagem é de Dílson Martins.
40. CARDOSO, Fernando Henrique. “São Paulo e seus problemas sociais”. In: Cultura e participação na cidade de São Paulo. São Paulo: CEBRAP/Brasiliense, 1975, p. 45.
41. Manchete, 23 de janeiro de 1954. A reportagem é de Daniel Linguanotto.

Sobre Marco Antonio Villa

É historiador. Mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (1989) e doutor em História Social pela USP (1993). É professor da Universidade Federal de São Carlos. Últimas publicações: Breve História do Estado de São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 200 p. 1932: imagens de uma revolução. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008. 208 p. Jango, um perfil (1945-1964). São Paulo: Globo, 2004. 287 p. “O Partido dos Trabalhadores e a política brasileira (1980-2006) - uma história revisitada”, EdUFSCar, 2009.