A última entrevista de Oswald de Andrade

Não foi difícil achar Oswald de Andrade; pelo telefone mesmo, disse-lhe do motivo pelo qual pretendia avistá-lo. Trazia uma recomendação de Paulo Mendes Campos e gostaria de fazer uma entrevista. Ponderei-lhe que não tomaria muito de seu tempo. Já tinha as perguntas formuladas e, além do mais (isso não lhe disse), ia com as ideias imbuídas em um tópico do jornal Última Hora, publicado com certo destaque semanas antes de minha visita a São Paulo, em que li: “Deu cupim na cabeça do velhinho”. O velhinho era Oswald de Andrade. Entrei no apartamento de Oswald (agora já o chamo assim), e encontrei-o bonachão em meio a alguns papéis escritos, esparramado em uma poltrona. “Sente-se e não me dê recomendação alguma; os jovens não precisam de recomendação para falar comigo”, disse-me ele, deixando-me logo à vontade. Conversamos longamente sobre coisas boas e ruins, e logo percebi que havia dado cupim era na cabeça de quem havia redigido a nota de Última Hora, pois o “irreverente” Oswald de Andrade era aquele mesmo homem inteligente e espirituoso de quem tantas vezes ouvi falar na casa – saudosa casa – de Álvaro Moreyra. Falou-me da desesperança literária que o assaltou um dia. “Durante algum tempo no Brasil”, contava-me, “a ausência de valores tornou-se de uma maneira tal, que quase suicidei-me literariamente. Mais tarde melhorou”, prosseguiu, “surgiram elementos realmente de valor, apareceu a poesia de Vinicius de Moraes, surgiu Paulo Mendes Campos. Sérgio Milliet continuava a ser o maior informante do Brasil, produto de seus esforços como estudioso de tudo e de todos, e também fez versos muito bons por sinal. Havia ainda Cassiano Ricardo, Rachel de Queiroz e tantos outros que me ressuscitaram para a literatura, pois continuavam a produzir coisas boas”, disse ele, desta vez já afastado de seu trabalho e com todas as atenções para o que me dizia. “Não me refiz totalmente, porque o número de ‘picaretas’ na imprensa e na literatura era tão grande, que seu analfabetismo fazia-me esquecer esses que, ainda, achava bons. Um grande número de mulheres invadiu a literatura nacional, na sua maioria ‘semianalfabetas’ fazendo movimento estéril. Depois sim, melhorou e muito. Até mesmo nos menores setores, surgiram e continuam surgindo valores positivos.” E aí desandou a citar nomes. Falou demoradamente e com grande entusiasmo de Millôr Fernandes, o Vão Gogo, dizendo da sua capacidade de criar coisas novas, e todas boas. Comentou Uma mulher em três atos, peça teatral de autoria de Millôr, onde diz ter encontrado finalmente quem não escrevesse “bobagens”. Demorou-se também falando sobre Tiago de Mello, em quem vê um bom poeta, que, apesar da bagagem literária que já possui, tem ainda capacidade de escrever muito mais, com tendências a melhorar. Falou sobre Geir Campos – “um grande estudioso”, e deteve-se para dizer da grande importância de Paulo Mendes Campos. “Paulinho faz tudo direito. Crônica, verso, ensaio, tradução e, se derem cinema para ele, garanto que vai fazer melhor que muito italiano idiota que anda por aí.” “Quanto a vocês”, dizia isso referindo-se a mim, “vocês todos que iniciaram há pouco tempo a escrever, têm uma responsabilidade muito grande. No meu tempo, eu escrevia para um país de analfabetos, mas hoje todo mundo lê, todos se interessam pelo que se escreve por aí, em suma, o público está muito mais esclarecido, e há um número muito maior de pessoas escrevendo bem. Acredito que muitos vençam, muitos dessa novíssima geração.” E citou Darwin Brandão e Carlos de Oliveira como repórteres. Maria Karam como pintora e Millôr Fernandes (qualquer setor). Às seis horas da tarde – tinha um compromisso para jantar em Santos – entreguei-lhe as perguntas, que foram respondidas prontamente, e surgiu o clássico cafezinho acompanhado de uma verdadeira bateria de remédios que, por mais amargos que fossem, deviam saber-lhe doces, dado o carinho de quem os trouxera, esse monstro de simpatia que é a Sra. Oswald de Andrade. Um a um, ele foi tomando-os e comentou com um sorriso: “Tem gente à beça torcendo para que eu morra, mas os médicos estão de safadeza com eles. Cada dia eles inventam um negócio novo e, hoje em dia, eu estou quase perfeito”. A Sra. Andrade retirou-se sorrindo, e afirmando: “Esteja tranquilo Oswald, você não morrerá nunca”. No que, indubitavelmente, tem razão. Nota de Sibila: Oswald morreu em 22 de outubro de 1954 e essa foi uma de suas últimas entrevistas.

Entrevista de Oswald de Andrade a Flávio Porto

Quais os livros essenciais à humanidade?
Não são nem a Bíblia, nem o Alcorão, nem Margarida La Rocque.

Onde gostaria de morar?
Em Paris.

São Paulo é uma grande coisa?
Mezzo a mezzo.

O que você acha de sua poesia? Seus romances? Suas ideias?
Não posso dizer, porque você não publica.

Acha “O cangaceiro” um bom filme?
É, sem dúvida. Quanto a Lima Barreto, há um engano. Não se trata de nenhum superego e sim, de uma superégua.

O que acha do Museu de Arte Moderna do Rio e de São Paulo?
Prefiro o do Rio.

O que o mundo deve fazer entre os Estados Unidos e a Rússia?
Ficar com os dois.

Conheceu Stephen Spender? Que achou?
Muito crescido.

De quem foi a ideia da Semana de Arte Moderna?
Do grande Di Cavalcanti.

Você procurou fazer as pazes com Mário de Andrade?
Não.

Qual o maior sociólogo brasileiro?
Eu.

Quais os melhores e os piores romancistas brasileiros?
Os piores são: o búfalo do Nordeste, José Lins do Rego, e o bem-te-vi do Sul, Erico Verissimo. Mas pior poeta há um só – Augusto Frederico Schmidt.

Você se acha um homem justo?
Perfeitamente.

Quais são os mais requintados imbecis do Brasil?
Pedro Calmon, Pedro Bloch e Nelson Rodrigues.

Você acha que a Bienal vai ser um sucesso?

Não. O Sr. Ciccillo Matarazzo já começou a fazer compadrismo, aquele incansável compadrismo que já fez do plagiário Di Preti um pintor conhecido.

Que acha do Plínio Salgado?
Uma vaca.

Getúlio é homem inteligente?
É.

Qual o maior defeito da política brasileira?
Existir.

Por que o Brasil perde os campeonatos de futebol?
Por causa do José Lins do Rego.

Que escritores jovens você deportaria do Brasil?

Mandava o poeta Loanda voltar para Loanda. Ledo Ivo ia para a Oceania, de onde veio. O José Condé ficava porque não é jovem nem escritor.

Que ministro você poria no Governo?
Josué de Castro, Gilberto Freyre e Cassiano Ricardo.

É capaz de definir a UDN em poucas palavras?
Não.

– Quais mulheres você acha que escrevem bem no Brasil?

Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Lúcia M. e Adalgisa Nery.

Qual seria sua atitude se Getúlio desse um golpe?
Aderia.

Acha que o samba melhorou?
Piorou.

Alguma coisa melhorou no Brasil depois de 1930?
O salário e o custo de vida.

Que acha dos auxiliares de Getúlio?

Quais?

O baile de Coberville é um sinal de decomposição de nossas elites?

Não. Foi uma das raras coisas boas que fez o senador Chatobrioso.

O texto e a entrevista foram feitos por Flávio Porto, em 1954, para a revista paulista Sombra. Agradecemos a Cláudio Giordano a autorização para reproduzir, de novo, este material, que se publicou anteriormente no website Tanto.