Monção – Legados da poesia africana

O poema “Metamorfose”, do moçambicano Luis Carlos Patraquim, oferece um intrigante elo entre as literaturas de língua portuguesa no período pós-colonial (caso dos países africanos) e pós-ditatorial (realidade do Brasil e de Portugal), assinalando ao mesmo tempo o eixo da problemática contemporânea de arte, política e cultura, em torno do qual as literaturas dos diferentes países, aí implicados, passarão a se situar.

Através de variadas vertentes de escrita, envolvendo testemunhos, retrospectivas e prospecções, as metamorfoses e aberturas políticas ocorridas entre os povos falantes de português apontam para uma crescente complexificação no que diz respeito ao plano sócio-cultural. O mesmo se observa em relação com a  intrincada correspondência que se estabelece entre o comparativismo das literaturas em pauta e a cena polivalente da modernidade (sob o duplo índice post, a sinalizar tanto a finitude quanto a posterioridade), entendida aqui num raio amplificado de extensões e relações.

 

quando o medo puxava lustro à cidade

eu era pequeno

vê lá que nem casaco tinha

nem sentimento do mundo grave

ou lido Carlos Drummond de Andrade

………………………………

mas agora       morto Adamastor

tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada

das mambas cuspideiras nos trilhos do mato

falemos dos casacos e do medo

tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes]

 

 

Capaz de abarcar conjuntamente o projeto moderno, em Drummond, e a ancestralidade de Camões, “Metamorfose” capta, num mesmo movimento de independência, a afirmação atualizadora de um pertencimento ao mundo, via literatura brasileira (dado decisivo para a libertação cultural da África), assim como a apropriação da épica portuguesa. Adamastor ressurge no poema moçambicano como indício de uma herança confrontada e dissolvida através do gesto diferencial de luta e conquista. Pelo enfrentamento do medo.

Dupla defrontação – Por um lado, o poema indica, no interior do épico, uma alteração nos valores herdados, por meio dos quais Adamastor reaparece como a própria imagem da cultura lusitana (ao contrário do que legou Camões). Assim como duplica o sentido da libertação, seja para Moçambique e toda a África, seja para Portugal, emancipado de sua imagem mirada no horizonte expansionista europeu, servil de um ideal que o acorrenta ao ideário colonialista, subsistente até o fascismo salazarista.

Monção (1980) se chama o livro de estréia de Patraquim, e, não à toa, esse conjunto poético inicial saúda um instante de libertação que se estende por todo o contexto das literaturas em português, àquela altura, em toda desmesura. Ana Mafalda Leite já podia observar, em análise da formulação pós-colonial de uma tradição, o traço de uma mudança ao ressaltar na primeira produção do autor a presença de um “diverso legado”[2], não obstante as marcas discursivas com que o poeta exalta a independência política. Patraquim acolhe, já no livro de estréia, uma tendência  que  se  expandiria  na  produção  subseqüente. Formam-se duas

fortes redes de correspondências em seu projeto: uma de extração fundadora, em que são criados seus precursores (segundo a acepção borgiana de influência), no contexto literário de Moçambique e a outra, denominada  por  Ana   Mafalda   Leite  como  integradora, “que  recolhe,

centrifugamente, escritas oriundas de diversas leituras (Borges, Rimbaud, Neruda, T. S. Eliot, Ramos Rosa, Carlos Drummond de Andrade)[3].

Nuclear se mostra à compreensão de “Metamorfose” o diálogo estabelecido com “Sentimento do mundo”, de Drummond. Nele não se frisa apenas o referendamento da matriz moderna da literatura brasileira, essencial para o programa estético e cultural desenvolvido desde os anos 1930 nos países africanos. Evidencia-se um sentido de historicidade celebrado pelo poema, no período posterior à independência política, em sintonia com o dimensionamento do mundo (contido já nos versos drummondianos, elaborados quando da eclosão da Segunda Guerra Mundial) experimentado na gradação mista de medo e consciência. Gradação essa que envolve a passagem do tempo como um processo subjetivante indissociável de um confronto em escala ampliada, em que “outros tendões de memória”[4]se associam a uma percussão consagradora, timbrada pelo despontar da festa e da inocência.

 

a música é o brinquedo

a roda

e o sonho

das crianças que olham os casacos e riem

na despudorada inocência deste clarão matinal

que tu

clandestinamente plantaste

AOS GRITOS[5]

 

 

Interessante é notar no poema a marcação dialogante entre eu e tu, como sinal – paralelamente à “cisão do sujeito” – de uma temporalidade remontada à infância em cotejo com aquela atribuída ao agora. Também, nessa dinâmica, se firma a recomposição da referência a “Sentimento do mundo”. O poema drummondiano é gradativamente refigurado no que diz respeito à gravidade que o permeia ao constatar o encaminhamento progressivo dos homens, em conflagração mundial, à solidão e à morte.

“Metamorfose” deixa, aliás, visível tal intuito quando realiza a assonância entre o adjetivo grave e o nome Carlos Drummond de Andrade, relacionando o sentimento de escravidão, guerra e miséria, atribuído pelo autor mineiro à guerra, com um núcleo composto de medo, pobreza e inconsciência. Em torno da imagem do casaco é que o poema congrega todas as recorrências às condições aterrorizantes do colonialismo e cria um contraponto à atmosfera desoladora capturada por Drummond. No final, dá-se a pluralização – “crianças que olham os casacos riem” – desse signo de posse e estabilidade econômica, sintomático da problemática social, como se lê no conto clássico de Gogol, “O capote”, transformado até numa espécie de referência-padrão à literatura de cunho socialista pela crítica feita à burocracia e aos valores relativos à toda espécie de propriedade.

Sobre esse conjunto de sociabilidade segregada se volta o poema de Monção no que tem de reconhecidamente grave, paroxística, a situação sócio-político africana com respeito à história do século XX e à modernidade pontualizada por Drummond no espaço da poética em língua portuguesa. No mesmo instante em que tal equivalência se estabelece, contando-se com o descompasso da África em relação às conquistas seculares e ao Ocidente moderno, lê-se, em “Metamorfose”, a consagração de uma consciência epocal que se religa à infância, entendida como despudorada inocência – plantada clandestinamente –, por meio da qual o tempo é reinventado, propiciando uma experiência em aberto (AOS GRITOS).

O congraçamento da vida presente, festejado coletivamente, e a comunicação criada com a memória da infância se apresentam de um modo sincronizado com o que pode se chamar de uma outra historicidade. Esta se faz sublinhar o processo de revisão e ruptura em relação ao colonialismo e ao modernismo, desdobrando-se para além de uma limitada anteposição entre um e outro tempo. É como se o contato com a origem – procedente do medo, extensivo,  também, às primícias  coloniais  portuguesas patenteadas

por Os  Lusíadas no  episódio  de  travessia  do  Cabo  das Tormentas –,  elaborasse  no  poema de Patraquim uma outra direção ao enfrentamento e à ultrapassagem da dependência e do servilismo. Deixando de se marcar pelo resultado tipificador de uma defasagem, “Metamorfose” esposa o simultaneísmo em relação à memória na África e ao ingresso na realidade político-cultural contemporânea. Desfruta, com ênfase em uma época de agora, a descolonização em mais de um sentido. Marca-se pelo trato de uma posterioridade que não fica sem revisitar o tempo mais remoto (o lastro memorial luso o medo na infância), fomentando-o através de um paralelismo no qual se encontram envolvidas subjetividade e discursividade.

 

O contexto africano

Como muito bem compreendeu Ana Mafalda Leite, uma rede abrangente de correspondências se compõe na poética de Patraquim, sob a perspectiva atualizadora e experiencial trazida pela conjuntura do pós-colonialismo. Deve-se notar que, além de simplesmente suprir um descompasso histórico pela independência política conquistada, o toque celebratório do poema de Patraquim descerra a polivalência de um outro instante no tempo, potente para fazer emergir as motivações primeiras da individualidade e a monção da vida em comunidade compreendida como metamorfose.

Consagração do instante. Revolução e festa. Curiosamente, Octavio Paz, em seus estudos sobre a época e a poesia modernas, observa que a idéia de um processo aberto ao futuro sofreu um ocaso no decurso do século XX. Concomitantemente à crítica da idéia de revolução como central às prospecções e ao progressismo de todo um período histórico, surge o interesse de Paz em incorporar a exaltação do presente, visível desde a eclosão do ano-signo 1968, a partir do qual observa “a transformação radical da ordem mundial”[6]. Passa a se acirrar o surgimento de atitudes imediatas de comprometimento com as diferentes formas de sexualidade,  as relações cotidianas, a natureza, a diversidade em todos os planos, fornecendo o substrato da historicidade na qual a prefixação post se irradia pelos mais variados campos do saber e segmentos sócio-culturais.

Ao criar um diálogo possível entre Hanna Arendt e Paz – tomando dois estudiosos da história ocidental, sob os prismas críticos da Europa e do chamado Terceiro Mundo –, o filósofo Eduardo Jardim faz sublinhar através do autor de O labirinto da solidão o dado de que o foco na sucessão das mudanças, na crença linear do futuro como horizonte racionalizador da História sofreu alteração com a tendência acentuada de “um ardente envolvimento com o Presente”[7], tal como vivenciaram as três últimas décadas do século que passou: “…uma nova vivência do tempo parece estar em vias de desabrochar. Já não se persegue a colonização do futuro…”[8]

Mostra-se importante ver na ênfase dada ao presente por Paz o rompimento que se pronuncia no contexto africano, ativado pelo poema de Patraquim. Ainda que no bojo dos processos conflitivos da descolonização, os países dependentes politicamente de Portugal tenham atravessado por pactos revolucionários vinculados com a experiência comunista, com a manutenção  de  um  ideário  voltado  para  o funcionamento de um sistema marcadamente totalitário, em detrimento da produtividade, da transformação sócio-econômica (como pensa Arendt no diálogo com Paz promovido em A duas vozes), não obstante o papel libertador desempenhado pelas forças soviéticas na independência das nações africanas (a exemplo do combate eficaz ao nazifascismo quando da Segunda Grande Guerra). O que importa apreender na poesia de Monção, à diferença da idéia de revolução como restauração ou mesmo como propósito finalista, é o desencadeamento de um empenho retrospectivo articulado, entretanto, em direção a uma metamorfose em estado presente. É para tal evidência atualizadora, condizente com seu caráter tardio em relação a um legado já constituído, a um programa ideologicamente formado, que a criação inicial de Patraquim se encaminha, firmando toda uma trilha poemática a partir de então.

Não por acaso, a referência a Drummond comparece para o poeta moçambicano como centro do impasse entre sentimento e mundo, do qual se desdobram as tensões dos totalitarismos confrontados nas guerras de um século e, também, emerge – “mas estou cheio de escravos,/minhas lembranças escorrem…” – no que seria o futuro da África a problemática desenhada em “Metamorfose”. Como que situando o anúncio drummondiano, em “Sentimento do mundo”, Arendt (à meia-voz com Eduardo Jardim)  considera  que “Nunca  antes  o  destino  da  coletividade  foi  tão  sombrio, como atestam duas guerras mundiais, despotismos nos cinco continentes”[9]. E acrescenta, possibilitando uma sincronia com a perspectiva posteriorizada, presente no poema africano:

 

…o futuro concebido como um critério para orientar as

iniciativas  humanas,  cedeu  lugar  a  uma  perspectiva

estritamente funcional. Também podemos compreender

desse modo a estranha sensação de estarmos vivendo o

momento   da   Pós-História.   (…)    Os  acontecimentos

políticos  centrais  do  século  XX  –  o aparecimento dos

regimes  totalitários  e  o  fim  da  era  das  revoluções  –

caracterizam  um  momento  de  grande  instabilidade das

antigas  convicções  e  das  estruturas políticas conhecidas.

(…)  a  perda  da  referência  ao futuro como o aspecto mais

decisivo.[10]

 

 

Na consagação do instante, a escrita de Patraquim  marca fortemente o corte da cadeia de forças totalitárias envolvidas com a memória do século de guerras, evocada através de Drummond, mas, também, do poeta-herói moçambicano José Craveirinha. Em “Lustro”, poema produzido quando de sua prisão, em decorrência da militância pró-independência, o autor de Cela 1 apresenta a matriz da qual “Metamorfose” parte:

 

E nas quatro costas

do horizonte reacionário das paredes

uma exatidão de féretro tem precisamente

as passadas infalíveis dum recluso.

E a vida

a injúrias engolidas em seco

tem o paladar da baba das hienas uivando

enquanto no dia lúgubre de sol

os jacarandás ao menos ainda choram flores

mas de joelhos o medo

puxa lustro à cidade.[11]

 

Justamente no núcleo criado entre lustro e medo se estabelece um outro intercâmbio, capaz de redefinir a moral advinda pela passagem de um tempo de combates, festejado a partir da perspectiva pós-colonial. A leitura de Mary-Louise Pratt acerca da ótica naturalizadora da presença e da autoridade global européia erguida sobre os confins colonizados da terra como “impressão mais de inocência do que de intervenção”[12], põe foco na perspectiva adotada pelas viagens de sistematização e catalogação da natureza, contidas nas explorações marítimas do planeta, no século XVIII. No que diz respeito, precisamente, às “estratégias da inocência” a partir das quais o sujeito europeu da colonização comparece como elemento passivo da observação, do contato com o ambiente natural – apreendido por descrições da fauna e flora, por um projeto classificatório, caracterizado por narrativas desinteressadas, de anticonquista –, é que a poética de Patraquim acaba por incidir.Perfaz, assim, o eixo da problemática da conquista e do conhecimento da natureza tornada colônia aos olhos do Império (parafraseando-se, aqui, o conhecido título do livro de M.L. Pratt).  Esta estudiosa da pós-colonialidade sublinha, aliás, a mudança de paradigma do colonizador agressivo e pró-ativo, presente antes nos dois sistemas planetários anteriores de exploração: a circunavegação e o mapeamento do litoral. Ao lado das figuras do marinheiro, do conquistador, do cativo, do diplomata, ganha relevo aquela do naturalista a consolidar, com o propósito da benfeitoria científica e a autoridade do letramento, um

 

processo europeu de construção do conhecimento em escala                      nunca imaginada antes (…) Não era seu objetivo descrever o                     mundo tal como era encontrado, mas reordenar os objetos do                      mundo dentro de um sistema. Em contraste total com a atual                         visão ecológica, para a ideologia do século XVIII o mundo                           natural era um caos (…) A tarefa do naturalista não era a                       descoberta, mas a extração e a reconversão, uma imagem                        benigna e profética dos processos pelos quais a                                               industrialização iria apropriar-se do planeta.[13]

 

 

Se há algum tipo de recuperação, de “resgate” (para usar um termo freqüente nas políticas da identidade), na poesia de Luis Carlos Patraquim, esse se refere à estratégia da inocência engendrada na condição posterior à colonialidade, entendida como posse do presente em toda sua dinâmica de amplitude e diversificação, abrangendo a natureza e o ambiente cultural, em um entrelaçamento não-dado. Inocência entendida como força ativa, autótctone, liberada da visão descrita, cartografada, a distância do território.

Deixa de haver, então, o atrelamento ao impasse entre o tempo anterior à diáspora africana – tão evocado pelo modernismo em língua portuguesa do continente – e o que podia haver, como muito bem considerou Maria Aparecida Santilli sobre a categoria identitária nos projetos de construção literária em países como Moçambique (a exemplo de Angola, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo-Verde). Cidadão “de uma Nação que ainda não existe”[14], José Craveirinha pôde testemunhar em seus poemas o dualismo entre o medo e o combate, a sagração da independência e os descaminhos nacionais após a revolução (como atestam seus últimos versos, reunidos no volume Babalaze das hienas, em 1997), dentro de uma perspectiva que um autor imediatamente posterior, caso de Patraquim, conduzirá para o plano de um falante testemunhal tendo em mira uma realidade cultural em construção. Ana Mafalda Leite já podia apreender, em torno de Patraquim e de outros poetas do período pós-revolução, o surgimento de um trabalho literário no qual a assunção da subjetividade se interliga a “múltiplas filtragens, desfigurações e reconfigurações”[15] de legados e modelos tanto estéticos quanto culturais.

Na intersecção de pós-modernidade e pós-colonialidade, Ana Mafalda Leite estabelece uma pauta de procedimentos relacionados com a abertura de esferas de saber e de linguagem no campo da criação poética, possíveis de conter a revisão dos “múltiplos modernismos do século vinte”[16] (bem acentuada no projeto de Patraquim), assim como a introdução de formas orais – a oratura de que tratam tantos teóricos –, transformadoras dos cânones e dos gêneros referentes a uma abordagem escrita da literatura.  Modos corais, cênicos, de dispor o poema no interior de um circuito performativo, essencialmente dialógico, marcado pela ênfase no acontecimento do discurso[17], passam a definir a produção de um poeta como Patraquim no contexto moçambicano.

Presencia-se uma dinâmica de textualidade e montagem de estratos sonoros concentrada na presentificação  da  memória  – caso de “Metamorfose” –,  possibilitando a projeção de um olhar em estado nascente – um outro uso da estratégia da inocência do discurso etnográfico, descritivo, do colonizador –  para os espaços da natureza e da cultura em África. Favoravelmente se apresenta a construção de um mapeamento próprio, composto por camadas de formações diversificadas (literárias e orais), ainda que hiperdimensionado por força das relações em rede, características do mundo contemporâneo. É o que se verá de modo crescente no itinerário tomado pela escrita do autor e de outros produtores africanos de poesia.

A matriz drummondiana de “Metamorfose” comporta a incorporação do entendimento da época moderna, segundo Heidegger, como aquela assinalada pelas “concepções do mundo”[18] – e, nesse sentido, o percurso criativo do autor brasileiro dá testemunho de uma sincronia histórica com tais formulações nos planos gradativos mais extremos de um embate acerca do “(não) lugar da poesia no mundo”[19], ao longo do último século. Já no caso da experiência de Patraquim, a contar dos anos 1980, se revela a partilha de uma historicidade que faz da convocação à totalidade coexistente (como se depreende da leitura da história feita por Hanna Arendt), não mais como conseqüência de uma defasagem solucionável a partir do dualismo linear entre colonialismo-independência,  uma vez que o processo descolonizador se encontra em convergência com a geopolítica do chamado sistema-mundo. Sublinha, com precisão, Mary Louise Pratt que em “nossa chamada época pós-colonial, (…) o imperialismo perde o lugar para a globalização”[20].

Nesse sentido, uma estudiosa como Maria Aparecida Santilli observa o contexto em que os países de língua oficial portuguesa têm de se situar, em  revisão, na  procura  de  dimensões atualizadas para suas  interrelações,

considerando-se que sobre o passado político comum intervêm as dinâmicas das “performances internacionais”.[21] No que se refere, mais precisamente, à problemática das nações africanas:

 

A descolonização acelerou-se quando o controle de vastas                         extensões territoriais passou a quase não intervir no sistema                           de poderio internacional (…) Assim, quando o processo de                      emancipação política das ex-colônias portuguesas chegou ao

término, já se dava a progressiva imersão mundial em outro

sistema, também implacável, de estratégias dos oligopólios

em que novas parcerias vão se realizando, por decorrência do

atual sistema que o capitalismo gerou.

A disputa pelos territórios das colônias foi, então, se

substituindo por mercados e áreas de influência, em relação                     ao chamado arquipélago metropolitano onde se situa a                                 concentração geográfica dos poderes mundiais.[22]

 

 

Em complexificação e abertura, a convocação ao mundo não se apresenta tão-somente como visão e sentimento, concebida que é previamente como construção transnacional, dada numa dimensão simultaneamente em concerto e confronto, nada linearizada, em que os territórios africanos veem se acentuar as possibilidades de coexistência com a globalização. É o que trata Achille Mbembe, em um ensaio[23]sobre fronteiras e localidades em seu continente, frisando a imprescindível criação de formas autônomas dos limites impostos pelos Estados no que diz respeito aos modos de imaginar espaços e territorialidades, já que a estrutura colonial das relações econômicas não foi abolida com os regimes pós-coloniais.

Em tal encruzilhada se situa a poética de Patraquim e de outros autores atuais, sobretudo em Angola e Cabo-Verde.   A  saída  gradual  dos parâmetros formados no contexto da Guerra Fria aponta  para a “emergência de vetores culturais”[24], estudados por Mbembe,  diferenciados da cristalização das identidades étnicas e reconfiguradores do mapa continental.

A contar da proliferação de práticas espirituais, para além das fundações religiosas, marcadas pelo que o cientista político define como “explosão do dogma”[25], assim como em torno da sexualidade pode ser observada “uma nova economia moral dos prazeres individuais à sombra do decaimento econômico”[26], destaca-se a abertura de esferas indiciais das contradições e dos desafios da conjuntura político-cultural da globalidade. Não à toa, Mbembe frisa as modulações das realidades territoriais traçadas a partir do legado da colonização. As dimensões diversificadas, relativas à vida em comum e ao plano individual, emergem e se entrechocam, ampliando o espectro de problematicidade, mas também, de potencialidade no que se refere aos loci de segregação e homogeneidade situados à margem do mundo, na África.

Não é por acaso que um poema como “Metamorfose” localiza na figura de Adamastor, monstro-limítrofe da circunavegação européia no cruzamento do espaço africano, o paradoxo da colonização portuguesa vivido até a década de 1970 entre o projeto imperialista e a condição periférica diante do Ocidente. A imagem do monstro-marco conflui, na verdade, com o que Hanna Arendt entendia, em O sistema totalitário, como a projeção de um “Homem único de dimensões gigantescas”[27], que acaba por esmagar a humanidade e o espaço comum formado entre todos, em substituição à pluralidade que os constitui. Lá na origem, na divisa épica da exploração colonial rumo aos grandes trunfos, o poeta de “Monção” refaz a dinâmica hierarquizante, sistematizadora das ordens do tempo e do espaço, ao recepcionar uma outra gradação da grandeza a partir da memória infantil e do lugar, até então, previsto no mundo pelas forças de fora do território.

A gradativa surpresa testemunhada pelo autor moçambicano, em “Metamorfose”, se imprime na série de livros por ele produzidos, no compasso de um entendimento desafiador do lugar da poesia, da África e do grave e, ao mesmo tempo, celebrador sentimento de mundo inscrito em seu livro inicial.    A  inocência  do  devir, tal como nomeada pela teórica e  poeta Silvina Rodrigues Lopes no processo escritural de Herberto Helder, parece reunir, conceitualmente, os pontos de propulsão e recepção relacionados não apenas à sua criação literária, mas à pauta produtora de arte na contemporaneidade, indissociável de uma intervenção na  cultura  e  na  história  de  um  tempo nada transparente, nem tampouco infenso à experiência, à experimentação. Especialmente, quando se realizam na leitura e na crítica do trajeto de Herberto Helder, a inflexão de trajetórias, o multiplicar de ressonâncias, “que o poema preserva como tais ao constituir-se como um todo que não é redutível à totalidade de elementos de um conjunto”.[28] Ou como diria o português Al Berto, em consonância com Helder e a poesia na história, na passagem do salazarismo, entre gêneses e posterioridades (gestadas no correr do último século), para a época de agora,

 

 

ardem cidades. ardem palavras. inocentes chamas

que nomeiam amigos, lugares, objetos, arqueologias.

arde a paixão no esquecimento de voltar a dialogar com

o mundo. arde a língua daquele que perdeu o medo.[29]

 

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BERTO, Al. O medo. Lisboa: Contexto, 1987.

COURTINE-DENAMY, Sylvie. O cuidado com o mundo. Diálogo entre

Hannah Arendt e alguns de seus contemporâneos. Trad. Maria Juliana

Gambogi Teixeira. Belo Horizonte: UFMG, 2004.

JARDIM, Eduardo. A duas vozes. Hannah Arendt e Octavio Paz. Rio de

Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

LEITE, Ana Mafalda. Literatura africana e formulações pós-coloniais.

Lisboa: Edições Colibri, 2003.

LOPES, Silvina Rodrigues. A inocência do devir. Lisboa: Vendaval, 2003.

MBEMBE, Achille. “At the Edge of the World: Boundaries, Territoriality,

and Sovereignty in Africa”, in APPADURAI, Arjun (org.). p. 22-51.

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PRATT, Mary Louise. “Pós-colonialidade: projeto incompleto ou

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SANTILLI, Maria Aparecida. Paralelas & Tangentes. Entre literaturas de

Língua portuguesa. São Paulo: Arte & Ciência, 2003.

SAÚTE, Nelson (org.). Nunca mais é sábado. Antologia de poesia

moçambicana. Lisboa: Dom Quixote, 2004.

WISNICK, José Miguel. “Drummond e o mundo”. In NOVAES, Adauto

(org.). Poetas que pensaram o mundo. São Paulo: Companhia das

Letras, 2005. p. 19-64.




[1] PATRAQUIM, 1980, p. 27-28.

[2] LEITE, Ana Mafalda, 2003, p. 128.

[3] Ibidem

[4] PATRAQUIM, op. cit., p. 28.

[5] Ibidem

[6] JARDIM, Eduardo, 2007, p. 41.

[7] Ibidem, p. 42

[8] Ibidem.

[9] Ibidem, 34.

[10] Ibidem, p. 34-35.

[11] CRAVEIRINHA, José in SAÚTE, Nelson (org.), 2004, p. 83

[12] PRATT, Mary Louise, 1999, p. 27

[13] Ibid.

[14] CRAVEIRINHA, José, op. cit., p. 71.

[15] LEITE, Ana Mafalda, 2003, p. 37.

[16] Ibidem, p. 128

[17] Ibidem, p. 37

[18] Veja-se o ensaio fundamental “Drummond e o mundo”, de José Miguel Wisnick, em NOVAES, Adauto (org.), 2005.

[19]WISNICK, José Miguel, 2005, p. 24.

[20]PRATT, Mary-Louise, op. cit., 18.

[21] SANTILLI, Maria Aparecida, 2003, p. 25.

[22] SANTILLI, Maria Aparecida, 2003, p. 24.

[23] MBEMBE, Achille, 2005. p. 22-51.

[24] Ibid, p. 32.

[25] Ibid, p.

[26] Ibid, p.

[27]ARENDT, Hanna, apud COURTINE-DEMANY, Sylvie, 2004, p. 107.

[28] LOPES, Silvina Rodrigues, 2003, p. 70.

[29] BERTO, Al, 1987, p. 15.