O cosmopolistismo inovador do italiano Emilio Villa

“E nós nos encontramos sem ordem e sem revolução,/ magnânimos e caducos, e parece bonito/ termos errado em muitos, todos”, Emilio Villa.

“E nós nos encontramos sem ordem e sem revolução,/ magnânimos e caducos, e parece bonito/ termos errado em muitos, todos”, Emilio Villa.



Nascido em Affori em Milão, Emilio Villa (1916-2003) foi seminarista e, posteriormente, especialista em línguas antigas (traduziu algumas tabuletas mesopotâmicas na década de 1930). Naquele período começou a carreira de crítico de arte, sua principal atividade e, ao mesmo tempo (quase um paralelo constante), sua iniciou sua atividade de poeta:

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Suas escolhas sempre foram voltadas para a vanguarda, a experimentação, as expressões de misturas e hibridações internacionais.

Um exemplo de sua poesia é um texto escrito em “língua brasileira”, durante a estadia de Villa no Brasil, entre 1951 e 1952, a convite do então diretor do MASP (que acabava de se mudar para a Avenida Paulista).

EMILIO VILLA
MATA-BORRÃO PARA FLAVIO
MOTTA

eu diria I’m encantado, e então
uma nuviosa designação de continentes
involuntaáios por jogos
nasais, fundos jogos, acende
ao longe
entre os anos desperdidos itinerantes
como faíscas de amarguras
abdominais, como bichos de cristal na nuca muda, acende
o
nome mais amado mais miolo mais milagre
e o quem diz: “agora!”e o
quem

cai no corte mítico do mundo, nas luminosas
trovejadas
generações dos nomes: léxico
jejum e fresco come o prado de espinafre de
trevo
no recôncavo, pálidas requisições de ecos
e espirros e réplicas,
ânforas anoitecidas
no pulmão gigante, palpitantes gengivas,
cenoiras
africanas, paleoafricanas, protoafricanas, coxas
rasgadas o
abertas, polpas de abóboras
ideais: agora, agora. Nam rectitudo
per se est
phallica, truncada também, devagazinha:

onde uma zigoma torna-se
sigla e sigilo, torna-se
constellação deitada nas escuras polpas sem
nomes
e incha-se então de raiva a fonte das medidas
e das mudançãs, lá,
eu digo, provocar
o poder subhumano da pasmação, do broto
não mortal, o
voo ocioso, o ganir
chupado, de víboras nas câimbras
das vagas, dos grans,
e veremos lampejar
a alta caça, a esgrima
em voz baixa na caveira, as
balanças de ossos
eschatologicos, agora mismo,

si o sangue da
sombra não é sangue ni sombra,
si o cavalo do cavalo agora é sombra
desmaiada
o sombra brotada na suma sombra ostra, o som
da tromba saca o
celeste descontecer, afrouxa
o orvalho, e o remo corta em dois as cinzas
dos vivos e as cinzas dos sons, como
na páscoa dos continentes cortó o
Brazil e a Angola,
cortó as árvores da ciência e as árvores da
loucura
peregrinante, cortó o tubarão em dois espelhos
a tromba grande:
não agora.

Bahia, 1951

Em sua vida, Villa sempre defendeu dois grandes da pintura italiana. Alberto Burri e Lucio Fontana. Os dois foram “descobertos” por ele ainda muito cedo, no final da década de 1930, início de 40. Villa reconhece, sobretudo no primeiro (Burri), um grande mestre. Eis aqui alguns de seus (Villa) famosos sacos queimados:

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“Burri Alberto cultiva como in vitro, ou melhor, em linho, essas anatomias contráteis dos organismos inexpressos, incertos entre uma aparência de materiais biológicos sem uso e um ideal de fulmíneos universos desde o gigantesco até o mínimo do mínimo: uma ambiguidade escancarada, um desejo de estreitar recordações de coisas que devem ser clareadas; lamentosa cosmogonia imaginada com a simples inocência de materiais comuns, dos trapos jogados do bairro, das tintas de má qualidade, das massas amorfas entre apodrecimento e cristalização…” (1953).

Note-se o tom solene de Villa: Burri, Alberto, e não o usual Alberto Burri, que para um amigo e colega de arte seria normal. O estilo de Villa, mesmo em suas críticas, permanece peculiar e se situa entre uma proximidade total, uma adesão incondicionada e um rebuscamento elegante, uma distância radical.

Literatura é tensão, é aporia entre esses dois limites impossíveis de conviver, necessária para constituir um texto.

Burri antecipa a descrição de um mundo, ou melhor, a metáfora de um mundo que é o mundo do sobrevivente. Materiais e intervenções são radicais.

Lucio Fontana, o segundo artista famoso, que deve a Emilio Villa parte de sua notoriedade, surge na década de 1950, com seus agressivos e poderosos rasgos dos seus míticos sacos. Ação de pintura, mais do que pintura, que contém em si o ato cronológico, a memória de algo que “realmente aconteceu”. Espaço, tempo e profundidade, com essa ação não se seguirão mais planos. Tudo será revolucionado. Nasceu na Argentina, mas viveu depois na Itália, onde faleceu em 1968. Eis uma tela de Fontana:

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***

De VILLA, Emilio. Attributi dell’arte odierna. Milano: Feltrinelli, 1968
ALBERTO BURRI.

Nossa humilde cosmogonia, elegíaca aterrorizada compósita, epos para instantâneas tragédias cotidianas, miniatura rapsódica das grandes formações do tempo, sem vestígios ou eventuais, o grande sangue, os traçados do mundo sem descanso, a lei que dita a borda aos pedaços de uma visão a ser instaurada como matéria e como surpresa, a divagação profética das linhas que modelaram as formas dos arquipélagos e o perfil das penínsulas e o esqueleto das trutas nas águas do Adda.

Na memória das palafitas, há muito que pode tornar-se matéria de uma breve e consternada superfície de pintura, mas pintura por assim dizer: e ao invés daquela qualquer outra ação realizada para revelar sentidos específicos e não discutíveis.

VILLA ARTISTA PLÁSTICO

E, finalmente, veja-se mais de perto a arte de Villa. Ele mesmo um escritor, crítico, poeta, escultor e tradutor, manifesta-se em todas as esferas das artes de forma homogênea: provocativo e rebelde, erudito e elegante, de uma escolha sempre fortemente expressiva, ao ponto de poder filiá-lo anacronicamente ao expressionismo, visto que ele teve contato com o Dadaísmo. Mas, ao mesmo tempo,Villa é amante da Arte povera. Arte pobre. Como Lucio Fontana e Alberto Burri. Villa, amante de cores e sons espessos. Eis um Villa:

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Prima o poi, poi o primale parole dette, le parole scritte, presto o tardi tutte le parolesono destinate a sparirespariscono.

Le parole sulla carta, le parolesulle pietre, le parole sui ramispariranno tutte.

Se queste parole e non parolesono scritte su materieche presto si decompongono, chedurano poco più di unattimo o poco più di un millennioche cosa esse sono. 

“E nós nos encontramos sem ordem e sem revolução,/ magnânimos e caducos, e parece bonito/ termos errado em muitos, todos.”

Emilio Villa, Disco, 1968

Emilio Villa, Disco, 1968