A promiscuidade de escritores, estado e mercados no Brasil 2.0

O discurso na Feira

Este texto vem a propósito do comentadíssimo discurso de abertura do escritor Luiz Ruffato à Feira do Livro de Frankfurt neste ano de 2013, quando o autor do excelente Eles eram muitos cavalos expôs as históricas mazelas culturais e políticas da formação brasileira, como o genocídio indígena, a escravidão negro-africana, o agressivo machismo, a homofobia, a indiferença da classe média, a corrupção econômica e toda sorte de violência geral contra os mais fracos. Se seu discurso foi elogiadíssimo entre muitos dos brasileiros frequentadores das redes sociais como uma espécie de descerramento do véu ilusório do país tropical, cheio de alegria, exuberância, crescimento econômico e democracia racial, também foi criticado por pretender “lavar roupa suja” internacionalmente, quando a ocasião seria no mínimo a de certa convenção e dignidade.

De um lado, o discurso de Ruffato pode ter sido uma surpresa para alemães que fingem ignorar o que se passa na metade sul do planeta. Já para brasileiros, de outro lado, não parece ter sido nada mais do que o mesmo acerca do mesmo encontradiço em nossos jornais diários e nas ruidosas infovias. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra, eu afirmaria que o tom de indignação generalista assumida pelo discurso do escritor me pareceu ser um sintoma das duvidosíssimas relações que os artistas mantêm com o Estado hoje no Brasil. Se a indignação é um elemento necessário, demonstrar o engajamento de um escritor, sua independência, também deveria ser, e me parece que é o que mais falta nestes tempos que correm no nosso país.

É comum na história da cultura moderna artistas e intelectuais adotarem publicamente um forte e evidente discurso de compromisso social e político. Aliás, esse compromisso está na origem do termo “intelectual” na famosa defesa do capitão Dreyfus feita por Émile Zola e Georges Clemenceau no final do século XIX. Já o filósofo Jean-Paul Sartre talvez tenha sido o que melhor encarnou no século XX a persona de intelectual engajado em suas intervenções diretas no debate público. Colaborou com a resistência francesa contra a invasão alemã na Segunda Grande Guerra, criticou duramente a França durante a guerra da Argélia, interveio publicamente no debate internacional a favor da Revolução Cubana e foi às ruas de megafone nas mãos junto com os estudantes franceses, dentre muitas outras atitudes ao longo da vida. Mas também continuou fiel à União Soviética mesmo depois de denunciados os crimes de Stálin por Khrushchov, em função do seu compromisso com o socialismo, quando inúmeros outros intelectuais já haviam abandonado a defesa do regime soviético.

As críticas feitas por Luiz Ruffato em certos momentos do seu discurso quase beiram a abstração, pois, enquanto na entrada parecem provocar danos à imagem idealizada de um Brasil-Paraíso Tropical (se isso ainda é existe), na saída não dizem a que vieram, ficando apenas em lugares-comuns críticos que não avançam quanto ao nosso presente, malgrado o uso sempre de bom tom, mas pouco útil, de dados estatísticos. Genocídio, escravidão, racismo, autoritarismo, violência contra pobres, mulheres, gays etc. fazem parte da nossa formação histórica, mas também do nosso presente, e é nessa hora que o discurso derrapa, pois recai na nossa tradicional dissimulação e ambivalência: para além dos fatos que traz, repete um discurso ouvido no país pelo menos nos últimos vinte anos: “Mas, [sic] avançamos”, “O Brasil é um país paradoxal”. São frases tão ouvidas no nosso dia a dia pela boca das autoridades quanto as violências que Ruffato lista, muitas delas ainda praticadas pelas mesmas autoridades.

A pergunta que fica então é: como “avançamos” diante dos números do presente que o próprio escritor traz sobre taxas de homicídios e encarceramentos? O que significa enfatizar que a democratização se tornou um avanço de fato (o que é verdade) diante dos últimos meses de truculência policial avalizada por vários setores da imprensa e da sociedade civil e de uma tradição de extermínio por parte da polícia em zonas de exclusão urbana?

Sobra o autoelogio enviesado, como é próprio do Brasil: “A maior vitória da minha geração” – nos últimos vinte e oito anos… Daí concluo provisoriamente: a mesma geração que trouxe a democracia parece ser incapaz de mudar os números apontados e cai num misto de crítica generalista e gozo autocondescendente.

Escritores e Estado

Em um livro já relativamente datado como Cenas da vida pós-moderna, a crítica argentina Beatriz Sarlo elabora lá pelas tantas uma reflexão sobre o papel da televisão na cultura contemporânea e conta a história de um bandido que vai a um programa de auditório se entregar. Diante do gesto inusitado, ela pergunta por que ele não teria ido se entregar à justiça instituída, preferindo fazê-lo aos olhos de “todos”, em um programa televisivo?

Se sua conclusão diz respeito à aparente falência das instituições modernas, o recente episódio do “Discurso-de-abertura-em-Frankfurt” diz respeito aos impasses dos escritores no Brasil 2.0, quando o campo da literatura parece se encontrar espremido entre o mercado e o Estado, sendo ambos na verdade duas faces da mesma moeda. Por isso o discurso de Ruffato interessa, sobretudo como sintoma de um momento em que os artistas brasileiros parecem repetir a mesma dissimulação e ambivalência de quem historicamente no país namora o poder (político-financeiro) – quando não dorme explicitamente com ele.

A política dos editais foi sem dúvida o grande mérito quanto à gestão da cultura por parte dos governos do PT. Não há como esconder a democratização contida nela. Na Bahia, de onde escrevo, a tradição das políticas culturais sempre se confundiu com o coronelismo da indicação, do compadrio, da amizade e da vontade do (pequeno e grande) soberano. Isso sem falar das escolhas que também obedeciam de forma muito menos envergonhada à lógica numérico-financeira do mercado. Agora, as regras são mais claras e os produtos mais diversificados em relação à sanha homogeneizante do mercado. No entanto, o que se nota após mais ou menos dez anos de editais por todo o Brasil é a cooptação dos artistas por parte do Estado. Um coronelismo esclarecido, eu diria. Há um silêncio tácito nas críticas que artistas poderiam fazer às políticas vigentes, e tudo o que se ouve são críticas nos mesmos moldes das de Ruffato: grandes verdades generalistas que dissolvem o presente na linha temporal da história e colocam na conta da atual geração o discurso do “Mas, [sic] avançamos” e “O Brasil é um país paradoxal”.

Claro que não é culpa do Ruffato. Ele é apenas a face atual e mais visível da moeda de troca em que se transformou muito do campo literário no Brasil 2.0: o Estado e seus editais, com recursos em fluxo contínuo, tornaram-se a galinha dos ovos de ouro para produtores culturais e artistas loucos por estimular sua criatividade. Sempre houve aqueles que gravitavam vampirescamente em torno dos poderes (o livro de Sérgio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945), já escancarou algumas dessas nossas históricas contradições), mas hoje não há mais vergonha. Pelo contrário. O engajamento independente dos artistas é via de regra taxado como ressentimento e oposicionismo, quando não ingênuo e burro, num procedimento de descrédito que se confunde com truculência, anos-luz de qualquer prática democrática e liberdade artística. E tudo visto de forma muito natural.

Sem dúvida, o Brasil 2.0 tem mudado consideravelmente para melhor algumas práticas culturais brasileiras. Mas os escritores se encontram perigosamente medusados pelo discurso oficial sobre essas transformações e perderam toda a capacidade de se indignar com a lógica política que as preside no presente, passando muitas vezes a colaborar com ela, mesmo que involuntariamente. Tudo em nome de uma pragmática visibilidade, que adquiriu foros de vida social e política total, fazendo grupos repetirem posturas e discursos que certamente criticariam em outras circunstâncias. Walter Benjamin famosamente já escreveu sobre a noção de progresso que “nunca existiu um documento da cultura que não fosse ao mesmo tempo um [documento] da barbárie”. Se essa afirmativa é verdadeira para a história do passado brasileiro, também é verdadeira para a história do presente e para as transformações culturais por que passa o país no século XXI. Só que nossos artistas parecem fascinados e ofuscados pelo brilho das transformações e se esquecem da parcela de barbárie que esse brilho também traz consigo. Parecem ter perdido a independência.

Mercados

O nó górdio dessa discussão aponta justamente para a universalidade do mercado, esse Império cuja lógica unicamente financeira foi se tornando aos poucos a água de que nós – peixes – precisamos para continuar vivendo como sempre aparentemente vivemos. Mercado, nosso novo espaço público, com seu misto de lógica financeira e lógica publicitária. Por isso penso que o sonho e a luta pela profissionalização do escritor e do mercado editorial no Brasil trouxeram seriíssimos efeitos colaterais. Dentre eles, a crítica coxinha: barata, todos gostam, mas vem excessivamente engordurada. Em outras palavras, crítica falsa; ou ainda melhor, propaganda enganosa, pois quando exercida no principal púlpito da sua maior igreja, que é a Feira de Frankfurt, perde toda a validade e revela as ligações perigosas – e tão generosas – que se dão entre os escritores brasileiros, um mercado editorial mundializado e o Estado no Brasil 2.0.

Repito: Ruffato é apenas a mais recente parte visível desse jogo de faz-de-conta-que-critica, ou crítica-mas-não-bate. E nos deixa a seguinte pergunta: como criticar o próprio país sendo escolhido pelo governo seu representante na maior e mais importante feira do mercado editorial e livreiro do mundo – sem dar um tiro no próprio pé? Há algo fora do lugar, não fechando a equação e parecendo estar por baixo do abandono intempestivo de Paulo Coelho da comitiva brasileira.

Alguns poderiam dizer que tanto Paulo Coelho quanto Luiz Ruffato – por motivos diferentes – produziram gestos de resistência diante de um poder cultural que se imiscui sorrateiramente e de modo naturalizado na vida cotidiana. Mas eu diria que tudo isso, se tem sua faceta de resistência, tem também de cinismo. E serve tanto para nossos escritores quanto para todos os nossos consumidores de cidadania.