Feminismo ralo serve a interesses comerciais imediatistas

O que esperar de um livro de poesia? – Poemas. E o que esperar de um livro de poesia destacado como uma das mais relevantes produções poéticas brasileiras do ano de 2012? – Bons poemas! É o que dirão. Entretanto, o resultado de uma tão apressada simplificação está longe de se confirmar e reforça os lugares de suspeita em que se deve desacomodar esse objeto, o livro, sobre o qual comumente recaem ora ingênuas, ora arrogantes pretensões. Recorte-se aqui, para efeito de enquadramento adequado à análise apresentada, especificamente livros ficcionais, campo vastíssimo onde se encontra, além de outras especialidades, a poesia.

Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas (Cosac Naify), foi apontado por um pequeno júri, a serviço da Folha de S. Paulo, como uma das principais realizações de poesia em 2012. O livro refere-se, no tocante ao tema, a uma série de elaborações sobre diversas representações do feminino. Mas o conteúdo, por si só, é, em fim de contas, secundário para a poesia, assim, a partir dele, pouco se pode inferir acerca das conquistas poéticas encontradas na obra. Interessa mais verificar suas formulações, antes, as formas através das quais esse conteúdo passa a ser manifestado ou deduzido por seus leitores. O livro em questão, entre filógino e generativo, enfileira generalizações; descortina de certa maneira imagens carregadas de preconceito ainda dedicadas à mulher, porém não materializa o estiramento da linguagem exigido à poesia.

Roman Jakobson já destacou que “em poesia, não apenas a sequência fonológica, mas, de igual maneira, qualquer sequência de unidades semânticas, tende a construir uma equação”1. Encontramos Angélica Freitas no exercício de operações onde envolve o mínimo de variáveis, restringindo, com isso, a amplitude de seu discurso, um bom exemplo encontra-se no primeiro poema do conjunto. Nele, a hipótese um tanto insipiente; diante de duas sentenças relacionadas por igualdade, sendo a primeira igual à segunda, então, invariavelmente, a segunda só poderá ser igual à primeira.

porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa2

Aqui, algo da mentalidade linear com a certeza de estarem, os resultados, “onde eles não podem ser encontrados”3, ou seja, na evidência do axioma e na imposição da necessidade; tudo sem contestação e sem qualquer interferência do acaso, do meio-termo, da dúvida que resultam da crise da lógica clássica4. Além do mais, as denúncias ao que possa haver de grotesco no processo civilizatório, se é que haja no poema algum tipo de denúncia, devem ser elaboradas em relação à espécie humana, pois não passou por domesticação apenas o comportamento feminino, senão o de toda humanidade.

Angélica Freitas, do início ao fim do livro, faz uso das fôrmas mais convencionais da linguagem. Em versos do tipo “eu quando corto relações/ corto relações”5, serve-se do coloquialismo que tem se tornado cada vez mais suficiente para opiniões elogiosas sobre poetas insípidos(as), manifestadas sem o compromisso de uma leitura criteriosa. Esquece que manipular o coloquialismo, no entanto, não garante o sucesso da obra de arte, a qualidade de sua realização estética. Essas fôrmas devem sofrer o atrito de certa corrupção, o princípio de uma ruptura com sua trivialidade originária para então caírem sob suspeita e tal conquista já foi desempenhada por uma série de bons(as) poetas, porquanto não se pode esquecer de cobrá-la a uma poesia de qualidade.

Embora a poesia não seja, de acordo com Roman Jakobson, “o único domínio em que o simbolismo dos sons se faz sentir”, é uma “província” em que ele se manifesta “da forma a mais palpável e intensa”6; portanto, interferem, na composição dos significados do poema, as realizações efetivadas através do modo com que foram arranjados (combinação e seleção7) os componentes de suas sentenças. No poema transcrito acima essa informação não compromete, não investe contra qualquer estrutura imaginativa, assim como não promove uma visada mais complexa em relação aos processos civilizatórios e de distinção genérica levados a cabo por diferentes sociedades. As duas partes paralelas do discurso (boa e limpa) desdobram-se num terceiro atributo (mansa), o conceito obtido mediante a invariabilidade da relação entre as imagens de mulheres boas, limpas e mansas, sem nenhum contratempo, sem nenhum percalço, expõe as negativas dessas mesmas figuras e as relaciona como sua única oposição a sequência braba, suja e não-boa. E a fórmula se repete, dando continuidade à leitura encontraremos a seguinte configuração: “uma mulher sóbria/ é uma mulher limpa/ uma mulher ébria/ é uma mulher suja”8.No livro, não há lugar para outros arranjos, tanto quanto não há sinais de experimentação semântica. Resta ao leitor imaginar, mais adequadamente, inventar – sem indício algum que para isso lhe sirva de pretexto, apenas por única manifestação de sua inquietude, caso a possua – que o desacordo, a suspeição e a porção de ambiguidade de que carece a função poética da linguagem devem ser encontradas, de parte a parte – não somente em relação a esses poemas, mas no que diz respeito a toda extensão do livro –, simplesmente na impossibilidade de uma tal calmaria, de uma tal paralisia semântica ter sido considerada como poesia de qualidade a ponto de figurar entre destaques e premiações do gênero, ou seja, o desajuste entre o mérito estético encontrado e o contexto em que foi inserido o livro é o fator que agita ou que tensiona a leitura. A partir daí, desse esforço empreendido pelo leitor, repito, sem o menor incentivo, sugestão ou construção linguística conquistados pela autora através do texto, tê-lo em conta de grande equívoco. Já ao leitor que não queira inventar coisa alguma, o poema a nada se parecerá, a não ser a uma simplificação rasa manifestada por meio da correspondência entre duas ou três proposições.

Muito bem, chegamos ao ponto de pensar, então, sobre o que conduziria à configuração desse contexto tão incompatível com a realidade dos poemas publicados. Decerto alguns fatores mais ou menos indissociáveis como, por exemplo, os interesses comerciais dos editores, o capital social que põe em interseção os autores da hora com os responsáveis pelos veículos midiáticos de renome, que em contrapartida alimentam as autoridades no assunto da vez, todos bem dispostos a manter as aparências e suas posições. Reproduzidas aqui e ali, as notícias do mais recente grande livro fazem o estoque zerar. A maioria dos leitores, talvez, duvidará de sua própria opinião se ela for contrária à da autoridade literária que publica num grande jornal – ou revista – que tem interesses comerciais em comum com as editoras em que atuam editores grandes conhecidos dos autores ou de seus mais destacados amigos. Quem se propuser a uma interpretação desvinculada do contexto arranjado observará outros caminhos, no próprio livro e fora dele.

Vale ressaltar que a obra de arte não pode ser considerada o envoltório de um conteúdo específico e inconfundível. Todavia, os processos de significação aos quais será submetida a obra em cada (re)leitura, mesmo dependentes do observador e de seu repertório, experiência, disposição, entre outros, não estão sob domínio exclusivo da vontade, do capricho ou das disposições de humor desse observador, pois a obra de arte, assim como toda mensagem, não exclui um remetente, um contexto, um código, além de um destinatário, ainda que sejam hipotéticos, indefiníveis, temporários, ambíguos. Em Um útero é do tamanho de um punho, em função do contexto em que foi inserida a publicação (menções, prêmios, destaques, etc.), torna-se improvável que os poemas sejam frouxos como são. Diante de poemas como “mulher de rollers” o leitor se lança a pendurar sentidos, a cavoucar desconfianças para não se surpreender ante a interrogação: – Onde mesmo tanta primazia? Seguem os versos iniciais do referido poema: “no condomínio querem saber/ se ela piorou de vez/ ou se vai competir/ nalguma espécie de jogos olímpicos/ porque deu para andar de rollers/ na área comum do prédio/ prejudicando a saída/ e a entrada de veículos(…)”9.

Sem incompatibilidades, sem distorções comprometedoras à acomodação dos sentidos, o bizarro do óbvio todo escancarado, componentes para um livro fácil de ler. Estereótipos simplificados ao máximo num tom prosaico sugerem o interesse da autora naquilo que se convencionou chamar de antipoesia e que rendeu já uma série de obras distintivas a alguns bons(as) poetas. No entanto, Angélica Freitas perde-se no caminho a essa conquista do antipoético; não incorpora à paisagem monótona do cotidiano e do lugar-comum o frenesi do inusitado, ainda que quase evidente. A poeta detecta a precariedade rotineira, apodera-se de banalidades e formulações repetidas sem critério, entretanto, a articulação poética desses insumos não se traduz em elaboração estética digna de nota. Em sua captura à antipoesia atinge apenas o que dela se pode imitar com mais facilidade. Todavia, conforme sugestão de Décio Pignatari, “o que pode ser imitado não é informação principal”10. O segredo da antipoesia não está no simples uso do vulgar, do trivial, do dispensável das formulações da língua, mas na habilidade de aí, nesse lugar nada sagrado para a linguagem, forçar novas possibilidades, novas dimensões de entendimento, isso para quem concorde que a função do poeta seja a de “criar significados novos”11.

Os poemas de Um útero é do tamanho de um punho, mesmo sinalizando uma compreensão de que poesia é linguagem, não transpassam a estrutura construída com as trivialidades do discurso; servem-se de escombros para erigir somente a réplica do conjunto arquitetônico por eles sucedido; não radicalizam a “destruição-produção da linguagem”12, conforme fica nítido no poema “mulher de vermelho”:

o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser 13

Quanto aos conflitos expostos, são obtidos por instabilidades, por colisões há muito repassadas; seu feminino composto sem suspeitas e tão-somente oposto a um masculino que passa já da hora de ser abandonado expõe o ridículo dessa operação e não vai além. A exposição, obtida e reprisada muitas vezes, deveria dar lugar a uma coordenada adiante e não ao mesmo solo repisado, no entanto, é aí que permanece.

Notas

1. JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. São Paulo: Editora Cultrix, s/d. p. 149

2. FREITAS, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2012. p. 11

3. PIGNATARI, Décio. Contracomunicação. São Paulo: Editora Perspectiva, 1973. p: 165

4. Id. ibd., p. 169

5. FREITAS, Angélica. op. cit. p. 83

6. JAKOBSON, Roman. op. cit., p. 153

7. Id. ibd., p. 39

8. FREITAS, Angélica. op. cit. p. 13.

9. Id. ibd., p. 36

10. PIGNATARI, Décio. op. cit., p. 9

11. Id. ibd., p. 25

12. Id. ibd., p. 168

13. FREITAS, Angélica. op. cit. p. 31

Sobre Denise Martins Freitas

Nasceu em Rio Grande(RS) em 1980. Escritora e professora de história; é autora de Misturando memórias (2007), Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários, dentre os quais: Revista Sibila, Germina Literatura, Musa Rara, Autores Gaúchos, Revista Modo de Usar, entre outros. Escreve o blog sísifo sem perdas.