O POEMA APOKRIF, DE JÁNOS PILINSZKY

János Pilinszky foi um poeta e dramaturgo húngaro que viveu entre 1921 e 1981.  Tive a imensa sorte de conhecer sua obra, há alguns anos, por intermédio de György Molnar, um amigo de Budapeste que pacientemente também me introduziu nas imensas poesias de János Arany e Petöfi  Sándor. Com 92 anos, Molnar é minha principal fonte sobre as experiências concretas do socialismo real no Leste Europeu. Depois de romper com Moscou, ele conviveu com toda a geração de Pilinszky na Hungria e há pouco ajudou-me com a tradução daquele que é considerado o ápice dos seus versos vazados em uma linguagem despojada e direta: o poema Apokrif,  de 1947, um dramático diálogo com a parábola da volta do filho pródigo.   

Prisioneiro de guerra, Pilinszky testemunhou o horror de diversos campos de concentração, em especial os de Ravensbrüch e Auschwitz. Sua obra toda é marcada pela repulsa aos totalitarismos nazifascista e stalinista, constituindo um caso singular de existencialismo cristão. “Embora reine o nada, o mundo continua a pulsar”, afirmava contra a gratuidade do niilismo. Mesmo assim,  foi considerado um autor excessivamente sombrio e pessimista pelo regime, sendo proibido de publicar entre 1946 e 1969. Em uma Hungria dominada pelo controle cultural soviético, tornou-se um dissidente que jamais aceitaria deixar seu país em definitivo.

Pilinszky ainda traduziu a obra completa de Simone Weil, decisiva para a compreensão da sua poética. Protagonista do que chamava um “engajamento imóvel”, declarava que gostaria de “escrever como quem tivesse permanecido em silêncio”. Apesar de escassamente conhecido na América Latina, o exercício de sua resistência estético-política colheu pronto reconhecimento internacional. Imre Kertész projetaria Pilinszky nos círculos da grande literatura, colocando-o ao lado do romeno Paul Celan como voz poética e testemunho direto da absurdidade dos extermínios na Segunda Guerra Mundial.  

Língua aglutinante da família urálica, o magyar não pertence ao tronco indo-europeu. Com 14 vogais e 18 casos de declinação, o seu aprendizado é considerado lento e difícil, daí o baixo fluxo tradutório desse idioma entre nós. Sem intimidade com o mais elementar do léxico húngaro (só consegui achar curiosa a palavra levelevel), os esclarecimentos, glosas e digressões de Molnar (em francês, inglês, italiano, alemão e espanhol) foram decisivas para o estabelecimento dessa versão em português, para a qual também me servi das traduções de Lorand Gaspar, Pierre Emmanuel, Ted Hughes, Kenneth White, János Csokits e Maurice Regnaut. Se algum mérito tiver essa versão, que se lhes credite; se deslizes houver, já assumo e aceito de bom grado os débitos, pois a alta relevância do poema justifica o risco.

Marcus Fabiano Gonçalves

Leitura do poema por János Pilinszky:

https://www.youtube.com/watch?v=NV_kkX-ZvmA&t=35s

 APÓCRIFO

János Pilinszky

1.

Então tudo será abandonado.

Será separado o silêncio dos céus e para sempre separados
os campos desfeitos do mundo em ruínas
e o silêncio dos canis.
Pelos ares um bando de pássaros em fuga
e veremos o sol nascendo
mudo como uma pupila demente
e calmo como uma fera à espreita.

Mas mantendo a vigília no desterro
porque essa noite não posso dormir
agitado feito milhares de folhas
falo noturnamente como uma árvore:
Conheces o correr dos anos
aqueles sobre campos engelhados?
Compreendes as rugas do perecível
e a minha mão carcomida?
Sabes o nome do órfão?
E sabes que tipo de dor
com cascos fendidos e nadadeiras
pisa sobre a escuridão perpétua?

A noite, o frio, o buraco
a cabeça torcida do condenado
conheces os bebedouros congelados
e as angústias da profundidade?

O sol surgiu. Árvores enegrecem
sob o infravermelho de um céu furioso.
Assim eu parto. Face à ruína
um homem pisa silenciosamente.
Ele não tem nada, é uma sombra
e um bastão. E seu casaco de presidiário.

2.

Eis porque aprendi a caminhar! Para estes
passos tardios e amargos.

Cairá a noite e ela vai se petrificar
sobre mim com sua lama e sob pálpebras cerradas
ainda conservo esse passo, esses arbustos,
esses ramos febris.
Folha a folha, o bosque abrasador.
Outrora era aqui o paraíso.
Dor ressurgindo à beira do sono:
escutam-se suas árvores imensas.

Queria enfim regressar para o lar
como também voltou aquele da Bíblia.
Minha sombra apavorante no pátio.
Um silêncio ferido, os pais velhos na casa
já chegam, estão me chamando, os pobres
estão chorando e abraçam-me trôpegos.
A ordem ancestral novamente me acolhe.
Pouso os cotovelos no vento das estrelas.
Se ao menos uma vez eu pudesse te falar
a ti que tanto amei. Ano após ano
mas não cansava de repetir
como chora uma criança pelos cantos
a esperança desfalecida
de chegar e te achar.

Tua proximidade lateja na minha garganta.
Estou com medo feito um animal selvagem.

Tuas palavras, a fala humana
eu não conheço. Há aves que nesta hora
voam de coração destroçado
sob um céu de fogo.
Tábuas órfãs cravadas em campo ardente
e jaulas queimando imóveis.
Não compreendo a fala humana
e tampouco sei tua língua.
Minha voz, mais que as palavras, é apátrida.

Não tenho palavra alguma.
Um fardo atroz
bordeja no ar e soa
o corpo de uma torre.

Tu não estás em lugar algum. Como está vazio o mundo.
Uma cadeira de jardim e uma espreguiçadeira esquecida lá fora.
Minha sombra faz barulho nas pedras afiadas.
Estou exausto. E exorbitando da terra.

3.

Deus me enxerga de pé sobre o sol.
Ele vê minha sombra na pedra e na cerca.
Ele vê minha sombra parada na prensa
sem ar, sem fôlego.

Então eu já sou como a pedra
ruga morta, desenho de mil sulcos
um punhado de detritos, esse é
o peso do semblante da criatura.

E no lugar de lágrimas, rugas no rosto
correndo, escoando a vala vazia.