
Régis Bonvicino não me soou um pai; era-me tão atemporal que era-me o irmão almejado, o poeta a ser emulado sem intimidação. Régis, lúdico em tudo, sugeriu-me o argumento que matuto sobre uma possível estada de Jim Morrison em minha Santos e seu porto mítico. Nada nele soava postiço. Falava-me da beleza comovente da Catedral de Siena, com sua Biblioteca Piccolomini, em detalhes tocantes de suas volutas e afrescos, com a mesma intimidade com que ressaltava a atualidade de “Pocilga”, do nosso amado Pasolini.
Como uma “borboleta negra, desatenta, com olhos exuberantes”, sua obra tinha expertise rara de sondar o putrefato néon na exuberância neoliberal, o sórdido na incensada patota “woke” travestida de progressista. Régis era nêmesis, apontando o esvaziado conteúdo nas pseudovanguardas datadas, como a linguagem neutra. Sua poética naturaliza, exposta, nossa surrealidade prenhe de possibilidades exorbitantes, onde tudo é experiência nesse mundo master de compra e venda.
Sua utopia em transe, seus versos transmodernos: “… asa aberta do voo… uma estante de livros num banheiro” diante da “míriade de franquias de poetas premiados”. Como queria ouvir Régis — “tayaya world” — sobre um resort em Gaza; ouvir Régis sobre a Flip em homenagem à poeta mártir do ostracismo, morta, fodida de grana, Orides Fontela.
Régis, que passou parte de seu último aniversário falando-nos, na Casa das Culturas de Santos, sobre haikais, haicais, sobre a ojeriza em ler seus próprios poemas em público (Régis tinha liturgia em tudo) e que topou ler o belo “Velho Tema”, do “Poeta do Mar”, o santense Vicente de Carvalho. Era rascantemente lúcido, feito um solo de Miles Davis bebendo Coca-Cola. “É preciso ter alma até para chupar um Chicabon”, dizia Nelson Rodrigues; aprendi, observando o mestre Bonvicino, que ele tinha alma até para beber Coca-Cola.
Mas não proponho cá uma hagiografia; busco resgatar as saudáveis idiossincrasias sintáticas do seu lado Z com o poema persecutório “Lado B”: “Pedra no cachimbo / Estação da Luz: porrada / Verão, sol lilás / Pedra, narguilé / Doce como mel: porrada / Verão, sol púrpura / Uns tragos na lata / De asas já nos pés: porrada / Março, sol turquesa / Cachimbo, cristal / Braços alados, porrada / Março, um raio fúcsia / Lata sem anel / O anu bica o olho do noia / Isqueiro na dobra.”
Rapsódia urbana do menos burguês do aficionado por burgos metaleiros. A Praça Vilaboim, seu Trastevere particular. Tão cosmopolita quanto Borges, mas tão deleuziano quanto São Paulo, terra falsa-feia. Poesia fenomenológica. Atmosferas lisérgicas, peripatéticas, de fios elétricos a parapeitos; transeunte atônito, detalhista do ovo colorido dos botecos com picles requentados.
Um anticareta visceralmente sóbrio: Régis viu todos os abismos e exprimiu, como Buñuel, as cagadas das elites do “jeca-set”. Mas teimo no Bonvicino pasoliniano. O apóstolo friulano cravou na mosca — noutra mosca varejeira:
“A burguesia está se tornando a condição humana. Quem nasceu nesta entropia não tem condições de jeito algum, metafisicamente, de estar de fora. Acabou. Por isto provoco os jovens: esta é, presumivelmente, a última geração que vê os operários e os camponeses; a próxima geração não verá ao seu redor senão a entropia burguesa.”
Que visão! E nosso Bonvicino foi supremo intérprete a retratar motoaplicativos mesmerizados pelo mercado, operários fascistizados sonhando o maná dos “empreendedores”, CNPJs ambulantes, bozo-eleitorado rivalizando uma vaga na “Black Friday”.
O poeta hiperantenado sobre o lumpen pop-erudito: “Os soluços longos dos violinos do outono / aqui Rimbaud / aquele otário / te enrabou por uns trocados.”
Sua lápide pelo tecnocapitalismo, entre chatbots e prompts, a descartabilidade do humano demasiado desumano pelo terror necroeconômico. Que ilusão imaginarmos ser ainda indivíduos… “A luz ofusca o verbo”: onde lugar para nosso ofício, poetas?
Seguirei lendo teus poemas como quem revê a “Trilogia da Vida” e se comove com “Teorema”, amigo Régis. Saúdo-te como faço com Whitman antes de ti. Nosso Whitman brasileiro.
