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A quem interessa a “censura”?

A retirada do capítulo do livro da Routledge em que o CES [Centro de Estudos Sociais] e, sobretudo, três dos seus investigadores são alvo de acusações graves, até agora apenas baseadas em rumores e pichagens de paredes, veio reacender o debate sobre a liberdade de expressão e sobre a censura. O capítulo, cuja cientificidade refutei num outro artigo de opinião (a falta de ética e de rigor científico do capítulo tinham, de resto, já sido denunciados à Routledge por seis reconhecidas cientistas sociais feministas), violava a lei inglesa por conter acusações criminais não-anónimas: duas das autoras indicavam a instituição onde tinham feito a sua formação e a terceira enviara um email a várias pessoas, corroborando os nomes da instituição e dos investigadores visados.

A liberdade de expressão é um bem fundamental e os seus limites devem ser estabelecidos com particular cuidado. As fake news e o hate speech vieram dar ao debate uma renovada intensidade que torna óbvio como é preciso distinguir a liberdade de expressão da libertinagem de expressão. A libertinagem de expressão assenta numa linguagem que não admite contraditório, que diaboliza o adversário e o transforma em inimigo sem redenção, que se deixa possuir pela paixão de vigiar e punir, que usa a vitimização para legitimar a duplicidade de critérios na avaliação do seu próprio comportamento e o dos seus alvos. Atribui-se, assim, ao lugar de fala uma legitimidade absoluta que se confunde com impunidade — tudo em nome da superioridade ética. Todos estes sintomas são hoje já descritos pela psicologia como distúrbios do “wokeism”, que, à falta de melhor, traduzo como “acordamento”. Desde os gnósticos que conhecemos o termo, porém nunca esses “momentos de iluminação”, como Ezra Pound lhes chamava, tiveram o impacto persecutório que hoje estão a ter nas nossas vidas. Mas, não o esqueçamos, Pound via tudo tão claramente e tão melhor do que qualquer outro que acabou ao serviço de Mussolini.

Quem assinou o manifesto contra a suposta censura ou não leu o capítulo ou é conivente com as acusações não-provadas contra o CES, instituição de algumas das assinantes. Pergunta-se: o objectivo é calar Boaventura de Sousa Santos e destruir o CES-centro-de-excelência? A quem interessará tal resultado?

Deparamo-nos com coisas tão absurdas quanto o “todas sabemos” e a afirmação de que se respeita a presunção de inocência. Será que ninguém se dá conta da contradição?

Concentro-me em três acusações contra o conjunto da instituição. Vejamos:

  1. “Sabíamos que a área de investigação desta figura institucional de poder-chave é o sistema de justiça nacional e os operadores judiciários, pelo que tem um contacto muito próximo com o sistema judicial. […], era membro de um grupo de investigação que trabalhava sobre o sistema de justiça do país, o que implicava encontros regulares com juízes locais, advogados, etc.”

Insinua-se que o CES tenta corromper o sistema judicial e, mais, que este é corruptível pelo CES. Isto é particularmente grave porque, entre os nossos observatórios, um dos mais prestigiados é o Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

  1. “O centro de investigação É o Professor-Estrela, por isso, se o Professor-Estrela cair… toda a instituição cai com ele. Por conseguinte, não existe uma massa crítica interna em relação a este tipo de má conduta e abuso.”

Ou seja, em mais de 150 investigadores/as, alguns com vários projectos europeus conquistados, ninguém se aproveita e todos/as vivem à sombra de B.S.S., que passava em Portugal uns quatro meses por ano. As sucessivas classificações de “Excelente” do centro foram certamente o resultado de compadrio entre B.S.S. e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, pois não se imagina que o CV dele, por melhor que seja (está entre os 2% de cientistas mais citados do mundo na lista da Elsevier), bastaria para que tal classificação fosse atribuída ao CES. Note-se que todos os artigos de imprensa repetem esta falsidade, falando insistentemente do caso contra B.S.S. e reproduzindo a sua foto, quando o capítulo é, como vemos, contra o CES no seu conjunto.

  1. “Apesar de realizarem ‘trabalhos e publicações notáveis com e sobre profissionais do sexo, imigrantes transgéneros e mulheres indígenas e afrodescendentes’; de investigarem o assédio no local de trabalho; e de pertencerem aos órgãos de governança científica e ética da instituição, como são pessoas de confiança de pessoas-chave do poder desses órgãos institucionais, em vez de protegerem as investigadoras e estudantes que foram alvo de assédio e abuso sexual, tornam-se em instrumentos de repressão.”

Ou seja, as feministas do CES, entre as quais me incluo, são todas desclassificadas. O seu trabalho é bom, mas o seu carácter é mau, porque integram uma rede de abusos que elas próprias não são capazes de denunciar. Esta é uma calúnia colectiva que parece querer demonstrar que as únicas feministas da instituição eram as autoras do capítulo e, agora, as que as defendem a partir de dentro, aparentemente possuídas por um sentimento de má consciência. Isto, apesar de termos sido pioneiras na investigação de temas feministas e de coordenarmos um programa de doutoramento sobre o tema.

A quem interessa toda esta falsidade que mina a reputação científica do CES? Àqueles a quem o pensamento crítico incomoda particularmente? A outros centros de investigação candidatos a laboratórios associados? Àqueles e àquelas que, dentro do CES, usaram o capítulo para levar a cabo um golpe contra certas orientações epistemológicas e teóricas? E a quem interessa todo este alarido antes de a Comissão Independente realizar o seu trabalho?


 Sobre Graça Capinha

Faculdade de Letras, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra