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Dau al Set, uma filosofia da existência − sobre Arnau Puig

Se quiséssemos iniciar este breve texto sobre a filosofia da existência do Dau al Set com a biografia de Arnau Puig, poderíamos escrever que nasceu em Barcelona em 1926, foi fundador das revistas Algol em 1946 e Dau al Set em 1948, além de ter sido doutor em Filosofia, professor dessa disciplina e catedrático de Estética, crítico de arte e escritor, entre inúmeras outras atividades curriculares. Mas talvez não fosse o mais acertado. Iniciar o texto não iniciado com uma simples descrição dos fatos e das circunstâncias de forma linear, dando motivo historicista a uma trajetória e pensamento completo, mais ainda quando se trata do Dau al Set, não parece o mais apropriado. Por isso, poderíamos convenientemente esquecer o que já foi dito e começar com a afortunada coincidência do grupo e com uma sentença: o homem precisa de uma testemunha de si mesmo. Frase cunhada por Arnau Puig quando se aproxima de Sófocles, para constatar que o homem projeta um caminho tortuoso no qual é provável que haja somente uma trilha fácil de percorrer, e que é ali que o olhar da criança arrisca e adivinha o simples em ação, diferentemente da inação do homem ou da ação errática. Elemento importante, pois essa visão infantil, sem preconceitos, pura e surreal, de ação − mesmo que com o desenvolvimento cultural do homem e com intenção na linguagem significada −, será uma questão nada alheia ao grupo ao qual nos referimos.

Vale dizer que o título dado a este texto é o do livro [1] no qual Arnau Puig deixou registrada, há poucos anos, sua filosofia, e de certo modo, e por extensão, a do Dau al Set. Sem pretensão de ser um livro de memórias ou simples livro histórico, mas com a intenção de construir a própria filosofia e de apresentar os motivos que permitiram que o grupo eclodisse em um cenário certamente desolador. O franquismo foi a circunstância especial na qual convergiram diversos jovens, artistas e poetas. Sem nos esquecermos de outra circunstância histórica anterior, a proclamação da República na Espanha, em 14 de julho de 1931, momento em que a linguagem ansiava por se situar na realidade e ser seu reflexo. Criado em um ambiente pequeno-burguês, Arnau Puig viu a necessidade de elaborar sua essência e de começar a ser: “Ou ficava trancado em um sistema linear, mas que acaba sendo cíclico, como o do filósofo italiano Giambattista Vico, com os avanços e retrocessos corretivos, corsi ed ricorsi, da humanidade, ou me colocava em algo semelhante, embora individualizado, com os heróis de Carlyle, que vão contribuindo com uma tocha depois da outra”. Esta individualidade, o avanço solitário (marginalizado é o desertor social, seguindo Nietzsche; o autêntico solitário é aquele com quem ninguém quer estar, nos diz Arnau Puig), a essência intangível do homem encontra-se representada na raiz quadrada de 2. Arnau Puig insiste nessa ideia, que mais tarde foi disparadora de um poema-objeto de Joan Brossa, dado que “o individual se afasta da norma, não está incluído nela”. E o que é único e exclusivo, o homem, estaria sob o amparo infinito dessa raiz quadrada.

Então essa operação matemática, que é representação da individualidade e do verdadeiro significado do homem, serve para desenvolver, em Arnau Puig, a intenção da busca artística, que é a não aceitação das estruturas e das normas como nos são dadas, e sim a insistência na excepcionalidade e em “encontrar a autêntica raiz radical do que é um indivíduo, uma pessoa”. No segundo número da revista Dau al Set é publicado um artigo sobre os espaços imateriais, aqueles que podem ser representados por meio de signos matemáticos. Assim, o número Pi poderia representar a razão matemática entre a longitude de uma circunferência e seu diâmetro, “mesmo que este número seja incomensurável, isto é, que nunca possa ser alcançado exatamente, como acontece com as pessoas, com os indivíduos”, como a raiz quadrada poderia ser o signo de um espaço imaterial como o do homem. O perspectivismo de Ortega y Gasset complementa o intangível: “onde estou eu não estará ninguém”. E o autor nos coloca na pista do resultado do espaço imaterial citado e a necessidade de começar do ser na asfixiante e carcerária etapa franquista: para Ponç, Tàpies, Cuixart ou Brossa, “tudo era subjetivo, tudo era marginal, tudo acontecia em outro lugar”.

O “colocar-se em outro lugar” fez com que o grupo abraçasse o surrealismo, que permitia proceder sem coerência e sem congruência, e, mesmo que de forma aparente tudo fosse irracional, Arnau Puig nos adverte de que ele procurava incorporar o racional, porque para o grupo isso não era um impedimento “para evidenciar a autenticidade do sentido e do desejável”. Essa necessidade de retorno à linguagem da República, poderíamos dizer, parecia ser parte da ânsia criativa, pois “não se tratava simplesmente de compreender as palavras ou as formas − decifrar o código −, mas de captar um sentido real, o sentido que tem para quem emite a informação”. Aqui se produz um deslocamento do sentido, pois Arnau Puig nos dirá que não se encontra a coerência no código, e sim no indivíduo. Somente conhecendo as circunstâncias do emissor/criador e do receptor podemos nos aproximar da compreensão. A realidade se objetiva metafisicamente e o indivíduo, raiz quadrada de 2, é o epicentro do fenômeno. O sentido real, além da simples compreensão, será uma nova forma de fazer, nua e complexa, e o grupo Dau al Set sentirá a necessidade não somente de sofrer a história, como também de construí-la. O autor, como consequência disso, se pergunta: “Como realizar nossa vida se isso há de ser feito a partir das normas, e não de sua realidade, quando é óbvio que da realidade deveriam sair as normas?”.

Tendo o indivíduo como centro, a realidade do indivíduo, a vida e o imediato são as unidades que fazem aflorar o poema visual. O surrealismo é uma boa representação do desatar da racionalidade, mas, apesar de o grupo se aproximar de suas formulações, “não eram poemas surrealistas no sentido freudiano, com o qual os objetos surrealistas haviam sido executados”. Algo de paranoia crítica deveriam esconder, como sinaliza o autor, à moda de Dalí, que é também a que J. V. Foix aplicou a seus poemas. E de inconformismo e de oposição ao imperante. Em Ponç, subjugava a iconografia religiosa de conteúdo herético, a disposição diabólica; em Brossa, o noturno, a linguagem críptica e necromântica; em ambos, o mundo primitivo, ancestral, espiritual; na linguagem visual de Joan Prats, a apropriação da natureza pelo homem, e nela o encontro dos signos próprios; no essencialismo de Juan Eduardo Cirlot, o ser implica tudo; em Tàpies, a rebeldia contra o ambiente burguês, a mudança de uma linguagem, o “detrito material e espiritual” e as “transformações mágicas de todo o real e simbólico”. E o fundamental na primeira etapa do grupo é a vivência, não a coerência; a espontaneidade vital. Um “viver vivenciado é o que buscávamos”, diz Puig. “Não existe outra realidade senão aquela que foi se acumulando em cada pessoa”, escreve Ortega y Gasset. Não é casual; é evidente o perspectivismo de Ortega y Gasset na obra sobre a filosofia da existência de Arnau Puig. O Dau al Set simpatizava com as formas, no desenvolvimento da arte através da endopathia: “As formas da arte nos emocionavam porque as vivíamos de dentro, nos projetávamos nelas”. A cultura imposta, estabelecida, havia enterrado a verdadeira significação da realidade; essas raízes estavam ocultas e um novo olhar era necessário para descobri-las, deixar exposto perante o homem o próprio homem, camuflado no regime e eliminado como entidade individual e repleta de múltiplos significados. Ir além da oficialidade caduca e simplista.

Duas afirmações:
1. “Em Brossa sempre houve jogo visual e conceptual.”
2. “Tàpies se apoderava do objeto e o insultava, o destroçava.”

A exceção aos fatos de Alfred Jarry, contemplando o mundo com olhar grotesco e nova sensibilidade com relação ao real, através do inverossímil fantástico, é uma contribuição importante. Como foi Duchamp para o grupo, com a nova captação das formas da arte, e Raymond Russel para o autor, pois aqui a linguagem e o que é dito guardam significação oculta, em que “o expressado se desmorona em outra leitura” e os jogos de palavras adquirem importância. Jarry, Duchamp e Russel propõem outra visão. Como o grupo Dau al Set − contrário ao establishment da burguesia e artífice da renovação na arte. Vale destacar a análise que Arnau Puig faz da arte povera, uma nova contribuição dos artistas italianos à forma, que recupera o objeto não como o conceito que possamos ter do objeto, mas como objeto que está aqui e agora e no qual tudo é ação, e a atração é o homem fora do ambiente, “que nos permite encontrar, quando passa a considerá-lo, as mais profundas raízes de nossos condicionantes afetivos e sensoriais, pessoais e intransferíveis, ao contrário do que nos fora inculcado pela cultura”.

Arnau Puig, em sua obra filosófica de desenvolvimento e experiência de grupo, faz confluir o saber clássico, a cultura, a informação, Sófocles, Manuel Sacristán, Ortega y Gasset, o PSUC [Partit Socialista Unificat de Catalunya], Alfred Jarry, Eugeni D’Ors, Duchamp, Barthes, a Pop Art, Aristóteles, o Conde de Volney, Newton etc. Vale a pena, portanto, mencionar essa vontade não somente de apreender a realidade, mas de fazê-lo a partir da base cultural profunda e eclética do autor, para que o leitor possa obter uma melhor composição de lugar: as novas formas são descobertas a partir da compreensão e do estudo das antigas, a partir também da interação com a realidade política, a partir da marginalização de Arnau Puig na volta a Paris no início dos anos 1960. E tudo isso para uma visão assentada, mas nova, da pessoa, “filtro da existência” e da arte como ação ou como espiritualidade. Um informalismo plástico e poético que encontramos no grupo, “filho da raiva e da necessidade de mostrar que a arte é para que aflore a mais profunda intimidade”. “Os autenticamente livres vão sempre com o peito nu, inclusive são capazes de mostrar o amálgama desprezível e o dejeto que pode ser sua consciência e sua existência. A arte é um exemplo disso. A arte informal, seu máximo exemplo.”

Se quiséssemos encerrar este breve texto que já foi lido sobre a filosofia da existência do Dau al Set com a biografia de Arnau Puig, poderíamos escrever que nasceu em Barcelona em 1926, foi fundador das revistas Algol em 1946 e Dau al Set em 1948, além de ter sido doutor em Filosofia, professor dessa disciplina e catedrático de Estética, crítico de arte e escritor, entre inúmeras outras atividades curriculares. Embora já tenha sido dito, parece o mais acertado encerrar o texto já concluído com uma descrição dos fatos e das circunstâncias de forma linear, dando motivo historicista a uma trajetória e pensamento completo, mais ainda quando se trata do Dau al Set, se o leitor acompanhou as teses do grupo. Um conhecimento mais aproximado do autor é necessário, pois, abrangendo as circunstâncias do emissor/criador (e também as suas, leitor/receptor), poderemos nos aproximar mais da compreensão do motivo artístico do grupo, dado que “as coisas têm ou adquirem um sentido ou outro segundo as apropriações que faz o indivíduo”.

Iván Humanes (Barcelona, 1976), escritor, é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona.


Dau al Set, una filosofía de la existencia
Arnau Puig
Barcelona, Flor del Viento, 2003
224 p.

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[1] O leitor que quiser ter uma referência e uma visão mais completa do que aqui foi exposto em síntese, fará bem em se familiarizar com a obra que citamos e da qual os textos entre aspas são transcrição: Dau al Set, una filosofía de la existencia, de Arnau Puig. Barcelona: Flor del Viento, 2003.

 


Dau al Set, una filosofía de la existencia − alrededor de Arnau Puig

Por Iván Humanes

Si nos interesase iniciar el breve texto que sigue alrededor de la filosofía de la existencia de Dau al Set con la biografía de Arnau Puig, podría escribirse que nació en Barcelona en 1926, que fue fundador de Algol en el 46 y de Dau al Set en el 48, además de Doctor en Filosofía, profesor de dicha disciplina y Catedrático de estética, además de crítico de arte, creador y otro sinfín de elementos curriculares. Pero quizás no sería lo más correcto. Iniciar el texto no iniciado con una simple descripción de los hechos y circunstancias en plano, dando motivo historicista a un recorrido y pensamiento completo, más aún si hablamos de Dau al Set, no parece lo más apropiado. Así que, oportunamente, podríamos olvidarnos de lo antedicho y comenzar por la venturosa coincidencia del grupo y con una sentencia: el hombre necesita un testigo de sí mismo. Que es frase que desarrolla Arnau Puig cuando se aproxima a Sófocles, para constatar que el hombre proyecta un camino tortuoso donde es probable que tan sólo haya una senda de fácil recorrido, y que es ahí donde la mirada del niño arriesga y adivina lo sencillo actuando, a diferencia de la inacción del hombre o de la acción errática. Elemento importante, pues esa visión infantil, sin prejuicios, pura y surreal, de acción −aunque con el desarrollo cultural del hombre y con intención en el lenguaje significado −, será una cuestión nada extraña para el grupo del que nos ocupamos.

Valga decir que el título del texto que aquí se da es el del libro [1] con el que Arnau Puig dejó constancia hace unos pocos años de la filosofía propia y, en cierto modo y por extensión, de Dau al Set. Sin pretensión de libro de memorias o libro histórico sin más, sino con la intención de construir la propia filosofía y acercarnos a los motivos que pudieron hacer eclosionar el grupo en un paraje ciertamente desolador. Pues fue el franquismo la circunstancia especial en la que convergieron unos cuántos jóvenes, artistas y poetas. Sin que podemos olvidarnos de otra circunstancia temporal anterior como fue la República en España, el 14 de julio de 1931, donde el lenguaje ansiaba situarse en la realidad y ser reflejo de la misma. Criado en un ambiente pequeño burgués, Arnau Puig vio la necesidad de elaborar su esencia y de comenzar a ser, así: “O me quedaba encerrado en un sistema lineal, pero que acaba siendo cíclico, como el del filósofo italiano Giambattista Vico con los avances y retrocesos correctivos, corsi ed ricorsi, de la humanidad o me instalaba en algo semejante, aunque individualizado, con los héroes de Carlyle, que van aportando antorcha tras antorcha”. Esta individualidad, el avanzar solo (marginado es el tránsfuga social, siguiendo a Nietzsche; el auténtico solitario es aquel con quien nadie quiere estar, nos dice Arnau Puig), la esencia inasible del hombre podemos encontrarla representada en la raíz cuadrada de 2. Arnau Puig insiste en esta idea, que fue detonante posterior de un poema objeto de Joan Brossa, dado que “lo individual se aparta de la norma, no se incluye en ella”. Y lo único y exclusivo, el hombre, estaría bajo el paraguas infinito de dicha raíz cuadrada.

Entonces, esta operación matemática, que es representación de la individualidad y del verdadero significado del hombre, sirve para desarrollar en Arnau Puig la intención de la búsqueda artística, que es la no aceptación de las estructuras y las normas como nos vienen dadas sino la insistencia en la excepcionalidad y “hallar la auténtica raíz radical de lo que sea un individuo, una persona”. Precisamente en el segundo número de la revista Dau al Set se publica un artículo sobre los espacios inmateriales que son aquellos que se consiguen representar mediante signos matemáticos. Así, el número Pi podría representarnos la razón matemática entre la longitud de una circunferencia y su diámetro, “aunque este número sea inconmensurable, es decir no se le puede alcanzar nunca exactamente, como sucede con las personas, con los individuos”, como la raíz cuadrada podría ser el signo de un espacio inmaterial como es el del hombre. El perspectivismo de Ortega y Gasset complementa lo inasible: “donde estoy yo no estará nadie”. Y el autor nos pone sobre la pista del resultado del espacio inmaterial citado y la necesidad de comenzar del ser en la asfixiante y carcelaria etapa franquista: para Ponç, Tàpies, Cuixart o Brossa “todo era subjetivo, todo era marginal, todo ocurría en otra parte”.

El “ponerse en otra parte” hizo que el grupo abrazara el surrealismo, que permitía proceder sin coherencia y sin congruencia, y aunque de forma aparente todo era irracional Arnau Puig nos advierte que él procuraba hacer entrar lo racional porque no era para el grupo un impedimento, según el autor, “para evidenciar la autenticidad de lo sentido y lo deseable”. Esa necesidad de retorno al lenguaje de la República, podríamos decir, parece que entraba dentro del ansia creativa pues “no se trataba simplemente de comprender las palabras o las formas – desciframiento del código − sino de captar un sentido real, el que tiene para quien emite la información”. Aquí se produce un desplazamiento del sentido, pues nos dirá Arnau Puig que no se encuentra la coherencia en el código sino en el individuo. Sólo conociendo las circunstancias del emisor/creador y del receptor podremos acercarnos a la comprensión. La realidad se objetiva metafísicamente y el individuo, raíz cuadrada de dos, es el epicentro del fenómeno. El sentido real, más allá de la simple comprensión, será una nueva forma de hacer, desnuda y compleja, y el grupo Dau al Set sentirá la necesidad no sólo de sufrir la historia sino de construirla. El autor, como consecuencia de ello, se pregunta: “¿Cómo realizar nuestra vida si se ha de hacer desde las normas y no desde su realidad, cuando es obvio que desde la realidad tendrían que salir las normas?”.

Teniendo al individuo como centro, la realidad del individuo, la vida y lo inmediato son las unidades que hacen aflorar el poema visual. El surrealismo es una buena representación de desatar la racionalidad, pero aunque el grupo se acercó a sus formulaciones, “no eran poemas surrealistas en el sentido freudiano con el que se habían ejecutado los objetos surrealistas”. Algo de paranoia crítica debían esconder, como apunta el autor, a la manera de Dalí, que también es la que aplicó en los poemas J. V. Foix. Y de inconformismo y de oposición a lo imperante. En Ponç subyugaba la iconografía religiosa de contenido herético, la disposición diabólica; en Brossa lo nocturno, el lenguaje críptico y nigromántico, en ambos el mundo primitivo, ancestral, espiritual; en el fotoscop de Joan Prats la apropiación de la naturaleza por el hombre, el encuentro en ella de los signos propios; en el esencialismo de Juan Eduardo Cirlot el ser lo implica todo; en Tàpies la rebeldía contra el ambiente burgués, el cambio de un lenguaje, el “detritus material y espiritual” y las “transformaciones mágicas de todo lo real y simbólico”. Siendo lo principal en la primera etapa del grupo la vivencia y no la coherencia, la espontaneidad vital. Un “vivir vivenciado es lo que buscábamos”, dice Puig. “No hay otra realidad que aquella que se ha ido acumulando en cada persona”, escribe Ortega y Gasset. No es casual, es evidente, el perspectivismo de Ortega y Gasset en la obra sobre la filosofía de la existencia de Arnau Puig. Dau al Set simpatizaba con las formas, en un desarrollo del arte mediante la endopathia: “Nos emocionaban las formas del arte porque las vivíamos desde dentro, nos proyectábamos en ellas”. La cultura impuesta, establecida, había enterrado la verdadera significación de la realidad, esas raíces estaban ocultas y una nueva mirada era necesaria para descubrirlas, dejar expuesto ante el hombre el propio hombre, camuflado en el régimen y eliminado como entidad individual y plena de múltiples significado. Ir más allá de la oficialidad caduca y simplista.

Dos afirmaciones:
1. “En Brossa siempre hubo juego visual y conceptual.”
2. “Tàpies se apoderaba del objeto y lo insultaba, lo destrozaba.”

La excepción a los hechos de Alfred Jarry, contemplando el mundo con un mirar grotesco y una nueva sensibilidad hacia lo real a través de lo inverosímil fantástico es una aportación importante. Como lo fue Duchamp para el grupo y la nueva captación de las formas del arte y Raymond Russel para el autor, pues aquí el lenguaje y lo dicho guarda una significación oculta, donde “lo expresado se desmorona en otra lectura” y los juegos de palabras cobran importancia. Jarry, Duchamp y Russel proponen otra visión. Como el grupo Dau al Set, contestatarios a la burguesía y artífices de la renovación del arte. Destacable es el análisis que practica Arnau Puig alrededor del arte povera, que es una nueva aportación de los artistas italianos a la forma, que recuperan el objeto no como el concepto que tengamos del objeto, sino como objeto que está aquí y ahora y donde todo es acción, y la atracción es el hombre fuera del entorno, “que nos permite hallar, cuando procede a considerarlo, las más hondas raíces de nuestros condicionantes afectivos y sensoriales, personales e intransferibles, al contrario de lo que nos ha inculcado la cultura”.

Arnau Puig en su obra filosófica de desarrollo y experiencia de grupo, hace confluir el saber clásico, la cultura, la información, Sófocles, Manuel Sacristán, Ortega y Gasset, el PSUC, Alfred Jarry, Eugeni D’Ors, Duchamp, Barthes, el Pop Art, Aristóteles, el Conde de Volney, Newton etc. No estaría de más, por lo tanto, traer a colación esa voluntad no sólo de aprehender la realidad, sino hacerlo desde la base cultural, profunda y ecléctica del autor, para que el lector pueda hacerse una mejor composición de lugar: las nuevas formas se descubren desde la comprensión y estudio de las antiguas, desde la interacción con la realidad política también, desde la propia marginación al regreso a París al inicio de los sesenta en Arnau Puig. Y todo ello para tener una visión asentada pero nueva de la persona, “filtro de la existencia” y del arte como acción o como espiritualidad. Un informalismo plástico y poético que hallamos en el grupo, “hijo de la rabia y de la necesidad de mostrar que el arte es para que aflore la más profunda intimidad”. “Los auténticamente libres van siempre a pecho descubierto porque incluso son capaces de mostrar el amasijo deleznable y el desecho que pueda ser su conciencia y su existencia. El arte es ejemplo de ello. El arte informal, su máximo ejemplo.”

Y si nos interesase cerrar el breve texto que ha sido ya leído alrededor de la filosofía de la existencia de Dau al Set con la biografía de Arnau Puig, podría escribirse que nació en Barcelona en 1926, que fue fundador de Algol en el 46 y de Dau al Set en el 48, además de Doctor en Filosofía, profesor de dicha disciplina y Catedrático de estética, además de crítico de arte, creador y otro sinfín de elementos curriculares. Aunque ya se ha dicho, parece lo más correcto. Y es que cerrar el texto ya concluido con una descripción de los hechos y circunstancias en plano, dando motivo historicista a un recorrido y pensamiento completo, más aún si hablamos de Dau al Set, es lo más correcto si el lector ha seguido las tesis del grupo. Un conocimiento más aproximado al autor es necesario, pues abarcando las circunstancias del emisor/creador (y también de ti, lector, receptor) podremos acercarnos más a la comprensión del motivo artístico del grupo, dado que “las cosas tienen o adquieren un sentido u otro según las apropiaciones que hace el individuo”.


Iván Humanes (Barcelona, 1976), escritor, es licenciado en Derecho por la Universidad de Barcelona.

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[1] Hará bien el lector que quiera tener una referencia y una visión más completa de lo que aquí se expone a modo de síntesis, hacerse con la obra que referimos y de la que los textos entrecomillados son traslación: Dau al Set, una filosofía de la existencia, de Arnau Puig. Barcelona: Flor del Viento, 2003.


 Sobre Iván Humanes Bespín

Nacido en Barcelona (España) en 1976. Licenciado en Derecho por la Universidad de Barcelona y realizó estudios de Filosofía. Codirector de la revista literaria DADO ROTO. Es colaborador de la revista Escribir y Publicar y del sitio electrónico Literaturas.com, para los que ha realizado entrevistas a Martin Amis, Andreu Martin, Fernando Arrabal, Guillermo Martínez, Lázsló Krazsnahorkai, Peter Stamm, Agustín Fernández Mallo o Stephan Audeguy, entre otros. En el 2005 publicó el libro La memoria del laberinto (Biblioteca CyH), que consta de diecinueve relatos cortos. En 2006 el ensayo Malditos. La biblioteca olvidada (Grafein Ed.), del que es coautor. Y en 2007 en la obra 101 coños, que aúna hiperbreves e ilustraciones (Grafein Ed.). Su sitio en la red es www.ivanhumanes.com.