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O gueto de Varsóvia

OS VENDEDORES DE CIGARROS DA PRAÇA TRÊS CRUZES

Joseph Ziemian
Tradução de Jacob Lebensztayn

Excerto do capítulo 1, “O encontro”:

Em um dia de outubro, eu andava pela rua Nowy Swiat em direção à avenida Jerozolimskie, 23, 2º portão, 1º andar, onde funcionava a RGO [Rada Główna Opiekuncza], Assistência Social Polonesa, onde eu jantava quase todos os dias. Estava atrasado, de modo que me apressei para não encontrar a cozinha fechada.

A rua estava repleta de pessoas. De repente, notei entre a multidão dois rapazinhos: um parecia ter dezesseis anos, o outro, treze. Como através de uma névoa, o rosto do mais velho me parecia o de alguém conhecido do gueto. Logo desconfiei que eram crianças judias sem lar. É impossível, pensei, já se passaram alguns meses desde a destruição total do gueto. Quase todo dia prendiam e executavam judeus que se escondiam no lado ariano. Sobreviver na selva da ocupação exigia energia e sagacidade. Nem judeus adultos suportavam a luta diária pela vida, quanto mais crianças.

Repentinamente, nossos olhos se cruzaram. Foi o suficiente para dissipar qualquer dúvida. Com certeza existe muita verdade no dito de que um judeu reconhece outro a distância. Resolvi aproximar-me deles, mas para estabelecer contato com alguém devia-se tomar muito cuidado e não abrir logo as cartas. Frequentemente, o medo era recíproco: abordar um desconhecido e conseguir sua confiança não eram coisas fáceis. Quando não se tratava de grandes amigos, encontros casuais entre judeus – mesmo conhecidos – acabavam em geral com um rápido diálogo: “Desculpe, eu não o conheço, o senhor deve ter se enganado”. Em seguida, cada um ia para um lado, apagando as pegadas. Os perseguidos tinham medo da própria sombra.

As crianças de rua, que tinham apenas a pobre roupa sobre si, não interessavam aos shmalzers. Por isso, talvez, elas fossem menos visadas do que os adultos. Ainda assim, elas também deviam tomar cuidado. Quando se aproximavam de alguém, deviam negociar conforme os princípios de vida do lado ariano, tomando cuidado para não serem desmascaradas.

Entrei pelo portão. Por um instante voltei-me e de novo nossos olhares se cruzaram. O gelo se quebrou: parecia que os meninos estavam famintos de calor humano, por isso me seguiram. Entramos quase juntos na cantina da RGO. Sentei-me a uma mesinha, e próximo a mim sentaram-se os garotos. Comiam ali mendigos, pessoas refugiadas de distritos incorporados ao Terceiro Reich, pequenos funcionários públicos, intelectuais empobrecidos etc. Muitos judeus escondidos no lado ariano usavam as cantinas da RGO, espalhadas pela cidade. O principal assunto das conversas era a guerra.

Nesse ambiente desfavorecido, eu me sentia mais seguro. Observava os garotos. O mais velho tinha o rosto redondo, olhos azuis espertos, cabelos castanho-escuros, enfim, tinha aparência ariana. Dava a impressão de ser enérgico e bastante seguro. Vestia-se discretamente: usava uma camisa branca e um agasalho. O mais novo parecia mais semita. Tinha rosto magro, nariz alongado, olhos azul-escuros meigos, e os cabelos lhe caíam sobre a testa. Usava um casaco muito comprido e calças rotas. Seus pés, em tamancos, estavam roxos de frio. Os dois garotos olhavam pela sala. Percebi por sua curiosidade que queriam conversar comigo. Rapidamente terminei de almoçar e deixei a cantina. Com leve balanço de cabeça indiquei-lhes que me seguissem.

No pátio, o mais velho me perguntou:

— Desculpe, o senhor não trabalhava na placowka da estação de trem?

— Você trabalhava lá? – devolvi a pergunta. Ele disse que sim, embora com isso confessasse que era judeu.

— O que o senhor está fazendo aqui? Onde mora? – perguntou de novo. Parecia que o meu silêncio à sua primeira pergunta lhe revelara a minha origem.

Eu estava num impasse: não podia revelar minha “profissão” nem meu endereço. Essa era a primeira regra da vida na clandestinidade.

— Moro em casas destruídas, dou sempre um jeito – respondi com ar preocupado.

Eu queria apresentar minhas condições de vida para que eles também contassem as suas. Isso talvez pudesse desfazer a estranheza entre nós e também reduzir as chances de eu ser chantageado ou denunciado por eles.

— Se o senhor quiser, pode dormir com a gente, na casa de uma polonesa – disse o garoto.

Quando ouvi essa sugestão, quase perdi a fala. O que tinha acontecido para eu ganhar daquele modo sua simpatia e confiança? Naquela época, era um fenômeno raro que alguém abrisse as próprias cartas.

— Nós somos muitos. Negociamos na praça Três Cruzes – acrescentou o menor. — A gente se ajuda e as coisas estão dando certo.

— Às vezes, os rapazes poloneses nos provocam e pedem para ver nossos documentos. Mas a gente sabe se defender – explicou o mais velho.

Aquilo me pareceu inacreditável. Pensei que essa história fosse produto de uma fantasia juvenil. Ninguém acreditaria. “Quanto de verdade há nisso?”, perguntei para mim mesmo.

Conversamos mais alguns minutos. Dei uma desculpa para me esquivar do convite dos garotos e combinei de conversar com eles no dia seguinte, no mesmo lugar.

 Menino judeu vendendo doces no Gueto de Varsóvia

ZIEMIAN, Joseph. Os vendedores de cigarros da praça Três Cruzes. Tradução do ídiche e apresentação de Jacob Lebensztayn. São Paulo: Três Estrelas, 2019.