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A música, muito além do instrumento

No início de 2002, por diversão, decidi fazer um livro com cem versos de todos os temposda poesia brasileira (colônia e depois). Fechei-me no carnaval daquele ano e construí a primeira versão do que só agora se traz a público, com alguns poetas portugueses incor- porados. Desde então, fiz várias revisões no trabalho, excluindo um verso aqui e incluindo outro ali, conferindo ao conjunto talvez um caráter ainda mais pessoal. Desde o início imaginei essa quase antologia como, também, um poema autônomo com começo, meio e fim, de minha autoria e risco. Um poema lúdico. Um poema-colagem. Concluí o trabalho em 2008. Não me lembro mais de quais poemas retirei os versos. O volume, de início, re- cebeu o título de Cem versos ou quase. Posteriormenteo alterei para A música, muito além do instrumento, verso de Henriqueta Lisboa. A disposição dos versos respeita em geral a ordem cronológica dos autores e dos movimentos estéticos, mais ou menos estabilizados, a que pertencem. Espero que o eventual leitor então o aprecie.

Régis Bonvicino
São Paulo, 15 de julho de 2015.

O todo sem a parte, não é o todo;
a parte sem o todo não é a parte;
mas se a parte o faz todo, sendo parte,
não se diga que é parte, sendo o todo.
Gregório de Matos
When I’m drivin’ in my car
And that man comes on the radio
He’s tellin’ me more and more
About some useless information
Supposed to fire my imagination
I can’t get no, oh no no no
Hey hey hey, that’s what I say
I can’t get no, satisfaction
Mick Jagger e Keith Richards

Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li
Álvaro de Campos
Para não se entender, é labirinto
Gregório de Matos
Largo em sentir, em respirar sucinto
Gregório de Matos
Despe a Serra os horrores da aspereza
Alvarenga Peixoto
Devora o nome
também, Marília
Tomás Antonio Gonzaga
Veste o engano o aspecto da verdade
Cláudio Manuel da Costa
Miríades de vermes lá me esperam
Junqueira Freire
Eu sou aquela flor que espero ainda
Gonçalves Dias

Tupã! Lá rompe o sol do leito inútil
Gonçalves Dias
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Castro Alves

Passo as noites aqui e os dias longos
Álvares de Azevedo
Extintas inscrições de versos mortos
Álvares de Azevedo
Que a usura não paga, o pagão!
Sousândrade
Assisto agora à morte de um inseto!…
Augusto dos Anjos

A influência má dos signos do zodíaco
Augusto dos Anjos
Verme – é o seu nome obscuro de batismo
Augusto dos Anjos
Concede, Sol, que os manipansos não possam
Cruz e Souza

Tateando na esfera imensa
Cruz e Souza
(seios) Da aurora de ouro do esplendor do sangue
Cruz e Souza
Sinto pelos no vento… É a Volúpia que passa
Gilka Machado
E o pêssego comer apenas pelo tato
Gilka Machado

O obstáculo estimula, torna-nos perversos
Cesário Verde
A hora foge vivida
Mário de Sá-Carneiro
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Manuel Bandeira
Basta de Shakespeare
Álvares de Azevedo
O passado é lição para se meditar, não para reproduzir
Mário de Andrade

Num perfume de heliotrópios e de poças gira uma flor do mal
Mário de Andrade
Esta é a floresta de hálito podre
Raul Bopp
Águas defuntas estão esperando a hora de apodrecer
Raul Bopp

Contando silenciosos coisas nulas
Jorge de Lima
A música, muito além do instrumento
Henriqueta Lisboa
Da injustiça em peso – o roxo tombo
Henriqueta Lisboa

Sempre dentro de mim meu inimigo
Carlos Drummond de Andrade
Quanto a mim adverso ao Nada, teu ímã
Murilo Mendes
No espaço nulo de outrora
Murilo Mendes

O Fazedor anula o inferno que o refina
Mário Faustino
E a cor que escorre dos meus dedos
Cecília Meireles
Juventude
a jusante à maré entrega tudo
Mário Faustino
Opalesci amar-me entre mãos raras
Fernando Pessoa
que a vida para sobreviver se cria
João Cabral de Melo Neto
Eu próprio sou aquilo que perdi
Fernando Pessoa
(Nascimento) e se soubesse o que teria de tédio à frente, abortaria
João Cabral de Melo Neto

E o meu princípio floresceu em Fim.
Fernando Pessoa

Edições consultadas
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Régis Bonvicino, considerado pelo crítico Alcir Pécora um dos maiores poetas brasileiros vivos, nasceu na cidade de São Paulo em 25 de fevereiro de 1955. Formou-se em direito pela Universidade de São Paulo em 1978. Trabalhou como articulista do jornal Folha de S. Paulo e de outros veículos até ingressar na magistratura em 1990. Seus três primeiros livros, Bicho papel (1975), Régis Hotel (1978) e Sósia da cópia (1983), foram por ele mesmo editados. Hoje estão reunidos no volume Primeiro tempo. Destacam-se entre suas coletâneas: Ossos de borboleta (1996), Céu-eclipse (1999), Remorso do cosmos (de ter vindo ao sol) (2003) e Página órfã (2007), esta publicada pela Martins Fontes, e Estado crítico (2013). Entre 1975 e 1983, dirigiu as revista de poesia Qorpo Estranho – com três números –, Poesia em Greve e Muda. Fundou, em 2001, e co-dirige, até hoje e hoje ao lado de Charles Bernstein, a revista Sibila (http://sibila.com.br). Também é co-organizador, ao lado de Yao Feng, da primeira antologia de poetas chineses contemporâneos publicada no Brasil, Um barco remenda o mar (2007). Fez leituras de poemas em Buenos Aires, Miami, Copenhague, Paris, Marselha, Berkeley, Nova York, Chicago, Coimbra, Cidade do México, Santiago de Compostela, Santiago de Chile, Barcelona, Hong Kong e Macau. Sua obra já foi traduzida para o inglês, espanhol, francês, chinês, catalão, finlandês e dinamarquês. Bonvicino é um dos poetas brasileiros mais conhecidos no mundo, tornando-se uma referência brasileira no exterior

Copyright © 2015 by Régis Bonvicino
Distribuição exclusiva desta obra em formato digital: e-galáxia
Editor responsável: Tiago Ferro
Preparação Cristina Yamazaki
Revisão Huendel Viana
Capa: A2 sobre imagem de Juan Ponç, Suite Instruments de Tortura, 1956.
1ª edição – 2015
Este livro foi editado através da e-galáxia
www.e-galaxia.com.br


 Sobre Régis Bonvicino

Poeta, autor, entre outros de Até agora (Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo), e diretor da revista Sibila.