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HÁLUX: poemas do livro inédito de Marcus Fabiano Gonçalves

 

 

“o que acontece ao ar” é a dança
[…]
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir

Herberto Helder, Antropofagias, Texto III
 

HÁLUX II

a difusa luz na moleira
amornando o mármore
e uns mágicos elásticos
dos atilhos musculares

sorrisos calam martírios
em movimentos suaves
e no cerrar das cortinas
sob as meias tudo arde

o seu castelo de artelhos
vive à beira do desastre
porém em cada sapatilha
algo revoga a gravidade

um pino vivo em vórtice
sustentando-a pelos ares
no ponto de apoio móvel
as forças ocultas do hálux.

 

 

 

 

Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Drummond, Um boi vê os homens
 

Árvores da paisagem calma,
Convosco – altas, tão marginais! –
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto

Manuel Bandeira, Boi Morto
 

OLHO DE BOI

se fora do pasto só mamasse mamilos e mecânicos orifícios, sem jamais temer a peçonha do preclaro ofídio desapercebido: boi bom, boi vivo. festim e fulgor fátuo no bramir medonho do sumiço: sílabas do vaqueiro cedendo a outros (somenos) signos, a exemplo dos tais dígitos: boi morto, prejuízo. na fazenda modelo, a indumentária decimal nos madrigais de um velho monitor de âmbar: fascínio do postiço em cantoneira de chanfra a comandar ciclos entre o veraz e o ridículo. eis o caso do que mesmo falho é entretanto verossímil na ladainha escura propagando argúcias do mais lauto e tóxico pelo desfiar de seus opróbrios: o gado que são (e somos) perante si e o próximo em puros termos de rebanho e código. o corno mocho, o guampa torta, o chifre em lua, o aspa afiada. sim: há metáforas e há trapaças, se em cada folha muda e pálida oferta-se uma nova carcaça imolada em náusea. sob o sol tórrido, a pilha de nervos estende sua plataforma de esterco: adubo estival no leite morno do bezerro, leiva de aluvião no couro vivo do bovino. refratando sombras de murta e mirtilo, ágata e gnaisse em lampejos vítreos: um olho de boi, te engolindo.

 

 

 

MINAS E O ALEIJADINHO

retocador do nariz de anjos, daqueles mais tomados de bicheiras. acha neles o sobrante apelo debruçando-se sobre um zinabre de nervos agarrado à craca rajada de vermelho. senhor das minúcias, além dos volumes e membros: acolhe uma nuca de pinça em punho catando grânulos de fragmentos. e arremata um coto do melhor jeito: no frangalho de mão, da verruga faz um dedo. em África, as guerras professavam a injeção de bismuto, racionando morfina para urros de sutura sob a compressa dos queimados. suspiravam por penicilina (os cláudios) em sua robótica andropoide aprendendo novos passos: a reparação do equilíbrio no receptáculo de um chão aceso e ensombrado, embora lá ninguém fosse Roberto Carlos. e além das pernas, faltassem braços. sem o joelho de titânio, o pau da perna é atado por garrote estrangulante. nas averiguações da ONU (as que ainda funcionam) demarcam-se terrenos e partilham-se medicações antigas com falanges de espinhelas caídas. em cada olho morto, um buraco aguarda sua esclera de vidro. a missão é manter o fluxo cardíaco em cada corpo exangue. sob a camuflagem, dez mil minas anti-tanques. pelos campos, a esperança nos ratos gigantes.*

________________________________

* O adestramento de um rato gigante farejador de explosivos, do gênero Cricetomys,  leva cerca de um ano e custa aproximadamente seis mil dólares. Após treinado, cada animal pode cobrir, com grande precisão e baixo risco, até 400 metros quadrados por dia, enquanto um perito humano precisaria de ao menos três semanas para desminar essa mesma área. Também conhecidos como “ratos heróis”, esses animais ainda conseguem detectar, com imensa exatidão, a presença do bacilo da tuberculose apenas farejando o esputo dos pacientes.

 

 

 

HALDOL

clorofórmio
em banho maria
de adrenalina:
falso barbitúrico
de conga & socapa
a debruar estrépitos
sobre crânios
fervilhantes
de fedelhos
e sacripantas

pneu em cápsula
a derrapar frenagem
no barral da pista:
a tração travada
os rolimãs roídos
e a câmera lenta
nas setas de Zenão

fadiga ou apatia
em aparente tai chi
de lomba e preguiça:
a baba, o olho baço
e a calma da paralisia
vestindo por dentro
uma força sem camisa.

 

 

 

SEIS POR MEIA DÚZIA

  1.  

aragem de chalaça
arribando
uma trindade de aves
(maracanã, caburé, pelicano):
da primeira
a fala pronta à espreita
da próxima
o sobrevoo atento à presa
da derradeira
um cristo bem fingido
ofertando-se eucarístico
a todos os filhos –
esquadrilha infalível
e afinadíssima
rapinando prebendas
na proteção
de seus perímetros

  1.  

fedentina
à deocolônia
das novas
tecnologias políticas:
guardado por jagunços
de chuço em punho
em nó de tronco
tomado por carunchos
um santeiro falcatrua
esculpia-se
o próprio messias
(assim, todinho oco):
era o milagre
do mirrado
figurando tanto
ao saber-se mofo
nas botas lambidas
de seus oragos
e patronos

  1.  

havia também os moços
os quais se dividiam
entre os vivíssimos
(sócios do dono)
e os muito tontos
estes fiéis clientes
(quase todos)
dos vendilhões
do tal messias
camelôs de seus
laxantes e elixires
bem como de outros
placebos plangentes
rudes assemblages
das mais anosas
sucatas ideológicas
cuja eficácia
lacrimogênea
provinha de loas
entoadas sobre
picotes de cebola
e uma compaixão
bem remunerada
calhada a trouxas

  1.  

mas cumpre também
dizer das sombras
(das touceiras e moitas)
dos peremptos claros
e espessos cortinados
com opulentos umbrais
à prova de descalabros
tão cegos e moucos
a ganidos e uivos
críticas ou tijolaços:
é o paradoxo
da transparência
opaca dos covardes
pombos aleijados
cagando o bronze
dos mártires
para se mentirem
seus confrades.

  1.  

ao pé dos postes
a nauseante diurese
da alcateia dos broncos
a amônia, o esgoto
e a cáustica confiança
remarcando
de presunção um logro
tão convicto
de seus esquemas
tão soberbo
com seus maus esboços
regiamente comissionados
por caras propagandas
de mentiras e estrondos:
Goebbels na Bruzundanga
recriando seus pimpolhos

  1.  

a pua & xilindró
alguns (bem poucos)
dentre tais ratões
e camundongos
são recongraçados
do seu cangaço:
um e outro bandoleiro alto
ou certo língua de trapo
são recolhidos no varejo
embora nasçam no atacado
(pior: simulam-se inimigos
conspirando entre abraços)
eis assim a súmula
de todo o desalento
desse percurso
redivivo e sinuoso:
a máxima bandalha
dos falsos salvadores
que só findam por acudir
o próprio nome.

 

 

 

“Ninguém vai ao Rubicão só para pescar.”
André Malraux, citado por Ulysses Guimarães
 

CERTA EX-QUERDA BRASILEIRA

foi pescar no Rubicão. mas não levou linha, anzol
ou rede. e sequer conhecia o uso indígena do timbó

daí chamou uns amigos das empreiteiras, ganhou
muitas caixas de cerveja e organizou um churrasco
com os donos da boiada (peonada posta à parte)

ébria das suas ideias cada vez mais caras
planejou olimpíadas e uma copa do mundo
embora acabasse pulando da ponte para o futuro
que fizera até antes da metade só para ser inaugurada
por confusos discursos sobre Cristo & Che Guevara
Lênin & a economia sustentável

acordando da grandíloqua ressaca da farra
depois da lambança foi todo mundo em cana
e o Rubicão seguia sem Césares ou capangas
enquanto ribeirinhos o cruzavam em seus barcos
contando antigos causos e jogando dados.

 

 

 

Quando os metafísicos falam pouco, podem atingir a verdade imediata, uma verdade que seria consumida pelas provas. Podemos então comparar os metafísicos aos poetas, associá-los aos poetas, já que estes nos revelam, num verso uma verdade do homem íntimo. Assim, do enorme livro de Jaspers, Sobre a Verdade, extraio este julgamento lacônico: ‘Todo ser parece em si redondo.’.

Gaston Bachelard, A fenomenologia do redondo
 

O ELOGIO DA CURVA

muito acima de ripas e réguas, na microscopia da vista aérea, um rio zomba das pistas de pouso: quem pode o luxo dos contornos, cedo recusa o tal circuito econômico – aquele que só liga por retas dois pontos. o molar e o aquoso, a socapa felina no boleio muscular sobre o osso. a elegância do oblongo percorrendo as inclinas de um corpo redondo: caracóis, heras, conchas, cornos. um capitel de volutas e a viperina peruca da Medusa: torneios do art noveau de Alfons Mucha. o seio, a coxa, a língua, a nuca. o lábio, o ventre, a glande, a vulva. tudo que ante a seta ainda mais se insinua na eloquência fugaz das minúcias que descem à célula (e outras coisas miúdas) para depois irromper em vasta mesura. ditame e sintoma de um cisma: repleta de peripécias, a volta no meio do caminho. tal como a pressão sobre a eclusa da água mole retida em seu fluxo: a roda do relógio parafusando o tempo no pulso e uma azenha girando a entropia do mundo. mas do grafite da coral ao grosso calibre da jibóia, uma curva pode sempre ser perigosa. e não raro também pode ser torpe, feito alfanje ou lua negra de foice. ou feito um pião suicida que desviando vários dervixes evitasse sendas constelares, deixando só um rastro errático entre o abrasivo e o cálido. curva natural, exímio trabalho na recalcitrância do calmo contra seus obstáculos: um esmeril erodindo arestas e cantos do espaço, o anguloso mudando-se em ágono, a gravidade ninando a catenária no cabo e a rosca da verruma em seu espiral de corolários: a tromba, o tufão e o tornado. as folhas voando em voltas no pátio enquanto um arquiteto prefere o caminho mais caro: unindo viga e coluna, o arco. além das formas e fibras que uma roca fia e enovela: a roda de samba que o quadril instaura e vertebra, a capoeira e o jongo das pernas, a finta para delírio da galera e toda ciranda e ciclo presentes na elegante figura de um ovo: o volume dado à elipse de certa carenagem que fosse em parte ogiva e noutra globo, pela metade. curva: ninho e ovário dos corpos multiplicados, fábrica da vida, picadeiro de astros, símbolo perpétuo do elo, da coroa e do halo. e no compasso de Copérnico, um crisol de credos: a música das esferas na órbita de Hélios, o mar português de Magalhães em seu périplo.

 

 

 

LORCA

a pancada morria e era nascimento:
estado retumbante da pedra contra a escama
armadura de arrepios cobrindo zonas moribundas
e aquele vestido de feridas sobre a maravilha
não era nenhum bichinho movendo-se
na areia escaldante das aparências

era dura a goma outonal daquela carne escrita
sonho de mãe e álcool, memória de espelho
e náusea sob o crucifixo móvel atropelado
por um sol de guilhotina de onde aflorava
o chamejante umbigo de uma gérbera

um uivo alastra suas labaredas pelo tronco
e ao enervar o sexo aquieta as falanges surdas
de névoa e vômito: empenho de abelha e cera
para ver dançar a loucura toda do mel.

 

 

 

I asked him to admit
that there was not a rhinoceros in the room,
but he wouldn’t.

Bertrand Russell sobre Wittgenstein
 

ALJAVA VAZIA

a sagitífera analogia
que provém das falas
d’O Estrangeiro n’O Sofista:

quem enuncia visa o ser
como o arqueiro mira o alvo

na floresta do alheamento
à espreita de um javali alado 
o caçador empunha o arco
quando subitamente paralisa

levando a mão às costas
percebe sua aljava vazia.

 

 

 

seus capachos do PC, seus bidês da direita,
seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas

Roberto Piva
 

OS IMARCESCÍVEIS

antimatéria da melancolia burguesoide: a escolarização alternativa do blasé bronzeado, voltada para a sensibilidade e as novas epistemologias em rede, tudo contra a ditadura das disciplinas na ONG dos rizomas, entidade sem fins lucrativos administrada pelo conselho multicidadão mandado por mamãe. eram antropologices em teste na fazendola herdada do trisavô, quinhão cabido na partilha do feudifúndio onde necas de mandioca, apenas um gado esparso que se apascentava ao largo do elegante bambuzal japonês, vago nanquim de píxel sobre um papel de arroz bienalizado. logo na cidade ao lado, uns (mas)turbantes dos corpos obesos, peludos e empoderados pela menstruação da deusa interior rutilavam em plena performance nudocontestatória ante a qual revesavam-se impressões entre o fastio, o asco e o constrangimento de três ou quatro passantes apressados. mas certo professor de Literatura conseguira enxergar naquilo tudo uma invocação do spleen parisiense pelas potências do contemporâneo retraçando cartografias excêntricas ao eixo fálico do biopoder patriarcal. contentes porém inquietos, os mancebos queriam ir logo ao que importava: o aumento da mesada do jovem profissonal, perito diletante em exibições de pisca-pisca & barulhinhos de computador. o mais velho era a majestade das fofocas de vernissagem. e no meio da sala, amarrava seu bode preto: a bruta alienação de uns afetos afrescalhados rendilhando frequências de hipercorreção moral a patrulhar a própria unidade da nulidade – água de côco & direitos humanos no quiosque das diferenças. desigualdades? uma caretice paleozoica da era das classes sociais. justificava-se: é que você não sacou nada, tudo agora é muito mais pele, são fluxos moleculares entre sujeitos descentrados, múltiplas identidades desconstruídas, complexas sinergias de fragmentos e fosforescências no devir molar da multidão. eram as sinestesias do hippie do bambolê, o cosmopolitismo jeca-mimético do assim chamado eixo Rio-São Paulo, valão onde uns odaralegres em melenas de xaxim tostavam na praia particular. abasteciam-se de papo-cabeça e requentavam filosofias obsoletas enquanto uns novaiorquinos de Pin-da-mo-nhan-ga-ba aguentavam sua vez no brete do food truck. entretanto, não vigorava ali nenhum consenso a respeito do ideário nebuloso das novas causas da ludotopia: o narcisofeminismo xexequinha, a remição integral da maconha recreativa, o socialismo da granola e outros pendores light na reverente devoção aos espichamentos da yoga e às propriedades revigorantes do iogurte de soja, afinal respirar também é um ato político. tudo muito clean e ecológico, pois é mais ameno o carma se todos formos índios na compostagem pacifista do bom gosto preguiçoso. prana de emulatio bosta nova: violãozinho folharada e um culto à mansidão anódina das menções de sampler enquanto prosseguia impávido o loteamento do lugar ao sol com a ajudinha da firma da família & seus colunistas mais chegados. era dia de gáudio no jornaleco da paróquia: (re)fulgia na primeira página o nepotismo das maisomenosidades consoladas pelo estoque de clichês do simpaticíssimo psicanalha de hora mais barata (também enólogo, guru gourmet & crítico de arte multiespecializado). e como eram fofinhas na sua ilha da fantasia aquelas fúfias da literatura de feirinha. lá não havia desemprego nem despreparo, unicamente hordas de jênios injustiçados engarrafando com jeitinho a sua malemolência originalíssima. claro, todos já vimos esse filmeco de faculdade particular. inquieta apenas que,  sendo arte de edital, venha a nós (e sem a nossa vontade) a conta toda desse tédio tosco. em cartaz no Cine Rouanet: 8 longas e 23 curtas ditos experimentais. na fila, trinta tias orgulhosas conversam sobre a próxima plástica, o artesanato de Báli e seus sobrinhos escritores.


 Sobre Marcus Fabiano Gonçalves

É gaúcho e radicado no Rio de Janeiro, onde é professor de Hermenêutica e Filosofia do Direito na Universidade Federal Fluminense - UFF. Em 2012 saiu, pela editora 7Letras, Arame Falado, o seu segundo livro de poemas. O autor também publica poemas e ensaios no seu blog.