ARTES PLÁSTICAS E “GRAFITE”

As artes plásticas brasileiras constituem-se, há muito tempo, manifestação epigonal, da própria tradição brasileira e das vanguardas européias e norte-americanas do século XX. Um exemplo paradigmático: Leda Catunda, que dilui à exaustão Tarsila do Amaral, de modo singelo e tépido. Outro: Rosângela Rennó, maneirista como quase todos, que, em seu trabalho, estetiza e glamoriza conflitos dilacerantes, para, num gesto “terapêutico”, aliviar a mauvaise conscience da burguesia “liberal”, que freqüenta as galerias e os museus ainda em voga do establishment, como o MoMA, de Nova York. Ela é bem mais “sofisticada” do que Catunda, o que, no entanto, não resolve o problema. As duas vieram da academia. Analiso-as como poderia analisar outros — nada de pessoal. Há exceções: a contudente Vânia Mignone e o ousado e crítico Nuno Ramos, entre alguns poucos mais. Sem falar em Regina Silveira, mestre. E sem falar no genial Luís Sacilotto, entre os mais velhos.

No entanto, a renovação das artes plásticas brasileiras irrompe das ruas de São Paulo, de suas tensões, de suas ruínas, de seus mendigos, de sua sujeira. Vem do grafite, que transforma a cidade — uma rotina morta — num suporte dinâmico e vivo. Nunca (25 anos), um negro do bairro pobre de Itaquera,  e osgemeos, do bairro de classe média Cambuci, onde morou o gigante Alfredo Volpi, representam hoje — guardadas todas as reais e  evidentes diferenças —  o que Tarsila representou nos anos 1920 e os concretistas (Valdemar Cordeiro e outros ) e neoconcretistas (Ligia Clark e outros) representaram nos anos 1950 e 1960, ou seja, são seminais.  os gemeos (em torno dos 35 anos) inventaram a linguagem do grafite brasileiro (desenho, estruturação de letras etc), que, antes de sua presença, copiava o norte-americano. Hoje, influenciam europeus e norte-americanos, coisa impensável para um artista do circuito e mesmo para brilhantes como Nuno Ramos ou inventivos como Emmanuel Nassar.

Nunca, osgemeos: o rótulo “Street art” é ardiloso e mesquinho demais para o trabalho deles, que o transcende.

Como martelava o extraordinário artista espanhol, radicado no Brasil, Julio Plaza (1938-2003), que deixou o ofício por desencanto, “artista plástico é elástico” (poeta brasileiro também), ou seja, move-se de acordo com a partitura etérea dos interesses imediatos. Está aberto, unicamente, para o previsível e negociável.

 

Nunca e osgemeos na Tate Modern de Londres, maio de 2008

Trabalhos de osgemeos, Nunca e Blu. Abaixo Sixart, JR e Faile1

 

Fachada do Tate Modern Museum

 

Abaixo seqüência de osgemeos

 

 

 

Abaixo seqüência de Nunca

 

 

 

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Palmeirinhas, Leda Catunda

 

América, Rosangela Rennó

 

Cascos, Nuno Ramos

 

Vânia Mignone

 

Julio Plaza