A MODA EM FLÁVIO DE CARVALHO

Falando, de uma “exaltação secreta” do corpo humano, que vinha de Rousseau e Blake, exaltação logo absorvida ou reprimida pela ética ou pela estética vigente, Octavio Paz anotava que: “La verdad es que el arte contemporáneo no nos ha dado una imagen del cuerpo: es una misión que hemos confiado a los modistas y a los publicistas”1. Neste mesmo ensaio, Paz nos lembra que as deformações da figura humana, na arte do passado, eram rituais e que, modernamente, são estéticas ou psicológicas. Exemplo de deformação estética: o racionalismo agressivo do cubismo; e de deformação psicológica: a não menos agressiva emotividade do expressionismo.

A este breve comentário sobre a série “A Moda e o Novo Homem”2, publicada por Flávio de Carvalho (1899-1973) em coluna homônima no Diário de S. Paulo, entre março e outubro de 1956, e que será objeto de livro a ser por nós editado em futuro próximo, interessa-me, de perto, as observações do poeta mexicano. Há nas intenções e nos desenhos de Flávio, neste trabalho, um resgate do caráter ritual da arte do passado, para, com ele, mais do que engajar, encarnar a moda na história, na condição protagônica de profetisa de eventos políticos, quando, por exemplo, ao comentar os modelos usados dez anos antes da tomada da Bastilha, diz: “[a mulher] um ser quase imobilizado pelo ornamento da moda que já temia pela sua segurança” (p. 191) ou quando comenta o estilo das roupas femininas cinco anos antes da já referida tomada da Bastilha: “[…] o corpo quase todo envolto em largos panos que ofereciam inúmeros pontos de apoio e de segurança. A moda procura amparar, quase esconder, a mulher prestes a ser decapitada. Mas não conseguiu” (p. 192). Em “A Moda e o Novo Homem”, não existe arbítrio criativo, como no discurso dos estilistas, mas prenúncio de rupturas.

A visão de Flávio de Carvalho – este multiartista (tão ou mais importante do que Tarsila do Amaral), que, no entanto, ainda não encontrou reconhecimento à sua altura no panorama de nossas artes – choca-se, na verdade, com a dos estilistas contemporâneos, a quem a arte delegou, nas palavras de Paz, “a missão de pensar o corpo”. Leia-se, nesta perspectiva, o discurso de despedida de Yves Saint Laurent, proferido no dia 7 de janeiro de 2002, em sua maison, em Paris, por ocasião do anúncio de sua “aposentadoria”. Saint Laurent, sentindo-se um revolucionário, dizia:

Ao abrir, em 1966, pela primeira vez no mundo, na condição de estilista de alta costura, uma butique prét-à-porter, tenho consciência que contribuí decisivamente para o progresso da moda em meu tempo e que, com isso, facilitei o acesso das mulheres a um universo até então proibitivo. Como Chanel, sempre aceitei a cópia e me orgulho muito que mulheres de todo o mundo vistam tailleurs-pantalons, smokings, cabans e trench-coats. Penso que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea e que, deste modo, participei, das transformações de minha época. Fiz isso com roupas, o que é certamente menos importante do que se tivesse feito com música, com arquitetura, com pintura, mas, seja como for, eu o fiz…

Importa destacar, no trecho de Saint Laurent, a idéia de transformação vinculada à de progresso e destacar a idéia de progresso como a de ampliação do acesso das mulheres a roupas (desenhos, comportamentos, vivências) antes restritos à alta sociedade. Quando elogia a cópia, Saint Laurent aponta para um mundo ao mesmo tempo industrial, homogêneo e, sobretudo, “conservador”, em sua essência; na aparência, ele é extremamente inovador. Neste mesmo discurso, o estilista francês diz, ao tratar da liberação feminina, que “[…] eu acreditei que a moda não tinha apenas a função de embelezar as mulheres, mas também a de lhes dar confiança e certeza”. Perceba-se o choque, mesmo que haja um tema comum entre Carvalho e Saint Laurent, por exemplo e inclusive, no comentário do primeiro à figura aqui estampada à página 200: “Mulher elegante de 1911 usando calças lançadas pelas melhores casas de Paris (jupe-culotes). Uma manifestação de feminismo e de desejo de nivelamento ao homem”.

O relançamento desta série “A Moda e o Novo Homem” – que possui também um nítido traço freudiano e behaviorista, e uma plasticidade “quadrinista” – ocorre num momento em que a moda passou a ocupar um lugar central na cultura popular brasileira. Um lugar central com a São Paulo Fashion Week, a Rio Fashion Week e com o sucesso mundial de Gisele Bündchen e seu corpo múltiplo (bündchen!, corpo múltiplo, de menina e fêmea fatal, mas não tão múltiplo quanto o de Michael Jackson, no qual se acumulam raças e sexualidades distintas, ao longo do tempo), deslocando à periferia, em termos de experimentalismo e inovações de design e atitude, a combalida mpb de Caetano, Gil e Chico e seus inúmeros e inexpressivos imitadores. E também o cinema (Gláuber, Sganzerla) e outras artes de massa, que, até há pouco, tinham um papel aglutinador e, principalmente, pensador num âmbito de “integrados”, para me valer aqui da expressão de Umberto Eco. A moda se coloca hoje, de forma clara, como um vórtice da cultura brasileira, para ela convergindo as outras artes industriais ou até eruditas, estagnadas.

Os desfiles contam, por exemplo, com trilhas sonoras e video-clips e são considerados “performances”, para além da idéia do mero espetáculo, conjungando aspectos da dança, das artes plásticas, do comportamento, do teatro, do cinema etc. No mundo da moda, o mercado parece aliviar-se, como “arte”, de qualquer crítica, diante da ousadia de suas inovações formais, descoladas de qualquer compromisso político explícito. Seria, portanto, interessante, tentar ler o que esta moda de hoje prenuncia, como no gesto pioneiro de Flávio de Carvalho.

É evidente que a moda brasileira de agora, liderada por estilistas como Alexandre Herchcovitch, Fause Haten, Reinaldo Lourenço, Ricardo Almeida, Sommer e tantos outros, persiste, em muitos aspectos, na trilha mainstrean: a de combinar sexo com originalidade (mais do que funcionalidade) das roupas, deslocando-as, no entanto, da vida comum (mesmo que se aproprie de valores comuns, das ruas), o que, ao agregar traços de outras manifestações, empresta-lhe uma aparência de arte. Ela é ainda predominantemente um discurso masculino ou masculino gay sobre o feminino, feminino straigth, num embaralhamento de sexualidades, onde a mulher é construída, em muitos sentidos, como uma ficção. Em termos proféticos, à maneira de Flávio de Carvalho, poder-se-ia pensar num “travestimento” da figura feminina. Qual ruptura ele estaria prenunciando?

O hedonismo efervescente, que havia no universo do rock and roll e da mpb tropicalista nos anos 1960, ou um tanto mais sombrio no universo punk dos anos 1970, está redivivo hoje nas passarelas, na língua franca das passarelas, onde se verifica uma apropriação clara de elementos do mundo hippie e punk e das esferas plásticas eruditas pelo mundo yuppie. As roupas das maisons e dos designers não serão usadas – ao contrário do que afirmou Saint Laurent – corriqueiramente pelas mulheres. A moda não vende apenas roupa, vende, note-se, “publicidade” e aí está para alavancar o consumo de outros bens, entre eles o consumo de mídia e reiterar o sistema capitalista. De qualquer modo, ela está aí, mais viva do que a poesia, sufocada, entre outras coisas, pelos limites formais de um parnasianismo esgarçado. E o que há de relativamente novo nela, neste momento, no Brasil, é que consegue atenuar, ante a tepidez das outras manifestações populares de massa, a dicotomia cultura (arte) x espetáculo (pop), o que não é mais possível para astros como Madonna e Michael Jackson, numa escala mundial, e o que é difícil até para o Caetano Veloso de Foreign Sound ou para cineastas como Fernando Meirelles ou Walter Salles.

Findemos com o comentário de Flávio à figura da página 202, que diz muito a respeito da força física e deslizamentos de sexualidade (volúpia?) e até certa puerilidade desajeitada, um toque hippie no cuidado mundo yuppie, de algumas das principais modelos em atividade, como Bündchen:

A cintura se acha realmente situada nos joelhos em forma de crinolina, sendo a cintura do local anatômico quase inexistente. Colocando a cintura no joelho estabelece-se uma tendência para encompridar a mulher, fazendo-a parecer mais alta. Seria uma manifestação mista antiestética de voluptuosidade e feminismo?

 

Não se pode deixar sem registro outro aspecto relevante de “A Moda e o Novo Homem”: seu caráter antropológico e investigativo, que se apreende, de modo nítido, na figura da página 210. A legenda que comenta a figura é um quase-poema, à maneira dos “Quasi-Cinemas”, de Hélio Oiticica. Há Freud e Jung nessa frase que é, na verdade, um quase verso, em razão de suas aliterações e assonâncias: “Os índios do Brasil acreditam que durante o sono a alma abandona o corpo para realizar o conteúdo do sonho”. Flávio de Carvalho foi, ainda, o precursor dos Parangolés, de Hélio Oiticica, com o seu “Traje New Look”, saia e blusa bufônica, com o qual “desfilou” pelas ruas do hoje centro velho de São Paulo em 1956.

Com o resgate de “A Moda e o Novo Homem” pretende-se contribuir para o debate do “corpo” na arte contemporânea brasileira, não mais como exaltação secreta. Em janeiro último, quando visitei o Cedae, em Campinas, a convite do Prof. Alcir Pécora, para buscar materiais para a seção “Recuperações”, esta série chamou-me particularmente a atenção por sua atualidade crítica. Selecionei as images/stories aqui apresentadas de um conjunto de 102 desenhos, acompanhados de legendas e textos críticos. Em 1996, o Cedae expôs pela primeira vez dezesseis desses trabalhos e, depois, realizou, em 1999, uma exposição maior intitulada “Dialética da Moda”, editando-se uma plaquete de 40 páginas (em formato 15 x 21 cm) com reproduções. (2004)

 

A gorjeira que apresentava a cabeça separada do corpo (fins do século xvii), atuando magicamente na história, efetivamente provocou mais tarde o corte em massa de cabeças.

 

A mulher do século xvi, que gerou a evolução dramática da história com o epílogo das cabeças cortadas dois séculos mais tarde.

 

 

O estado da mulher três anos antes da tomada da Bastilha; cabelos brancos (empoados), veias pintadas de azul, olhos vermelhos, endurecimento cadavérico pelo colete. Preparada, portanto, para a morte. dsp, 08/03/1956.

A mulher dez anos antes da tomada da Bastilha. Um ser quase imobilizado pelo ornamento da moda que já temia pela sua segurança.

 

A mulher cinco anos antes da tomada da Bastilha; o corpo quase todo envolto em largos panos que ofereciam inúmeros pontos de apoio e de segurança. A moda procura amparar, quase esconder, a mulher prestes a ser decapitada. Mas não conseguiu. dsp, 11/03/1956.

Demônios fecundando a árvore da vida (relevo de alabastro de Nimrud-Kalach – Museu Britânico). Os babilônicos conheciam botânica e possivelmente praticavam com sucesso a fecundação artificial em época que alcançaria talvez 6000 anos antes de Cristo.

 

A imaginação do limite vagando pela rua é humilde expressão popular capaz de provocar o aparecimento da grande elegância. dsp, 05/04/1956.

 

 

Homem e mulher de Ur – 3000 anos a. C. (friso sobre madeira, Museu Britânico). O trajo usado é o primeiro Tratado de Paz entre o homem e a mulher. Homem e mulher usam o mesmo trajo e isto parece indicar que no início da civilização sumeriana homem e mulher se vestiam da mesma maneira; vedando a parte inferior do corpo da cintura para baixo. Este processo nada tinha que ver com problemas de temperatura mas tinha como objetivo psicológico igualar o homem à mulher. No início homem e mulher se pareciam fisicamente porque exerciam o mesmo trabalho e os mesmos movimentos. O parto era coisa sem importância e não interferia com o trabalho da mulher. Vedando o corpo da cintura para baixo, a diferença maior torna-se invisível. Este trajo é o estado anterior à calça ou bragas.

 

O personagem da comédia italiana veneziana Pantaleone que deu o nome francês pantalon à calça e originou a Pantomima e a palavra inglesa pants (calça). Este personagem que usava a calça comprida colante, uma espécie de colete fechado até em cima e um talar aberto de doutor, é velho de nascimento, poltrão e crédulo, extremamente sábio, libidinoso, avarento e enganado, aparece “cuspindo latim e os dentes” e deriva o seu nome do santo padroeiro de Veneza, São Pantaleone, o médico mártir, morto no ano de 305, cujo culto existe em Veneza desde o século x. Os venezianos davam o nome de Pantaleone a seus filhos a ponto que os habitantes de Veneza ficaram conhecidos na Itália como os Pantaleoni. Era comum na Itália chamar os habitantes de uma cidade pelo nome do santo padroeiro.

 

Nobre do século xv. A última etapa da evolução da perna descoberta e moldada por tecido colante. Moda que saiu do povo no século xiii, atravessou a burguesia do século xiv e se instalou na nobreza do século xv. A modificação no trajo sempre se processando de baixo para cima. dsp, 05/08/1956.

 

A senhora Bloomer em 1851 passeando pelas ruas de Nova York, usando calças e fumando charuto (de um desenho satírico). Uma manifestação de feminismo que visava igualar a mulher ao homem. Isto me traz à memória a atriz brasileira Eugênia Álvaro Moreira, minha conhecida, elemento de esquerda que, em 1928, com o intuito de desacatar os costumes da burguesia, fumava charuto na rua. Em 1791 Olympe de Gouge escrevia a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Em 1848 apareciam clubes femininos. O feminismo era do programa dos saintsimoneanos e dos fourieristas. Entre os direitos reivindicados em épocas recentes estão: direito de votar e ser votada, igualdade de direitos.

Trajo reformista de 1902 (de uma pintura de Eugênio Epiro). Tinha a sobriedade do trajo de uma freira e visava eliminar as características da mulher. Era o trajo preconizado pelo Estado de Illinois. A mulher é completamente vedada e sem atrativos. Havia uma multa de 25 dólares para “uma mulher que oferecia aos olhos do espectador demasiada parte do seu corpo entre a cabeça e a cintura”. O trajo da Reforma não tinha colete e descansava sobre o ombro de maneira idêntica ao talar.

Mulher elegante de 1911 usando calças lançadas pelas melhores casas de Paris (jupe-culotes). Uma manifestação de feminismo e de desejo de nivelamento ao homem.

Mulher elegante de 1911 usando calças e casaca com rabo comprido de tecido xadrez. Outra manifestação de feminismo; procurando no tecido imitar o elemento popular inglês, o Coster do East Side de Londres, e nas formas o trajo mais importante do homem. A casaca é o cume do trajo masculino e o aspecto mais importante deste trajo. Dizia Mme Paquin que a calça da mulher era inspirada no Tango. Sem dúvida, para facilitar os movimentos da mulher no andar e no baile. Mme Paquin, respondendo ao movimento dos bispos católicos alemães e às outras associações moralistas que reclamavam contra o trajo da mulher, dizia que a moda da calça satisfazia às reclamações dos religiosos.

Desenho extraído de um modelo Transworld de 1956. A cintura se acha realmente situada nos joelhos em forma de crinolina, sendo a cintura do local anatômico quase inexistente. Colocando a cintura no joelho estabelece-se uma tendência para encompridar a mulher, fazendo-a parecer mais alta. Seria uma manifestação mista antiestética de voluptuosidade e feminismo? dsp, 19/08/1956.

Capacete de guerreiro, bronze, 600 anos antes de Cristo. Arte Lacônico (Museu Nacional de Atenas). O capacete é inspirado no pavão e a sua origem finalista é representar a alma e fornecer um ponto de referência para a volta da alma ao corpo. Os gregos davam à borboleta o nome de Psiche que é o mesmo nome dado à alma. Nas épocas mais antigas de um começo, quando o valor dado à alma era mais intenso ainda, a alma abandonava o corpo durante o sonho para realizar aquilo que era sonhado, voltando posteriormente e entrando pela cabeça. O primitivo não distinguia entre o sonho e a realidade. Platão achava que a habitação primitiva da alma eram as estrelas.

Escultura em madeira das Novas Hébridas (propriedade de A. M. André Breton). O personagem leva sobre o chapéu a imagem da sua alma em forma de pássaro. É também uma maneira de provocar, pela semelhança, a volta da alma ao corpo quando a mesma se ausenta a passeio. Como armadilha se parece com a prática de se colocar a semelhança de um pássaro dentro de uma gaiola para induzir a entrada de outros pássaros, isto é, o inverso da colocação de um espantalho para afugentar pássaros num campo cultivado.

Mulher usando chapéu com pássaro. Ornamento para uma casa de cerimônias (Rio Sepik, Museu Etnográfico, Berlim). Aqui temos o pássaro representando a alma do possuidor e tentando alçar vôo do seu habitat, a cabeça. O primitivo aguardava sempre com grande ansiedade, às vezes com dores físicas no seu corpo, a volta da alma (pássaro ou outro animal) que abandonara o corpo durante o sono a fim de realizar o conteúdo do sonho.

Guerreiro do rio Araguaia usando um capacete de chefe que é o símbolo de um pássaro e representa a alma do guerreiro. O capacete do chefe é o símbolo da sua tribo, portanto representa também o Totem da tribo que é a alma coletiva da tribo. Os índios do Brasil acreditam que durante o sono a alma abandona o corpo para realizar o conteúdo do sonho.

Mulheres de 1950 usando chapéus com plumas. São sobrevivências do uso da lama na cabeça praticado pelos selvagens. Isto demonstra a maneira pela qual a importância da alma decresce com os séculos à medida que nos aproximamos de uma nova Idade Púbere, como efetivamente hoje nos aproximamos. O uso de plumas nos chapéus das mulheres de hoje deve ser considerado como uma manifestação de feminismo tendente à nivelar a mulher porque concede uma alma também à mulher que, com freqüência, como constata a História, não a tinha. dsp, 09/09/1956.

 

1. Octavio Paz, Conjunciones y Disyunciones, Barcelona, Seix Barral, 1991.
2. A série se encontra depositada no Cedae – Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio, da Unicamp, dirigido pelo Prof. Alcir Pécora.