Apolítica, uma literatura de segundo grau

Na contrapartida da perda de referencialidade histórica, foi alimentada, como esfera fechada, apolítica, a ideia de um “mundo de livros” ou de referências intra-textuais, de narrativas sobre narrativas. Um mundo se perde, e, como compensação, outro se faz. Mas o esvaziamento de questões históricas e políticas, o escapismo, a falta de inspiração marca esse mundo virtual, de segundo grau. O que deveria ser um mundo efetivo, de cultura empenhada na interpretação das razões alegadas na contingência do mundo, parece que se encolhe e se torna apenas afetação de leitor, ou cumplicidade de leitores deste ou daquele autor. Leitores viram consumidores e fãs. Umberto Eco e Vila-Matas são os reis desse tipo de literatura de leitores cúmplices, que, por sua vez, são imitadores e diluidores de Jorge Luís Borges. No Brasil, têm surgido muitos que os imitam, a tal ponto que chego a suspeitar de uma “gripe borgiária”, que ameaça atingir a todos: o livro mais recente de Chico Buarque, “O Irmão Alemão”, é um exemplo típico desse tipo diluição da história e da memória na ficção de segundo grau, a serviço de um eu-mínimo. Mas não dá para fazer boa literatura fazendo glosa ou trívia de literatura. Literatura forte não pode estar no passivo das conquistas da literatura, e sim na sua disposição para o novo, para o árido, para o que ainda não se pode definir sequer como literatura.

Imagem do Brasil, literatura genérica

Não estou certo de que a literatura que se produz hoje, no Brasil, apresente alguma imagem particular do país. É uma produção “genérica”, muito inflada pela articulação entre poucas editoras e poucos jornais de circulação nacional, mas falta-lhe força interpretativa minimamente convincente. Esse aspecto genérico afeta a formulação de uma imagem nacional crível, mas também afeta a sua capacidade de inserção global. A ideia de “Brasil” parece diluída na vontade de ser escritor ou de ser publicado. Mas, desgraçadamente, nem por isso as ideias de “mundo” ou de “estrangeiro” são mais sólidas ou mais trabalhadas. Ou seja, não é uma literatura de caráter nacional, nem pensa o estrangeiro e internacional. É genérica.

Comunidade imaginária sem fôlego

Não é apenas questão de “identidade” nacional — identidade era apenas uma das possibilidades de pensar os acontecimentos vividos com relativa urgência. A questão, até por volta dos anos 60/70, era outra: a forma literária era central na interpretação do país. A forma literária parecia a todos os escritores uma questão central em favor da criação de uma comunidade imaginária que respondia pelo Brasil ou pelo seu destino como país. Hoje, essa urgência interpretativa perdeu fôlego para a representação de um pequeno espetáculo de si, de grupos de leitores ou de comunidades mais restritas, com gostos e perspectivas homogêneos, ainda que disseminados pela internet –, que, hoje, também sabemos que está longe de cumprir os sonhos de descentralização e de democracia que lhe atribuíram os seus apologistas. Enfim, quero dizer: não me parece que seja na literatura, na linguagem da invenção, que se trava, hoje, a batalha das contradições do real ou da busca de suas alternativas mais consistentes.

“Instinto de Nacionalidade” e crítica

Na ideia de “instinto de nacionalidade”, de Machado, a centralidade da literatura no debate nacional estava posta com toda a energia. Agora estamos do outro lado do parafuso, numa espécie de “entre-lugar” –; um “entre-lugar” porque o nacional já não alcança obter nenhuma representação importante e porque o internacional tampouco dá à forma literária relevância maior do que a da expressão pessoal ou da representação de comunidades restritas, de grupos de “subjetividades expandidas” e, paradoxalmente, de “eus mínimos”. A forma literária tem um lugar muito determinado pela expressão literária partilhada de antemão, e isso é o mesmo que dizer que ela se encolhe sobre si mesma, torna-se menor do que já foi e revela a desistência da expectativa de produção do “novo”. Pode funcionar como selo nobilitante dos pactos já feitos, pode converter o converso, afirmar as amizades e gostos, profissionalizar os dispositivos, mas dá pouca margem para as questões difíceis, como são as da literatura mais duradoura. Quando Machado escreve esse ensaio, a literatura parecia ser o lugar justo para pensar o país e qualquer outra coisa que dissesse respeito à vida pessoal e pública. Hoje o âmbito se reduziu à senha de pertença a pequenos grupos. Na rede social é assim, mas na literatura que fica lançando piscadinhas para o leitor também.

Um esclarecimento importante: quando digo que a centralidade da literatura, de alguma forma, se ligava à ideia de nacional, não quero dizer que o nacional determinava a ideia de literatura, de modo algum. A literatura é radicalmente indeterminada e não se pode submetê-la, como tanto se fez no Brasil, à ideia de nacional. Ou à de política etc. O que ocorre é que essa centralidade obtida em decorrência do fortalecimento do estado-nação é um ciclo terminado, em função mesmo do enfraquecimento do Estado- Nação no contemporâneo. Não é possível qualquer retorno à situação histórica anterior, nem acho que nos cabe qualquer nostalgia da brasilidade perdida. Mas a literatura tem de descobrir uma nova centralidade para si no cerne da vida social ou então nada lhe resta senão conformar-se a um papel lateral, secundário na cultura.

A minha opção pessoal é pela relevância decisiva da literatura. Mas criar uma nova centralidade implica retirá-la desse “entre-lugar” no qual se reduz à expressão de grupos de semelhantes ou de próximos, ou à produção e consumo de entretenimento pop, no qual a crítica e o compromisso com o novo não têm papel algum. Reforçar a crítica, isto é, formular critérios adequados de análise das obras em particular e considerar as obras sob pressão do legado cultural mais exigente são, para mim, as melhores pistas para uma retomada de seu lugar de força na cultura.