Poesia e teoria na era da indiferença

Mauricio Salles Vasconcelos, professor de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP), autor do ensaio Rimbaud da América e outras iluminações (2000), das ficções de Stereo (2002) e do romance Ela não fuma mais maconha (2011), entrevista a teórica de A legitimação em literatura (1994) e A inocência do devir (2003). A portuguesa Silvina Rodrigues Lopes vem realizando um trabalho crítico dos mais atuantes e importantes na atualidade. Poeta e editora, ela tem produzido um conjunto de livros concentrados no estudo da poesia, com um foco investigativo no veio interdisciplinar aberto por literatura/filosofia. Sua obra merece ser debatida, publicada, conhecida no Brasil como uma referência essencial aos campos do comparativismo e da teoria de agora.

Mauricio Salles Vasconcelos: No livro A legitimação em literatura, você apreende uma problemática no campo teórico, que delimita a criação da escrita por conta de um movimento estabilizador, organizador de sistemas e métodos. Numa outra via, existe uma propensão desestabilizadora na teoria, capaz de restituir ao trabalho literário um potencial de pluralidade, condizente com sua singularidade, sua ilegibilidade (utilizando-se um termo que você emprega). Passado o período das desconstruções e do auge dos culturalismos – captado em seu livro publicado em 1994  –, como você percebe a atividade teórica no momento atual? Como poderia ser mapeada no presente a crise sempre existente da legitimação, de acordo com o que é constatado em seu minucioso e abrangente ensaio? Essa indagação se instala quando se observa hoje uma valoração generalizada do lugar múltiplo, diversificado, da produção artística, seja por uma expansão de literaturas no mundo contemporâneo, seja pelas formalizações do literário e do livro em diferentes suportes técnicos e mediáticos.

Silvina Rodrigues Lopes: A teoria é estabilizadora do campo literário porque a sua pretensão de compreensão da instituição literária (gênese e modo de existência dos discursos que a compõem) não é separável do instituir no qual ela intervém. Ela é instabilizadora porque é também escrita, e, por conseguinte, está em discordância com qualquer intenção – é isso que a aproxima da literatura, ou melhor, aquilo pelo que é também literatura. Ao tematizar a indissociabilidade entre os discursos designados como literários e os modos da sua existência no “espaço público”, a teoria tem como interlocutores privilegiados textos filosóficos e literários, que são, uns e outros, instabilizadores dos mecanismos de legitimação. Como pretendi sublinhar no livro referido, alguns filósofos do século XX, dentre os quais destaco Jacques Derrida, contribuíram decisivamente para desfazer a crença numa essência da linguagem, de que os poetas dariam testemunho, colocando-se assim em relação imediata com a verdade. Essa crença, de proveniência romântica e sustentada nomeadamente nas leituras que Heidegger fez de Hölderlin e de outros poetas, mantinha-se circularmente: a filosofia (ou a teoria, ou a crítica) legitimava a literatura, que por sua vez era por ela considerada como fonte de verdade. Tal circularidade foi abalada, mas atualmente assiste-se ao retorno do jargão sacralizante da poesia, perfeitamente aceite e promovido pelo poder mass-mediático. O progresso tecnológico que supõe a diversificação de meios para construção-apresentação de formas discursivas ou outras, e a consequente possibilidade de multiplicação de lugares que escapam à supervigilância legitimadora, é importante por dar evidência à questão da emancipação como afirmação da igualdade, que é a de qualquer um poder dirigir-se ao outro enquanto outro, isto é, de particicipar da singularização-universalização. Porém, o risco de indiferenciação que decorre das condições de utilização desses meios (quem os usa não deixa de estar sujeito ao poder formatador da publicidade, das instituições, etc. que tende a identificar-se com interesses econômicos) é também imenso, pois o pensamento não existe sem pausas, intervalos, que interrompem a necessidade construída pelos mecanismos do senso comum e da sua sutura ao poder mass-mediático. As condições de utilização, que não decorrem automaticamente da tecnologia, contribuem em alto grau para determinar a orientação do desenvolvimento dela, pelo que a imprevisibilidade de um desenvolvimento extremamente acelerado exige um empenho à altura de responder ao perigo, analisando-o e resistindo, pela criação, a qualquer hegemonia.

MSV: O que tem ocorrido de estimulante na produção teórica universitária? As questões sobre ensino, espaço acadêmico e os vínculos entre saber e poder, como podem ser situados na atualidade, a contar da sua vivência como professora e pesquisadora?

SRL: Também aqui a situação é bastante periclitante. Por um lado, a grande disponibilidade de textos traz muito boas condições para a investigação. Neste momento, na Faculdade onde trabalho multiplicam-se iniciativas interessantes de realização de colóquios e seminários em que participam jovens investigadores e professores. Por outro lado, não deixa de pairar sobre a Universidade o fantasma da economia e da sobredeterminação pelo cálculo do rentável, que não é alheio ao fato de os mass-media contarem com a cumplicidade de “intelectuais” que os promovem e os glorificam. Importa, pois, contrariar quer a subordinação a parâmetros de avaliação que, para serem eficazes, tendem a basear-se na quantificação do inquantificável, quer a subordinação aos media como adjuvantes da venda de cursos. Isso exige um desdobramento da atividade do investigador entre a definição de estratégias a prosseguir e a análise das mesmas e das condições em que se realizam.

MSV: Uma das questões nucleares da sua ensaística vem sendo o atrito provocado pela literatura em uma cultura de alta tecnificação e imediaticidade/interatividade audiovisual. Você desmonta, de modo sempre percuciente, a função comunicacional contida em certa ideia do literário em favor de um desbravamento, uma escavação (de acordo com a sua linguagem/imagem) de vazios na cultura. Ressurge fortemente a noção de experiência, de experimentação. O que poderia ser formulado como experimental, tendo-se em vista a crescente instauração de uma cultura digital, que transforma por dentro a ideia de livro e literatura, depois das vanguardas, e nem sempre resulta em um uso unidimensional, mediático-mercadológico da tecnologia? É possível manter o potencial de atrito da escrita sem perda de seu vínculo com a máquina literária (já esboçada por Deleuze ao ler Proust, Kafka e alguns contemporâneos do século XX) em todo seu potencial combinatório e criativo?

SRL: Experiência é sempre experiência de pensamento, porquanto ela designa um risco, certa decisão que nada garante em absoluto, mas que supõe a perseverança da travessia, portanto o considerar hipóteses, fazer raciocínios e apagá-los, até à vacilação do conceito, resistência do dizer ao dito. É nesse sentido que me parece que o sentido de literatura é o da criação de formas em que poesia e filosofia, entusiasmo e sobriedade, se confrontam e se reúnem, se dissolvem uma na outra sem, no entanto, formarem um só corpo ou serem a mesma coisa. A relação entre experiência e experimentação é a da captura passageira do acaso, a da contingência, da qual nenhum trabalho é garantia, e cuja inscrição é já perda, luto, trabalho.

MSV: Em quais autores e literaturas do atual século pode ser percebida a trilha de experimentação e atrito traçada em seus ensaios mais recentes?

SRL: Os autores que neste século são para mim da maior importância para o pensamento vêm de séculos anteriores. Dentre os que publicaram poesia, posso referir seis, sobre os quais tenho escrito e em quem encontro sempre incitação à experiência do pensamento: Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Ruy Belo, Mário Cesariny e Herberto Helder. Já deste século, refiro duas revistas que se caracterizam pela distanciação em relação à pertença ao campo literário, afirmando o que talvez se possa chamar um “direito à poesia” independente de qualquer reconhecimento. Telhados de Vidro corresponde à instauração desse movimento em que a afirmação e a perseverança prescindem de quaisquer fatores de sucesso. Mais recentemente surgiu outra revista, Criatura, na qual se lê certo tributo a Paul Celan, implicando também que a poesia é parte da vida e da sua morte.

MSV: Um ponto importante de sua produção teórica é o espaço que você concede à poesia. Em livros essenciais, como A inocência do devir, dedicado ao estudo de Herberto Helder, nota-se o destaque dado ao empenho escritural, capaz de, simultaneamente, descrever e criar o mundo. Como se pode presentificar, na atual conjuntura mundializadora, essa dinâmica indissociável de captação das forças existentes e invenção de esferas criadoras? De Hölderlin a Rimbaud (do irrompimento à nomeação da modernidade), passando por Helder (autor em atividade entre o século XX e o XXI, que dá testemunho de uma recepção a esses dois poetas), o que se modifica e o que permanece desse trabalho de escrita assinalado por suas marcas históricas, epocais, e, ao mesmo tempo, pela enunciação do devir?

SRL: Na passagem a que se refere, a do princípio da modernidade para o século XX e XXI, parece-me decisiva a afirmação da poesia como “ficção suprema” e com ela a afirmação de uma dimensão afirmativa da melancolia. O que supõe também a ideia de que esses poetas, Hölderlin e Rimbaud, estão a ser reinventados, e é nisso que estão vivos. À fidelidade-infidelidade de Hölderlin e à des-subjetivização de Rimbaud responde a ironia de Herberto Helder enquanto processo de levar mais longe a des-naturalização da poesia e o combate da forma contra si própria. A desconstrução do trágico e do pessoal trouxe a energia da afirmação como desejo, ruptura com a representação, não por um desejo da Verdade, mas porque é preciso criar verdades – não o oposto da ficção, nem a simples pregnância desta –, suportá-las com um pensamento consequente, isto é, responsável, sendo a poesia, a arte, a exigência de levar a responsabilidade para além de qualquer possibilidade de dela prestar contas.

MSV: Percebe-se, no modo como você cartografa e concebe o espaço da literatura, uma afinidade atualizadora com o pensamento de Blanchot. Como poderiam ser observadas as teses blanchotianas sobre o livro por vir, tendo-se em mira as formas e os meios de inscrição da literatura no atual século?

SRL: A perda da glória e do renome do escritor, que Blanchot refere nesse texto, poderia significar emancipação, no sentido de que, desfazendo o culto da personalidade e suspendendo o regime de reconhecimento estabelecido, abriria para um rumor em que o encontro dos dizeres se dava fora da ideia de autenticidade. O que o tempo bem mostrou é que a injunção ao sucesso se tornou o novo padrão de autenticidade: aí o discurso tornou-se rumor não pelo descentramento, que seria a perda de um humanismo do autêntico, mas pelo poder integrador do novo padrão que, dando primazia ao negócio, coloca no centro o que lhe diz respeito, sendo o resto bastante acessório (o caso do livro vendido antes de ser escrito, mostra bem essa condição). É preciso questionar o que é o público e o espaço público quando publicidade se identifica com mecanismo de compulsão à compra. Essa análise não pode, porém, ser a simples constatação sociológica, ela só é análise, e não simples repetição, se for já parte do estilhaçar desse mecanismo de homogeneização, se for pensamento e, por conseguinte, tiver consequências.

MSV: O que se mostra como culminante no diálogo travado em sua ensaística com a filosofia? Quais outros pensadores, além de Blanchot, lançam para o seu trabalho um campo producente de conceituações? Qual é a importância desse eixo interdisciplinar na cena teórica de hoje?

SRL: Há alguns filósofos franceses, todos leitores de Blanchot, que leio sempre: Gilles Deleuze, Michel Foucault, Jacques Derrida, Philippe Lacoue-Labarthe, Jean-Luc Nancy e Jacques Rancière. Como nunca se dá bem conta de todas as leituras e de umas se vai para outras num movimento de contaminação interminável, assinalo aqueles nomes tanto numa atitude de homenagem como por considerar que as transformações que o seu pensamento trouxe ao campo filosófico e literário correm sérios riscos de ser anuladas pela atual propensão para oscilar entre a positividade da lógica aplicada à análise dos discursos e a da contextualização culturalista ou sociológica. Nos ensaístas e críticos literários que me interessa ler encontro tematizações e conceptualizações que situo em relação com um pensamento da diferencialidade: a literatura como acontecimento, a performatividade das interpretações, a historicidade dos textos – em síntese, a singularidade como fuga à crença numa essência da linguagem e à sobredeterminação por um contexto, que enquanto tal não existe, pois não é, por condição, em absoluto determinável.

MSV: Interessante é perceber como em sua escrita de poesia você consegue imprimir uma dicção muito singular, intrigante mesmo para quem lida com a esfera da teoria no grau de intensidade, de intensividade, que percorre toda sua produção. Como foi se dando a criação do livro Sobretudo as vozes? Fale-me dos seus projetos, da continuidade da sua poética. Ou do poema contínuo, ressaltando-se não apenas seu diálogo com Helder, mas a forma como seu texto se move entre certo andamento narrativo e o espaço ritmado de uma dicção que se fragmenta e se prolonga num desenrolar incessante. A extensão de uma voz parece-me bem significativa em sua poesia.

SRL: Antes de Sobretudo as vozes publiquei Tão simples como isso e E Se-Pára. São livros que entendo como experiência de escrita literária, no sentido em que o que este nome designa não pretende apresentar e colocar direta e imediatamente problemas filosóficos, mas também não pretende ser um testemunho direto de qualquer realidade anterior. Seria como que um mergulho que pode abrir espaço para que algo de novo irrompa. Esse mergulho é o trabalho da forma, construção de uma ficção que não se fecha sobre si própria porque há nela abismos, ritmos, cortes, que são a inscrição e o apagamento da experiência, da contingência (voz é talvez isso) na qual se pensa e que é a condição do dirigir-se ao outro, estrangeiro, na universalização. Da experiência que terá sido a escrita, e a leitura, daqueles livros não posso evidentemente falar, o que não quer dizer que ela não venha em tudo o que escrevo.

MSV: A literatura, sobretudo a poesia, ocupa uma dimensão privilegiada na vida, na cultura, portuguesas. Os elos entre o lírico e a formação de seu país foram estudados por alguns pensadores como, por exemplo, Eduardo Lourenço. Como você percebe a vida presente da língua, da lírica portuguesas, especialmente quando relacionadas com as poéticas produzidas no Brasil e na África? O que mobiliza você, em particular, tendo-se em pauta a produção atual de poesia em português?

SRL: Há uma relação, que tem sido muito estudada, entre a construção das nacionalidades e a afirmação das línguas e literaturas nacionais. Portugal não é um caso único ou especial. O que é importante sublinhar é como, havendo uma literatura nacional que foi também instrumento de colonização, ela não o foi unicamente e, escapando aos propósitos oficiais de imposição de uma cultura como forma de subjugação, a literatura dos países colonizadores foi desviada (como elemento de um processo antropofágico) pelos povos colonizados para a criação de novas formas que desfaziam a partilha pré-estabelecida. Lembro como exemplo desse desfazer, e da relação singularização-universalização que o caracteriza, a obra extraordinária do escritor cabo-verdiano João Vário. Pela força da poesia e do pensamento, a escrita em português, seja em Portugal, no Brasil ou na África deixou de ser entendida como questão de nacionalidade, e só o é ao nível da permanência de alguns vestígios de vontade canonizadora, manifesta, por exemplo, nos prêmios literários. Os poetas são hoje mais desconhecidos e menos “prestigiados”. A poesia deixou de ter qualquer outro interesse que o de ser feita e lida por aqueles que estão de saída dos padrões culturais que tendem a reduzir tudo, até o próprio esbanjamento, à rentabilização.

MSV: O que vem se mostrando como importante em seu trabalho editorial junto ao selo Vendaval? Qual o significado que vem tomando para você essa atuação, a de publicação de livros, paralelamente à sua produção teórica e poética, no contexto cultural português?

SRL: As grandes editoras nunca tiveram, não poderiam ter, critérios editoriais que pusessem em causa a sua sustentação em termos econômicos. Isso implica uma grande complexidade e capacidade de gestão, de que decorrem problemas que variam com o tempo e que na nossa época colocam questões como a da perda de autonomia dos seus desígnios específicos. Uma pequena editora pode editar quase só por atenção aos livros, e isso produz certo fascínio. Parece-me que a minha colaboração em livros Vendaval decorre daí: gosto de ver certos livros serem feitos e estarem disponíveis em português.