Fado

Who sleeps with me at night’s
My secret, but if you must
I’ll tell you: Fear sleeps with me ––

Just fear, which suddenly
Cradles me in the see-saw
Of loneliness, with a silence

That talks with treacherous
Voice, stalking at reason.
What shall I do when lying ––

Staring at the void, screaming
Into space?  Who is asleep
Beside me, cold as Lazurus?

Scream? Who can save me
From what’s inside me
And waits to kill me?

I know it waits
At the edge of the bridge.

                 after “Quem dorme à noite comigo?” by Reinaldo Ferreira (1922-1959)


Quem dorme à noite comigo?

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,

Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,

Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,

Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me

Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Set as a fado by Alain Oulman (1928-1990) for Amália Rodrigues (1920-1999):

Sobre Charles Bernstein

Poeta e professor, nascido em 1950 em Nova Iorque, onde vive, é uma das principais forças das letras norte-americanas. Autor de vários livros de poesia e de crítica literária, é o co-fundador e co-editor de PennSound, o maior arquivo de leituras de poetas do mundo todo e do pioneiro Electronic Poetry Center. No Brasil, publicou o livro Histórias da guerra em 2008. Para ele, “a poesia é alguma coisa em longo prazo”. Nome de alcance mundial, ele afirma que o melhor suporte para sua poesia é o diálogo: “Tenho tido a sorte, desde quase o primeiro momento, de contar com bons companheiros”.