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O brilho de Luciano Figueiredo na Galeria Lurixs

No bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, o charmoso espaço de arte contemporânea da Galeria Lurixs expõe “Obras Recentes” do artista Luciano Figueiredo. Podemos admirá-las tranquilamente e deixar entrar um fluxo de alegria que a arte nos oferece nesta sinfonia inusitada.
Os trabalhos espalhados em telas de distintos tamanhos e cores sempre vibrantes (vermelho, verde, amarelo, azul, preto e branco) guardam ou rompem a geometria do espaço, os limites das telas. São os cortes, as dobras, as linhas e as varetas, as colagens com recortes de jornais, os “quase” envelopes ou “quase” pautas musicais, as imagens de cenas de cinema com Monica Vitti (& Alain Delon) e Anna Karina (& Belmondo) no movimento sensual dos corpos se misturando aos das folhas de jornal; as “quase” grafias recortadas pelo olhar ou sobrepostas, que apresentam o trabalho do talentoso artista.
Este momento construído nos últimos dois anos, no silêncio desta pandemia, durante a qual Luciano trabalhou recolhido, como muitos de nós, é forte, grande. As telas-objetos nos mostram movimentos para fora de seus enquadramentos, e, no inesperado da caminhada, saem e se sobrepõem com ângulos novos em ritmos novos. O trabalho misterioso do inconsciente se fazendo cheio de surpresas com o uso dos materiais simples (tinta, jornal, madeira) fluindo em consonância: divina consonância; o que só a arte pode nos ofertar.
Um deles nos evoca poeticamente, por exemplo, as tristes notícias deste nosso mundo: “Tout journal, de la première ligne à la dernière, n’est qu’un tissu d´horreurs.” C. Baudelaire, 1862
Mas as “supostas” pautas musicais, onde as notas não comparecem, ou a escrita que não acontece inteiramente simulam sinais de um código humano interrompido. São esses traços, as inscrições que mais nos interessam. Parecem mesmo buscar alinhavar a história de nosso tempo. Há sempre um sonho a sonhar que pode chegar cheio de referências ou deslocamentos, e, que recupera impasses vividos. Os encaixes nem sempre se encaixam e os traços soltos podem ser lidos assim: há suspensões nesta obra tanto quanto na vida de cada um de nós.

LUCIANO FIGUEIREDO
OBRAS RECENTES
TEXTO PAULO VENANCIO FILHO
ABERTURA
QUINTA-FEIRA, 14 DE JULHO DE 2022 18H ÀS 21H

VISITAÇÃO
15 JUL — 19 AGO 2022 SEG A SEX 11 – 19H


Inside Out, 2022 Acrílica sobre tela 85 x 85 cm

 

 


Inside Outside, 2022 Acrílica sobre madeira 120 x 120 cm

 

 


Outside Inside, 2022 Acrílica sobre tela, 60 x 80 cm

 

 


Inside Outside, 2021 Acrílica sobre tela, 85 x 85 cm

 

 

 


Sem título, 2021 Acrílica sobre tela 32,5 x 32,5 cm

 

 

Sem título, 2022 Acrílica sobre tela 60 x 80 cm

 

 

Sem título, 2020 Acrílica sobre tela 35 x 35 cm

 

Inside Out, 2022 Acrílica sobre tela 60 x 80 cm

 

 

Inside Out, 2022 Acrílica sobre tela 60 x 80 cm

 

 

Inside Out, 2022 Acrílica sobre tela 64 x 67 cm

 

 


Homenagem à Monica Vitti
série Kinomania, 2020
Acrílica, jornal e vinil adesivo sobre tela 60 x 80 cm

Homenagem à Anna Karina
série Kinomania, 2020
Acrílica, jornal e vinil adesivo sobre tela 41 x 70 cm

 

 

Baudelaire, 2022, Acrílica, jornal e vinil adesivo sobre tela 60 x 80 cm

 


LUCIANO FIGUEIREDO

Nasceu em Fortaleza, em 1948.

Artista filiado ao construtivismo e sua tradição gráfica, Luciano Figueiredo inicia sua trajetória na pintura na década de 1960. À época, recém-chegado a Salvador (Bahia), frequenta o curso livre de pintura do Instituto Cultural Brasil-Alemanha, tendo como professor o pintor e músico alemão Adam Firnekaes. Conhece, então, o trabalho de artistas como Paul Klee e Kandinsky, movimentos históricos como o Cubismo e a escola Bauhaus. Em 1969, muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa a conviver com músicos, cineastas e poetas. Trabalha na criação de cenários para musicais e peças de teatro, além de projetos gráficos para discos, livros e revistas, entre elas, a histórica Navilouca. É assim que se firma como um dos expoentes da chamada Contracultura.

Entre 1972 e 1978, reside em Londres, onde estuda História da Arte e Literatura Inglesa. Nesse período, inicia sua pesquisa com páginas impressas de jornal, realizando experimentações com poemas visuais feitos com recortes de palavras, manchas de cor e tablóides ingleses. Tais estudos o levam a criar, a partir de 1975, objetos com colagens e relevos monocromáticos, que apresenta em exposições a partir de 1984. Em trabalhos posteriores, apresenta relevos em telas sobre madeira ou emprega folhas de jornal e quadrados de voile, colados uns aos outros, de forma intercalada, sobre os quais realiza cortes e dobras, criando ritmos visuais.

Nos anos 2000 e 2010, cria a série Relevos, a partir da experiência tátil de folhear, dobrar e fechar as páginas de jornal – e ver surgirem, assim, volumes planares. São dessa década também as pinturas planares, Dioramas e Muxarabiês, com camadas de jornal superpostas e cobertas de cores transparentes ou saturadas.

Entre suas principais individuais, estão “Do Jornal à Pintura”, realizada no Musée Museum Départemental de Gap (França) em 2005 e em 2006, no Paço Imperial, e, em 2013, “Fabri Fabulosi” e “Imagem/Legenda: um cine romance”, no Oi Futuro Ipanema, ambas no Rio de Janeiro. Luciano Figueiredo foi curador de diversas mostras de Hélio Oiticica e Lygia Clark no Brasil e no exterior. Também atuou na Funarte e na coordenação do projeto Hélio Oiticica. Entre 2003 e 2007, dirigiu o Centro de Arte Hélio Oiticica, no Rio.


 Sobre Solange Rebuzzi

Escritora e psicanalista. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Passou a infância em Manaus, e a adolescência em Ipanema. Estudou psicologia, filosofia e literatura. Escreve poesia e prosa. Traduziu Francis Ponge em Nioque antes da primavera durante um Posdoc na UFF, Lumme editor. Publicou o romance A bordo do Clementina e depois. E os diários escritos durante a pandemia: Diário de um tempo indeterminado e Caligrafias. Todos pela 7Letras entre muitos outros.