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HISTÓRIAS DA GUERRA – POEMAS E ENSAIOS DE CHARLES BERNSTEIN

Histórias da Guerra (Seleção, tradução e prefácio de Régis Bonvicino com a colaboração de Maria do Carmo Zanini, Martins, 2008).

É assim que o poema longo “War stories” ,traduzido por Régis Bonvicino como “Histórias da guerra”, pièce de résistence do livro homônimo da editora Martins ( 2008), feito de percucientes aforismos e surpreendentes  associações, se presta a ulteriores re-traduções e des-traduções por outros poetas.

“ …

War is either a failure to communicate or the most direct expression possible.
A guerra é ruído na comunicação ou a expressão mais direta possível.
La guerra efrtsj rfgrsjfhr frrshgrs. 

War is the first resort of scoundrels.
A guerra é a primeira arma da canalha.
La guerra es canalla.
…”

É o caso, entre outros, de Odile Cisneros no trilíngüe “ Desmanifesto: Luminoso em teste” ( p.165) e do chileno Felipe Cussen , que na re-tradução para a revista eletrônica Sibila de setembro 2008 seguiu seu faro e sua escolha cultural ( “Sejamos objetivos?—Não, sejamos subjetivos (…) ou não vamos entender nada”, diria o xamã de Viveiros de Castro em seu  A Incostância da Alma Selvagem, recentemente publicado) e que também se valeu do processo de tradução homofônica que usa Bernstein na versão de “Me transformo” de Régis Bonvicino ( Ossos de borboleta, 1996), reproduzida no final do livro da Martins:

Me transformo/Me transform-O!

Outra janela – / outa vanilla

Outro/outro

Que se afasta e não se reaproxima/hey see a fast a, eh, neo so re: a proxy ma

Só que Cussen – sempre em Sibila-  segue um caminho inverso em “Mi sueño americano”

1.

– What a mess!     – ¡Qué mesa!
– I like brass instruments. – Me gustan los instrumentos de brasa.
– You have to pull the door.   – Tienes que pulir la puerta.
– I don’t want to eat lentils.   – No quiero comer lentes …)

Muitos outros são os procedimentos do poeta Charles Bernstein, líder do movimento l=a=n=g=u=a=g=e poetry de 1978, que tem, nesse livro, sua primeira coletânea lançada no Brasil. “ A inovação não é tanto um valor quanto uma necessidade”, diz ele, respondendo às perguntas da Entrevista que abre a parte dedicada a seus ensaios, no livro em questão: “temos de reinventar constantemente o contato conosco e com o mundo em que vivemos. A necessidade de mudanças na arte é gerada por mudanças na cultura e na sociedade…”.

Por isso, quando as referências são acentuadamente  norte-americanas e seus achados particularmente subjetivos – ou mesmo quando chega a tratar-se “idioletos não referenciais” como os denomina Augusto de Campos ( veja-se o que ocorre com “The ballad of the girly man” de que Bonvicino fala no prefácio), sua poesia se presta mais a ser interpretada do que propriamente compreendida. Para sua compreensão  talvez  fosse  necessária a “ transculturação” que utilizou, por exemplo, Haroldo de Campos – “ meio de negociar a dialética complexa do global/local”, reconhece Bernstein,  seu leitor atento, sempre na Entrevista.

A interpretação parte de múltiplas sensações, valorizando, além da  indefectível imagem, como propôs  um de seus mestres, Louis Zukofsky, “ a sensação material da música da linguagem à medida que se move através do tempo”. Veja-se isso, literalmente, no poema bernsteiniano que, na tradução de Bonvicino e Zanini, “ Sonata para violoncelo inepto, de Susan Bee”, soa assim:

aixa                         carpa de balê

paino                        clauta

boboé                       uolista

celbo                        flauto

saxozone                   baixote

contra beijo               dinfonia

cellop                        virtuose

rompete                    viola da bamba

clavesigno                 compostado

úpera                        corne inclês

Talvez na poesia de Bernstein, como diz Anne Mark no prefácio, o significado do poema seja “feito” na linguagem deste poema. Veja-se, por exemplo, Up high down low too slow – Toca aqui deixa que eu toco sozinho:

Valores sabem a banha sobre a mesa derretendo

antes da memória da banha sobre a mesa

derretendo:o contorno de uma sombra de

barba feito de um relinchar de descavalo

e suspiro arritmado de um toca-realejo

que espia por cima da torre inclinada formalmente conhecida

como Pisa.

ou, como diz Marjorie Perloff, a linguagem, quem sabe, nele funcione “ a partir de dentro” — linguagem esta que, saussurianamente, “determina a realidade”, não a óbvia, porém, pois, para esta há o de sempre:

Este é um poema

Totalmente acessível.

Não há nada

Nele que seja

De algum

Modo, difícil

de entender

brinca Bernstein ironicamente em “ Obrigado por dizer obrigado”, um dos últimos poemas da coletânea.

Qualquer que seja o caso, a escolha feita por Bonvicino , que “flagra  o começo e seu agora de With strings ( 2001) e, sobretudo, de Girly man (2006)”, e que, nos poemas selecionados,  procurou visualizar grande parte dos procedimentos empregados por Bernstein: poema em prosa, poema talhado como escultura (“For”), poemas que dialogam com a cultura de massa, poema lírico ( “Rain is local”) e um poema zaum (“Use no flukes”),” é particularmente significativa e, em termos de diálogo entre poetas, realçado pela edição bilíngüe, torna a leitura, além de entretenimento,uma curiosa aula de tradução poética.

 

(*) Professora de pós-graduação em Teoria Literária e Literatura comparada da USP

 

Leia a tradução de Felipe Cussen em Novos Autores


 Sobre Aurora Bernardini

Aurora Fornoni Bernardini é professora, escritora e tradutora. Na Universidade de São Paulo (USP), além de mestrado e doutorado sobre futurismo russo e italiano, concluiu em 1978 sua livre-docência sobre Marina Tsvetáieva. Bernardini começou a estudar russo em 1958 e, no fim da década de 1960, durante o mestrado, foi convidada para lecionar no curso de russo da USP por Boris Schnaiderman (1917–2016). Atualmente é professora titular de pós-graduação nos programas de Literatura e Cultura Russa (atual LETRA) e de Teoria Literária e Literatura Comparada (FFLCH/USP). Em 2003, foi finalista do prêmio Jabuti pela tradução de Cartas a Suvórin, de Anton Tchékhov (Edusp, com Homero Freitas de Andrade); em 2004, recebeu o prêmio Jabuti (segundo lugar), com o poeta Haroldo de Campos, pela tradução de Ungaretti: daquela estrela à outra (Ed. Ateliê Editorial); em 2006, foi vencedora do prêmio APCA pela tradução de O exército de cavalaria, de Isaac Bábel (CosacNaify, com Homero Freitas de Andrade); em 2006, foi contemplada com o prêmio Paulo Rónai pela tradução de Indícios flutuantes — poemas, de Marina Tsvetáieva (Martins Fontes), de quem Bernardini ainda verteu Vivendo sob o fogo: confissões (Ed. Martins, 2008); em 2007, foi vencedora do prêmio Jabuti (terceiro lugar) também pela tradução de Indícios flutuantes; em 2014, foi finalista do Jabuti pela tradução de “Os sonhos teus vão acabar contigo”: prosa, poesia, teatro, de Daniil Kharms.