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M. LOVET, de Rodrigo Cintra

O leitor folheia O CADERNO DE DISPOSITIVOS DE M.LOVET, o mais recente livro de Rodrigo Suzuki Cintra, confiando em Macedonio Fernandez – lembrado no também recente  A ARTE DO ERRO de Maria Negroni – que teria afirmado algo como: “Texto bom é o mais difícil de entender”.

Por que difícil? Pergunta-se o leitor, enquanto avança na leitura dos 30 “DISPOSITIVOS DE MEDIÇÃO SENTIMENTAL” (a primeira parte do livro de Rodrigo), se esgueirando pelas originais maquinárias imaginadas pelo autor para dar o nome a cada um dos textos. Mas, e esse senhor, M. Lovet, apresentado como crítico arguto e participante indireto dos textos, será que ele dominava mesmo as multifunções dos diferentes dispositivos? Será que ele se descobria nessas “ferramentas existenciais” que constituem os trinta “poemas” que podem medir sentimentos, cujo foco desliza sobre planos móveis, como nos Écrits de Lacan?

Ah, mas foi bom ler o prefácio antes dos escritos (em geral, eu o leio no fim!), que deu informações preciosas, principalmente para a compreensão de sua estrutura: “São sonetos em estilo lovetiano, três quartetos e um dístico e, se não têm métrica e rima, em seu conjunto obedecem a outros rigores. Todo primeiro quarteto dos sonetos indica como opera o dispositivo, em específico, o segundo quarteto aponta para um balanço do sentimento em questão, o terceiro introduz Lovet enquanto personagem, e o dístico final é um balanço das estrofes anteriores”.

A explicação é oportuna. Eu mesma, que não sou dada a procurar influências num texto, cuja primeira leitura, sit venia verbo, sempre achei que devia ser imanente, sincrônica, já havia, não obstante, começado a encontrar nos textos certos laivos bonnefoyanos, com seus pontos de partida impensáveis, suas provocações, seus transbordamentos, agora, sim, tudo ficou claro.

E – aos poucos – à medida em que entrava nos “DISPOSITIVOS DE SONHO ENQUANTO ARTE”, comecei a encontrar os artistas evocados poeticamente por suas obras (Calder, Dali, Duchamp, Magritte, Man Ray) e, finalmente, em “DISPOSITIVOS DE METAFÍSICA AVANÇADA”, encontrei a mim mesma, enquanto leitora, e entendi, sim, que aqui a poesia passa a ser “a existência plena das próprias palavras que enuncia”. Talvez isso ocorresse graças a um procedimento simples, mas fundamental: a fascinação que a exposição pessoal do narrador exerce sobre o leitor. É M. Lovet – “um verdadeiro personagem que aciona sentimentos, sonhos, e metafísicas como se ele mesmo fosse um dispositivo feito de carne e ideias” – quem fala, aqui, diretamente e inventivamente a nós, leitores, mas também… personagens.


LINK DO LIVRO


 Sobre Aurora Bernardini

Aurora Fornoni Bernardini é professora, escritora e tradutora. Na Universidade de São Paulo (USP), além de mestrado e doutorado sobre futurismo russo e italiano, concluiu em 1978 sua livre-docência sobre Marina Tsvetáieva. Bernardini começou a estudar russo em 1958 e, no fim da década de 1960, durante o mestrado, foi convidada para lecionar no curso de russo da USP por Boris Schnaiderman (1917–2016). Atualmente é professora titular de pós-graduação nos programas de Literatura e Cultura Russa (atual LETRA) e de Teoria Literária e Literatura Comparada (FFLCH/USP). Em 2003, foi finalista do prêmio Jabuti pela tradução de Cartas a Suvórin, de Anton Tchékhov (Edusp, com Homero Freitas de Andrade); em 2004, recebeu o prêmio Jabuti (segundo lugar), com o poeta Haroldo de Campos, pela tradução de Ungaretti: daquela estrela à outra (Ed. Ateliê Editorial); em 2006, foi vencedora do prêmio APCA pela tradução de O exército de cavalaria, de Isaac Bábel (CosacNaify, com Homero Freitas de Andrade); em 2006, foi contemplada com o prêmio Paulo Rónai pela tradução de Indícios flutuantes — poemas, de Marina Tsvetáieva (Martins Fontes), de quem Bernardini ainda verteu Vivendo sob o fogo: confissões (Ed. Martins, 2008); em 2007, foi vencedora do prêmio Jabuti (terceiro lugar) também pela tradução de Indícios flutuantes; em 2014, foi finalista do Jabuti pela tradução de “Os sonhos teus vão acabar contigo”: prosa, poesia, teatro, de Daniil Kharms.