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A futilidade das relações sociais – Jorge Andrade

“A futilidade tornou-se a essência da vida em sociedade. O ter absorveu o ser. O expor tornou-se uma marca da existência humana. O valor das “coisas” foi engolido pelas “não-coisas”. O espaço privado confunde-se com o espaço público. Para estar vivo, é preciso exibir o domínio privado no espaço público. Sobretudo nas redes sociais.”   As palavras que abrem o livro Redes Sociais – Ilusão, Obsessão, Manipulação (Edições Sílabo), obra de Joaquim Fialho, analista de redes sociais e docente no Instituto Superior de Gestão, dão o mote a uma obra que esmiúça a ascensão recente de plataformas que se tornaram as “salas de convívio global”. Temas como capitalismo digital, ilusão da felicidade, obsessão por estar ligado, novos padrões de comportamento, transformações nas relações de sociabilidade dão-nos o pretexto para conversarmos com o investigador integrado do CLISSIS — Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social e Intervenção Social da Universidade Lusíada.

 

Pergunta: A capa do seu livro apresenta-nos uma imagem das redes sociais como se estas fossem comprimidos. Prescreveria estas pílulas ou causar-nos-ão demasiada dependência?

Resposta: A resposta é complexa. Prescrever um mesmo tratamento ou medicação para a generalidade das pessoas é sempre um risco. Neste caso, o risco não é ter as redes sociais, o risco é ver as pessoas absorvidas nas redes sociais e com um comportamento de ilusão, obsessão e manipulação. A imagem forte que encontra na capa do livro tem como objetivo alertar os leitores de que o consumo excessivo do que quer que seja tem aspetos negativos. Não é um livro contra as redes sociais nem para as abandonar, é um livro de serviço público para alertar em relação aos riscos do uso excessivo destas redes. E, inclusivamente, alude ao uso excessivo da internet. A DSM-5, um sistema de classificação das doenças mentais em categorias, já inclui os comportamentos associados à utilização de videojogos. Mas o uso das redes sociais ainda não está nessa escala. O meu objetivo é alertar para esse excesso de utilização e vê-lo como uma patologia.

P: Logo a abrir o seu livro escreve que “a futilidade tornou-se a essência da vida em sociedade”. Já em 2018, na revista Inteligência Empresarial, nos falava da “construção de uma identidade infantilizada”. De que forma se expressa esta futilidade e infantilização nas redes sociais?

R: O livro alude à futilidade das relações sociais que se têm construído. Nas redes sociais, as pessoas assumem “superpoderes” e tornam-se desinibidas. A partir daí, atrás do ecrã criam-se as denominadas shitstorms em torno de assuntos que não têm qualquer relevância social. Um outro fenómeno prende-se com a construção de um ego virtual que, regra geral, não corresponde ao ego real. No mundo do digital, somos realizados profissionalmente, impera a felicidade, algo que não corresponde ao outro lado, a vida real. Essa infantilização nas redes sociais entra nesta lógica de desinibição no ecrã. As redes sociais tornam-se armas de arremesso. Há uma expressão muito interessante que gosto de utilizar nas palestras que dou sobre redes sociais. Quando Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, em 2016, o jornal Chicago Tribune escreveu: “Na realidade, elegemos um meme como presidente.” As redes sociais podem ser vistas como um certo barómetro da ignorância. Algo que o escritor e filósofo Umberto Eco disse em 2015: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.” Tudo isto preocupa-me. Num passado recente, as grandes influências estavam nos livros, nas bibliotecas, nos pensadores. Hoje estão nos influencers. Hoje, fazer scroll é um ato litúrgico. Um utilizador de redes sociais percorre, em média e por dia, entre dois a três quilómetros no ecrã. Estamos a criar analfabetos motores, pessoas que são muito ativas digitalmente, mas que depois são passivas, não têm motricidade fina.

P: É por isso que nos diz que “as redes sociais estão a assumir configurações potencialmente de alienação social, isolando e simplificando os relacionamentos”?

R: Sim, a partir do momento em que há uma rutura com a vida real e a reconstrução do ego, dá-se essa alienação. Cria-se uma realidade de conveniência para fugir às frustrações da vida real. Rapidamente, encontramos um “amigo” e também, imediatamente, podemos bloqueá-lo.

P: No seu livro lemos que “estar em redes deixou de ser uma opção e passou a ser uma imposição de vida em sociedade”. Consegue identificar em que momento este fenómeno se deu na nossa sociedade?

R: Comecei a estudar as redes sociais em 2003, um ano antes da génese do Facebook. Enveredei no estudo das digitais por perceber que estávamos a construir uma sociedade com o poder entregue ao GAFAM [acrónimo de Google, Amazon, Facebook, Apple, Microsoft], que criava um império com uma imagem sedutora. As próprias cores usadas por estas organizações criam esta sedução. Veja-se o azul do Facebook, que apela à paz, mas as notificações encarnadas alertam-nos para alguém que chama por nós. A Apple tem como símbolo a maçã. O Twitter chilreia como os pássaros, o Windows abre-nos uma janela. Tudo conflui para uma construção de um estado de necessidade permanente de estar on, hoje afirmamos, “publico, logo existo”. Relato no livro o testemunho de uma jovem que participou num projeto de investigação em que estive envolvido. Ela entrava no metro e sentia-se completamente excluída, porque não havia um único contacto de olhares, toda a gente fixada no ecrã. Dentro de alguns anos, teremos de entrar em planos de detox digital e teremos de reaprender algo que praticámos desde a Pré-História: o relacionamento entre os humanos. Este é um dos alertas do livro, o de estarmos a destruir as relações humanas.

P: Também alerta para a vigilância nos nossos equipamentos de comunicação…

R: Sim, sobre o rastreio cruzado ultrassónico. As pessoas ficam perplexas com o facto de a internet lhes apresentar o produto ou serviço que procuram, mas não sabem que as redes sociais que usam são pagas. Não se consegue quantificar qual é o preço dos nossos dados para as plataformas de rede social e para os senhores do capitalismo digital. Sabemos qual o preço de um barril de petróleo, mas não sabemos o valor dos nossos dados. E nós damo-los. Os nossos equipamentos, através de ultrassons, conseguem identificar o que estamos a falar e apresentam-nos estímulos em função disso. Ou seja, os smartphones escutam-nos. A nossa privacidade deixou de existir.

P: Falou dos senhores do capitalismo digital. Refere-os amiúde no seu discurso. Quer definir do que se trata?

R: Sim. O capitalismo informacional que se desenvolveu com os avanços da globalização, dos computadores, da robótica e da internet, entre outros, convive atualmente com o capitalismo das plataformas digitais, cuja matriz digital é a essência do negócio. Estas plataformas são a génese de uma nova dinâmica de interação social; é uma porta de entrada para a sociedade das redes. A lógica da ligação das pessoas foi engolida pela lógica do capitalismo digital, em que passámos da economia da fabricação de objetos materiais para uma economia de fabricação de serviços de valor, que se foca, sobretudo, na captação e processamento de dados. Ou seja, os nossos comportamentos individuais e coletivos são coletados, quantificados, analisados e vigiados pelos big data, e a partir daí estamos a ceder gratuitamente aos capitalistas digitais para fazerem o que quiserem de nós.

P: Há pouco referia distúrbios do foro mental associados ao uso das redes sociais. Do que estamos a falar em concreto?

R: Estou a coordenar um projeto denominado Scroll, Logo Existo, em que identificamos comportamentos aditivos. Por exemplo, a fobia que se prende à sensação da falta do telemóvel; a síndrome do toque fantasma com a permanente sensação de que a máquina nos “chama”. Outro comportamento aditivo prende-se com a pressão Facebook, a ansiedade de sabermos que algo está a acontecer e não estamos a acompanhar. Assim como a hipocondria digital, com as pessoas a fazerem um diagnóstico com base nas pesquisas na internet. Há também o efeito Google, quando aceitamos a informação sem a verificarmos ou mesmo não a retermos, porque consideramos que está sempre disponível na internet. 80% dos utilizadores das redes sociais não leem mensagens quando a sessão de leitura obriga a mais de um minuto de atenção.

P: O que é um datassexual?

R: É o indivíduo que constrói todo o seu quotidiano tendo em conta o digital, ensaia até 10 a 15 fotografias para ter uma reação nas redes, pois uma fotografia sem reação é sinónimo de frustração. Constrói a sua vida em relação aos estímulos digitais. A construção do seu ego prende-se com isso. Ter seguidores é um sinal de ámen digital, uma espécie de êxtase. Hoje, as relações sociais já não são as do abraço, mas as do algoritmo, frias, desprovidas de sentimento. Em extremo, estamos todos dentro do conceito de datassexual, pois todos temos telemóveis onde recebemos estímulos, mensagem do WhatsApp, e-mails, SMS. ou seja, vivemos com uma caixa negra tal como um avião, só que no nosso caso é o smartphone, pois sentimo-nos perdidos sem ele. Por outro lado, há um dado interessante: 80% dos utilizadores das redes sociais não leem mensagens quando a sessão de leitura obriga a mais de um minuto de atenção. Há um outro estudo [Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses 2020] muito interessante, desenvolvido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que refere que 61% dos portugueses, em 2020, não leram um único livro.

P: Diz-nos que as redes sociais estão a promover a “mercantilização do corpo”. O que quer dizer exatamente com esta expressão?

R: O conceito de felicidade nos jovens em idade escolar, nos ensinos secundário e universitário, prende-se com reações ao corpo nas redes sociais. Isto parte de uma construção do capitalismo digital em que a tristeza é proibida, a felicidade tornou-se numa construção de algo que não tem a ver com o real e a sexualização do digital confunde-se com aquilo que é o erotismo. O namoro passou para o Tinder. O Instagram é uma mostra de corpos perfeitos e esculpidos, sem espaço para rugas ou estrias. No livro refiro o caso de uma jovem que, quando publicava fotografias em fato de banho, recebia uma explosão de interações. Há uma pressão sobre os jovens para terem relevância digital como sinónimo de satisfação para a vida. É Complicado As Vidas Sociais dos Adolescentes em Rede, livro da socióloga norte-americana Danah Boyd, relata-nos o caso de uma jovem que ameaçava no Instagram que se iria suicidar. Ninguém a levou a sério e acabou mesmo por se suicidar. Num mundo interconectado como este, é irónico falarmos de solidão. Outro aspeto que estou a trabalhar prende-se com a perda da noção entre o que é o limite do espaço público e privado. A generalidade dos utilizadores não tem qualquer dificuldade em partilhar uma fotografia do seu espaço privado, mas não abre a porta a um desconhecido. Não temos dificuldade em aceitar um pedido de amizade de um desconhecido, ou mesmo conhecido, mas muitas vezes fazemos o papel de hipócritas digitais. Passamos na rua pelos “amigos” e não os cumprimentamos. Há um diálogo muito interessante entre um professor e um aluno. Este diz ao professor: “Num dia, reuni 500 amigos na minha rede social.” Diz o docente: “Tenho 87 anos e fiz cinco amigos” [risos].

P: Michel Desmurget, autor do livro A Fábrica dos Cretinos Digitais, refere que “a indústria do entretenimento digital que gera todos os anos biliões de dólares de lucros tem nos nossos filhos um alvo muito lucrativo”. A sua investigação sobre as redes sociais corrobora isto no que toca aos mais novos?

R: Sim. Somos prisioneiros do digital, que está nas nossas vidas não apenas nas redes sociais. Estamos a construir uma sociedade de atores digitalmente ativos, mas, na prática, o seu quotidiano é passivo. As pessoas indignam-se com os governantes, mas muitas delas não vão votar. Ou seja, uma vez mais estamos a falar dos hipócritas digitais que constroem as shitstorms que já referi.

P: Quem são os protagonistas/beneficiários do capitalismo digital que referiu há pouco?

Essa é a resposta mais difícil que lhe posso dar. Façamos um exercício: sem as redes sociais, Trump e Bolsonaro teriam sido eleitos? Sem as redes sociais, André Ventura teria a popularidade que tem? Sem as redes sociais, teríamos o recrudescimento dos movimentos radicais a que assistimos nos últimos tempos? Neste contexto, o invisível é vastíssimo. A velocidade é de tal forma rápida nas redes sociais que nós, investigadores, temos muita dificuldade em acompanhar o ritmo da mudança. Não conseguimos parar a dinâmica digital. Por exemplo, no caso da inteligência artificial que nos é “servida” no ChatGPT, a aplicação reuniu em cinco dias um milhão de utilizadores. O Facebook levou 10 meses para chegar ao 10 milhões e o Instagram, creio, dois meses para chegar ao milhão de utilizadores. É assustador. Respondendo à sua pergunta até onde me é possível chegar: há interesses na política, em todas as forças políticas, independentemente da sua configuração, há interesse das grandes marcas, há interesse por parte das figuras públicas e, por último, há interesse naquela que é a vertente mais obscura, nos chatbots e nos indivíduos que “vivem” na dark web, com objetivos muito diferentes de milhões de outros utilizadores que procuram apenas reações aos seus perfis e publicações. Há toda uma zona cinzenta de incerteza que nos devia fazer refletir como as redes sociais nos estão a influenciar a forma de pensar e de agir com conteúdos comandados pelos algoritmos.

 

Diário de Notícias (Portugal)

Jorge Andrade

07 Maio 2023