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O caso Boaventura de Sousa Santos na Universidade de Coimbra

Meses depois do escândalo que ameaçou destruir a carreira de um dos mais brilhantes intelectuais portugueses dos séculos XX e XXI, Boaventura de Sousa Santos, a editora Routledge parece ter percebido que alguma coisa de muito estranho e de muito errado se passou, e, finalmente, o livro com o capítulo que tanto o ofendia foi retirado temporariamente do catálogo de vendas para revisão. Talvez porque, durante estes meses, muitos foram os protestos de cientistas internacionais, demonstrando a falta de cientificidade do capítulo. Em Portugal, estranhamente, nenhuma voz se fez ouvir.

Investigadora do CES, Centro de Estudos Sociais https://www.ces.uc.pt/pt da Unioversidade de Coinmbra, desde 1986, nunca senti estar ali a viver uma cultura de investigação abusiva. E senti-me insultada com o que as três autoras chamaram às outras mulheres do CES (sexual gatekeepers?!). Uma coisa é importarmos a visão do puritanismo norte-americano (sendo americanista de formação e tento vivido muito tempo nos EUA, conheço bem esse puritanismo e a sua hipocrisia — por isso, sendo feminista, estou contra os excessos do MeToo, como, de resto, começa já a acontecer nos EUA); outra coisa, completamente diferente, é um crime de assédio sexual.

Quanto à cientificidade do artigo: de acordo com as cientistas que escolhem citar, os “star academics” são investigadores medíocres que recorrem à perseguição de brilhantes jovens investigadoras para lhes impedirem a progressão na carreira. Mas quem se atreveria a fazer tal acusação a Boaventura de Sousa Santos, um académico reconhecido, que de medíocre nunca teve nada e que sempre ajudou os mais jovens a progredirem nas suas carreiras? Frequentemente lhes abriu caminho com cartas de recomendação e publicando livros com eles. Lembro-me bem do meu espanto (e terror…) quando, encontrando-me a fazer investigação no Brasil naquela altura, me deixou a tratar de um enorme congresso internacional em que os meus interlocutores eram a fina nata da sociologia brasileira. Era eu uma miúda, ainda jovem assistente, sem doutoramento.

As autoras escolhem a metodologia da autoetnografia e o método tem algum mérito, mas corre o risco de deixar passar em claro lapsos de memória, preconceitos, contradições, hesitações, confusões e até ressentimentos. Elas mesmas o reconhecem: as suas vozes são “naturalmente subjectivas, emocionais, ou mesmo ressentidas” — a primeira e principal autora do artigo, Viaene, foi despedida do CES, em 2018, por continuado mau comportamento institucional; e Tom já antes teve um processo crime por difamação.

Admitem que não fizeram trabalho de campo, confessam que não entrevistaram “nenhum actor institucional”, antes dependeram de boatos, pichagens anónimas e diz-que-diz (whisper-network). Mas a autoetnografia não pode confundir-se com autobiografia, uma confusão que parece ter-se instalado. Limitam-se, na verdade, a escrever o que lhes apetece e o objectivo parece ser o de fazer do CES um antro de abusos intelectuais e sexuais, e destruir as reputações e as carreiras de três investigadores de mérito: Boaventura de Sousa Santos, Maria Paula Meneses e Bruno Sena Martins. A redução do CES a três elementos – “Star Professor”, “Apprentice” e “Watchwoman” – é um insulto a todos os investigadores do CES, mais de uma centena na altura, e um insulto sobretudo às suas mulheres investigadoras que, neste artigo, aparecem como dependentes, cobardes e subservientes — o que é completamente falso: as mulheres sempre tomaram parte nas instituições democráticas do CES e sempre se fizeram ouvir nas reuniões.

O recurso a leituras enviesadas de obras sobre a voz das mulheres em contextos académicos (para alguns, mera “choraminguice”) ou sobre história oral e autoetnografia (conceitos que também parecem confundir) e até sobre a mercantilização do ensino superior no Reino Unido, assunto que nada tem a ver com o CES, é mais uma prova da desonestidade com que o artigo é escrito, de modo a fazê-lo parecer “científico”.

Segue-se o trecho sobre as pichagens anónimas e a rede de boatos que estão por trás de todas as infundadas alegações. As pichagens anónimas a dizer, entre muitas outras coisas, que o “Star Professor” violava estudantes, fizeram todo o sentido para Viaene, que diz ter percebido então que a razão da falta de apoio no CES era por não ter acedido a entrar no grupo de “amigos colegas com benefícios” sugerido pelo “Apprentice”. Claro que não refere que o seu comportamento repreensível perante o CES e perante a própria instituição financiadora (Marie Curie) é que esteve na base do processo disciplinar que lhe foi movido e do seu despedimento.

Nós, investigadoras seniores do CES, continuamos sob ataque, porque, dizem, não demos apoio às “sobreviventes” com medo de perder os nossos privilégios (e eu que nem sabia que havia vítimas! Quanto mais sobreviventes! E de que privilégios se fala?). Claro que não lhes passaria pela cabeça que as pichagens estivessem cheias de mentiras. Nem tampouco que o seu trabalho pudesse nem sempre estar à altura de um centro de investigação de excelência, como o CES. No final, as autoras não têm sequer pejo em confessar que o seu artigo é totalmente (in)fundado em pichagens anónimas. A narrativa parece apenas nelas assentar por acusarem Boaventura de Sousa Santos de ser um violador, dando-se até graças às anónimas denúncias pichadas por terem ocasionado a tal “rede de murmúrios”, “mesmo que não fossem sempre verdade”. Porque, afinal, a verdade tem muitas formas e “os boatos trazem consigo um sentido de justiça”. É isto um artigo científico?

É urgente definir “assédio” de forma científica e jurídica. Ou teremos que pedir a Camille Paglia que regresse, que está perdoada. O risco é o mal que casos destes, na sua má-fé e ensejo vingativo, fazem aos casos sérios. Isso é que é grave.

A falta de rigor científico é aqui a principal questão pois se utilizam conceitos de outras cientistas sem os compreender, “treslidos” ou usados por pura má-fé. Desmontado o processo, fica “a rede de murmúrios” e o propósito do capítulo: vingar-se de um dos maiores intelectuais portugueses, publicado em várias línguas, um pouco por todo o mundo. Quem foram os avaliadores do capítulo? Como é que, com base nisto, os meios de comunicação social expuseram na praça pública a vida privada de uma pessoa, com muita falsidade à mistura, daquela forma persecutória?

Congratulo-me com a decisão da Routledge e espero os resultados da Comissão Independente. Continua a não haver queixas no Ministério Público.

 

Ouça e veja Boaventura de Sousa Santos

 


 Sobre Graça Capinha

Faculdade de Letras, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra