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Questionando Pasolini

Quero discutir brevemente, aqui, o ensaio do cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini (1922-1975) intitulado “Futebol de prosa e futebol de poesia”, do início dos anos 1970. O ensaio, no qual o autor de obras-primas como Mamma Roma (1962) e Teorema (1968) reflete sobre o futebol, tornou-se marco incontenstado por intelectuais. Sua tese central é a de que “há um futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outro cuja linguagem é poética”. Creio que o texto repete os mesmos clichês a respeito do futebol (e das culturas), verdadeiros preconceitos que se perpetuam até hoje, e que põem “cada país e cada raça em seu devido lugar”.

Pasolini teoriza acerca da seleção brasileira de 1970, de Pelé, Gerson e Tostão, afirmando: “Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros”, para concluir que seu futebol é “poesia” e o europeu, “prosa”, acrescentando: “O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”)”. A comparação entre futebol e poesia (João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade) e prosa de arte (Guimarães Rosa e Clarice Lispector) me parece arbitrária e populista. O ensaio de Pasolini é relativamente confuso e ele se atrapalha ao manejar conceitos de Vladimir Propp, Roland Barthes e Julius Greimas. Poesia e prosa de arte pertencem ao âmbito erudito, da reflexão, do público de estima, e o futebol pertence – mesmo em seus momentos de brilho máximo, como a seleção brasileira campeã do mundo de 1958, 1962 e 1970 −, ao universo popular, que, a partir dos anos 1950, no pós-Segunda Guerra, transformou-se paulatinamente em universo das massas, dos produtos, do consumo, do prazer imediatista e irrefletido. Não há semelhanças entre poesia, prosa e o ludopédio. Arte é o inútil. Futebol é dinheiro. O futebol foi popular com um Garrincha que inspira, até hoje, movimentos de dança erudita. Em 1970, Pelé já era um concorrido garoto-propaganda. Os estádios europeus já estavam repletos de placas publicitários, desde sempre, diga-se. O texto de Pasolini pode ser interpretado como um sintoma da substituição da arte erudita por outras “artes”, entre elas o futebol, sob a égide oculta do projeto capitalista de dissipação do juízo crítico, de transmutação da cultura em entretenimento com a roupagem de “arte”. É o momento em que a alta cultura (o próprio Pasolini cineasta, que as massas desconhecem), em nome da comunicação, dissipa-se no pop. Muitos citam esse texto, mas nunca assistiram a um filme do genial italiano, crítico e inovador.

A resenha do jornal El País sobre a partida protagonizada por Brasil e Costa do Marfim, nesta Copa de 2010, revelava a ideologia opressora que subjaz nos clichês e, igualmente, no ensaio do autor de Il Decameron (1971) – ideologia do “colonizador”, que põem “cada país e cada raça em seu devido lugar”. Em Pasolini, a coisa é inconsciente. O jornalista dizia que, embora vitorioso, o Brasil (e não a sua seleção, mas o “Brasil”) havia perdido muito de sua “graça”: “ganha como antes, entretanto, não propicia alegria, não há samba, mas muito heavy metal”. Há muito tempo o futebol é uma indústria milionária, que exige competitividade heavy metal acima de tudo – a tal da eficiência, que tanto se reclama dos países latino-americanos. Eficiência nas empresas, no Estado, em todas as atividades. Sem eficiência, destaque-se, a seleção brasileira “poética” não venceria a Copa de 1970, na qual, por exemplo, marcou os adversários sob pressão em suas defesas, para roubar a bola, “driblar” e marcar gols. A seleção surpreendeu tática e, frise-se, coletivamente, com jogadores trocando de posição etc. Daí o equívoco de Pasolini, ouso dizer. Equívoco que se exemplifica com a seleção holandesa de 1974, de Cruyff, Neeskens e Rensenbrink – tão “poética” e brilhante quanto a brasileira de 1970 e muito eficiente, com todos os jogadores de linha jogando em todas as posições. A “laranja mecânica” holandesa de 1974 trazia o recado que um “operário”, na linha de montagem, deve valer por três e ainda brilhar. É puro neoliberalismo. Quem não se lembra do golaço de Cruyff contra a Argentina em 1974? Um passe hábil e um toque à la brasileira do camisa 14 para as redes. Frases pasolinianas como “se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia” evidenciam um preconceito mais do que uma verdade: os latino-americanos não podem participar, competitivamente, do mundo global (e ele o é, ao menos, desde 1970, com Richard Nixon), sob pena de perderem sua “poesia”. Se o futebol é metáfora da vida, como dizia Jean-Paul Sartre (1905-1980), Pasolini foi generoso demais com essa indústria.

Leia o artigo de Pasolini na íntegra http://ims.uol.com.br/Na_Integra/D242

 


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 Sobre Régis Bonvicino

Poeta, autor, entre outros de Até agora (Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo), e diretor da revista Sibila.