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ELOS DE MELODIA E LETRA – LUIZ TATIT E IVÃ CARLOS LOPES

Elos de melodia e letra: análise semiótica de seis canções (Ateliê Editorial, 2008) reúne seis artigos escritos a quatro mãos por Luiz Tatit e Ivã Carlos Lopes, publicados anteriormente, de modo esparso, em periódicos acadêmicos e volumes coletivos voltados aos estudos literários, semióticos, linguísticos e de música popular, no Brasil e no exterior.

Ivã Lopes é professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Grupo de Estudos Semióticos dessa mesma instituição. Com Nilton Hernandes, organizou o volume Semiótica: objetos e práticas, saído pela Contexto, em 2005. Luiz Tatit, por sua vez, mais conhecido pelo seu trabalho como músico e compositor (primeiramente junto ao grupo Rumo, de São Paulo, e mais recentemente em carreira individual), é professor titular do mesmo Departamento, e autor de uma série de obras dedicadas à canção popular, sobretudo pelo viés dos estudos semióticos, como Semiótica da canção (Escuta, 1994), O cancionista: composição de canções no Brasil (Edusp, 1996), O século da canção (Ateliê Editorial, 2004) e Todos entoam: ensaios, conversas e canções (Publifolha, 2007), para citar apenas alguns.

Diferenças entre canção e literatura

No volume em questão, cada artigo é dedicado à análise de uma canção em específico. São duas de Caetano Veloso (“Terra” e “Fora da Ordem”), duas de Chico Buarque (“Olê, Olá” e “As Vitrines”) e duas da parceria Tom Jobim e Vinicius de Moraes (“Eu Sei que Vou te Amar” e “A Felicidade”). São todas canções bastante conhecidas de importantes compositores brasileiros, o que auxilia no acompanhamento das análises, que pressupõem sempre a familiaridade com a linha melódica, já que esta não vem reproduzida em notação musical convencional no corpo dos estudos.

Como destacam os autores, o foco das abordagens recai especialmente sobre os vínculos existentes entre “melodia” e “letra” em cada uma dessas canções, pois são eles “os responsáveis diretos pelos sentimentos que as canções nos despertam”. Outros elementos também podem entrar nas considerações (sejam do universo musical, sejam do literário, ou informações acerca do contexto mais amplo em que o compositor e as canções se inserem) “desde que reforcem esses elos e ampliem o alcance semiótico das composições descritas.” (p. 9) Os estudiosos estão, sobretudo, preocupados em investigar como se dá essa conexão, por intermédio da voz (que fala/entoa/canta), entre a parte textual e o desenvolvimento melódico, conexão esta que dá à canção (e à canção popular especialmente) o seu estatuto diferenciado em relação à literatura (à poesia, por exemplo) ou à música.

Cada artigo segue uma estruturação similar. Primeiramente, tem-se uma breve introdução de caráter mais cerradamente teórico, que recupera formulações desenvolvidas de modo mais amplo em livros anteriores (com destaque para os do próprio Tatit), ou ainda informações gerais sobre o contexto de produção e circulação da canção abordada. Em seguida, o texto concentra-se, a cada vez, na descrição e comentário da “letra”, depois da “melodia” (ou vice-versa). A consideração de um desses aspectos convoca, necessariamente, digressões reiteradas pelo outro. Finalmente, um breve segmento conclusivo explicita o caráter diferencial da canção analisada. Trata-se de uma abordagem formal rigorosa, que opera (cabe adaptar aqui uma conhecida expressão dos estudos literários) em close listening.

As matrizes do modelo remontam à linguística de Ferdinand de Saussure e Louis Hjelmslev, passam decisivamente pela semiótica de A. J. Greimas, bem como pelos estudos de semioticistas mais recentes como Jacques Fontanille e Claude Zilberberg, até chegar à intervenção acadêmica do próprio Luiz Tatit, responsável pela adequação e aplicação desse aparato teórico, de um modo original e produtivo, à canção popular brasileira.

Descompasso entre ouvintes e análise

O modelo semiótico adotado é complexo, e demanda um tipo de formação e repertório que o interessado habitual por canção popular raramente possui. Com isso, instaura-se, desde logo, um curioso descompassado entre a familiaridade que o leitor/ouvinte comum possa ter relativamente aos objetos estudados e o modo como são descritos e interpretados. Trata-se de um tipo de abordagem que deixa de fora, de imediato, o simples diletante.

Em todo caso, o objetivo é o de evidenciar, em bases teóricas rigorosas, como operam os artistas da canção (sua inteligência conceptiva, seu cuidado artesanal) a partir dos materiais e meios que lhe são próprios e dentro de um universo e tradição que são os seus. Cabe ressaltar este ponto, fundamental na reflexão teórica de Luiz Tatit sobre a canção popular, especialmente dentro do contexto brasileiro.

A propósito, formulações como as seguintes são significativas, e deixam claro o estatuto a que chegou o objeto escolhido, bem como a necessidade de entendê-lo a partir de uma perspectiva teórica singular. Noutras palavras, explicitam o motivo do interesse e o ponto de atuação dos próprios estudiosos:

“Desde a eclosão do movimento bossa-nova, em 1958, a canção brasileira vem atraindo a atenção, não apenas da forte indústria do entretenimento instalada no país, mas também de boa parte da elite cultural que hoje lhe reserva o papel artístico e social anteriormente concedido apenas à literatura e às artes eruditas em geral. Essa condição especial não pode evidentemente ser desvinculada dos grandes artistas que emprestaram ou vêm emprestando o seu talento para a criação de um repertório cancional cuja originalidade e qualidade já são reconhecidas em todo o mundo. // Ainda não há modelos de análise compatíveis com o vigor dessa produção. Na verdade, um modelo exclusivamente musical, por melhor que fosse, não daria conta das relações entre melodia e letra que nos parecem estar na base do sentido produzido pela canção. (…)” (p. 51)

Se nos anos 60 e 70, a canção popular, sobretudo a partir da bossa nova e seus desdobramentos (vale lembrar aqui do surgimento e consolidação da chamada MPB), conquistou o público universitário, nas décadas seguintes ela iria tomar de assalto, definitivamente, salas de aula, projetos de pesquisa, artigos científicos, livros, encontros, congressos. De objeto de fruição da “elite cultural”, ela passaria também a importante objeto de investigação.

 

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

 

Regressão da audição?

Nas últimas décadas, novas tendências dentro das letras e das humanidades (o que se convencionou chamar de Estudos Culturais) deslocaram o foco de interesse da “grande arte” para outros fenômenos de expressão da cultura, pondo em causa as tradicionais hierarquizações, alterando, portanto, radicalmente, o modo como o meio acadêmico percebe hoje manifestações oriundas da cultura popular e de massas. O maior espaço que a canção popular ocupa nos estudos universitários é tributário, em alguma medida, dessa abertura teórica também.

De qualquer modo, o interesse é inconteste (mesmo que alguns possam lamentá-lo). A canção popular ocupa um lugar central nas manifestações artísticas do Brasil, e não pode ser entrevista apenas dentro dos limites da indústria do entretenimento, da cultura de massas, dos mecanismos de produção e consumo, nem entendida somente a partir dos aportes teóricos habitualmente utilizados para dar conta dessas realidades (econômicos, sociológicos, históricos etc.) Aliás, na contramão da tradicional desqualificação adorniana (conceitos como “regressão da audição”, por exemplo), Tatit e Lopes fazem questão de sublinhar a atuação dos “grandes artistas” da canção popular no Brasil, bem como a “originalidade e qualidade” de suas criações, o que, curiosamente, recupera a própria noção de “grande arte”, aplicada agora a um universo que antes lhe era alheio.

E aqui reside o problema: apesar de a canção ter alcançado, no contexto brasileiro, o estatuto “da literatura e das artes eruditas em geral”, diante desse objeto específico, abordagens gestadas para compreender outros fenômenos culturais e artísticos (como a música e a literatura) revelam-se ou insuficientes, ou deformadoras, ou completamente inadequadas. Tatit tem insistido na impropriedade de se aplicar análises restritamente literárias ou restritamente musicais para dar conta da canção. A canção não é nem música nem literatura. E, a despeito de poder ser entrevista ali na interseção entre texto e melodia (entre o literário e o musical), o modo como é operado esse nexo transforma-a numa outra coisa, em algo que estaria ali, digamos, numa “terceira margem”. Certamente muitos dos mal-entendidos de que ela é objeto, sobretudo no meio da crítica de pendor “cultivado” (seja no ambiente da música erudita e/ou experimental, seja no da literatura de alto repertório), se deve à não compreensão, ou melhor, ao desconhecimento desse fato.

O modelo semiótico desenvolvido por Luiz Tatit, com todas as suas dificuldades de entendimento ou limites de aplicação, tem como objetivo fundamental evidenciar tal especificidade. No caso das canções estudadas em Elos de melodia e letra, estamos diante, aliás, de exemplos que põem à prova o modelo, dado o inesperado de muitas de suas soluções, de desvios diante das formatações mais habituais (o que, para certa perspectiva de avaliação estética, seria índice positivo de valor). Mas Tatit e Lopes insistem que escolheram essas canções “não por serem melhores que outras – aspecto irrelevante para os nossos objetivos – , mas por apresentarem soluções que em geral misturam processos de composição claramente separados pelo modelo geral.” (p. 9) Se os autores evitam aqui, por pudor científico, o juízo de valor, os seis ensaios, em sua tour de force, deixam claro ao leitor que essas seis canções não são quaisquer canções (o que, ao fim e ao cabo, não é de todo irrelevante).

 

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EU SEI QUE VOU TE AMAR

Vinicius de Moraes

Composição: Tom Jobim / Vinícius de Moraes

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que eu vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

 


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