O minimalismo estelar de Sonny Boy Williamson II

Assim, com cinco palavras, uma gaita – que compreende apenas uma única escala musical, um único modo – e sua voz, esse gigante bluesman é capaz de contar a história de seu próprio nomadismo, de todas as despedidas, de todos os homens e mulheres que disseram adeus e com isso ainda mover seus ouvintes a partir de um ritmo alucinante, de uma vitalidade incrível, de uma enorme força interior, criando uma canção (interpretação) paradigmática, que se pode definir como minimalista estelar, mais viva que vários dos minimalismos propriamente ditos da arte erudita da época, os anos 1960, que cheiram hoje a mofo.

Karlheinz Stockhausen: o voo e a máquina de guerra

A peça é organizada em momentos. É iminentemente lírica e tem uma forma circular. Começa com a operação de decolagem do helicóptero e termina com o seu pouso que, do ponto de vista sonoro, representa a inversão daquele primeiro momento. É, entretanto, durante o voo que o ruído produzido pelo helicóptero em suas diferentes altitudes passa a ser ouvido como música, justamente, pelos sons que estão sendo tocados pelo quarteto de cordas.

Alcir Pécora ouve música

Diria que a arte norte-americana inteira é mais crua em termos narrativos, isto é, ela é mais capaz de se constituir com uma narrativa dura e realista centrada nas ações – o que é o mesmo que dizer que é melhor na arte da narrativa. No Brasil, isso de as ações virem para o primeiro plano raramente acontece. As narrativas, não apenas nas letras de música, mesmo quando não são edulcoradas e exemplares, são abstratizadas e conceituais. É como se os autores quisessem mostrar que são inteligentes antes de querer contar a história.

Asa: piano music by composers of African descent

Em língua Fanti, “Asa” é o substantivo que designa “dança”. Nesse disco, William Nyaho, pianista sul-africano de formação erudita, interpreta uma seleção de peças raras, algumas originais e até obtidas em manuscrito, de onze compositores de descendência africana. As peças interpretadas foram compostas ao longo de todo o século 20. Vale destacar os seis Estudos em rítmica africana do contemporâneo, nascido na Nigéria, Fred Onovwerosuoke.

Keith Jarrett em SP: música de ambientes acadêmicos

Essa aparente síntese, entretanto, não me parece chegar a se efetivar completamente na música improvisada de Jarrett, na qual o termo improviso soa como mecanismo de ativação de uma zona de desterritorialização e de equivalência dos contrários, mais do que espontaneidade compositiva. Parece mais reunir, sem muita coesão e com pouca unidade estilística, elementos muito distintos e, inclusive, antagônicos, do universo musical do que, de fato, de verdade, compor um estilo elaborado a partir de elementos opostos como creio fazer, por exemplo, Cecil Taylor.

A pedra no caminho, de Drummond

Poucos, ou nenhum, foram os poemas que tiveram sua própria biografia. Poucos são os poetas capazes de fazê-lo. Por isso Drummond permanece, no século XXI, um obstáculo no caminho da mediocridade poética, embora sua “pedra” precise ser recriada em outros termos, o que não costuma ocorrer, de modo geral. Sua obra, registrada, em parte, nessa biografia, fornece aos jovens escritores um ponto de referência que faça ver a possibilidade de uma criação poética.

29ª Bienal de Artes de São Paulo

A mostra está acontecendo, como ocorre periodicamente há quarenta e nove anos, no pavilhão da Bienal situado no Parque do Ibirapuera em São Paulo, cuja arquitetura foi projetada por Oscar Niemayer. Em 2010, ficará aberta entre 25 de setembro e 12 de dezembro e reúne 650 obras de 157 artistas do Brasil e de diversas partes dos continentes americano (sobretudo a latino-américa), africano, europeu e asiático.

Em trânsito, de Alberto Martins

Haveria uma tendência de se realizar a atualização de seu modelo, a ponto de adequá-lo ao procedimento de um certo lugar comum. Toda a temática e imagística retirada de Baudelaire é tratada como simples matriz, passível de se adaptar a qualquer realidade, sem maiores alterações quanto à forma e aos meios que suportam tal conteúdo narrativo-imagético.

Kevin Volans africaniza a escrita ocidental

Volans, que foi tema de um texto anterior da série, é um dos compositores mais célebres do continente africano e, além disso, bastante conhecido entre os músicos da vanguarda europeia da segunda metade do século 20. Sua obra, assim como sua trajetória como compositor, discute, entre outros temas, a questão racial na África do Sul. Para ele, o homem branco africano teria de se dar conta de que não é europeu.

Por que ler Cesário Verde?

Em 1901 Silva Pinto, editor português, publicou O livro de Cesário Verde, uma reunião da obra completa de Verde, poeta nascido em 1855 – ano em que foram publicados, em um jornal parisiense, dezoito poemas inéditos de Fleurs du Mal, de Charles Baudelaire, e Walt Whitman editou Leaves of Grass, nos Estados Unidos.