Sobre Carlos Fico

É professor titular de História do Brasil da UFRJ. Dedica-se à história do Brasil republicano, com pesquisas sobre a ditadura militar no Brasil e na Argentina. É bacharel em história pela UFRJ (1983), mestre em história pela UFF (1989) e doutor em história social pela USP (1996). Foi "Cientista do Nosso Estado" da FAPERJ entre 2003 e 2006 e recebeu o Prêmio Sergio Buarque de Holanda de Ensaio Social da Biblioteca Nacional em 2008. Publicou, entre outros: Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar (Rio de Janeiro: Record, 2004); Como eles agiam: os subterrâneos da Ditadura Militar – espionagem e polícia política (Rio de Janeiro: Record, 2001); O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo – o governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008).

Regimes autoritários no Brasil republicano

O refinamento da historiografia brasileira nos últimos 30 anos tem permitido um entendimento mais sofisticado de alguns dos temas mais controvertidos da História do Brasil. Esse é o caso do Estado Novo (1937-1945) e do período dos governos militares (1964-1985), regimes autoritários do Brasil Republicano que ocuparam quase 1/3 da história brasileira no século XX, cuja comparação desejo propor neste momento.

Alguns dos aspectos do regime militar que tenho estudado, como a propaganda política, a censura, a repressão e os próprios militares ganham um alcance maior quando comparados com seus correlatos no Estado Novo, razão pela qual me parece oportuna essa comparação.

SIBILA DEBATE 64: Carlos Fico

Carlos Fico: Uma ressalva inicial: quando mencionei que Gorender ajudou a consolidar essa interpretação, não disse que concordava com ela. Gorender foi um grande historiador, um autodidata. Eu o respeito muito, convivi com ele e o convidei a prefaciar um de meus livros. Seu trabalho sobre as esquerdas é muito completo e sereno. Ele, entretanto, supervalorizou a dinâmica social imediatamente anterior ao golpe, viu-a como “pré-revolucionária”. Não era. Havia muitas greves e muitas demandas das classes trabalhadoras e dos pobres em geral. Goulart lidou com tais demandas moderadamente – ao contrário do que afirma, aliás, a memória que se consolidou sobre ele –, mas, ainda assim, não deixou de ser um veículo para a sua expressão. Eu não diria que havia um contexto pré-revolucionário, de modo algum. Mas a elite e as classes médias urbanas, em termos gerais, entraram em pânico diante da possibilidade de algumas míseras conquistas sociais serem efetivadas. Portanto, nós podemos dizer que a suposição de que havia uma revolução socialista em curso é irrealista, mas não podemos desconhecer essa dinâmica social marcada por grande agitação social de trabalhistas e pobres em geral e, de outro lado, por esse medo e resistência de alguns setores às “transformações” (digamos assim para simplificar).