Sobre Ronald Augusto

Poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente nos blogs: poesia-pau e poesiacoisanenhuma

Sermões, a pregação sem medida de Nuno Ramos

No que diz respeito aos processos construtivo e formal, no sentido de uma determinação compositiva, Sermões parece não ter um desígnio preciso. Tudo vai ao modo do acaso, como se o autor levasse um encontrão fortuito e desse episódio surgisse sua pregação sem medida. A forma é insignificante e meramente contingente, isto é, poderia ser diferente, o impulso poderia vir de qualquer lado. Ainda que pareça uma ideia fora do lugar – e para provar o contrário julgo ser oportuno apelar ao domínio das artes visuais de onde vem Nuno Ramos –, eu diria que sua poesia é uma tentativa não muito bem sucedida de transposição do informalismo pictórico para o campo da criação verbal.

Brancos

brancos são aqueles tipos que aparecem nos comerciais. ao contrário do que acontece com não-brancos, a presença de brancos em peças publicitárias não precisa ser justificada.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia/Brasil: Ronald Augusto

RONALD AUGUSTO, nascido em 1961 em Rio Grande, Rio Grande do Sul, é uma das principais vozes negras do Brasil. Poeta, crítico e músico, reside em Porto Alegre. As principais temáticas presentes em seu repertório referem-se à poesia contemporânea e à vertente negra na literatura brasileira. Atualmente Ronald Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poéticas contemporâneas, literatura negra e poesia visual. Entre 2007 e 2012 manteve ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia.

Walter Franco: Música para não tocar no elevador

A linguagem de Ou não tem a ver com certa “liberdade informalista”. Cada canção apresenta um conjunto de procedimentos através dos quais um objeto estético consegue produzir um desvio das normas estatísticas de sua linguagem. Walter Franco opera em uma faixa expressiva que abole os elementos automatizados da linguagem musical. O compositor tem consciência de que esses processos da cultura pop não chamam atenção para si; simplesmente comunicam, levam uma espécie de mensagem rebaixada ao ouvinte médio. Os elementos automatizados da música pop ocorrem com probabilidade muito alta: portanto, são redundantes e, afinal, cosméticos.

Uma análise da poesia de Leminski

As leituras sobre a poesia de Paulo Leminski também não rompem o círculo de giz delimitado pelo próprio poeta. As interpretações seguem a agenda estabelecida pela metalinguagem do autor de Distraídos venceremos (outra vez o fortuito constituindo o forçoso, o ar vagamente zen, a concentração desconcentrada, a prática de convencimento, mas assim como quem não quer nada). As leituras se acumulam nessa toada de acordo com a vontade do poeta; à maneira de, à imagem e semelhança de Leminski.

Os versos fraturados de Orfeu da Conceição

Fiel, a princípio, às fontes mitológicas, Vinicius define um dos assuntos de sua tragédia, isto é, a própria poesia, já na primeira fala de Orfeu, quando a personagem diz: “ORFEU: Toda a música é minha, eu sou Orfeu!”. Como o herói trágico é poeta e músico não há como escapar das indicações metalinguísticas e da referência à tarefa criativa (semelhante motivação se encontra em dois filmes de Jean Cocteau, também dedicados ao mito de Orfeu: Orphée, 1950; e Le testament d’Orphée, 1959).

A tacanha intransigência de Sergio Miceli com as vanguardas

Vanguardas em retrocesso nos apresenta Sergio Miceli na figura de um crítico legista, o sociólogo realiza verdadeiras necropsias textuais para investigar a causa do apagamento das práticas sociais na obra desses criadores que são o alvo de sua pesquisa, práticas sociais que, segundo Miceli, viabilizaram suas reputações. Para o crítico legista tal investigação se faz necessária principalmente quando este apagamento ocorre em circunstâncias misteriosas. É como se estivéssemos não diante de algumas obras de arte, mas diante da sonegação de provas de um crime.

Clowndaniel

O repertório do sr. Clowndaniel (Curador de Literatura do Centro Cultural SP, o que só o Sobrenatural de Almeida explica), seja no que respeita à sua crítica de divulgação, seja no que respeita à sua poesia pó-de-arroz, cabe na figura machadiana do sujeito que tantas frases e ideias recompõe e rumina, que acaba por escrever todos os livros que lê servilmente. Nas polêmicas em que se envolve de modo desastroso (ver sua proposição de censura-boicote à Sibila), se autoproclama defensor de verticalidades que não pode dar.

O que interessa em Décio Pignatari

A imprecação contra os opositores da poesia concreta vertida em tal visualidade intersemiótica e algo antropofágica (o sarcástico bucho ruminante feito um encosto) confere uma dimensão cômica, quase que de vaudeville, para não dizer de chanchada, aos transes polêmicos que marcam o surgimento do movimento no interior pretensamente circunspecto do fazer literário do período. A persona do Amigo da Onça, versão macunaímica à cultura pop do momento, serve de modelo a essa assemblage transgressiva registrada na capa de Teoria da poesia concreta.

Augusto de Campos e o fogo-amigo dos cortesãos

Encontrei textos de gente perguntando antes de qualquer leitura: “mas, quem é esse sujeito?”. E em um tom que queria dizer “você sabe de quem está falando?”. O aviso desses secretários endereçado a Luis Dolhnikoff parece supor uma advertência pseudo-aristocrática: cuidado com quem você se mete. Mas, a julgar pelo silêncio de Augusto de Campos, esse quem ressentido é o dos próprios seguidores que tomaram, a juros elevados, as dores do vietcong concreto.