As prostitutas e as mulheres na arte

Artistas sempre ficaram intrigados com mulheres à beira das bordas, na fronteira dos limites. William Hunt, da Irmandade Pré-Rafaelita, apaixonou-se por Annie Miller, uma prostituta, depois de pintá-la– a despeito de sua angústia religiosa. Picasso frequentava bordeis desde os treze anos e uma de suas pinturas mais famosas Les Demoiselles d’Avignon retrata cinco prostitutas. Picasso foi também um dos muitos – entre os quais estavam Jean Cocteau, Alexander Calder e  Pablo Gargallo – fascinados pela selvagem e desinibida Kiki de Montparnasse.

O mundo contemporâneo

Por fim, a canção movimentou uma parte muito significativa da experiência contracultural do século XX, e permitiu, no tempo das vanguardas culturais, a dissolução crítica e a reconstrução de comportamentos sobre a égide libertária, para um imenso público, já mundial, que se formava com ela. A canção, na forma de choque do rock, acompanhou o primeiro tempo da globalização mundial do capital…

SIBILA DEBATE 64: Depoimento de mulheres torturadas

Ele me disse: ‘Se você sair viva daqui, o que não vai acontecer, você pode me procurar no futuro. Eu sou o chefe, sou o Jesus Cristo [codinome do delegado de polícia Dirceu Gravina]’. Ele falava isso e virava a manivela para me dar choque. Ele também dizia: ‘Que militante de direitos humanos coisa nenhuma, nada disso, vocês estão envolvidos’. E virava a manivela. Havia umas ameaças assim: ‘Vamos prender todos os advogados de direitos humanos, colocá-los num avião e soltar na Amazônia’.

Contra os poetas

Por mais que se diga que a arte é uma espécie de chave, que a arte da poesia consiste precisamente em alcançar uma infinidade de matizes com poucos elementos, tais e parecidos argumentos não ocultam o primordial fenômeno de que com a máquina do verbo poético ocorreu o mesmo que com todas as demais máquinas, pois, em vez de servir a seu dono, se converteu em um fim em si; e, francamente, uma reação contra esse estado de coisas parece ainda mais justificada aqui do que em outros campos porque aqui estamos no terreno do humanismo par excellence.

Sermões, a pregação sem medida de Nuno Ramos

No que diz respeito aos processos construtivo e formal, no sentido de uma determinação compositiva, Sermões parece não ter um desígnio preciso. Tudo vai ao modo do acaso, como se o autor levasse um encontrão fortuito e desse episódio surgisse sua pregação sem medida. A forma é insignificante e meramente contingente, isto é, poderia ser diferente, o impulso poderia vir de qualquer lado. Ainda que pareça uma ideia fora do lugar – e para provar o contrário julgo ser oportuno apelar ao domínio das artes visuais de onde vem Nuno Ramos –, eu diria que sua poesia é uma tentativa não muito bem sucedida de transposição do informalismo pictórico para o campo da criação verbal.

“As nossas humildes coisas”: Ablativo de Enrico Testa

Sottoripa é sem dúvida um ponto nevrálgico, cantado por Camillo Sbarbaro e Dino Campana, passagem para os carrugi, para restaurantes e lugares que falam sobre a história da cidade, que não se abre facilmente, sabendo preservar seus mistérios. “il segno smarrito”, de um dos versos de Montale, para reforçar o fato de as indicações se perderem quando o emaranhado de ruazinhas inicia. Espaço desconfiado desde o primeiro encontro, muitas vezes, áspero, que não se mostra e se abre facilmente; respeitá-lo é importante para aos poucos conquistá-lo. Aqui são necessários calma, atenção, paciência e exercício do olhar. Contaminações presentes na escritura de Enrico Testa, que se aproxima, deglute a herança literária e poética, e vai traçando o seu próprio percurso: “quem é o dono da sombra?/ a luz que a reflete/ ou o corpo do qual emana?”.

Os filhos esquecidos do império português

– Se vai ao meu país, não se esqueça de visitar a ilha dos portugueses. – Foi com estas palavras que se despediu de mim o jovem secretário da embaixada de Myanmar em Pequim quando aí fui solicitar um visto de turista, já lá vão uns bons anos. Dessa vez, não chegaria a utilizar o visto requerido, mas aquilo da «ilha dos portugueses» ficou-me na ideia durante algum tempo.

Quando, finalmente, visitei pela primeira vez essa nação que já se chamou Birmânia e que um punhado de generais teimava em considerar um feudo seu, levava a lição minimamente estudada, graças à informação que em Macau me fora fornecida por um amigo entusiasta dessas coisas das miscigenações.

Quem primeiro nos relata o pioneirismo dos portugueses na Birmânia é o cronista Duarte Barbosa, que em 1501 ruma à Índia com uma frota de várias dezenas de navios, só regressando a Portugal quinze anos depois.

Rubem Braga comemora os quarenta anos de Vidas secas

“Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas a retalho, a jornais e revistas. E, como José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação.”

Assim Graciliano se referiu certa vez (em 1939) ao seu romance Vidas secas.

Patrícia Galvão (Pagu), Parc industriel (roman prolétaire)

O livro, com tradução de Antoine Chareyre, tradutor de Oswald de Andrade e outros modernistas brasileiros, tem prefácio da poetisa Liliane Giraudon, que foi a primeira editora de Pagu no idioma francês, nos anos 80, em parceria com a tradutora franco-brasileira Inês Oseki-Dépré. A edição do texto, apoiada em novas pesquisas, vem com notas e posfácio do tradutor que ajudarão a entender melhor como esse « romance proletário » se insere na atmosfera política e social da São Paulo da época, e também o colocarão devidamente no cruzamento entre a prosa modernista e o nascente romance social da década de 30. Aliás, o maior representante dessa última corrente, Jorge Amado, foi, em 1993, um dos fundadores da editora Le Temps des Cerises, uma casa editorial independente, que lança agora o romance com capa derivada da original, desenhada pela própria Pagu, e uma diagramação respeitosa da edição de 1933.

Aonde ir e o que fazer?

Tendo em vista que entre a sociedade e o povo há um abismo, não se pode ir ao povo senão renunciando completamente, e de uma vez por todas, à sociedade, a todos os laços, a todas as afinidades morais, a todos os sentimentos, a todas as ideias ou hábitos e a todas as vantagens materiais dessa sociedade; renunciando a todas as formas sociais da vida civilizada, por mais doces, cativantes, sedutoras, embora estejam impregnadas de mentira e ocultem na maioria das vezes um egoísmo cínico e a negação mais grosseira de tudo o que pode ser qualificado de humano, nobre e magnífico. Mas os indivíduos nascidos nessa sociedade privilegiada, tendo recebido sua educação ou vivido alguns anos em seu contato, impregnam-se a tal ponto do refinamento deletério das relações e da vida mundanas, familiarizam-se tão intimamente com elas […]