Poesia contemporânea e crítica de poesia

Hoje, quando as fronteiras entre o que é e o que não é literário são flexíveis e incertas, quando o estético já não se sustenta a partir do cânone, mas, pelo contrário, se vê explicitamente submetido ao político (e aqui estou pensando, por exemplo, nos cânones alternativos, nos quais o valor estético ou se quer outro, ou é modalizado por, ou tem menor importância do que o recorte político, sexual, étnico, genérico), mais se faz evidente, para o bem e para o mal, o mecanismo crítico básico de avaliar o objeto inserindo-o numa narrativa particular, dentro da qual ganha densidade e sentido.

Crítica hoje

Depois desse percurso algo tortuoso, eu teria por fim de declarar que, para responder à questão sobre a diferença entre a crítica e a literatura, levaria em conta sobretudo a atitude em direção à alteridade. Nesse sentido, a crítica literária que me interessa é a que se ocupa de textos que são – ou que, em algum momento, foram tidos como – literários, isto é, textos escritos para serem lidos também por não críticos (e não escritores, na maior parte dos casos). A crítica que tem como imperativo situar-se não só face ao texto que comenta, mas também face aos textos que a precederam no comentário dele ou que estão previstos nele.

Póstudo – a poesia brasileira depois de João Cabral – Remix

Desse grupo, o poeta que se destacou ao longo dos anos foi Francisco Alvim. Como Schwarz, Alvim se dirige a um público evidentemente educado, que se diverte no trânsito entre as línguas, ironiza pequenas fofocas palacianas, se reconhece na experiência do tédio burocrático, aprecia a crítica elíptica dos maus costumes nacionais e valoriza uma forma específica de incorporação do popular: o ready-made que, por contraste com o resto, acaba produzindo freqüentemente um retrato entre irônico e sentimental (e às vezes culpado) do vulgar.

Funções e disfunções da máquina do mundo

Na obra de Haroldo de Campos, A máquina é o resultado de uma linha traçada pelo menos a partir de Signantia quasi coelum (1979), e que passa por Finismundo, a última viagem e pelas traduções que o poeta fez de textos de Mallarmé, Dante, Homero e da Bíblia, que se incorporam pontualmente ao poema. Por ser o lugar de confluência dos principais vetores de força da poesia de Haroldo de Campos nos últimos vinte anos, é uma espécie de suma poética.

CONSIDERAÇÕES SOBRE ALGUMA POESIA CONTEMPORÂNEA

Seria interessante tentar definir qual o interesse da poesia para a contemporanei-dade, qual o seu lugar no imaginário de nossa época. Mas, antes dessa questão, há uma outra, mais básica, que precisaria ser encarada a sério: o que é poesia hoje? Isto é: como se reconhece um texto como poesia? Em que consiste o mínimo denominador comum que permite que afirmemos ou leiamos um texto como poesia? Ou: o que faz de um texto um poema?

LEMINSKI E O HAICAI

Em linhas gerais, esse é quadro no qual Paulo Leminski fez sua estreia no âmbito da Poesia Concreta, nas páginas da revista Invenção, em 1964. Mas não será como poeta que o escritor se imporá, a princípio,  à consideração crítica, e sim como autor de um livro em prosa, Catatau, que publicou em 1975. A obra poética de Leminski terá sua primeira publicação em volume no ano seguinte, 1976, com Quarenta clics de Curitiba, em livro de parceria, e o primeiro conjunto de poemas relevantes sai em edição de autor em 1980: Não fosse isso e era menos / Não fosse tanto e era quase.

A recepção recente de Dom Casmurro

A novidade do ensaio de Schwarz é que, da sua ótica, o leitor já não é jurado e muito menos destinatário de uma ação curativa. Junto com Bento, senta-se agora no banco dos réus o leitor homem, brasileiro, católico (e presumivelmente sem perspicácia nem espírito democrático). E sua pena é dupla: é condenado e ridicularizado como objeto da ironia da composição machadiana.

CAMILO PESSANHA

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas, – Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise, Represados clarões, cromáticas vesânias -, No limbo onde esperais a luz que vos batize, As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis. Abortos que pendeis as frontes cor de cidra, Tão graves de cismar, nos bocais dos museus, E escutando o correr da água na […]