Sobre Ricardo Primo Portugal

Escritor e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. Está completando sete anos vivendo e trabalhando na China, primeiro em Pequim, depois em Xangai e, a partir de 2010, em Cantão (Guangzhou). Publicou: DePassagens (Ameop, 2004), Arte do risco (SMCPA, 1992), entre outros. Foi co-organizador da edição bilíngue chinês-português Antologia poética de Mário Quintana (EDIPUCRS, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido para o chinês, com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai. Em junho passado, saiu, pela UNESP, Poesia completa de Yu Xuanji, edição bilíngüe da obra da poetisa clássica chinesa (Dinastia Tang), com traduções suas, em parceria com a esposa, Tan Xiao, primeira obra completa de poeta daquele país editada no Brasil, traduzida diretamente do original chinês. (ver: http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=1267).

A dança da poesia: uma semiótica do caractere chinês

Na verdade, é muito antiga, na China, a relação entre a dança e a caligrafia, cujo exercício como arte máxima é uma manifestação peculiar a esta cultura. Grandes calígrafos do passado inspiravam-se em movimentos de dança e vice-versa. A caligrafia é vista como “dança fixada”, congelada, concentrada a um espaço; a dança, uma caligrafia fluida ou estendida. Precisamente, a propósito dessa relação, o espetáculo de Liu Qi trouxe-me à baila, sobretudo, um aspecto importante do caractere – o sinograma, ou hanzi (汉字) –, o qual é pouco comentado no Ocidente e que tem implicações para a tradução, especialmente de poesia, arte literária na qual o cruzamento com códigos exteriores ao da língua é essencial: o que chamaremos aqui (a título de um exercício preliminar ou incipiente de análise semiótica) de substrato corporal-caligráfico do sinograma, que se reflete tanto no significante – o formato imediato do sinograma –, como no significado.

Poesia completa de Yu Xuanji

A China de hoje atravessa um período conturbado, no qual a cultura tradicional confucionista, recebida via Dinastia Qing e nunca suprimida pelas revoluções do Século XX, sobretudo no que tange à delimitação das relações sociais e afetivas, está sendo questionada e modificada em grande escala, a partir do processo de modernização e industrialização mais veloz e intensivo da história e da abertura cada vez maior para o exterior que esse processo engendra, em plena globalização.

Apresentando Yu Xuanji, poeta chinesa da Dinastia Tang

Há uma extensa linhagem de poetas mulheres na China, a qual percorre as diferentes fases de uma literatura milenar quase sempre como corrente paralela ou específica em relação ao tronco principal. Na Dinastia Tang, período histórico de intensa vida urbana culta, a situação da mulher era bastante mais favorável que em outros momentos da história da China. A elas era atribuída uma posição social mais livre e igualitária em relação aos homens. Ainda que excluídas do sistema dos exames imperiais que selecionavam a elite dominante e impedidas de exercerem funções relevantes, a muitas filhas de famílias abastadas era permitido adquirir educação e conhecimento literário.

Três cortesãs chinesas introduzindo a poesia das mulheres da Dinastia Tang

A história da China anterior à fundação da República (1912) é descrita pela sucessão de dinastias nacionais e regionais, cada uma delas marcada por uma identidade cultural. A “idade de ouro” da cultura clássica chinesa foi alcançada na Dinastia Tang (618-905 d.C.). Foi principalmente essa dinastia chinesa, caracterizada pelo cosmopolitismo e por uma diplomacia ativa, que serviu de matriz para o desenvolvimento posterior, por adaptação e refinamento, da cultura japonesa.