A vida e a pós-vida de Ezra Pound na Itália

Em 24 de maio de 1945, o famoso poeta norte-americano Ezra Loomis Pound encontrava-se preso em uma cela especial – uma jaula, na verdade, no United States Army Disciplinary Training Center (USDTC), em Metato, ao norte da cidade de Pisa. A prisão do USDTC – que jornais americanos apelidaram como sendo “o repositório dos sedimentos sujos de nossas tropas no teatro mediterrâneo” era usada para encarcerar os militares dos EUA que tinham perpetrado crimes de guerra sérios e estavam aguardando o julgamento da corte marcial ou a transferência para uma instituição carcerária nos EUA ou mesmo sua própria a execução.

Nota sobre Beyond the wall

Quem se dispõe a percorrer a nova coletânea de poemas de Régis Bonvicino, Beyond the wall (Além do muro) recém publicada pela editora Green Integer nos EUA, deve estar preparado para enfrentar uma complexa trama em que o estatuto da arte, a vida na cidade e a política em ponto de bala se entrelaçam de uma maneira absolutamente inextricável, de modo que é praticamente impossível uma dissociação dos elementos dessa poética – existe algo de irredutível na obra que impede os esquemas mais tradicionais de interpretação de livros de poesias. Não é o caso, então, de tentar localizar quais são os poemas de uma ordem metalinguística mais evidente ou os que apresentam imagens da cidade ou mesmo os que discutem relações de poder. Os poemas de Beyond the wall operam nas bordas, nos limites em que um tema já se transforma em outro, mas ainda não deixa de ser o que era. Existe uma verdadeira topografia poética, um modo pelo qual esses poemas foram estrategicamente colocados em sua sequência, que causa a perfeita percepção de que o livro tem um espaço.

Pound: paraíso destruído

Seria possível ser um grande poeta e, ao mesmo tempo, um fascista assumido e um antissemita fervoroso? Não, não é verdade? Mas, por um lado, sim. Eis o problema. “Se Ezra Pound não tivesse existido”, escreve Humphrey Carpenter em sua monumental biografia, a mais detalhada e objetiva até agora, “teria sido muito difícil inventá-lo.” Poucos escritores têm uma vida tão extravagante, diversificada, impetuosa. Seria ele um visionário geral? Um traidor da pátria? Um louco? Um iluminado? Um fanático? Sim, mas também, e talvez principalmente, um artesão preciso, um explorador generoso, um autodidata erudito e sempre original, um revolucionário da percepção e da linguagem, um criador e apresentador de uma parte fundamental da literatura e da arte desses tempos caóticos. Poderíamos preferir um medíocre funcionário das letras que pensa bem a um grande artista que pensa mal? Isso se vê todos os dias e mesmo assim a Terra continua girando. Então seria algo para além do bem e do mal? Não, a discussão continua possível.