Poesia contemporânea e crítica de poesia

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Hoje, quando as fronteiras entre o que é e o que não é literário são flexíveis e incertas, quando o estético já não se sustenta a partir do cânone, mas, pelo contrário, se vê explicitamente submetido ao político (e aqui estou pensando, por exemplo, nos cânones alternativos, nos quais o valor estético ou se quer outro, ou é modalizado por, ou tem menor importância do que o recorte político, sexual, étnico, genérico), mais se faz evidente, para o bem e para o mal, o mecanismo crítico básico de avaliar o objeto inserindo-o numa narrativa particular, dentro da qual ganha densidade e sentido.

E se é verdade que o solo da crítica não é mais tão firme quanto já foi, porque hoje ela é sempre suspeita de estar submetida à autoridade do passado canônico, é também verdade que dela se passa a exigir muito mais, na medida em que qualquer crítica se vê agora na urgência de situar-se historicamente, de uma forma ou outra, perante as novas propostas de cânone apresentadas no entorno da obra ou no miolo da cultura de seu tempo. Isto é, a aguda historicização do cânone exige ainda mais da crítica que ela se situe historicamente, na medida em que a obriga a continuamente retraçar a história para compreender a ocorrência ou justificar a escolha do seu objeto.

O que se diz ao editor a propósito de poemas

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,

terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Virna Teixeira: Três Poemas

Linha azul sobre o têxtil turco. Uma mulher nua bordada no calico. Deitada embaixo do mar. It hurts. Ela disse não. Love is blue, mas a água recobre argumentos. Netuno e a erosão marinha. Âmnio, mergulho no Tirreno. Banhos exfoliantes de haman, amor devocional, descalços na mesquita. Futuro uma luxúria, mas como medir a perda. Esta espera, quem escapa do tempo presente. Tentar ópio. Atenta aos sinais de fumaça. Uma costura circular dispersa outra vez a voz interna.

Recalculating by Charles Bernstein

Charles Bernstein expresses the aesthetics of Recalculating, his first collection of new poetry in seven years, partially through his translations — not necessarily through how he translates the works, but from what he translates. Lots of Baudelaire, including “Be Drunken” and “Venereal Muse,” and poems by Osip Mandelstam, Apollinaire, Catulus, and the more obscure Velimir Khlebnikov and Regis Bonvicino. Poems of darkness and daring, with the absolute thrust of “Catulus 85″ and the Dada sound transformation of Khlebnikov’s “Incantation by Laughter.” Those familiar with Bernstein’s sometimes-confrontational criticism will see a direct connection between what he argues for in poetry and the poetry he translates and includes in this collection.

Transcriador ofusca poemas de Borges

Não se justifica, por exemplo, o arcaísmo do verso “A aparência superficial das cousas” para “La vana superficie de las cosas”. A explicação é simples: centrado nos encantos sonoros do verso borgeano, do qual a rima perfeita é um recurso explorado, Augusto de Campos preferiu um termo fora de uso para casar com “rosas”. Ademais, combina com as rimas do quarteto anterior “exploro” e “ouro”. A música foi, em verdade, reforçada – o que é diferente de potencializada ou renovada, mas por conta de uma palavra o poema empoeirou uns séculos. Em Borges, a música também tem prioridade, mas não em detrimento da busca por imagens concretas, contrastantes, contraídas em adjetivos cirúrgicos.