Sobre Rodrigo Gurgel

Crítico literário, editor e escritor. Assina o blog rodrigogurgel.blogspot.com.

Viagem aos Estados Unidos, de Alexis de Tocqueville

Magistrado desde 1827, Tocqueville parte, em 1831, com Gustave de Beaumont, para uma viagem oficial, a fim de estudar o sistema penitenciário dos EUA, desculpa utilizada para alcançar seu verdadeiro propósito: conhecer as experiências democráticas de um país nascente, afastar-se do direito, que o entediava, e dedicar-se ao estudo da política, sua paixão.

Outra vida, de Rodrigo Lacerda

Há bons momentos, claro, quando o narrador opta por não amordaçar seus personagens e deixa que expressem suas ideias por meio do lirismo ou da agressividade que permeiam a vida de todas as pessoas. Nesses trechos, quando a naturalidade vence o artificialismo, a verdade das relações humanas avulta; e a voz que narra, agora destituída de empáfia, revela-se sutil.

Henri Cartier-Bresson: o século moderno

Henri Cartier-Bresson – chamado de L’Oeil du Siècle (O Olho do Século) – encantou e iluminou o mundo com suas fotografias, captando em cada instantâneo o vigor e a riqueza, às vezes estranha e perturbadora, da vida. É exatamente o que a obra lançada pela Editora Cosac Naify – Henri Cartier-Bresson: o século moderno –, […]

Carola Saavedra: no limiar da antificção

Não basta repudiar a leviandade da narradora, mas novas perguntas nos assaltam: como foi possível suportar, durante mais de 160 páginas, o relato monocórdio desse livro analisado por alguns como se fosse um romance, quando não passa de um conto que, suprimidos três quartos do volume, poderíamos ler com relativo gosto?

Primos bem distantes

A coletânea Primos – histórias da herança árabe e judaica, organizada por Adriana Armory e Tatiana Salem Levy, nasceu de um ideal utópico: concretizar, na literatura, a fraternidade que a história insiste em manter no plano das ideias. As jovens escritoras, contudo, esqueceram-se de que as palavras não têm esse poder – seja no que se refere à frágil literatura, seja no que concerne à diplomacia, arte do diálogo tantas vezes errático.

Immaculada de Ivone Benedetti

No momento em que a ficção contemporânea brasileira converge para um único tipo de voz, um “eu” na maioria das vezes ensimesmado, narrador que é testemunha e, quase sempre, protagonista da própria história, é reconfortante se deparar com o narrador onisciente de Immaculada.

A perfeição corrosiva de Saki

Só em raras oportunidades encontramos uma obra arrebatadora. Passado algum tempo, quando a revisitamos e o mesmo encantamento se repete, podemos ter certeza de que o primeiro júbilo não surgiu de uma falsa impressão, mas foi nossa resposta aos escritos de um gênio. É o que sinto sempre que volto a Hector Hugh Munro.

A cópia monótona da realidade em André Sant’Anna

Mané, jogador de futebol nascido em Ubatuba, delira em um quarto de hospital, mutilado pela bomba que, depois de prender à própria cintura, ele detonou, pouco antes do início de um jogo no Estádio Olímpico de Berlim. Enquanto sonha e, às vezes, balbucia, nas outras camas há dois pacientes: Mubarak – quem supostamente forneceu a […]

A PEQUENA ALEGRIA DE CORSALETTI

Ao iniciar a leitura de King Kong e cervejas, de Fabrício Corsaletti, tive de me convencer, logo nas primeiras linhas, que o lugar-comum “os dias eram luminosos no verão e azulados no inverno” não seria o prenúncio de uma sucessão fastidiosa de chavões. Respirei fundo e disse a mim mesmo: “Coragem!” – mas sem ousar […]