A FALANGE DE MÁSCARAS DE WALY SALOMÃO

Me segura qu’eu vou dar um troço devia, segundo Waly Salomão, ser lido com olho-míssil e não com olho-fóssil. Seguindo essa indicação, tentei iluminá-lo através dos seus livros posteriores e vice-versa. A consideração sincrônica da obra de Waly pareceu-me revelar, por trás de uma fragmentariedade ostensiva, uma identidade fundamental de preocupações: se bem que, como se verá, uma identidade na antiidentidade. Aos meus olhos, essa descoberta pareceu confirmar o acerto da abordagem inicial.
Me segura qu’eu vou dar um troço (que doravante chamarei Me segura) foi publicado em 1972. Nos anos seguintes, Waly relatou muitas vezes as circunstâncias que ocasionaram a sua escritura. Em 1996, por exemplo.

A ironia de Baudelaire

A ironia de Baudelaire nos leva a desconfiar do poeta, pois ela nos lembra que antes de qualquer coisa, estamos diante de uma mera aparência. A ironia nos ensina a desconfiar dos cantos das sereias, pois o poeta pode ser um hipócrita, um mentiroso. Se anunciando como tal o poeta nos torna imune a toda mistificação. Através da ironia a arte se mostra como o que ela realmente é: ficção.

A técnica do escritor em treze teses

Quem se propõe a escrever uma obra de grande envergadura deve ser indulgente consigo mesmo e, ao terminar sua tarefa diária, deve se conceder tudo aquilo que não prejudique a continuidade da mesma. Fale sobre o já realizado, de todas as maneiras, mas não leia nenhuma passagem a ninguém do trabalho em progresso. Qualquer gratificação que você obtenha dessa forma irá retardar o seu tempo. Se seguir o conselho, o desejo crescente de comunicação tornar-se-á, ao cabo, um motor para a conclusão do trabalho.

Conversa com João Cabral de Melo Neto

Documentários às vezes são pouco conhecidos do público em geral por não fazerem parte dos circuitos comerciais de cinema. É o caso de Recife/Sevilha, exibido apenas em um canal fechado de TV e em festivais, a exemplo da XXVII Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e do XXXI Festival de Cinema de Gramado, ambos em 2003.

Gracián e Vieira: o lugar do “mistério”

O topos do “mistério”, aplicado por tratadistas e oradores do século XVII, funda-se no postulado de uma natureza cujas espécies repõem uma substância infinita e invisível, análoga e proporcional à divindade. Enquanto sobreposição do infinito no finito, a proposição de uma “presença sem vista” tem sido interpretada, na história da cultura, como paradoxo e artifício gratuito, como efeito típico de uma época que se toma por “miracular”[1] e afeita a toda sorte de irracionalismos. Entretanto, retomadas algumas de suas referências históricas, aqui exemplarmente atinentes ao emprego que delas é feito pelo jesuíta aragonês Baltasar Gracián (1601-1658) e pelo jesuíta português Antonio Vieira (1608-1697)

A poesia de Stéphane Mallarmé

A palavra demonstra a inutilidade da ficção, o esforço inútil que seria tentar reproduzir, representar um objeto tal como ele é. Mallarmé em “Crise de Vers” aponta muitas características da linguagem. Entre elas se encontra, como exemplo, o fato de que as línguas são muitas e imperfeitas, um único objeto corresponde a uma palavra diferente em cada língua, o que evidenciaria que estas não tocam matériellement la vérité, mas, sim, commercialement. Mas a teoria da linguagem de Mallarmé vai muito além desta constatação.

Abolicionismo

A escravatura – escrevia o Correio Brasiliense em Londres – é um mal para o indivíduo que a sofre e para o Estado onde ela se admite, lemos no O Brasil e a Inglaterra ou o tráfico dos africanos. No intuito de esboroar, derruir a montanha negra da escravidão no Brasil, ergueram-se em toda a parte apóstolos decididos, patriotas sinceros que pregam o avançamento da luz redentora, isto é, a abolição completa.

Darwin: a escravidão no Brasil

Darwin: a Life in Poems é um livro incomum, que mescla poesia e autobiografia, para recontar cronologicamente episódios da vida de Charles Darwin através de poemas. A autora do livro, a prestigiada poeta britânica Ruth Padel, tem dois dados importantes na sua própria história: além de ser trineta de Darwin, tem um interesse particular em poesia e ciência, tema que é objeto da sua escrita e atividade acadêmica como professora no King’s College London.

Sôbolos rios que vão

Sôbolos rios que vão
Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Alli lembranças contentes
N’alma se representárão;
E minhas cousas ausentes
Se fizerão tão presentes,
Como se nunca passárão.
Alli, despois d’acordado,
Co’o rosto banhado em ágoa,
Deste sonho imaginado,
Vi que todo o bem passado
Não he gôsto, mas he mágoa

Os filhos esquecidos do império português

– Se vai ao meu país, não se esqueça de visitar a ilha dos portugueses. – Foi com estas palavras que se despediu de mim o jovem secretário da embaixada de Myanmar em Pequim quando aí fui solicitar um visto de turista, já lá vão uns bons anos. Dessa vez, não chegaria a utilizar o visto requerido, mas aquilo da «ilha dos portugueses» ficou-me na ideia durante algum tempo.

Quando, finalmente, visitei pela primeira vez essa nação que já se chamou Birmânia e que um punhado de generais teimava em considerar um feudo seu, levava a lição minimamente estudada, graças à informação que em Macau me fora fornecida por um amigo entusiasta dessas coisas das miscigenações.

Quem primeiro nos relata o pioneirismo dos portugueses na Birmânia é o cronista Duarte Barbosa, que em 1501 ruma à Índia com uma frota de várias dezenas de navios, só regressando a Portugal quinze anos depois.