Abolicionismo

A escravatura – escrevia o Correio Brasiliense em Londres – é um mal para o indivíduo que a sofre e para o Estado onde ela se admite, lemos no O Brasil e a Inglaterra ou o tráfico dos africanos. No intuito de esboroar, derruir a montanha negra da escravidão no Brasil, ergueram-se em toda a parte apóstolos decididos, patriotas sinceros que pregam o avançamento da luz redentora, isto é, a abolição completa.

Darwin: a escravidão no Brasil

Darwin: a Life in Poems é um livro incomum, que mescla poesia e autobiografia, para recontar cronologicamente episódios da vida de Charles Darwin através de poemas. A autora do livro, a prestigiada poeta britânica Ruth Padel, tem dois dados importantes na sua própria história: além de ser trineta de Darwin, tem um interesse particular em poesia e ciência, tema que é objeto da sua escrita e atividade acadêmica como professora no King’s College London.

Sôbolos rios que vão

Sôbolos rios que vão
Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Alli lembranças contentes
N’alma se representárão;
E minhas cousas ausentes
Se fizerão tão presentes,
Como se nunca passárão.
Alli, despois d’acordado,
Co’o rosto banhado em ágoa,
Deste sonho imaginado,
Vi que todo o bem passado
Não he gôsto, mas he mágoa

Os filhos esquecidos do império português

– Se vai ao meu país, não se esqueça de visitar a ilha dos portugueses. – Foi com estas palavras que se despediu de mim o jovem secretário da embaixada de Myanmar em Pequim quando aí fui solicitar um visto de turista, já lá vão uns bons anos. Dessa vez, não chegaria a utilizar o visto requerido, mas aquilo da «ilha dos portugueses» ficou-me na ideia durante algum tempo.

Quando, finalmente, visitei pela primeira vez essa nação que já se chamou Birmânia e que um punhado de generais teimava em considerar um feudo seu, levava a lição minimamente estudada, graças à informação que em Macau me fora fornecida por um amigo entusiasta dessas coisas das miscigenações.

Quem primeiro nos relata o pioneirismo dos portugueses na Birmânia é o cronista Duarte Barbosa, que em 1501 ruma à Índia com uma frota de várias dezenas de navios, só regressando a Portugal quinze anos depois.

Rubem Braga comemora os quarenta anos de Vidas secas

“Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas a retalho, a jornais e revistas. E, como José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação.”

Assim Graciliano se referiu certa vez (em 1939) ao seu romance Vidas secas.

O Corvo

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais”.

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

Teoria do medalhão

O conto “Teoria do medalhão”, de Machado de Assis, é bastante conhecido. Talvez valha a pena relê-lo tendo-se em vista o atual momento do circuito institucional da literatura brasileira: alguns cadernos de grandes jornais, com resenhas elogiosas sobre livros das mesmas duas ou três editoras, o destaque a um ou dois institutos de “cultura” devidamente rouanetizados, o protagonismo midiático de um certo “festival literário”, o protagonismo da rediviva ABL, o obscurantismo dos prêmios literários etc. A literatura brasileira deste circuito tão prestigiosa neste circuito do Brasil seguiu à risca os conselhos do pai ao filho, únicos personagens dessa trama curta; principalmente, aquele que assinala ao jovem varão: “Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem …”.

Murilo Mendes por Ungaretti

Edifício onde Murilo Mendes residiu em Roma, foto de Régis Bonvicino, 2014.
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?…

A Formação Histórica da Língua Portuguesa

As mais antigas manifestações poéticas em galego-português foram de feição lírica. A Galiza, graças ao grande empório cultural de Compostela, pôde colocar as tendências artísticas de seu povo em contacto aperfeiçoador com jograis, menestréis, trovadores que da Provença se espalhavam por Catalunha, Navarra e faziam de Santiago o lugar preferido de suas exibições. Nas hostes francesas que vinham tomar parte na cruzada contra os mouros; no séquito dos nobres, dos abades e bispos que se integravam nos novos Estados em formação, não escasseavam os inspiradores da língua d’oc. Encontrando-se, assim, a natural aptidão poética dos galizianos com a excelente escola dos provençais, grande foi o desenvolvimento da poesia lírica nesse noroeste da Península. As composições salvadas pelos Cancioneiros, assinadas por tantas centenas de poetas, dizem bem do grande número então existente de trovadores, cuja produção, infelizmente, se perdeu.