A língua portuguesa e o domínio das culturas anglo-saxônicas

HELDER MALTA MACEDO (Krugersdorp, África do Sul, 30 de novembro de 1935) é um poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário, português. A sua obra ficcional, dentre a qual se destaca o romance PartesdeÁfrica (1991), no qual o autor usa técnicas narrativas para revelar as ficções da memória, expondo a fronteira entre o fato e a invenção, é considerada uma das mais originais da literatura portuguesa contemporânea. Opositor ao regime salazarista e como tal censurado, perseguido e preso, acabou por exilar-se em Londres onde, entre 1960 e 1971, foi colaborador regular da BBC. Licenciou-se em Literatura e História, apresentando como tese de licenciatura um estudo sobre Bernardim Ribeiro, e doutorou-se em Letras em 1974 na Universidade de Londres, onde lecionava desde 1971 no King’s College, com a tese intitulada “Nós – uma leitura de Cesário Verde”, livro de excelência e referência sobre o poeta até hoje. Nesta entrevista Macedo fala sobre a língua portuguesa no mundo.

Uma palestra com Graciliano Ramos: Vidas secas

Apenas cinco personagens evoluem no livro: um homem, uma mulher, dois meninos e uma cachorrinha. Com essa comparsaria limitadíssima, criei o meu mundo. Aliás, não se trata de um romance de ambiente, como geralmente costumam fazer os escritores nordestinos e os regionalistas em geral. Eles se preocupam apenas com a paisagem, a pintura do meio, colocando os personagens em situação muito convencional. Não estudam, propriamente, a alma do sertanejo. Limitam-se a emprestar-lhe sentimentos e maneiras da gente da cidade, fazendo-os falar uma língua que não é absolutamente o linguajar desses seres broncos e primários. O estudo da alma do sertanejo, do Norte ou do Sul, ainda está por fazer em nossa literatura regionalista. Quem ler os romances regionalistas brasileiros faz uma ideia muito diversa do que seja o homem do mato.

Memória: o lançamento de Nothing the Sun Could Not Explain em 1997

A antologia esgotou sua primeira edição nos Estados Unidos em três meses. Ela nunca foi editada no Brasil, embora caminhe para a terceira edição aqui em meu país. Foi a primeira vez que poetas americanos de nível (Robert Creeley, Michael Palmer) trabalharam on-line e pessoalmente com poetas brasileiros nas traduções. Vertemos Ana Cristina César, Paulo Leminski, Torquato Neto, para mencionar apenas os então, naquele momento, mortos. O objetivo foi o de correr o risco de um novo contemporâneo brasileiro, global, e de estabelecer um diálogo inédito. Esse trabalho gerou inúmeras outras antologias publicadas no Brasil e permanece único nos Estados Unidos. Relembro os fatos com leveza e humor. De alguns deles.

China: mítico reino do Cataio de Bento de Góis

O leigo jesuíta açoriano Bento de Góis, pouco divulgado viajante da centúria de Seiscentos, devido à sua energia, tato diplomático e domínio dos idiomas locais, foi o escolhido para a árdua missão de partir da Índia, no ano de 1603, em busca desse tal mítico reino do Cataio, onde se acreditava existirem cristandades perdidas. A extraordinária jornada que o levou do Punjab à Grande Muralha, atravessando os píncaros do Hindu Kush e visitando diversos e obscuros reinos e emirados da Ásia Central, foi reconstituída pelo jesuíta Matteo Ricci, que naquela altura dirigia a missão em Pequim, com base em fragmentos de apontamentos redigidos por Góis e com o auxílio da memória do seu companheiro de viagem, o armênio Isaac. O relato, porém, à semelhança de tantos outros relatos de viagens de ilustres portugueses, ficaria inédito até 1911.

“A xustiza pola man” de Rosalía de Castro

La cuestión de la justicia, entendida como desafío al mismo tiempo ético y político, traspasa problemáticamente muchas de las obras de Rosalía de Castro, escritora que a la que la historiografía literaria gallega ha deparado unánimemente la consideración de “poeta fundacional”. Pero tal vez el texto que permite ilustrar mejor su posición ante el derecho sea el titulado “A xustiza pola man” (“La justicia por la mano”1). Entre los numerosos aspectos que han merecido comentario en este poema2, el enigma que lo vertebra adquiere un peso muy relevante.

O que se diz ao editor a propósito de poemas

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,

terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Macau e a Gruta de Camões

Mas discussões são essas de caráter puramente acadêmico, só interessando à investigação erudita. Se as tradições estão bem arraigadas e vivas, não será a demonstração de sua inexatidão histórica que as poderá destruir. É que não foi nas dissertações dos sábios que elas germinaram e medraram, nem é delas, mas do sentimento popular, que tiram a seiva. A Ilíada e a Odisseia hão de chamar-se sempre os poemas homéricos; e quando os infatigáveis sapadores que são os historiadores modernos chegarem à conclusão de que Shakespeare não existiu [...]

De pestilentia Atheniensium – Lucrécio – fragmento Livro VI

Os guias dos arados curvos, os peões,
os pastores de rebanhos, todos fraquejavam,
no profundo das tendas, com os corpos deitados,
prontos para morrer, por pobreza e doença.
Notavam-se cadáveres pais sobre os corpos
dos filhos, e também cadáveres meninos,
inanimados, sobre os cadáveres pais.
O flagelo do campo tomou grandes áreas
da cidade, levado pela multidão
de lavradores, vindos de locais molestos.
Enchiam as casas; deste modo, aglomerados,
arrebanhava-os a morte no verão.
Destruídos de sede, caíam nas ruas,
rolavam até as fontes, e lá se deitavam –
as almas afogadas em tanta água doce.

O português de Macau

Um detalhe delicioso da vivência em Macau prende-se com a pronúncia da língua portuguesa por parte dos macaenses, ou “portugueses de Macau”, e pelos chineses que aprenderam o nosso idioma e o dominam com relativo à vontade. As diferenças são mínimas, e ao fim de algum tempo tornam-se quase imperceptíveis. A adaptação ao território leva-nos mesmo a utilizar com frequência algumas expressões que no início nos causavam alguma estranheza, e eu próprio dou por mim a dizer coisas que há vinte anos consideraria no mínimo “estranhas”. O processo de “macanização” da língua aparece quase sem que demos por ele, mas sem prejuízo da fluência ou do vocabulário. Resumindo este ponto, não só não se desaprende, como se aprende mais qualquer coisinha.

O cosmopolistismo inovador do italiano Emilio Villa

Nascido em Affori em Milão, Emilio Villa (1916-2003) foi seminarista e, posteriormente, especialista em línguas antigas (traduziu algumas tabuletas mesopotâmicas na década de 1930). Naquele período começou a carreira de crítico de arte, sua principal atividade e, ao mesmo tempo (quase um paralelo constante), sua iniciou sua atividade de poeta.

Suas escolhas sempre foram voltadas para a vanguarda, a experimentação, as expressões de misturas e hibridações internacionais.