Perec, Borges e Oulipo

Literatura e Matemática, de Jacques Fux, publicado em 2016 pela editora Perspectiva, pesquisa as relações entre Georges Perec e Jorge Luis Borges sob o viés da Matemática e Lógica. Além de focar seu estudo em um campo pouco explorado dos estudos comparados no Brasil, o livro abre espaço para questionamentos que precisam ser feitos àqueles que produzem literatura atualmente. Para entendermos melhor do que ele fala, vamos reforçar a definição do termo contrainte. Não falamos aqui de ‘constrangimento’, por mais que essa conotação não se perca por completo, dependendo da leitura que se faz daquilo que o Oulipo impõe a seus adeptos. Falamos de uma “restrição inicial imposta à escrita de um texto ou livro”, como afirma Fux. No caso, a novidade do grupo francês Oulipo, do qual Perec foi adepto, foi a proposição de contraintes matemáticas na criação de obras literárias, sem por isso deixar de fazer uso de outras, como as linguísticas.

Livro de Ronald Augusto

Less is more. A célebre frase do arquiteto Mies van der Rohe parece acompanhar desde o princípio, como um baixo contínuo, a já longa produção poética de Ronald Augusto. Make it new, a não menos célebre formulação de Pound, também o acompanha desde sempre. Poeta clara e inequivocamente estabelecido dentro de uma tradição da poesia moderna que prima acima de tudo pela invenção, tendo como princípio um construtivismo rigoroso, e que teve e tem no Concretismo o seu programa estético mais consistente no âmbito da poesia brasileira, Ronald Augusto encontra-se aqui com o mais tradicional de todos os temas presentes na literatura do Ocidente, ou seja, o tema amoroso.
Para mim, que acompanho mais de perto a sua trajetória poética desde a década de 1990, pelo menos, foi com absoluta surpresa que me deparei com À Ipásia que o espera. Diga-se de imediato que o tema amoroso, ainda que sem atingir a centralidade que obteve no período romântico, não foi abandonado pelos poetas modernos.

A musa em coma induzido

Em diálogo com A musa falida[1], http://sibila.com.br/critica/a-musa-falida/12349, conferência que Alcir Pécora, professor do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, ministrou na abertura do ano letivo 2014-15 para os estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, este ensaio estabelecerá uma discussão sobre a crise contemporânea da literatura a partir de duas vertentes correlacionadas: (i) a crise da representação literária, na esteira da crítica (pós-)wittgensteiniana às (im)possibilidades de apreensão e ressignificação do mundo mediadas pela linguagem, e (ii) a perda de juízo crítico das obras de arte associada ao questionamento do cânone literário por parte dos estudos culturais, que florescem no mundo anglo-saxão – Pécora se refere ao contexto propriamente norte-americano – com a eclosão dos importantíssimos movimentos pelos direitos civis dos negros, dos latino-americanos, das mulheres e dos LGBTs em meados do século XX.

A poesia na “era digital”

O artista norte-americano Kenneth Goldsmith publicou agora em 2016, no Brasil, a obra trânsito*. O livro é uma versão em português de Traffic, lançado em 2007 nos Estados Unidos, dublada agora, no caso, por dois jovens poetas, que ainda sondam um caminho mais próprio. Uso o termo “dublado”, pois foi assim que o livro foi exposto no papel por seus tradutores. Também em sua apresentação, na internet, lê-se que o trabalho é composto “de textos que transcrevem os engarrafamentos transmitidos por uma rádio de trânsito em São Paulo na véspera de um final de semana prolongado”, acrescentando-se que “a versão brasileira dublou o mecanismo do original, chegando a um texto que, entre o ready-made e a crônica, transforma o material descartável das ondas de rádio em livro”.

A Poesia Viva de Paulo Bruscky

Nesse sentido, a influência de alguns mentores do poema/processo, como Wlademir Dias Pino e Moacy Cirne, é notável na produção de Paulo Bruscky, que compactua a noção de participação do público e transformação inerente a uma poética que não se encerra em si mesma nem no pé da página, mas sim em uma ideia, um conceito.

Clarice Lispector: graça e exceção

Uma mensagem perdida, informe, desterritorializada entre o não-tempo da literatura e o datado do jornalismo, larga pelo caminho um fragmento desconexo do texto que a antecede: “P.S. Estou solidária, de corpo e alma, com a tragédia dos estudantes do Brasil”. O recado póstumo ao final da crônica “Estado de graça (Trecho)”, assinada por Clarice Lispector (2004, p. 118) e publicada no Jornal do Brasil, em 6 de abril de 1968, precisava chegar do exterior às multidões que carregavam o corpo do menino Edson Luís nas ruas do Rio de Janeiro. Aparentemente descontextualizado, separado do todo, fraturando, minando o tempo da diegese, a passagem do calabouço despista a sua própria localização, pois o trecho que se disfarça como um corpo intruso na máquina da escrita pode ser o território todo.
Contra o poder da linha dura, a escrita-cigana dissimula suas formas e conteúdos, largando pelos caminhos pegadas-fantasmas, intempestivas porque podem sempre ser recuperadas pelo corpo ferido das multidões, como um epílogo que continua.

A Amazônia devastada

Na Amazônia, fala-se muito em preservação da floresta. A afirmação de que o homem precisa conviver com a natureza já é frase surrada  entre ambientalistas e simpatizantes da causa ambiental. O homem, há anos, devasta a mata (ou o que resta dela). Mas qual a importância da cobertura vegetal nas cidades? Seria possível a vida em uma cidade sem árvores? Nas cidades, as áreas verdes diminuem o estresse de seus habitantes. Sossega os inquietos. Anima os tristes. À sombra de uma árvore quem não se anima a caminhar a  segunda milha?

Má-fé na tradução

Má-fé, no sentido sartriano de enganar não apenas os outros, mas também de enganar-se, é o conceito usado por Cyril Aslanov para discorrer sobre A tradução como manipulação (Ed. Perspectiva e Casa Guilherme de Almeida, 2015). Em seu livro, o professor israelense expõe e comenta casos de falsificações, negligências, censuras, motivações políticas, boicotes, deficiências do Google Tradutor, bajulações, apropriações e também casos em que a má-fé percorre outras camadas do texto, por vezes chegando ao seu estatuto ontológico.
Apesar do cinismo contido nas atitudes descritas acima, Aslanov considera a boa intenção de tradutores, mas considera também o resultado desse tipo de tradução “fiel e laboriosa” quase sem salvação. É inevitável nos lembrarmos de traduções de títulos de filmes e livros que encontramos sempre que vamos às lojas ou ligamos a TV. A propósito, o autor também dedica um capítulo à fraude na tradução simultânea.
Para Aslanov, “o tradutor não está traindo ninguém. Ele apenas procura subterfúgios que tornem o texto aceitável para o leitor”

Os Alfenins sem açucar de Adrain

CONSUBSTANTdJETIVOS COMUNS de ADRIAN’DOS DELIMA O artesanato-culinário do poeta no livro anunciado no título de meu texto não é, óbvio, vindo de uma cozinha industrial. Seus doces são, paradoxalmente, feitos sem açúcar. Com afetos, penso que sim, uma vez que crítica, derrisão, corrosão podem ser afetos. Não obstante, não é nada disso que quero falar, […]

A dança-teatro de Pina Bausch

Em 2014, assisti na Brooklyn Academy of Music (BAM), em Nova York, à apresentação de Kontakthof, que há 30 anos fazia seu début no mesmo teatro.

Ao contrário da considerável resistência ao trabalho da dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch e do Tanztheater Wuppertal, no início dos anos 1970, deparei-me com um teatro lotado de espectadores entusiasmados, que riam, aplaudiam e interagiam com a peça.

A respeito dessa resistência, Pina dizia que a dificuldade já começa com o conceito da palavra dança: “A palavra dança estava relacionada a um número muito particular de ideias. Mas a dança não consiste numa técnica particular. Isso seria extremamente arrogante, pensar que muitas outras coisas não seriam dança.