O POEMA APOKRIF, DE JÁNOS PILINSZKY

János Pilinszky foi um poeta e dramaturgo húngaro que viveu entre 1921 e 1981.  Tive a imensa sorte de conhecer sua obra, há alguns anos, por intermédio de György Molnar, um amigo de Budapeste que pacientemente também me introduziu nas imensas poesias de János Arany e Petöfi  Sándor. Com 92 anos, Molnar é minha principal […]

Kafka, filósofo do direito

Nossas leis não são universalmente conhecidas, são segredo do pequeno grupo de nobres que nos domina. Estamos convencidos de que essas velhas leis são observadas com exatidão, mas é extremamente penoso ser governado segundo leis que não se conhecem. Não penso neste caso nas diferentes possibilidades de interpretá-las nem nas desvantagens que há quando apenas indivíduos e não o povo inteiro podem participar da sua interpretação. Talvez essas desvantagens não sejam tão grandes assim. As leis são de fato muito antigas, séculos trabalharam na sua exegese, certamente até essa interpretação já se tornou lei, na verdade continuam a existir as liberdades possíveis no ato de interpretar, mas elas são muito limitadas. Além do mais é evidente que a nobreza não têm motivo algum, na interpretação, para se deixar influenciar pelo interesse pessoal em detrimento do nosso, pois as leis foram desde o início assentadas para os nobres, a nobreza está fora da lei e precisamente por isso a lei parece ter sido posta com exclusividade nas mãos da nobreza. Naturalmente existe sabedoria nisso – quem duvida da sabedoria das velhas leis? –, mas é também um tormento para nós, provavelmente algo inevitável.

Beyond the wall

Beyond the wall (Além do muro), segundo selected poems de Régis Bonvicino publicado nos Estados Unidos – o primeiro foi Sky-eclipse, em 2000 – pela mesma Green Integer, em edição bilíngue, testemunha um trabalho de arqueologia poética centrada sobre os resíduos tóxicos do capitalismo terminal. Pois se mostra observável nos poemas o foco na condição de lixo em que as grifes e as referências culturais contemporâneas acabam por se situar. O filósofo Emil Cioran comparou a atividade escritural, numa de suas notas sobre Beckett, à obstinação daquele que, no budismo, busca a iluminação – como “o rato que rói um caixão”: “Todo escritor verdadeiro faz um esforço semelhante. É um destruidor que amplia a existência, que a enriquece minando-a”. Assim, o teor dramático da escrita de RB, em relação metonímica com a figura do poeta atravessando as ruas da cidade em decomposição, pode ser observado no poema “Caminho de hamster”: “Fedendo a cigarro e a mim mesmo/ cruzo uma avenida/ ao anoitecer/ sirenes, carros (…) fedendo como aquela maçã podre/ fedendo a música estúpida/ desses tempos.

NO PRINCÍPIO ERA O VÍRUS

Inquietante viralização a que se impõe hoje, enquanto atravessamos as truculências desse início de milênio, através de uma infinidade de peças escatológicas servindo de estofo ao hiperlivro www. Dois fantasmas do livro por vir, diz Derrida em Papel-máquina, vêm nos induzir à tentação de considerar a rede mundial como o Livro ubíquo enfim reconstituído, o livro de Deus, o grande livro da Natureza, ou o Livro-Mundo. Trata-se do sonho onto-teológico com o fim do livro em dois limites, em duas figuras extremas, finais, escáticas: o fim como morte ou o fim como telos ou realização. Na esteira do fim da arte e fim da história hegelianos, da morte de Deus, do último homem e do super-homem nietzscheanos, multidões de cyber-usuári@s, em cadência publicitária global, colaboram para a metanarrativa da desolação mundial diária. Certo modo de ser replicante, acossado e em pânico – o terror – fez-se condição oportuna para a emergência de uma cultura tecnocapital planetária. Desde há mais ou menos dois séculos, quando o fim das supremacias.

Nota sobre Beyond the wall

Quem se dispõe a percorrer a nova coletânea de poemas de Régis Bonvicino, Beyond the wall (Além do muro) recém publicada pela editora Green Integer nos EUA, deve estar preparado para enfrentar uma complexa trama em que o estatuto da arte, a vida na cidade e a política em ponto de bala se entrelaçam de uma maneira absolutamente inextricável, de modo que é praticamente impossível uma dissociação dos elementos dessa poética – existe algo de irredutível na obra que impede os esquemas mais tradicionais de interpretação de livros de poesias. Não é o caso, então, de tentar localizar quais são os poemas de uma ordem metalinguística mais evidente ou os que apresentam imagens da cidade ou mesmo os que discutem relações de poder. Os poemas de Beyond the wall operam nas bordas, nos limites em que um tema já se transforma em outro, mas ainda não deixa de ser o que era. Existe uma verdadeira topografia poética, um modo pelo qual esses poemas foram estrategicamente colocados em sua sequência, que causa a perfeita percepção de que o livro tem um espaço.

Perec, Borges e Oulipo

Literatura e Matemática, de Jacques Fux, publicado em 2016 pela editora Perspectiva, pesquisa as relações entre Georges Perec e Jorge Luis Borges sob o viés da Matemática e Lógica. Além de focar seu estudo em um campo pouco explorado dos estudos comparados no Brasil, o livro abre espaço para questionamentos que precisam ser feitos àqueles que produzem literatura atualmente. Para entendermos melhor do que ele fala, vamos reforçar a definição do termo contrainte. Não falamos aqui de ‘constrangimento’, por mais que essa conotação não se perca por completo, dependendo da leitura que se faz daquilo que o Oulipo impõe a seus adeptos. Falamos de uma “restrição inicial imposta à escrita de um texto ou livro”, como afirma Fux. No caso, a novidade do grupo francês Oulipo, do qual Perec foi adepto, foi a proposição de contraintes matemáticas na criação de obras literárias, sem por isso deixar de fazer uso de outras, como as linguísticas.

Livro de Ronald Augusto

Less is more. A célebre frase do arquiteto Mies van der Rohe parece acompanhar desde o princípio, como um baixo contínuo, a já longa produção poética de Ronald Augusto. Make it new, a não menos célebre formulação de Pound, também o acompanha desde sempre. Poeta clara e inequivocamente estabelecido dentro de uma tradição da poesia moderna que prima acima de tudo pela invenção, tendo como princípio um construtivismo rigoroso, e que teve e tem no Concretismo o seu programa estético mais consistente no âmbito da poesia brasileira, Ronald Augusto encontra-se aqui com o mais tradicional de todos os temas presentes na literatura do Ocidente, ou seja, o tema amoroso.
Para mim, que acompanho mais de perto a sua trajetória poética desde a década de 1990, pelo menos, foi com absoluta surpresa que me deparei com À Ipásia que o espera. Diga-se de imediato que o tema amoroso, ainda que sem atingir a centralidade que obteve no período romântico, não foi abandonado pelos poetas modernos.

A musa em coma induzido

Em diálogo com A musa falida[1], http://sibila.com.br/critica/a-musa-falida/12349, conferência que Alcir Pécora, professor do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, ministrou na abertura do ano letivo 2014-15 para os estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, este ensaio estabelecerá uma discussão sobre a crise contemporânea da literatura a partir de duas vertentes correlacionadas: (i) a crise da representação literária, na esteira da crítica (pós-)wittgensteiniana às (im)possibilidades de apreensão e ressignificação do mundo mediadas pela linguagem, e (ii) a perda de juízo crítico das obras de arte associada ao questionamento do cânone literário por parte dos estudos culturais, que florescem no mundo anglo-saxão – Pécora se refere ao contexto propriamente norte-americano – com a eclosão dos importantíssimos movimentos pelos direitos civis dos negros, dos latino-americanos, das mulheres e dos LGBTs em meados do século XX.

A poesia na “era digital”

O artista norte-americano Kenneth Goldsmith publicou agora em 2016, no Brasil, a obra trânsito*. O livro é uma versão em português de Traffic, lançado em 2007 nos Estados Unidos, dublada agora, no caso, por dois jovens poetas, que ainda sondam um caminho mais próprio. Uso o termo “dublado”, pois foi assim que o livro foi exposto no papel por seus tradutores. Também em sua apresentação, na internet, lê-se que o trabalho é composto “de textos que transcrevem os engarrafamentos transmitidos por uma rádio de trânsito em São Paulo na véspera de um final de semana prolongado”, acrescentando-se que “a versão brasileira dublou o mecanismo do original, chegando a um texto que, entre o ready-made e a crônica, transforma o material descartável das ondas de rádio em livro”.