Conversas com o poeta João Cabral de Melo Neto

BA: Em Sevilha, você foi pela primeira vez para fazer o quê? Foi para uma pesquisa…

JC: Não, o negócio é que em 1953 houve uma confusão comigo aqui. Eu e mais quatro colegas do Itamaraty fomos acusados de comunistas. Fomos postos em disponibilidade pelo Itamaraty até que o Supremo Tribunal Federal nos deu razão. Então nós voltamos ao Itamaraty. Quando voltamos, eles tinham que nos dar um posto, não é? O Macedo Soares [José Carlos de Macedo Soares, 1883-1968], que era ministro [das Relações Exteriores] e historiador, inventou o seguinte: nos mandar para um consulado e nos comissionar para fazer pesquisa histórica. Então, me mandou para o consulado em Barcelona, mas me disse: “Olha, o senhor não vai ser cônsul. O senhor vai morar em Sevilha para fazer pesquisa no Arquivo das Índias”. De forma que só fui cônsul em Sevilha depois. Da primeira vez fui cônsul adjunto em Barcelona, morando em Sevilha e fazendo pesquisa histórica lá. Da segunda vez eu fui como cônsul. Em Barcelona, oficialmente, eu estive três vezes, mas da segunda eu praticamente não estive lá, e sim em Sevilha.

Alex Polari: Inventário de Cicatrizes

Fato importante aconteceu, não só no circuito poético, com o lançamento de Inventário de cicatrizes, coletânea de poemas de Alex Polari de Alverga, que, como se sabe, foi preso em maio de 1971, aos vinte anos, por sua militância guerrilheira contra o regime militar brasileiro e, por isso, condenado pelos tribunais a 80 anos de prisão, o que não é, diga-se, nada mole. Há coisas significativas no livro de estreia desse poeta-guerrilheiro, que escreveu seus poemas na cadeia.

A primeira é que o produto de sua venda vai ser canalizado para o Comitê Brasileiro pela Anistia. A segunda é que a linguagem de Alex é colada, de modo inseparável, ao vivido e à vida. Nesse sentido, pode-se afirmar que Inventário de cicatrizes é um diário em transe e em trânsito, temperado com reflexões sobre o passado (atuação guerrilheira) e o presente (vida na cadeia, condição de preso político, torturas etc.). Nos melhores poemas de Alex, há o risco do instantâneo e o rápido do imediato.

Poesia guerrilheira: Os versos do Araguaia

Um fato raro e pouco conhecido na história da poesia brasileira recente foi a reunião e a publicação de poemas escritos por guerrilheiros do Araguaia durante a guerrilha. Os poemas dessa pequena seleção são surpreendentes, em vários aspectos. Antes de comentá-los brevemente é preciso, porém, comentar ainda mais brevemente a própria guerrilha.

A guerrilha na região do rio Araguaia, no Pará, durou entre fins da década de 1960 e 1974. Foi organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), de linha maoista, que pregava um caminho sino-cubano para chegar à Revolução no Brasil, somando a “via camponesa” de Mao Tsé-Tung (que contrariava o marxismo-leninismo “clássico”, centrado no proletariado urbano) ao vanguardismo guerrilheiro de Fidel e Guevara.

Se esse foi o contexto ideológico da guerrilha do Araguaia e de seus participantes, os poemas ali surgidos escapam da cartilha.

Gregório Duvivier e a nova poesia-entretenimento

O recém-lançado Ligue os pontos – poemas de amor e big bang (São Paulo, Companhia das Letras, 2013), do comediante, roteirista, ator e colunista carioca Gregório Duvivier, é seu segundo livro de poemas. De um modo um pouco incomum, começo, então, por seu primeiro livro, pois isso ajuda a aclarar e delinear as marcas e influências dominantes de uma obra ainda parca.

Seu primeiro livro tinha por título A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (Rio de Janeiro, 2008, 7Letras), título que é uma grande proeza. Uma grande proeza de diluição, ou uma proeza de grande diluição, o que não muda onde se chega: Paulo Leminski. Grosso modo, a obra poética de Leminski se divide, em seus próprios termos, em “caprichos” e “relaxos”, como este, um dos mais conhecidos: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora” é uma paráfrase “relaxada” (no sentido de ainda mais prosaica) do famoso verso de Leminski. Este, por sua vez, é um dos melhores exemplos do material poético que alimenta a “febre Facebook” das citações do poeta curitibano.

Fragmentos

Uma experiência de banca. Me lembro de uma defesa de mestrado, na qual fui o segundo a usar a palavra. Antes de mim, arguiu um professor de mais longe, e como gostava de falar, tive tempo de procurar entender o que ali se passava. Concluí, em primeiro lugar, que era imperioso teorizar a merda, antes de mais nada pela dificuldade de diferenciá-la em vista de sua variedade, multiplicidade e ubiquidade. Neste caso, fiquei feliz em conseguir organizar a verborragia do colega em um esquema de quatro níveis, algo reminiscente da hermenêutica medieval. O primeiro era o literal, do simples nonsense, das palavras frouxas, dos conceitos gelatinosos, da falta de coerência entre as frases. Mas como é impossível deixar de fazer sentido o tempo todo, logo surgia uma segunda camada, que se referia ao simples erro, e que já era um avanço, dado que já possuía alguma determinação.

Não torne a dizer em prosa medíocre o que já foi dito em boa poesia

Em meu universo paralelo, os objetivos do crítico de poesia consistem em descobrir e apresentar poesia que tenha o máximo de ressonância, que transforme enquanto arte da poesia o momento contemporâneo sempre transitório, que ligue o seu trabalho a outros trabalhos, históricos e contemporâneos (nenhum poema é, inteiramente de per si, um paraíso ou um purgatório), que articule os valores e as tramas (reais e imaginários) como particulares e contestáveis antes do que como universais e aceitos por todos. E, ainda, desafiar o complacente e o simplesmente competente e encorajar quem ainda não foi provado, o radical, o inesperado, o esquisito e o cacográfico (incoerente).

Quase uma sociologia da obra de arte

Analisar cientificamente obras de arte, encontrando suas condições sociais de produção, ao contrário do que afirmam os detratores de tal tipo de análise, longe de reduzir ou destruir tais obras, intensificaria a experiência literária, segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu em As regras da artegênese e estrutura do campo literário:1 “construir sistemas de relações inteligíveis capazes de explicar os dados sensíveis”, eis o objetivo da compreensão racional de tais objetos. Em outros termos, encontrar a fórmula formadora, o princípio gerador, a razão de ser das obras artísticas, forneceria a melhor justificação à experiência artística e ao prazer que a acompanha.

Sobre Estado Crítico de Régis Bonvicino

Haverá nessa destilação poética de projeção distópica, nesse mundo onde “não há futuro mas apenas tempo”, onde crítico é também o estado da poesia, algum respiro de vida que não seja estertor? Tal como o maciço de miosótis que “ainda rompe as grades do parque”, o poema negativo que “denuncia a barbárie” respirará ainda, embora por aparelhos críticos?

A poeticidade do mundo

Na realidade, Rimbaud pratica a escrita como cartografia. De início, o referencial literário clássico é refeito, quando ainda estudante aplicado no Latim. E, na sequência dos poucos anos de sua adolescência (tempo em que dura sua produção poética), são apropriados o Romantismo e os poemas da atualidade parnasiana, posteriores a Baudelaire, na virada para o que ficou conhecido como Simbolismo. (Deve-se pôr em destaque o dado que o criador de Fleurs du mal se situa como matriz de suas desleituras/reescritas). Em tal andamento, o literário deixa de ser o único molde para a escrita de Rimbaud. Seu material se mescla, plurificando-se. Recolhe textos diversos no cotidiano, em todas as variações inscritivas, em seu uso mais ordinário, a partir mesmo do refugo cultural (veja-se a esse respeito “Alquimia do Verbo”).