Como señalé al inicio, eran demasiadas las influencias mezcladas en su cabeza. Su vivencia del budismo fue ecléctica, y quizás a más de alguno le parezca una impostura o una provocación. Por momentos tiendo a pensar que en su escritura predominó mucho más el afán de un bufón o de un malabarista. En el caso del poema que he venido analizando, podemos pensar perfectamente en un publicista que recorta su eslogan para que sea más fácilmente recordable, o un editor que elimina el pie de una foto, para no obstruir su mensaje.
As leituras sobre a poesia de Paulo Leminski também não rompem o círculo de giz delimitado pelo próprio poeta. As interpretações seguem a agenda estabelecida pela metalinguagem do autor de Distraídos venceremos (outra vez o fortuito constituindo o forçoso, o ar vagamente zen, a concentração desconcentrada, a prática de convencimento, mas assim como quem não quer nada). As leituras se acumulam nessa toada de acordo com a vontade do poeta; à maneira de, à imagem e semelhança de Leminski.
A ideia parece vir de Jean Cocteau, na sua peça também em um ato de 1930, La voix humaine(popularizada pela versão cinematográfica de Roberto Rossellini, em que aparece como a primeira parte – “Voce umana” – do filme em dois episódios L´amore, de 1948, interpretada por ninguém menos que Anna Magnani). Com uma diferença fundamental: a peça de Cocteau não é um monólogo apoiado em um telefone, mas um verdadeiro diálogo entre a personagem sozinha em cena e o aparelho, ou melhor, entre ela e o vazio das vozes com as quais conversa, e que não são ouvidas.
Nos anos 1950, o mundo e os EUA viviam o auge da Guerra Fria, sob a ameaça real e imediata de uma Terceira Guerra Mundial, que seria a última, pois nuclear. E os EUA, em particular, viviam em pleno macarthismo, quando a própria democracia americana esteve, se não ameaçada, bastante estressada. O conservadorismo, a hipocrisia e certa histeria conservadora e hipócrita imperavam de maneira agressiva, que fariam a retórica e as ações recentes de George W. Bush encolherem e empalidecerem. O mundo todo, refém da corrida armamentista em sua fase inicial desenfreada, e entregue a disputas por procuração entre as duas superpotências, que armavam guerrilhas e grupos terroristas de esquerda ou davam apoio a golpes e ditaduras de direita, do Sudeste Asiático à América Latina, passando pela África e por uma Europa dividida pela “Cortina de Ferro” imposta por Stálin (o Muro de Berlim estava para ser construído), o mundo todo era uma espécie de grande Guantánamo mental.
E (2) se o crítico escreve contra – e é quase isso que acontece no caso do comentário a Um útero é do tamanho de um punho, e digo “quase”, pois minha leitura leva em consideração também as condições em que a obra se consagra – se o crítico escreve contra, ele se converte em um maledicente, um filho da puta (com o perdão da expressão, culto leitor), porque esse “coletivo de escritores”, todos eles conectados graças às redes sociais, esse coletivo de ativistas propenso a não interpor a menor objeção a um aquecido meio literário, forma um campo benfazejo onde prosperou e prospera a ideia [...]
Vanguardas em retrocesso nos apresenta Sergio Miceli na figura de um crítico legista, o sociólogo realiza verdadeiras necropsias textuais para investigar a causa do apagamento das práticas sociais na obra desses criadores que são o alvo de sua pesquisa, práticas sociais que, segundo Miceli, viabilizaram suas reputações. Para o crítico legista tal investigação se faz necessária principalmente quando este apagamento ocorre em circunstâncias misteriosas. É como se estivéssemos não diante de algumas obras de arte, mas diante da sonegação de provas de um crime.
Torquato não confundia Oswald de Andrade com Zé Celso. Outros podiam esconder a cabeça, ter receio de parecer high brow. Não Torquato. Seu repertório cultural era mais amplo, seus roteiros mais seguros. A expressão geleia geral, que criei e empreguei em 1963, numa discussão com Cassiano Ricardo, ao expulsá-lo da revista Invenção, transformou-se num miniprograma crítico-criativo para Torquato, que não só a utilizou na letra famosa dos tempos da Tropicália, como com ela batizou a coluna que manteve no Última Hora, do Rio de Janeiro. Seu modo de proceder na montagem/colagem/bricolagem tinha certa orientação, não era errático.
O poeta sírio Ali Ahamed Said Esber (Latakia, 1930), conhecido por seu pseudônimo Adonis, é considerado o mais importante poeta árabe da atualidade. Ainda pouco conhecido no Brasil, acaba de ganhar uma antologia com prefácio de Milton Hatoum e tradução de Michel Sleiman (São Paulo, Cia das Letras, 2012). Adonis não pode mais, portanto, ser desconhecido no Brasil.
Adonis é o que se costumava chamar de um “homem político”: num sentido estrito, foi membro do Partido Socialista Sírio; num sentido lato, manifesta-se politicamente em todas as oportunidades; por fim, leva o discurso político diretamente para sua poesia. Apesar disso, os poemas de Adonis, como os de qualquer outro poeta, e ainda que sem desconsiderar inteiramente esses dados, devem ser tomados pelo que são, assim como pelo que representam na história da estética (pois a ideologia “correta” não garante uma grande obra − daí o fracasso do “realismo socialista” −, assim como crenças equivocadas não implicam numa obra ruim).
Depois desse percurso algo tortuoso, eu teria por fim de declarar que, para responder à questão sobre a diferença entre a crítica e a literatura, levaria em conta sobretudo a atitude em direção à alteridade. Nesse sentido, a crítica literária que me interessa é a que se ocupa de textos que são – ou que, em algum momento, foram tidos como – literários, isto é, textos escritos para serem lidos também por não críticos (e não escritores, na maior parte dos casos). A crítica que tem como imperativo situar-se não só face ao texto que comenta, mas também face aos textos que a precederam no comentário dele ou que estão previstos nele.
Falando de modo geral, é possível que a mais velha forma de manipulação do passado consista em sua utilização religiosa ou ideológica com fins políticos (entendendo por “fins políticos” se manter ou afirmar-se no poder), dado que o relato que se faça do ocorrido exerce um papel crucial na interpretação do presente e em sua possível legitimação.