Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Paul Hoover

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Paul Hoover: Quero que a poesia me surpreenda e me transporte. Isso só pode acontecer quando diz a verdade – por exemplo, quando a chama e a borboleta têm certos traços em comum (Ponge). Escrever um poema pode ser uma experiência exaustiva. Você acha que não consegue ir a lugar algum e adormece à sua escrivaninha, num estado que Frank O’Hara chamou “quandariness” [dilematicidade]. Isso pode acontecer mesmo quando o resultado é um poema maravilhoso. Os poemas são uma investigação de identidade e diferença, onde a beirada (assunto) encontra seu vinco (forma).

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Yi Sha

YI SHA nasceu em 1966 em Chegdu e mudou-se aos dois anos, junto com a família, para a cidade de Xi’an, na província de Shaanxi, cidade da China Central. Ainda na escola, publicou seus primeiros poemas. Estudou chinês na Universidade Normal de Beijing [Pequim] e tornou-se uma figura conhecida entre os poetas chineses que estudavam na universidade. Trabalhou para revistas literárias, como apresentador de TV, como editor independente, e agora é professor assistente junto à Universidade de Estudos Internacionais de Xi’an. Em 1988 publicou sua primeira coletânea de versos, mimeografada, Rua solitária, mas encontrou um editor oficial para sua próxima coletânea, Que os poetas morram de fome! (1994). Seus outros títulos de prosa e de poesia compreendem: Cais vagabundos (1996); Este Diabo de Yi Sha (1998); Os sons do bastardo (1999); Ídolos blasfemos (1999); Assassino na Moda (2000); Crítica de 10 poetas (2001); Meu herói (2003); Ignorantes não têm vergonha (2005). Sua poesia foi traduzida para muitas línguas, mas ele não tem recebido permissão para recitar seus poemas no estrangeiro, em diversas ocasiões. Seus Poemas curtos escolhidos foram publicados em edição bilíngue chinês-inglês, em 2003, em Hong Kong. Que os poetas morram de fome! (Bloodaxe Books, 2008) é seu primeiro livro em inglês, fora da China.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Marco Giovenale

Sibila: Que poesia você lê?

Giovenale: Não amo a poesia lírica, realística, narrativa, confessional. Não amo o epigonismo hiperlinguístico ou “oulipo-style” de alguns intérpretes das recentes estações da neovanguarda. Em lugar disso, acompanho e pratico uma escritura de pesquisa entendida como littéralité e prosa em prosa, para citar Jean-Marie Gleize.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Giovenale: A leitura de resíduos líricos, confessionais, retóricos, épicos, sublimes, assertivos, bonnefoyeurs, rilkeanos, montalianos e serenianos, oulipianos, laborínticos, narrativos, egocentrados, performativo-espetaculares consegue um efeito liberatório central: o efeito cômico. É divertido ler ou ouvir (esta) poesia.

Estado del arte

La poesía es la aversión a la conformidad en la persecución de nuevas formas, o lo puede ser. Por forma quiero decir maneras de poner las cosas juntas, o de sujetarlas para mantenerlas separadas, quiero decir maneras de dar cuenta de lo que preocupa a cualquiera de nosotros, o que la poesía lanza al aire imaginário a modo de muchos cisnes volando fuera del insondable sombrero negro del mago, tan súbitamente como un cielo que se vuelve blanco o púrpura o azul brillante, y respiramos profundamente. Por forma quiero decir cómo cualquiera de nosotros interpreta lo que se arremolina y nos resulta incomprensible acerca de nosotros mismos, o el tartamudeo con el cual se tartamudea, el gorjeo que ella canta entonada o desentonadamente. Si la forma rehúye la conformidad, entonces hace vaivén del amor-odio insaciable que esta cultura tiene por la asimilación; un círculo maníaco-depresivo de seguir la corriente y huir, que es un catalizador crucial en el sofocantemente efectivo proceso de auto-regulación y auto-censura.

Sexo e Gênero em Parque Industrial

Parque industrial, de Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), foi escrito em 1932 e lançado no ano seguinte (em pequena tiragem financiada por Oswald de Andrade), com o pseudônimo de Mara Lobo, que ela adotou para evitar mais atritos com o Partido Comunista, no qual militava sem nunca, no entanto, se submeter ao seu “centralismo”. O livro foi, assim, escrito durante o governo Vargas, que tomara o poder em 1930, após o breve período do governo da junta militar liderada pelo general Tasso Fragoso, sucedendo Washington Luís (1926-1930). A polarização política mundial entre comunistas e fascistas, que ocorreu nessa década, pautou igualmente as artes, que, pouco a pouco, na maioria de suas manifestações [...]

Memorialismo como ficção de si e como ficção histórica

A manifestação de uma profunda consciência autobiográfica é marcante entre os escritores ligados ao modernismo brasileiro. Quase todos os nomes mais importantes do movimento, e pensamos em Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Tarsila do Amaral, para citar alguns dos nomes mais lembrados, deixaram diversos rastros para que seus futuros biógrafos, assim como os pesquisadores do movimento, seguissem. Para ficar em dois exemplos, de natureza diferente, mas com resultados ilustrativos: Oswald de Andrade e Mário de Andrade. O primeiro entrou para história da literatura pelos seus excessos e pela habilidade em alimentar alguns mitos em torno de seu nome. Sua vida, recheada de lances romanescos, sempre foi bastante exposta, seja em função de sua personalidade, seja pela pessoalidade que suas entrevistas, artigos jornalísticos e aparições públicas sempre ganharam.

A Rotina e a Quimera (quase toda literatura brasileira é literatura de funcionários públicos)

Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam a hora do expediente escrevendo literatura. Não sei se esse tipo de burocrata-escritor existe ainda. A racionalização do serviço público, ou o esforço por essa racionalização, trouxe modificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, e é de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra de processos se hajam ressentido desses novos métodos de trabalho. Sem embargo, não se terão estiolado de todo, tão forte é, no escritor, a necessidade de exprimir-se, dentro ou fora da rotina que lhe é imposta.