Estado del arte

La poesía es la aversión a la conformidad en la persecución de nuevas formas, o lo puede ser. Por forma quiero decir maneras de poner las cosas juntas, o de sujetarlas para mantenerlas separadas, quiero decir maneras de dar cuenta de lo que preocupa a cualquiera de nosotros, o que la poesía lanza al aire imaginário a modo de muchos cisnes volando fuera del insondable sombrero negro del mago, tan súbitamente como un cielo que se vuelve blanco o púrpura o azul brillante, y respiramos profundamente. Por forma quiero decir cómo cualquiera de nosotros interpreta lo que se arremolina y nos resulta incomprensible acerca de nosotros mismos, o el tartamudeo con el cual se tartamudea, el gorjeo que ella canta entonada o desentonadamente. Si la forma rehúye la conformidad, entonces hace vaivén del amor-odio insaciable que esta cultura tiene por la asimilación; un círculo maníaco-depresivo de seguir la corriente y huir, que es un catalizador crucial en el sofocantemente efectivo proceso de auto-regulación y auto-censura.

Sexo e Gênero em Parque Industrial

Parque industrial, de Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), foi escrito em 1932 e lançado no ano seguinte (em pequena tiragem financiada por Oswald de Andrade), com o pseudônimo de Mara Lobo, que ela adotou para evitar mais atritos com o Partido Comunista, no qual militava sem nunca, no entanto, se submeter ao seu “centralismo”. O livro foi, assim, escrito durante o governo Vargas, que tomara o poder em 1930, após o breve período do governo da junta militar liderada pelo general Tasso Fragoso, sucedendo Washington Luís (1926-1930). A polarização política mundial entre comunistas e fascistas, que ocorreu nessa década, pautou igualmente as artes, que, pouco a pouco, na maioria de suas manifestações [...]

Memorialismo como ficção de si e como ficção histórica

A manifestação de uma profunda consciência autobiográfica é marcante entre os escritores ligados ao modernismo brasileiro. Quase todos os nomes mais importantes do movimento, e pensamos em Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Tarsila do Amaral, para citar alguns dos nomes mais lembrados, deixaram diversos rastros para que seus futuros biógrafos, assim como os pesquisadores do movimento, seguissem. Para ficar em dois exemplos, de natureza diferente, mas com resultados ilustrativos: Oswald de Andrade e Mário de Andrade. O primeiro entrou para história da literatura pelos seus excessos e pela habilidade em alimentar alguns mitos em torno de seu nome. Sua vida, recheada de lances romanescos, sempre foi bastante exposta, seja em função de sua personalidade, seja pela pessoalidade que suas entrevistas, artigos jornalísticos e aparições públicas sempre ganharam.

A Rotina e a Quimera (quase toda literatura brasileira é literatura de funcionários públicos)

Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam a hora do expediente escrevendo literatura. Não sei se esse tipo de burocrata-escritor existe ainda. A racionalização do serviço público, ou o esforço por essa racionalização, trouxe modificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, e é de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra de processos se hajam ressentido desses novos métodos de trabalho. Sem embargo, não se terão estiolado de todo, tão forte é, no escritor, a necessidade de exprimir-se, dentro ou fora da rotina que lhe é imposta.

Conversas com o poeta João Cabral de Melo Neto

BA: Em Sevilha, você foi pela primeira vez para fazer o quê? Foi para uma pesquisa…

JC: Não, o negócio é que em 1953 houve uma confusão comigo aqui. Eu e mais quatro colegas do Itamaraty fomos acusados de comunistas. Fomos postos em disponibilidade pelo Itamaraty até que o Supremo Tribunal Federal nos deu razão. Então nós voltamos ao Itamaraty. Quando voltamos, eles tinham que nos dar um posto, não é? O Macedo Soares [José Carlos de Macedo Soares, 1883-1968], que era ministro [das Relações Exteriores] e historiador, inventou o seguinte: nos mandar para um consulado e nos comissionar para fazer pesquisa histórica. Então, me mandou para o consulado em Barcelona, mas me disse: “Olha, o senhor não vai ser cônsul. O senhor vai morar em Sevilha para fazer pesquisa no Arquivo das Índias”. De forma que só fui cônsul em Sevilha depois. Da primeira vez fui cônsul adjunto em Barcelona, morando em Sevilha e fazendo pesquisa histórica lá. Da segunda vez eu fui como cônsul. Em Barcelona, oficialmente, eu estive três vezes, mas da segunda eu praticamente não estive lá, e sim em Sevilha.

Alex Polari: Inventário de Cicatrizes

Fato importante aconteceu, não só no circuito poético, com o lançamento de Inventário de cicatrizes, coletânea de poemas de Alex Polari de Alverga, que, como se sabe, foi preso em maio de 1971, aos vinte anos, por sua militância guerrilheira contra o regime militar brasileiro e, por isso, condenado pelos tribunais a 80 anos de prisão, o que não é, diga-se, nada mole. Há coisas significativas no livro de estreia desse poeta-guerrilheiro, que escreveu seus poemas na cadeia.

A primeira é que o produto de sua venda vai ser canalizado para o Comitê Brasileiro pela Anistia. A segunda é que a linguagem de Alex é colada, de modo inseparável, ao vivido e à vida. Nesse sentido, pode-se afirmar que Inventário de cicatrizes é um diário em transe e em trânsito, temperado com reflexões sobre o passado (atuação guerrilheira) e o presente (vida na cadeia, condição de preso político, torturas etc.). Nos melhores poemas de Alex, há o risco do instantâneo e o rápido do imediato.

Poesia guerrilheira: Os versos do Araguaia

Um fato raro e pouco conhecido na história da poesia brasileira recente foi a reunião e a publicação de poemas escritos por guerrilheiros do Araguaia durante a guerrilha. Os poemas dessa pequena seleção são surpreendentes, em vários aspectos. Antes de comentá-los brevemente é preciso, porém, comentar ainda mais brevemente a própria guerrilha.

A guerrilha na região do rio Araguaia, no Pará, durou entre fins da década de 1960 e 1974. Foi organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), de linha maoista, que pregava um caminho sino-cubano para chegar à Revolução no Brasil, somando a “via camponesa” de Mao Tsé-Tung (que contrariava o marxismo-leninismo “clássico”, centrado no proletariado urbano) ao vanguardismo guerrilheiro de Fidel e Guevara.

Se esse foi o contexto ideológico da guerrilha do Araguaia e de seus participantes, os poemas ali surgidos escapam da cartilha.

Gregório Duvivier e a nova poesia-entretenimento

O recém-lançado Ligue os pontos – poemas de amor e big bang (São Paulo, Companhia das Letras, 2013), do comediante, roteirista, ator e colunista carioca Gregório Duvivier, é seu segundo livro de poemas. De um modo um pouco incomum, começo, então, por seu primeiro livro, pois isso ajuda a aclarar e delinear as marcas e influências dominantes de uma obra ainda parca.

Seu primeiro livro tinha por título A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (Rio de Janeiro, 2008, 7Letras), título que é uma grande proeza. Uma grande proeza de diluição, ou uma proeza de grande diluição, o que não muda onde se chega: Paulo Leminski. Grosso modo, a obra poética de Leminski se divide, em seus próprios termos, em “caprichos” e “relaxos”, como este, um dos mais conhecidos: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora” é uma paráfrase “relaxada” (no sentido de ainda mais prosaica) do famoso verso de Leminski. Este, por sua vez, é um dos melhores exemplos do material poético que alimenta a “febre Facebook” das citações do poeta curitibano.

Fragmentos

Uma experiência de banca. Me lembro de uma defesa de mestrado, na qual fui o segundo a usar a palavra. Antes de mim, arguiu um professor de mais longe, e como gostava de falar, tive tempo de procurar entender o que ali se passava. Concluí, em primeiro lugar, que era imperioso teorizar a merda, antes de mais nada pela dificuldade de diferenciá-la em vista de sua variedade, multiplicidade e ubiquidade. Neste caso, fiquei feliz em conseguir organizar a verborragia do colega em um esquema de quatro níveis, algo reminiscente da hermenêutica medieval. O primeiro era o literal, do simples nonsense, das palavras frouxas, dos conceitos gelatinosos, da falta de coerência entre as frases. Mas como é impossível deixar de fazer sentido o tempo todo, logo surgia uma segunda camada, que se referia ao simples erro, e que já era um avanço, dado que já possuía alguma determinação.