A poesia irrefletida

Há pouco mais de dois meses, o poeta Eduardo Milán (Rivera, 1952), que vive há anos no México, passou por Montevidéu. Ele não participou de nenhum desses grandes eventos em que os leitores regulares e compradores de livros usados se misturam, mas dedicou um tempo para dar uma palestra intitulada “A nova situação da poesia latino-americana”. E uma das primeiras coisas que disse naquela ocasião, depois de ter brevemente referido quem ele era, onde viveu e quando e onde nasceu, foi que esse artefato semântico sugerido pelo título da palestra não era, estritamente falando, outra coisa que não uma questão especulativa. “Hoje eu fui a uma rádio e me perguntaram, como se intrigados, o que era essa ‘nova situação de poesia latino-americana’, como se eu tivesse alguma coisa escondida, algo que ainda não havia chegado como uma novidade ao Uruguai. Eu disse a eles que o discurso ou reflexão sobre a poesia latino-americana não se constitui em um saber, e isso foi pior, pois pareceu que eu estava ocultando algo essencial, uma espécie de formalização ausente, e afinal acabamos falando sobre música, que é onde todos são felizes”. Assim, com essa mistura de humor.

AOS AMIGOS POETAS

Para tentar contribuir com o grande, tenso e intenso debate nacional que hoje ocorre em torno da questão cultural relevante para a situação da poesia contemporânea, pensamos que valeria a pena lançar mão de poucos, mas alguns esclarecedores dados objetivos. Assim, através do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e de uma longa lista de entrevistas, descobrimos alguns fatos essenciais. Os dois mais importantes: há hoje cerca de 50 mil poetas em atividade no Brasil; o motivo da imensa maioria para escrever poesia é escrever poesia. Do primeiro fato concluímos, provisoriamente, que o problema das baixíssimas tiragens de livros de poesia seria imediata e facilmente resolvido se houvesse uma maior solidaridade entre os poetas, ousamos mesmo dizer, um movimento poetista, à maneira de tantos outros grupos atuais. A solidariedade poética do poetismo teria como primeira tarefa estimular os poetas a lerem seus “irmãos de linguagem”, o que garantiria, no limite, tiragens de 50 mil cópias, uma brutal revolução em relação ao quadro atual, em que à abundância de poetas parece corresponder uma quase completa inexistência ou desistência de leitores.

O multiculturalismo exerceu efeito nefasto sobre a poesia

Entrevista de Marjorie Perloff a Régis Bonvicino (9/12/1998) A ensaísta norte-americana Marjorie Perloff critica a hegemonia dos estudos culturais e afirma que, nos EUA, o multiculturalismo reduziu o interesse do público pela poesia de outros países.  Perloff, um dos nomes mais importantes da crítica norte-americana contemporânea, é uma voz discordante dentro da atual voga dos […]

Montale detona Pound

Não é difícil que um poeta acabe no manicômio: a lista seria longa. Muito mais raro é que, permanecendo internado, acabe por ganhar um prêmio literário. I fato aconteceu com o poeta norte-americano Ezra Pound, grande entusiasta de Mussolini na Rádio Itália, durante o período da Segunda Guerra Mundial, hoje hóspede de um hospital psiquiátrico de Washington. A imprensa informa que onze de seus poemas – os Cantos pisanos – ganharam o Prêmio Bollinger na categoria poesia de 1948. Tal distinção honorífica lhe foi concedida por um júri no qual figuravam T.S. Eliot, Allen Tate e outros ilustres poetas. Não conheço os Cantos pisanos, mas creio que se trata de um acréscimo aos Cantos, que, pelo projeto de Pound, deveriam alcançar o número de cem. Os trinta primeiros foram escritos em Rapallo, antes da guerra. São poemas de um louco? Nem em sonho, exceto se se deseja considerar loucos três quartos dos escritores de vanguarda. Comenta-se que Pound foi considerado louco para se salvar da prisão perpétua ou da pena de morte. Não foi e nem é um louco autêntico, mas apenas um tipo típico de exilado norte-americano (Exiles era o nome de uma revista que ele dirigia faz muito anos).

POESIA E CRÍTICA NA GRANDE CONFUSÃO CONTEMPORÂNEA

Na realidade, parece-me que esse aparente e difuso interesse pela poesia se expressa, pelo contrário, em uma tangível indiferença. Se formos ver as tiragens e vendas dos livros de poesia, ficaremos bastante desconsolados. É muito difícil vender livros de poesia, inclusive dos autores mais famosos. De vez em quando, alguma iniciativa editorial consegue movimentar o mercado; mas se tem a impressão de que, por debaixo desses fenômenos momentâneos, que induzem a um certo otimismo, na verdade é bastante escasso o grau de interesse real, de curiosidade e de cultura específica. Creio que o amor pela poesia em geral, ou a estima, ou a valorização pública, e inclusive teórica e filosófica, da poesia, na verdade é muitas vezes um fato mais negativo que positivo.

César Vallejo en español selvagem y portunhol trasatlántico

Se investiga la actual poesía de la región y se perciben dos ejes particularmente presentes y activos; los cuales, además, subterráneamente se tocan. Nos referimos a aquélla en “portunhol selvagem” (Douglas Diegues y otros), en el Cono Sur; y una poesía que podríamos denominar “opaca” (Éduard Glissant), que tiene al español como su traductor o mediador cultural (Julio Ortega) –presente de José María Arguedas a César Calvo– y, no menos, a la obra de César Vallejo –en particular Trilce (1922)– como su explícito o implícito paradigma.

O novo livro de Júlio Castañon Guimarães

O poeta mineiro Júlio Castañon Guimarães, 66 anos, vem construindo, já há bastante tempo, uma obra sólida que inclui não só livros de poemas, mas também de ensaios (estudos sobre Murilo Mendes e Bandeira, por ex.) e de traduções (de Mallarmé e Valéry, entre outros). Sua última publicação é uma cuidada plaquete tipográfico-artesanal com um poema longo: “Em viagem – uns estudos” (BH, Tipografia do Zé, 2017) – com 250 exemplares.

O telefone de Avital Ronell

A transformação de livro filosófico em palco operante de linguagens, capazes de atravessar um domínio disciplinar específico, logo desponta em The Telephone Book, de Avital Ronell. Por conta mesmo da performatividade em torno de constructos inseparáveis do desempenho e da instrumentação de traços gnosiológicos assim como de enunciados, que se acionam na órbita da logofonia (exemplificável no dispositivo-chave concentrado pelo aparelho telefônico). Todo um capítulo anterior de implicações com o desconstrucionismo derrideano nos Estados Unidos, no qual Avital Ronell se insere – a princípio, atuando como tradutora e hostess das visitas do pensador francês em suas estadas anuais na New York University –, pode ser traçado, de modo a definir seu surgimento como filósofa. O ensaio de Derrida centrado sobre James Joyce – Ulysse gramofone (1987), datado dois anos antes de The Telephone Book –, expõe, por um lado uma nítida fonte das ramificações entre pensamento e repertório tecnomaquínico no itinerário de Avital Ronell. Apresenta-se, em outro extremo.

JOYCE SEGUNDO UMBERTO ECO

Apesar de ser um grande apologista do close reading dos textos literários para a descoberta da obra em si, tal como preconizavam os Formalistas Russos, no caso de Joyce (1882-1941) Umberto Eco abre-se para a imanência e diz textualmente: “Em Joyce, para se compreender o desenvolvimento de sua poética, é necessário remontar continuamente ao seu desenvolvimento espiritual

Depoimento de Serge Pey

Serge Pey acaba de receber o Grand Prix National de Poésie 2017 na França. Pey nasceu em 1950 em uma família de classe trabalhadora no bairro de Hers em Toulouse. Filhos de imigrantes da Guerra Civil Espanhola, sua adolescência foi marcada pela luta contra o General Franco. Ativista igualmente contra a Guerra do Vietnã, ele participou dos movimentos de maio e junho 1968 em Paris. Ao lado de seu compromisso político, ele, ainda jovem, se tornou poeta, interessando-se por Lorca, Whitman, Antonio Machado, Machado, Rimbaud, Baudelaire, Villon, Yannis Ritsos Alfred Jarry, Tristan Tzara, trovadores provençais, Antonin Artaud, poemas xamânicas, visuais e dadaístas. No início dos anos 1970, Serge Pey inaugura o que denomina “poesia da ação”, experimentando múltiplas formas e valorizando sobretudo a oralidade. Pey é um nômade e, em sua editora, Edições da Tribo, uma cooperativa, publicou autores como Bernard Manciet, Jean-Luc Parant, Gaston Puel, Rafaël Alberti, Dominique, Pham Cong Thien, o sexto Dalai Lama, Allen Ginsberg, Ernesto Cardenal.