DA MÚSICA OVO-PODRE E DA POESIA ZUMBI

A PBC (poesia brasileira contemporânea), assim como a MPB (música popular brasileira, para quem não se lembra), morreu. Quem constatou a morte da segunda não fui eu, mas Chico Buarque de Hollanda, que declarou, explicitamente: “A canção morreu” (e a canção era o gênero musical por excelência da MPB).

A ÁSPERA BELEZA
DA POESIA QUE RENOVOU O MODERNISMO BRASILEIRO

A poeta paulista Orides Fontela (1940-1998) surgiu na cena literária brasileira da segunda metade do século XX por meio de alguns dos nomes mais influentes das críticas literária e acadêmica (a começar de Antonio Candido). E se revelaria, afinal, a poeta mais importante de sua geração, que reúne autores mais conhecidos, ou menos desconhecidos, como Hilda Hilst, Adélia Prado, Roberto Piva e Paulo Leminski. Entender os motivos da dissintonia entre sua importância e seu reconhecimento pode revelar algo ou muita coisa sobre o estado da poesia brasileira contemporânea, sua recepção pública e sua crítica.
Quando descoberta por Davi Arrigucci Jr. através de um poema publicado no jornal de sua cidade, São João da Boa Vista, em 1965 (o que pouco depois resultaria em seu primeiro livro, Transposição, coorganizado por ele), Orides Fontela, sem o saber, e à mais completa revelia de seus 25 anos, estava ou foi posta no centro do embate mais duro travado nas letras brasileiras desde as primeiras reações e rejeições ao Modernismo de 22.

Poesia guerrilheira: Os versos do Araguaia

Um fato raro e pouco conhecido na história da poesia brasileira recente foi a reunião e a publicação de poemas escritos por guerrilheiros do Araguaia durante a guerrilha. Os poemas dessa pequena seleção são surpreendentes, em vários aspectos. Antes de comentá-los brevemente é preciso, porém, comentar ainda mais brevemente a própria guerrilha.

A guerrilha na região do rio Araguaia, no Pará, durou entre fins da década de 1960 e 1974. Foi organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), de linha maoista, que pregava um caminho sino-cubano para chegar à Revolução no Brasil, somando a “via camponesa” de Mao Tsé-Tung (que contrariava o marxismo-leninismo “clássico”, centrado no proletariado urbano) ao vanguardismo guerrilheiro de Fidel e Guevara.

Se esse foi o contexto ideológico da guerrilha do Araguaia e de seus participantes, os poemas ali surgidos escapam da cartilha.

Gregório Duvivier e a nova poesia-entretenimento

O recém-lançado Ligue os pontos – poemas de amor e big bang (São Paulo, Companhia das Letras, 2013), do comediante, roteirista, ator e colunista carioca Gregório Duvivier, é seu segundo livro de poemas. De um modo um pouco incomum, começo, então, por seu primeiro livro, pois isso ajuda a aclarar e delinear as marcas e influências dominantes de uma obra ainda parca.

Seu primeiro livro tinha por título A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (Rio de Janeiro, 2008, 7Letras), título que é uma grande proeza. Uma grande proeza de diluição, ou uma proeza de grande diluição, o que não muda onde se chega: Paulo Leminski. Grosso modo, a obra poética de Leminski se divide, em seus próprios termos, em “caprichos” e “relaxos”, como este, um dos mais conhecidos: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora” é uma paráfrase “relaxada” (no sentido de ainda mais prosaica) do famoso verso de Leminski. Este, por sua vez, é um dos melhores exemplos do material poético que alimenta a “febre Facebook” das citações do poeta curitibano.

Sobre Cinco peças e uma farsa

Muito diferente é Rancor, sátira realista do pequeno mundo das grandes vaidades literárias provincianas. E realista porque, neste caso, a realidade já parece uma sátira, uma caricatura. A peça põe em movimento um microcosmo desse microcosmo, centrado no trio formado pelo velho crítico consagrado, o jovem crítico ascendente e o jovem poeta seu protegido, acrescidos da herdeira “interessada em arte” e do jornalista “mefistofélico”, cuja seção se chama “Intelligentsia”, mas pensa e age como um colunista social. A arte, a crítica, a literatura, a poesia, a cultura são palavras esvaziadas numa disputa paranoica de vida e morte pela fama, travada em bases pessoais.

A resenha “crítica” e os direitos do consumidor

Pois a ideia do direito do consumidor invade claramente a resenha crítica, como demonstrado pelas classificações que a concluem, e que são dela diretamente derivadas: o consumidor do produto analisado tem direito, ao fim e acima de tudo, à informação direta, clara e confiável sobre sua qualidade. Sem a moldura do direito do consumidor, as resenhas não trariam tais avaliações. Elas perdem, portanto, seu caráter estritamentecrítico para se inserir na órbita de um direito, o do consumidor. A resenha torna-se, de fato, um serviço.

As implicações são grandes e talvez relevantes. Se a resenha é um serviço (ao servir de avaliadora – e, portanto, de avalizadora – das qualidades de um produto [“ótimo”, “bom”, “regular”, “AAA”, “AA+” etc.]), passa a ficar sujeita, ou deveria ficar sujeita, ao Código de Defesa do Consumidor: “Todo fornecedor de produtos e serviços no mercado de consumo deve obediência às disposições do Código de Defesa do Consumidor” (“Atualização do CDC”).

Ferreira Gullar e a inútil reinvenção de um mito

A ideia parece vir de Jean Cocteau, na sua peça também em um ato de 1930, La voix humaine(popularizada pela versão cinematográfica de Roberto Rossellini, em que aparece como a primeira parte – “Voce umana” – do filme em dois episódios L´amore, de 1948, interpretada por ninguém menos que Anna Magnani). Com uma diferença fundamental: a peça de Cocteau não é um monólogo apoiado em um telefone, mas um verdadeiro diálogo entre a personagem sozinha em cena e o aparelho, ou melhor, entre ela e o vazio das vozes com as quais conversa, e que não são ouvidas.

Uivo e Ginsberg em HQ

Nos anos 1950, o mundo e os EUA viviam o auge da Guerra Fria, sob a ameaça real e imediata de uma Terceira Guerra Mundial, que seria a última, pois nuclear. E os EUA, em particular, viviam em pleno macarthismo, quando a própria democracia americana esteve, se não ameaçada, bastante estressada. O conservadorismo, a hipocrisia e certa histeria conservadora e hipócrita imperavam de maneira agressiva, que fariam a retórica e as ações recentes de George W. Bush encolherem e empalidecerem. O mundo todo, refém da corrida armamentista em sua fase inicial desenfreada, e entregue a disputas por procuração entre as duas superpotências, que armavam guerrilhas e grupos terroristas de esquerda ou davam apoio a golpes e ditaduras de direita, do Sudeste Asiático à América Latina, passando pela África e por uma Europa dividida pela “Cortina de Ferro” imposta por Stálin (o Muro de Berlim estava para ser construído), o mundo todo era uma espécie de grande Guantánamo mental.

Happy Hip Rap Sad Hop: Tyler, the Creator

A razão original deste texto não era, no entanto, analisar o rap, notadamente o de Tyler Okonma e seu Odd Future, mas sim tentar uma comparação entre a poesia cantofalada do rap e a poesia escrita. Em parte, a resposta está no parágrafo inicial, quando me refiro à incapacidade de a poesia dar conta poeticamente do mundo contemporâneo e ao prosaísmo que a domina, encerrada em certo autismo autossatisfeito, enquanto o rap encara, em mais de um sentido, o mundo contemporâneo e nada tem de prosaico. Mas analisando as letras do Odd Future e de outros rappers, inclusive brasileiros, como os Racionais, chego à conclusão de que a principal diferença está no fato de que o rap consegue fundir estruturas propriamente poéticas, como os dísticos rimados em versos livres que dominam seus textos, a um coloquialismo ao mesmo tempo contemporâneo, forte, agressivo, realista e eficiente. Chega a ser paradoxal, pensando no coloquialismo buscado pelo modernismo poético no início do século XX: pois, neste caso, numa espécie de neomodernismo, o rap mantém o verso livre modernista enquanto recupera o dístico rimado da poesia tradicional, acrescentando à mistura esse coloquialismo radical, além de marcado por um fortepoetismo no tecido morfossemântico.

A morte de Décio Pignatari e o fim da modernidade

Alcir Pécora demonstra maior lucidez, neste momento propício aos panegíricos, do que a maioria. De fato, provavelmente Pignatari foi o melhor poeta concreto (eu, pessoalmente, aposto em Pedro Xisto, apesar da enorme irregularidade de sua obra – o que, por sinal, também se aplica ao próprio Pignatari). E ainda assim, talvez sua poesia não-concreta seja melhor. O corolário é que a poesia concreta, como regra, não terá sido boa o bastante, pois a parte concreta do melhor dos concretos ainda é inferior à sua poesia não-concreta. Não sei se prefiro a parte versal da obra de Pignatari à visual, mas concordo com Pécora no que fica aqui subentendido.