Miriam Adelman: Dois poemas meus

Não tinham como se entender.
O encontro veio por acaso,
Cada um chegando do seu ponto cardinal
ao centro da praça, onde os turistas desciam
dos charretes para fotografar serpentes mansas,
cegos e domadores de camelo,
numa febre só.
Por filosofia entendiam palavras diferentes,
e à cada coisa a imagem que havia por trás
ou por dentro
se pintava em tons distintos,
como “quarto”, “cortina” ou “venha comigo”.
Foi apenas um momento que suspendeu os rumos:
Cruzar juntos uma antiga ponte de pedra e
ouvir o mesmo som do rio balançando embaixo,

Uma conversa sobre música brasileira

Villa foi o músico brasileiro que dialogou com a Europa no sentido de aproveitar toda a tradição da técnica de escrita da música do chamado “velho mundo”. A música que se fazia no Brasil (1900-1920) era calcada na tradição portuguesa somada aos cantos e toques de tambores africanos (os escravos foram fundamentais na formação de nossa cultura, de nosso ritmo). Villa, o pioneiro, queria a informação musical onde estivesse, fosse da sala de concertos, fosse dos terreiros de samba. Importantíssimo, mostrou ao mundo que a partir das diferentes manifestações culturais (Europa/África/Brasil) se pode fazer uma música original. Em 1917 apresentava suas composições e recebia críticas pelas inovações em suas obras.

China: a festa lunar

Conta o folclore chinês que ainda existe outra divindade relacionada à lua, o Velho da Lua, Yuelao 月老, guardião do Livro das Bodas, em que está traçado o destino de toda a gente; o Velho carrega um saco repleto de cordões vermelhos, utilizados para amarrar os tornozelos dos casais. Acredita-se que, enquanto os cordões estiverem atados, o casamento é predestinado e indissolúvel.

Reza outra lenda que no reino de Qi, período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.), existiu uma rapariga muito feia chamada Wu Yan que, desde pequena, era muito devota à Lua. Quando cresceu, foi admitida como concubina ao palácio imperial, mas nunca foi escolhida pelo rei. Na noite do décimo quinto dia do oitavo mês lunar, quando apreciava a Lua, foi vista pelo príncipe que logo se encantou e mais tarde casaram, e ela tornou-se rainha. Desde então, muitas moças fazem oferendas à deusa da Lua, pedindo beleza e brancura.

O Deus farsante e o ídolo providencial

A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol se tornasse a felicidade do povo. Pobres e ricos param de pensar para se encantar com ele. E os grandes jogadores convertem-se numa espécie de irmãos da gente, que detestamos ou amamos na medida em que nos frustram ou nos proporcionam o prazer de um espetáculo de 90 minutos, prolongado indefinidamente nas conversas e mesmo na solidão da lembrança.

25 anos do massacre na praça da Paz Celestial, Beijing

Talvez seja o momento final
mas não deixei nenhum testamento à minha mãe
senão uma caneta.
Não sou nada herói
numa época isenta de heróis
só quero ser um homem.

O horizonte tranquilo
divide as fileiras dos vivos e dos mortos.
Prefiro optar pelo céu
a me ajoelhar no chão
para não aumentar a altura dos executores
que vão bloquear o vento de liberdade.

SIBILA DEBATE 64: Rodrigo Patto

A sensação entre as direitas era que seus adversários ganharam muito terreno com Goulart, e que poderiam convencê-lo a criar um regime forte para implantar mudanças sociais mais rapidamente. Sabia-se que o comunismo propriamente dito tinha escasso apoio popular, mas temia-se o que embaixador Lincoln Gordon chamou de “subversão por cima”, ou seja, a influência da esquerda exercida desde o Estado. Embora o exagero na avaliação do perigo “comunista” possa ter sido proposital no caso de alguns agentes, para criar clima favorável ao golpe, ainda assim penso que a motivação maior era de natureza política (afastar um governo comprometido com as esquerdas, expurgar o “perigo”), o que se comprova pelas ações posteriores da ditadura.

A polissemia da guerra e da poesia de Zhen Li

Zhen Li é um poeta contemporâneo de Taiwan que faz uso dos recursos gráficos dos caracteres chineses para criar poemas visuais. Em “Sinfonia da guerra”, que também possui versão em vídeo, Zhen Li trabalha com quatro caracteres (兵, 乒, 乓, 丘) para criar uma representação de uma batalha em três etapas: antes, durante e depois da batalha. O primeiro caractere (兵), que aparece na primeira parte, significa “soldado”, e é usado para representar os dois exércitos alinhados para a batalha. O segundo e o terceiro caracteres (乒, 乓), que aparecem na segunda parte do poema, são caracteres onomatopaicos (“bing” e “bang”), e são usados ​​para representar o momento da batalha em si.

Sandra Guerreiro: 4 Poemas

we foresee the future of pebbles. petals of stone and decadent amusement. roldana em inglês corrente. este é o grotesco precipitar do voo da ave terena e macia. indiciam-se. senhores de vertigem erupção do rosto das árvores frontais. quatroseteum. em frontispício
delete thread. resta a vertigem dos músculos faciais. can’t do touch thingy. era de refeição o nome. feliz. but i can’t deal with the energy anymore. peek. the biker snores.
women on the cusp

Sexo e Gênero em Parque Industrial

Parque industrial, de Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), foi escrito em 1932 e lançado no ano seguinte (em pequena tiragem financiada por Oswald de Andrade), com o pseudônimo de Mara Lobo, que ela adotou para evitar mais atritos com o Partido Comunista, no qual militava sem nunca, no entanto, se submeter ao seu “centralismo”. O livro foi, assim, escrito durante o governo Vargas, que tomara o poder em 1930, após o breve período do governo da junta militar liderada pelo general Tasso Fragoso, sucedendo Washington Luís (1926-1930). A polarização política mundial entre comunistas e fascistas, que ocorreu nessa década, pautou igualmente as artes, que, pouco a pouco, na maioria de suas manifestações [...]

A estreia de Plínio Marcos sob o signo de Pagu

Durante as décadas de 1950 e 1960, além de conhecida nacionalmente, Pagu exerceria uma importante influência no panorama cultural da cidade. Ao mesmo tempo em que escrevia para A Tribuna de Santos, promovia festivais e espetáculos, fomentando grupos amadores e a fundação do Teatro de Vanguarda (TEV). Graças a Pagu, Santos teve a oportunidade de assistir, pela primeira vez no país, Fando e Lis, de Fernando Arrabal, traduzida por ela em 1958 – ano em seria também encenada Barrela. Pagu e Plínio Marcos teriam se conhecido em 1957, quando ele aparece como ator do GETI: “em 1957, esta distinta senhora (Pagu), então com 47 anos, adentrou os bastidores do Circo Pavilhão Teatro Liberdade procurando o palhaço Frajola; queria que o rapaz trabalhasse com ela”. Com a atuação de Plínio Marcos em Pluft, ele passa a frequentar um grupo de intelectuais, pintores e músicos do círculo de Pagu e Geraldo Ferraz.