Nota sobre Frank Stella

O museu Whitney, em Nova York, produziu uma exposição retrospectiva das obras de Frank Stella, considerado um dos mais influentes artistas norte-americanos atuais. A mostra se encerrou em fevereiro de 2016. Suas criações teriam servido de inspiração para muitos dos pintores abstratos dos últimos cinquenta anos, como destaca o catálogo da exposição. No Brasil, seu discípulo mais conhecido é Nuno Ramos, que parece ter herdado de Stella suas concepções abstratas monumentais e também outras ideias sobre o fazer artístico. Segundo Stella, aprender a pintar consiste no ato de olhar outras pinturas e depois imitar “os processos intelectuais e emocionais” desses pintores. Sabe-se que Ramos costuma retomar, numa escala “monstruosa”, obras de outros criadores.

A vida depois do Buda punk

Se Disney proibiu o selfie-stick é porque interpunha demasiada distância entre o eu e o eu. Para que o sistema se clone, o eu não deve colocar distância alguma entre o Vil Eu e o Vil Eu. Qualquer distância ameaça tornar-se crítica.

Esta época consiste em ocultar as verdades de Buda. Mesmo que o Budismo seja o ponto alto do pensamento terrícola, queremos alegar que esta flecha nunca nos feriu.

A literatura contemporânea é um passeio por parques de diversões. Nas literaturas experimentais, gringos veteranos como Burroughs e Acker já não seriam possíveis hoje em dia. O punk já está proibido. Ser escritor na Era Facebook significa Portar-se Bem: Like! Like! Like!

Quase tudo o que tem a ver com Milênio é detestável: foi desenhado pelas mídias. A tudo o que acontece reagem com uma referência ao mundo do espetáculo. Cada coisa que acontece no mundo lembra-lhes um filme ou um vídeo.

A guerra secreta da CIA contra a Cultura

O livro Who Paid the Piper: The CIA and the Cultural Cold War (London: Granta Books) de Francis Stonor Saunders conta em detalhes a maneira como a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) infiltrou-se e influenciou um grande número de organizações culturais por meio de seus agentes e de organizações filantrópicas associadas, como as Fundações Ford e Rockfeller. O livro revela ainda como a CIA no pós-guerra alistou muitos intelectuais na campanha para provar que o engajamento à esquerda é incompatível com a arte séria e o conhecimento.

A autora, Francis Stonor Saunders, detalha como e por que a CIA patrocinou congressos culturais, montou exibições de arte e organizou concertos. A Agência também publicou e produziu autores conhecidos que seguiam essa linha de Washington, patrocinou a arte abstrata e fez ataques à arte de conteúdo social. E, em todo o mundo, financiou publicações que atacavam o marxismo, o comunismo e as políticas revolucionárias.

Os encontros literários

Proponho que suspendamos definitivamente os encontros literários. Os encontros literários são nefastos por todos os ângulos que se analise; são eventos que dão lucro, como já se disse, às empresas e aos organizadores e que servem de consolo vazio a poetas e romancistas. É melhor encontrar outras soluções para a poesia e para a literatura.

Manifesto Baphywave

BA PHY PHY NA BAPHYWAVE IS OUR EXPRESSION Vocês são os surfistas da baphywave. Sonho com você sonhos repetidos. Consequências de um apaixonamento que gestado em poucas semanas e já passado os nove, onze, treze meses Rima. Solução. Sonhos reprisados como sessão da tarde vista pela milésima vez. Ghost. Baphywave truqueira. O bafo é o […]

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Omid Shams

Omid Shams é um escritor iraniano, crítico literário e jornalista freelance. Fez mestrado no American Studies da Universidade de Torino, Itália, e publicou vários livros, incluindo poemas, romances e traduções de proeminentes autores americanos para Farsi, como Ginsberg e Bergstein. Ele escreveu ensaios sobre poesia e teoria crítica, publicados em vários jornais literários, revistas e também on-line. Foi coeditor de revistas literárias como Zendeh Rood, Bidaar e Dastoor.

MONTAIGNE: AUTORRETRATO

O que se pretende aqui é investigar e comentar que espécie de eu ou de voz narrativa atravessa os ensaios de Montaigne. De saída pode-se afirmar, por meio de uma leitura comparativa, que nos Ensaios não deparamos o mesmo tipo de eu (como mecanismo discursivo) que, por exemplo, serve de instrumento tanto a Descartes como a Agostinho para a consecução e apresentação de seus textos e problemas filosóficos. Sob uma aparente similaridade, isto é, a de que nesses casos temos filósofos escrevendo a partir da primeira pessoa do singular ou conferindo ao pronome pessoal um estatuto mais dramático no que toca às condições de possibilidade do conhecimento, enfim, sob essa virtual aproximação, cabe estabelecer algumas distinções. Distinções estas que, de resto, vão demarcar o que é irredutível a cada um desses percursos filosóficos.
Tendo em mente as considerações do poeta T. S. Eliot que no ensaio Las tres voces de la poesía[1] analisa as possibilidades expressivas da poesia a partir da concepção de que o gênero admite três tipos de vozes, a saber.

Indústria editorial no Brasil

Toca o telefone, atendo e um tal de sr. Herrero me pergunta se posso recebê-lo. Explica que é representante de editoras espanholas e que gostaria de me conhecer pessoalmente.
Estamos em 1982, três anos após a constituição da minha empresa. Como todo bom vendedor, o sr. Herrero é simpático e comunicativo, vai apresentando os catálogos de dezenas de editoras. Oferece abertura de crédito imediato, 180 dias para pagar sem obrigação de assinar um contrato e/ou promissórias e acrescenta que, se tiver qualquer inconveniente no meio do caminho, tudo bem, o prazo pode ser estendido. Fácil, extremamente fácil. Nunca esquecerei. Ele escrevia só com caneta verde e se autoatribuía o título nobiliário de “Conde de Tinta Verde”.
Luz verde, portanto, para ampliar possibilidades de negócio e um conselho: “Vai para a Espanha. Tem uma feira profissional em setembro. O pessoal precisa conhecer o teu trabalho”.
Os vinte metros quadrados da Letraviva não cabiam em si. Abria-se um novo horizonte.

Entrevista a Jane Joritz-Nakagawa

No verão de 2015, Jane Joritz-Nakagawa embarcou numa conversação, via e-mails, com o poeta, tradutor, editor, ensaísta e romancista Paul Hoover para discutir o futuro do New American Writing (uma revista que tem sempre destacado poetas americanos e não americanos, tradução de poesia e várias edições especiais), a carreira de Paul e seu trabalho mais recente.
O poema contém poucas sentenças, mas muita música e jogo de palavras. Escrevendo dessa maneira, os alunos se veem forçados a pensar palavra por palavra, e não de frase por frase. Para confirmar o esquema, eu leio o final do poema duas ou três vezes mais. Algumas pessoas usam o termo “abstrata” para qualificar esse tipo de poesia. Mas não é abstrata; é uma dança viva de palavras, que leva a mais do que uma direção.
A segunda tarefa do dia era um poema de três páginas a ser começado no meio de uma frase e a terminar no meio de outra. Os modelos eram os poemas longos de Gwendolyn Brooks (“In the Mecca”), Louis Zukofsky (“A”-14).

Bifurcações


matadouro


a província diz não aos seus filhos,
         rude e árida, mesmo quando farta e molhada.
        entoa liturgia de campo arrasado.

a província tem canto maldito.
        não hospeda sementes em seu leito.
        exporta desertos para quem mal diz sua sina.

a província é geografia esquecida.
        nenhum coração palpita por seu mapa.
        nas suas rotas corre sangue de matadouro.

a província deflagra dizimações.
        cultiva um cemitério vasto.
        sisuda e quente, cozinha a própria cria.