UMA TRAGÉDIA NÃO NEGRA

No filme Crimes and Misdemeanors (1989), escrito e dirigido por Woody Allen, há uma cena em que o personagem Lester – um bem-sucedido e pernóstico produtor de cinema e televisão, interpretado por Alan Alda – sintetiza, em resposta a uma pergunta que um jovem lhe dirige, sua teoria sobre a comédia. Lester narra que um aluno, durante aula em Harvard, lhe propõe a seguinte indagação: “Whats’s comedy?”. Sua resposta: “Comedy is tragedy plus time”. Lester argumenta que só com o passar do tempo é que se pode desentranhar a comédia, o riso, de eventos ou situações trágicas.Qual a razão de começar esse texto sobre a “tragédia carioca” do poeta Vinicius de Moraes com a lembrança dessa passagem fílmica? Ora, não se trata aqui, obviamente, de promover a gargalhada com relação ao Orfeu da Conceição[2], mas antes, de reconsiderar, tirando vantagem do tempo transcorrido desde sua criação e de sua primeira encenação, alguns aspectos contidos na peça de Vinicius de Moraes que, hoje – e a partir de uma suspeição não digo.

Redescobrindo Hilda Siri

A memória, como é sabido, é uma instância fundamental para a aquisição do conhecimento: não só como receptáculo na origem do mesmo, quando as sensações estimuladas pelo mundo exterior, após transformadas em imagens, são recebidas e armazenadas no cérebro, mas também como arquivo, onde o conhecimento é retido e mantido sob formas maleáveis.

Do livro Neverland is too far away

Tarde cinzenta pela vidraça de onde se avista o Tâmisa, um copo de elderflower cordial, geometrias coloridas de Beatriz Milhazes. Borboletas pousam entre cinzeiros repletos, caos aéreo sem controle de voo. Amor é o que você precisava. Tracey Emin retorna para Margate. A criança cresce. Strangeland, castles in the snow nos jardins suspensos sobre o […]

A bifurcação entre a democracia e o capital

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.
Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.
Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow. A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário.

Poemas de miguel jubé

eu morto eu morto, subjugado no centro      da cidade, aguardando processo  de reconhecimento dos órgãos      enquanto dura a falácia feita  do absurdo que é estar morto, pronto      ao descarte infinito da pele. três larvas se aproximam, me olham      e decidem por quando começam.  meu peito parece abrir-se ao meio      e isso só poderiam as larvas […]

Além do muro

Beyond the wall (Além do muro) traz poemas dos três mais recentes livros de Régis Bonvicino: Estado crítico (2013, Hedra), Página órfã (2007, Martins Fontes) e Remorso do cosmos (2003, Ateliê Editorial). Os poemas foram traduzidos ao longo nos últimos 15 anos para publicação em revistas e para leituras do poeta nos Estados Unidos. O livro estampa cerca de 60 poemas. Este é o segundo selected poems de Bonvicino publicado nos EUA – o primeiro, Sky-eclipse (2000), editado também pela Green Integer, dava conta de um período anterior de sua obra. Os dois principais tradutores são Charles Bernstein e Odile Cisneros. Charles Bernstein é um dos grandes poetas e também um dos grandes críticos e teóricos de poesia dos Estados Unidos, com alcance mundial.

Poemas de Ossama

CUIDADO: VEÍCULOS 1/ [o estacionamento] se desobedecêssemos ainda em círculo concêntrico as zonas do parqueamento e nos desorientássemos motores ¦ músculos ¦ assentos nos comboios dos passantes e nas procriações da espécie  em vagos de estacionamento ou nos viesse vagarosamente a roda em volta das errâncias desde a origem das distâncias no ínvio andar das […]

PAISAGENS SONHADAS

1 a lua, a serpente, o cipó me veem como tapir que matam o jaguar vê o sangue cauim os mortos veem os grilos peixes as águas veem nas pedras guias e o rio rola rindo garganta abaixo até os limites da língua 2 orar à araucária ao ar que paira sobre o parar pois […]

Três poemas de Leilah Accioly

LINGUAGEM FULGURADA voar com os pés no chão é um oxímoro cair e não se arrebentar é uma metonímia atirar-se da janela é uma ironia bater a porta pra nunca mais é uma elipse ser estar ficar parecer permanecer andar é uma enumeração caótica soltar os nós sendo nossos é uma silepse e é só […]