Neoliberalismo: o grande ISMO das literaturas do século 21

As redes sociais tornam os escritores homogêneos. As redes sociais tornam homogêneos, sem distinção, também o mercado e os governos. Daí advém, entre outros fatores, a crise atual da qualidade literária e a consequente ascensão do intelectual light.

Antes se idealizava o livro. A Internet hoje é idealizada.

“As nossas humildes coisas”: Ablativo de Enrico Testa

Sottoripa é sem dúvida um ponto nevrálgico, cantado por Camillo Sbarbaro e Dino Campana, passagem para os carrugi, para restaurantes e lugares que falam sobre a história da cidade, que não se abre facilmente, sabendo preservar seus mistérios. “il segno smarrito”, de um dos versos de Montale, para reforçar o fato de as indicações se perderem quando o emaranhado de ruazinhas inicia. Espaço desconfiado desde o primeiro encontro, muitas vezes, áspero, que não se mostra e se abre facilmente; respeitá-lo é importante para aos poucos conquistá-lo. Aqui são necessários calma, atenção, paciência e exercício do olhar. Contaminações presentes na escritura de Enrico Testa, que se aproxima, deglute a herança literária e poética, e vai traçando o seu próprio percurso: “quem é o dono da sombra?/ a luz que a reflete/ ou o corpo do qual emana?”.

Contracultura e Fonografia: o experimentalismo dos Mutantes em contexto

Neste artigo analiso algumas canções da banda de pop-rock Os Mutantes. Sabe-se que a sua primeira formação, em 1966, contou com a cantora Rita Lee e os irmãos Arnaldo Baptista (contrabaixo e teclado) e Sérgio Dias (guitarra). Ademais, fala-se em um “quarto Mutante”, Cláudio Dias Baptista, responsável pela criação dos vários instrumentos da banda. Irmão mais velho dos Baptistas, Cláudio coloca-se como figura central para a arquitetura da experimentação sonora do grupo em um contexto em que, por um lado, a produção cultural brasileira fervilhava e, por outro, vivíamos uma tenebrosa ditadura civil-militar. Diante de tantas contradições caras a essa época, pretendo, em especial, apontar para dois aspectos: o movimento da contracultura e a sua relação com o desenvolvimento da Indústria Cultural no Brasil de fins da década de 1960 e meados dos anos 1970. Procuro demonstrar – ainda que soe discrepante – que o processo para a consolidação da Indústria Cultural no país contribuiu para o experimentalismo musical da banda. Não obstante, quando imersos na contracultura dos e nos anos 1970 esse experimentalismo tende a declinar. Experimentalismo no sentido do uso das referências de vanguarda, dos instrumentos criados e inusitados que deram às suas canções certa peculiaridade. Dentre outros aspectos, ocorre nesse contexto a reorganização do mercado fonográfico brasileiro em que elementos de “vanguarda” não são mais aceitos pelo mercado.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Carlos Rennó

CARLOS RENNÓ é letrista de música popular, produtor artístico e jornalista. Destacam-se suas canções: “Todas elas juntas num só ser” (composta com e gravada por Lenine no CD In Cittè e por Ana Carolina em Ensaio de cores); “Escrito nas estrelas” (composta com Arnaldo Black e gravada por Tetê Espíndola); “Façamos” (versão de “Let’s Do It”, de Cole Porter, gravada por Chico Buarque e Elza Soares no CD Cole Porter e George Gershwin – Canções, versões e tema de abertura da novela Desejos de mulher, da Rede Globo); “To Be Tupi” (composta com e gravada por Lenine no CD Na Pressão e música-tema do filme Caramuru); “Mar e sol” e “Sexo e luz” (com Lokua Kanza, por Gal Costa, no CD Hoje); “Fogo e gasolina” (com Pedro Luís, gravada por Roberta Sá e Lenine, no CD Que belo estranho dia pra se ter alegria); “Átimo de pó” (com e por Gilberto Gil, no CD Quanta); e “Bem-Bom” (com Arrigo Barnabé e Eduardo Gudim, gravada por Gal Costa no disco Bem-Bom).

Pablo Neruda em Rangum, Burma

O poema “Rangum” consta de Memorial de Isla Negra, publicado em 1964, por ocasião do sexagésimo aniversário de Pablo Neruda. Neruda escreveu, em parte, Residencia en la tierra, de 1935, em Rangum, então capital de Burma, onde viveu em 1927, na condição de cônsul chileno. Em seguida, como diplomata, oficiou no Ceilão, em Singapura e pôde conhecer o Oriente – tão fundamental para os melhores momentos de sua escritura. Na cidade de Rangum, com 23 anos, liga-se a uma prostituta, a qual nomeia como Josie Bliss, sem nunca revelar seu nome birmanês.

Mianmar: o país da desconfiança ocidental

O budismo exerce influência considerável sobre Mianmar, pois 89% do povo professa tal religião. Dentre os demais cultos, os cristãos somam 5%; os islâmicos, 3,8%; os espiritualistas, 1,2%; os hinduístas, 0,5%. Surpreende também a diversidade étnica. As estimativas apontam 135 etnias e subetnias diferentes, sendo as mais relevantes Karen, Kachin, Chin, Bamar, Mon, Rakhine e Shan. Em torno de 70% da população, todavia, pertence ao grupo dos birmanos. Tal multiplicidade ocasionou rebeliões internas e motivou a ascensão militar.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Ko Ko Thett

A poesia feita hoje no Brasil sobrevive em circuitos meio provisórios e precários. Muitas vezes, em razão disso, ela se torna divulgadora do estrangeiro e do internacional, sem mediação crítica ou histórica, sem projeto. A série “Lugares contemporâneos da poesia”, da Sibila, visa, em parte, a fazer alguma mediação, com caráter investigativo, acerca desse fenômeno de deslocamento das literaturas nacionais. Poetas e seus poucos leitores formam, estranhamente, “uma comunidade de pessoas que nada têm em comum”.Tratando-se mais, como caracteriza Mario Perniola, “de um aglomerado de mal-entendidos, um concerto de equívocos, uma convergência efêmera de interesses”. A Sibila tenta ter alguma clareza sobre o tema, indagando os autores e buscando seus contextos. Vamos agora ao poeta burmense KO KO THETT.

Jessica Pujol Duran: 2 poemas

já comeu filho posso passar
a laranja e as nozes
para você o céu é cinza e negro o ar
ainda no quarto um bebê chora
e é uma prece lembrada ali
é uma igreja eu aperto a laranja e
quebro uma noz está acordando
ouviu como tocou o sino
a fé cresce em lamentação mas
quem liga agora que germina o verde