Teoria do medalhão

O conto “Teoria do medalhão”, de Machado de Assis, é bastante conhecido. Talvez valha a pena relê-lo tendo-se em vista o atual momento do circuito institucional da literatura brasileira: alguns cadernos de grandes jornais, com resenhas elogiosas sobre livros das mesmas duas ou três editoras, o destaque a um ou dois institutos de “cultura” devidamente rouanetizados, o protagonismo midiático de um certo “festival literário”, o protagonismo da rediviva ABL, o obscurantismo dos prêmios literários etc. A literatura brasileira deste circuito tão prestigiosa neste circuito do Brasil seguiu à risca os conselhos do pai ao filho, únicos personagens dessa trama curta; principalmente, aquele que assinala ao jovem varão: “Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem …”.

Patrícia Galvão (Pagu), Parc industriel (roman prolétaire)

O livro, com tradução de Antoine Chareyre, tradutor de Oswald de Andrade e outros modernistas brasileiros, tem prefácio da poetisa Liliane Giraudon, que foi a primeira editora de Pagu no idioma francês, nos anos 80, em parceria com a tradutora franco-brasileira Inês Oseki-Dépré. A edição do texto, apoiada em novas pesquisas, vem com notas e posfácio do tradutor que ajudarão a entender melhor como esse « romance proletário » se insere na atmosfera política e social da São Paulo da época, e também o colocarão devidamente no cruzamento entre a prosa modernista e o nascente romance social da década de 30. Aliás, o maior representante dessa última corrente, Jorge Amado, foi, em 1993, um dos fundadores da editora Le Temps des Cerises, uma casa editorial independente, que lança agora o romance com capa derivada da original, desenhada pela própria Pagu, e uma diagramação respeitosa da edição de 1933.

Aonde ir e o que fazer?

Tendo em vista que entre a sociedade e o povo há um abismo, não se pode ir ao povo senão renunciando completamente, e de uma vez por todas, à sociedade, a todos os laços, a todas as afinidades morais, a todos os sentimentos, a todas as ideias ou hábitos e a todas as vantagens materiais dessa sociedade; renunciando a todas as formas sociais da vida civilizada, por mais doces, cativantes, sedutoras, embora estejam impregnadas de mentira e ocultem na maioria das vezes um egoísmo cínico e a negação mais grosseira de tudo o que pode ser qualificado de humano, nobre e magnífico. Mas os indivíduos nascidos nessa sociedade privilegiada, tendo recebido sua educação ou vivido alguns anos em seu contato, impregnam-se a tal ponto do refinamento deletério das relações e da vida mundanas, familiarizam-se tão intimamente com elas [...]

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Douglas Messerli

Poeta, dramaturgo, crítico de literatura, teatro e cinema, DOUGLAS MESSERLI, nascido em Waterloo, Iowa, em 1947, é um dos três mais importantes editores de poesia dos Estados Unidos nos últimos 30 anos e, pode-se afirmar, um dos mais importantes do mundo. Esteve à frente da lendária Sun & Moon Press e agora dirige a Green Integer, em Los Angeles, onde vive há várias décadas. Seu trabalho extraordinário como editor chegou a ofuscar o de bom poeta e dramaturgo. O enfoque nas poéticas marginalizadas e de inovação nacionais e internacionais do século 20 e ainda do século 21 tornaram Messerli uma figura ímpar. Ele recebeu do governo francês o título de Officier de l’Ordre des Arts et des Lettres em reconhecimento ao seu trabalho seminal. Messerli editou, em 1994, uma das mais consistentes e representativas antologias de poesia de seu país, desde The New American Poetry, de Donald M. Allen (1960): From the other side of the century: a New American Poetry 1960 — 1990 (Sun & Moon Press), com mais de 1000 páginas. No final de 1970, começou a publicar livros de figuras literárias então desconhecidas como como David Antin, Charles Bernstein, Paul Auster, Steve Katz, Russell Banks e Djuna Barnes. Em 1985, Messerli deixou sua cátedra na Universidade de Temple, Filadélfia, para se dedicar exclusivamente à Sun & Moon Press. No mesmo ano, seu companheiro Howard Fox foi nomeado Curador de Arte Contemporânea, no County Museum of Art de Los Angeles. Em 2000, ele começou a criar e editar uma série editorial, ainda em curso, de poesia internacional, o projeto “Inovadoras da poesia mundial”.

Criticality and Vertigo: An Interview with Régis Bonvicino

RB: Yes, I agree with this phrase from Ezra Pound. He was referring to the newspapers: you read an article you like and you keep it. A week later, you take it out and reread it. This is a concept of innovation I like because it has a basis on reality. A poem that was once innovative will always be useful for something, for making you think, etc…. But I do not use the concept of innovation as often as I used to. I am not that fond of the historical concepts of innovation anymore. Innovation needs to be redefined. I do not know exactly what “innovation” could mean, for example, in the United States, since they are, by definition, the land of innovation… So “innovation” has a specific meaning in the US, another one in Brazil, yet another one in Sweden, in China… Innovation is a relative concept and can become a contradiction if it is conceived as a tradition.

Marko Matičetov: Poemas

Noutra língua falas
as tuas próprias palavras.
Não como um estrangeiro falaria dentro de ti.
Em outra língua ouve-se a tua voz.
A tua língua.
Que não estás em lugar nenhum sob o céu
externo a ti mesmo.

João Concha: Dois poemas

No lastro da sala
e eu à espera:
impressão de estar
nunca parado:
as paredes rodeando
vazios:
tudo forte
e sem função:
a geometria dos quartos
sempre fictícia:
só a distância entre
as estrelas:
uma escada não faz
uma cidade:

A poesia merece ir para o saco

Mas quem ainda não notou haver atualmente inúmeros poetas escrevendo exatamente do mesmo jeito? Quem ainda não teria percebido que isso é fomentado por cursinhos de truques & macetes para candidatos a escritores que já sem pejos lançam-se à cena pública sem uma mínima carga de leitura? Quem ainda não percebeu que o jogral dos contemporâneos dissimula com frequência uma desafinação generalizada? Quem já não concluiu que as desabridas loas em órgãos de imprensa provêm de meros contatos privilegiados no campo jornalístico? A despeito da ausência de projetos estéticos consistentes, e diante da avidez pela notoriedade a qualquer custo, é crucial que os concursos literários estejam muito bem precavidos contra as ingerências desses partidos estéticos que, outrora revolucionários na época áurea das vanguardas, agora já se tornam títeres de espúrios interesses comerciais.

Kafka ou Sob o Signo de Odradek

Fábula às avessas, a “Tribulação de um pai de família”, de Franz Kafka, em suas poucas linhas, opera por meio de uma lógica desconcertante. Se nas fábulas tradicionais, os seres inanimados ganham vida e protagonizam uma história de cunho edificador e moralizante, nesta obra-prima de Kafka tudo se passa de maneira inversa. A narrativa se constrói na medida em que a humanização de um ser é apresentada por meio da sua desumanização. Uma técnica de narrar em que o esvaziamento existencial de um personagem, que percorre toda a história, encobre outro personagem que fica, por assim dizer, escondido nas entrelinhas. Neste caso, a moral da história que nos é apresentada é ácida e corrói as estruturas essenciais de poder e dominação por dentro. Talvez mais que isso, trata-se de uma moralidade que é quase que autofágica.