Uma palestra com Graciliano Ramos: Vidas secas

Apenas cinco personagens evoluem no livro: um homem, uma mulher, dois meninos e uma cachorrinha. Com essa comparsaria limitadíssima, criei o meu mundo. Aliás, não se trata de um romance de ambiente, como geralmente costumam fazer os escritores nordestinos e os regionalistas em geral. Eles se preocupam apenas com a paisagem, a pintura do meio, colocando os personagens em situação muito convencional. Não estudam, propriamente, a alma do sertanejo. Limitam-se a emprestar-lhe sentimentos e maneiras da gente da cidade, fazendo-os falar uma língua que não é absolutamente o linguajar desses seres broncos e primários. O estudo da alma do sertanejo, do Norte ou do Sul, ainda está por fazer em nossa literatura regionalista. Quem ler os romances regionalistas brasileiros faz uma ideia muito diversa do que seja o homem do mato.

Graciliano Ramos

Lançamento do livro inédito Conversas de Graciliano Ramos, (Record, 2014), organizado por Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla, no dia 22 de setembro às 19:00 no MIS situado na Avenida Europa. n. 158.

graciliano“Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum
do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança. Baleia assustou-se.
Que faziam aqueles animais soltos de noite?
A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro.
Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos.
Estranhou a ausência deles”. Graciliano Ramos

Impressões de um brasileiro em Nova Délhi

A Índia é refratária ao turismo. A palavra surgiu entre os românticos, no começo do século XIX, e, como é óbvio, vem de tour, movimentar-se para ver o diferente. Turismo necessariamente envolve uma estrutura de alteridade, distante no espaço, que inevitavelmente separa sujeito de objeto. A prática turística por excelência é o sight-seeing. A pobreza indiana não se deixa contemplar, não permite que seja tornada objeto – não apenas por causa da comunicação da dor de tantos miseráveis, aquilo que nos faz sofrer vicariamente, mas também pelas insistentes, perseverantes, infindáveis interpelações por dinheiro. Na Índia, você não consegue ter a ilusão de que é uma boa pessoa. Aqui você se vê implicado em uma estrutura de culpabilidade da qual não há saída. A Índia é uma escola para o Brasil.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Felipe Cussen

FELIPE CUSSEN, nascido em Santiago de Chile, 1974, é poeta, músico e ensaísta, com vários livros publicados, entre eles Opinología, Mil versos chilenos (antologia editada com Marcela Labraña) e Título. Doutor em Ciências Humanas pela Universidade Pompeu Fabra, é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Santiago de Chile. Sua pesquisa centrou-se, por um tempo, no campo da literatura comparada, especialmente na poesia hermética, literatura experimental e misticismo. Atualmente investiga as relações entre poesia contemporânea e música eletrônica. Faz, também, com o mesmo interesse, poemas visuais, poemas sonoros, vídeos e performances. Ele já trabalhou com o músico Ricardo Luna em obras que combinam música, poesia e projeções visuais. Cussen é membro do Foro de Escritores e da Orquestra de Poetas.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Josely Vianna Baptista

JOSELY VIANNA BAPTISTA, 1957, realiza um trabalho longo e constante de tradução de escritores hispano-americanos da qual é, hoje, a principal tradutora para a língua portuguesa. Traduziu, entre vários, Jorge Luis Borges e Paradiso de Lezama Lima. É autora de Ar (Iluminuras, 1991), Corpografia (Iluminuras, 1992), Outro (Mirabilia, 2001), A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo (Mirabilia, 2001) e Sol sobre nuvens (Perspectiva, 2002), entre outros livros de poema. Uma de suas principais contribuições ao debate literário é Musa paradisíaca: antologia da página de cultura 1995/2000 (em colaboração com. F. Faria; Mirabilia, 2004). Pela Cosac Naify publicou Roça Barroca, no qual verte para o português o mito cosmogônico da tribo indígena Mbyá-Guarani em poemas, com edição bilíngue. Em 2002, a Editorial Aldus lançou no México seu Los poros floridos.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: John Yau

JOHN YAU, nascido em Lynn, Massachusetts, em 1950, é um poeta e crítico norte-americano que vive em Nova York. Publicou mais de 50 livros, entre poesia, ficção e crítica de arte. Os pais de Yau estabeleceram-se nos anos 1950 em Boston, depois de emigrarem da China em 1949. No final dos anos 1960, John Yau estava, na mesma Boston, exposto às leituras de poesia antiguerra e à contracultura e então manteve contato com os poetas Robert Bly, Denise Levertov e Robert Kelly; este lhe parecia um tipo diferente de autor: misterioso, interessado em ocultismo, em gnosticismo e artes plásticas.

A perda da experiência da formação na universidade contemporânea

O que pode significar “uma educação para a contradição e para a resistência”? De acordo com o que vimos acerca do hiper-realismo, as pessoas são encorajadas a uma aquiescência total ao que existe, como se fosse antinatural ou utópico ou insensato opor-se àquilo que se impõe como realidade. Essa atitude naturalista perante as coisas é tão difundida porque corresponde a um dogmatismo que nem sequer é fruto de crenças fortes, mas simplesmente desempenha uma função acomodadora. Ao hiper-realismo corresponde portanto algo como uma vontade de unicamente afirmar, no sentido de corroborar sempre a realidade. É a atrofia da capacidade crítica, certamente, mas devemos compreendê-la não apenas como empobrecimento existencial e cultural mas também do ponto de vista das condições objetivas, isto é, do clima de “consenso” naturalista que rechaça qualquer atitude de contestação e de crítica assim que elas ameaçam aparecer.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Martín Gubbins

MARTÍN GUBBINS, 1971, Santiago, Chile. Poeta, editor, artista sonoro e advogado do consumidor e meio-ambiente. Publicou Escalas (México, Ediciones Mangos de Hacha, 2011), Fuentes del Derecho (Santiago, Ediciones Tácitas, 2010), Londres Poems (2001-2003) (Londres, Writers Forum Press, 2010), entre outros. Sua poesia sonora aparece em Bastallaga com Martín Bakero (Santiago-Paris, Acousmantika Sounds, 2011), 30 Diálogossonoros, com John M. Bennett (Columbus Ohio e Santiago de Chile, Luna Bisonte Prods, 2009), Sonidos de escritorio (Santiago, Autoedición, 2008), e En la escuela, com Tomás Varas (Santiago, Alquimia Ediciones, 2007). Sua poesia visual integra Poesia Visual na Avant Writing Collection, da Biblioteca da Universidade de Ohio (EUA) e do Arquivo de Poesia Concreta e Visual Ruth e Marvin Sackner (EUA). Junto com outros poetas e artistas, fundou e dirige o Writers Forum.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Yu Jian

YU JIAN (1954, Kunming) é um poeta e cineasta contemporâneo chinês, com um forte interesse em experimentação. Ele reside em Beijing. É uma figura de destaque da terceira geração de poetas, conhecida como o grupo Minjian (espaço popular). As características de sua poesia incluem uma rejeição à linguagem metafórica, ao confessionalismo, ao lirismo e ao idealismo. Para Yu Jian, poesia “deve ser firmemente plantada no solo da vida contemporânea”.
Embora ele seja acusado de escrever “não poesia” por críticos conservadores, o trabalho de Yu Jian é geralmente livre da vulgaridade e banalidade. Durante 20 anos, ele experimentou com uma variedade de estilos em uma busca por uma mistura eficaz do empírico, do especulativo e do estético. Muitos poemas trabalham um fato da vida cotidiana, para revelar implicações culturais imprevistas.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Jean-Marie Gleize

JEAN-MARIE GLEIZE nasceu em Paris em 1º de abril de 1946. É professor de literatura na Universidade de Aix-en-Provence e na École Normale Supérieure de Lyon, onde também dirigiu o Centro de Estudos Poéticos (1999-2009). Com o conceito “simplificação”, o seu trabalho o leva a pensar, de modo crítico, na década de 1990, acerca da nudez e da literalidade como conceitos de análises poéticas e artísticas. Buscando fazer uma poesia realista, embora reconhecendo a impossibilidade de um resultado puramente objetivo, a sua escrita, aos poucos, se concentra em vários dispositivos, abrangendo notas, inclusão de textos heterogêneos, citação intertextual, referências de filmes e fotografia e apropriação pura e simples de materiais alheios. Além de suas várias publicações, é responsável pela gestão dos Nioques, núcleo no qual se retomam e exploram temas das vanguardas históricas de 1960-1970.