JOYCE SEGUNDO UMBERTO ECO

Apesar de ser um grande apologista do close reading dos textos literários para a descoberta da obra em si, tal como preconizavam os Formalistas Russos, no caso de Joyce (1882-1941) Umberto Eco abre-se para a imanência e diz textualmente: “Em Joyce, para se compreender o desenvolvimento de sua poética, é necessário remontar continuamente ao seu desenvolvimento espiritual

Depoimento de Serge Pey

Serge Pey acaba de receber o Grand Prix national de poésie 2017 na França. Pey nasceu em 1950 em uma família de classe trabalhadora no bairro da cidade de Hers em Toulouse. Filhos de imigrantes da Guerra Civil Espanhola, sua adolescência foi atravessada pelo luta contra o General Franco. Ativista contra a Guerra do Vietnã, ele participou dos eventos de maio e junho 1968. Ao lado de seu compromisso político, ele, ainda jovem, se tornou um poeta da ação interessando-se por Lorca, Whitman, Antonio Machado, Machado, Rimbaud, Baudelaire Villon, Yannis Ritsos Alfred Jarry, Tristan Tzara, trovadores provençais, Antonin Artaud, poemas xamânicas que os poemas visuais e dadaístas. No início dos anos 1970 Serge Pey inaugura poesia de ações de trabalho e experimentando todas as suas formas e valorizando a oralidade. Pey é um nômade e em sua editora, Edições da Tribo, uma cooperativa, publicou como Bernard Manciet Jean-Luc Parant, Gaston Puel, Rafaël Alberti, Dominique Pham Cong Thien, o sexto Dalai Lama, Allen Ginsberg, Ernesto Cardenal

NO PRINCÍPIO ERA O VÍRUS

Inquietante viralização a que se impõe hoje, enquanto atravessamos as truculências desse início de milênio, através de uma infinidade de peças escatológicas servindo de estofo ao hiperlivro www. Dois fantasmas do livro por vir, diz Derrida em Papel-máquina, vêm nos induzir à tentação de considerar a rede mundial como o Livro ubíquo enfim reconstituído, o livro de Deus, o grande livro da Natureza, ou o Livro-Mundo. Trata-se do sonho onto-teológico com o fim do livro em dois limites, em duas figuras extremas, finais, escáticas: o fim como morte ou o fim como telos ou realização. Na esteira do fim da arte e fim da história hegelianos, da morte de Deus, do último homem e do super-homem nietzscheanos, multidões de cyber-usuári@s, em cadência publicitária global, colaboram para a metanarrativa da desolação mundial diária. Certo modo de ser replicante, acossado e em pânico – o terror – fez-se condição oportuna para a emergência de uma cultura tecnocapital planetária. Desde há mais ou menos dois séculos, quando o fim das supremacias.

A neovanguarda italiana dos anos 1960

Toda a vanguarda declara ruptura formal com os esquemas artísticos anteriores. Apresenta-se como portadora do poder de destruição do consenso formal que, em dado momento, define o que merece o nome de arte. Ora, o que é admirável é que, ao longo do século, o que está em jogo nessa ruptura permanece sem variar.

Entrevista de Ezra Pound a P.P. Pasolini

Quando você chegou na Itália, ela era ainda pré-industrial, agrícola e artesanal. Agora, tornou-se uma nação bastante industrializada e produz uma literatura semelhante àquelas produzidas nos Estados Unidos e na Inglaterra, nesses últimos anos. Agora, a Itália é parte das nações industrializadas e culturalmente avançadas e então aflora um novo tipo de literatura que é típico das nações burguesas, industrializadas. Os movimentos de vanguarda se tornaram frequentes na Itália. Você reconhece a paternidade desses movimentos de agora na Itália ou não? Você fala e “então nações culturalmente avançadas e industrializadas”. Eu não concordo com esse “então”: eu não gosto disso. É difícil responder à sua questão, porque os movimentos de vanguarda não se desenvolveram na Itália industrializada de agora. Esse fenômeno, de produtos vanguardistas, ocorre no mundo todo.

Pound: paraíso destruído

Seria possível ser um grande poeta e, ao mesmo tempo, um fascista assumido e um antissemita fervoroso? Não, não é verdade? Mas, por um lado, sim. Eis o problema. “Se Ezra Pound não tivesse existido”, escreve Humphrey Carpenter em sua monumental biografia, a mais detalhada e objetiva até agora, “teria sido muito difícil inventá-lo.” Poucos escritores têm uma vida tão extravagante, diversificada, impetuosa. Seria ele um visionário geral? Um traidor da pátria? Um louco? Um iluminado? Um fanático? Sim, mas também, e talvez principalmente, um artesão preciso, um explorador generoso, um autodidata erudito e sempre original, um revolucionário da percepção e da linguagem, um criador e apresentador de uma parte fundamental da literatura e da arte desses tempos caóticos. Poderíamos preferir um medíocre funcionário das letras que pensa bem a um grande artista que pensa mal? Isso se vê todos os dias e mesmo assim a Terra continua girando. Então seria algo para além do bem e do mal? Não, a discussão continua possível.

Nota sobre Beyond the wall

Quem se dispõe a percorrer a nova coletânea de poemas de Régis Bonvicino, Beyond the wall (Além do muro) recém publicada pela editora Green Integer nos EUA, deve estar preparado para enfrentar uma complexa trama em que o estatuto da arte, a vida na cidade e a política em ponto de bala se entrelaçam de uma maneira absolutamente inextricável, de modo que é praticamente impossível uma dissociação dos elementos dessa poética – existe algo de irredutível na obra que impede os esquemas mais tradicionais de interpretação de livros de poesias. Não é o caso, então, de tentar localizar quais são os poemas de uma ordem metalinguística mais evidente ou os que apresentam imagens da cidade ou mesmo os que discutem relações de poder. Os poemas de Beyond the wall operam nas bordas, nos limites em que um tema já se transforma em outro, mas ainda não deixa de ser o que era. Existe uma verdadeira topografia poética, um modo pelo qual esses poemas foram estrategicamente colocados em sua sequência, que causa a perfeita percepção de que o livro tem um espaço.

Ezra Pound lê Usura

Com usura homem algum terá casa de boa pedra cada bloco talhado em polidez e bem ajustado para que o esboço envolva suas faces, com usura homem algum terá paraíso pintado na parede de sua igreja harpes et luz ou onde a virgem receba a mensagem e um halo projeta-se do inciso, com usura homem algum vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas pintura alguma é feita pra ficar nem pra com ela conviver só é feita a fim de vender e vender depressa com usura, pecado contra a natureza, sempre teu pão será rançosas côdeas sempre teu pão será de papel seco sem trigo da montanha, sem farinha forte
com usura uma linha cresce turva com usura não há clara demarcação e homem algum encontra sua casa.

A vida e a pós-vida de Ezra Pound na Itália

Em 24 de maio de 1945, o famoso poeta norte-americano Ezra Loomis Pound encontrava-se preso em uma cela especial – uma jaula, na verdade, no United States Army Disciplinary Training Center (USDTC), em Metato, ao norte da cidade de Pisa. A prisão do USDTC – que jornais americanos apelidaram como sendo “o repositório dos sedimentos sujos de nossas tropas no teatro mediterrâneo” era usada para encarcerar os militares dos EUA que tinham perpetrado crimes de guerra sérios e estavam aguardando o julgamento da corte marcial ou a transferência para uma instituição carcerária nos EUA ou mesmo sua própria a execução.