Marko Matičetov: Poemas

Noutra língua falas
as tuas próprias palavras.
Não como um estrangeiro falaria dentro de ti.
Em outra língua ouve-se a tua voz.
A tua língua.
Que não estás em lugar nenhum sob o céu
externo a ti mesmo.

João Concha: Dois poemas

No lastro da sala
e eu à espera:
impressão de estar
nunca parado:
as paredes rodeando
vazios:
tudo forte
e sem função:
a geometria dos quartos
sempre fictícia:
só a distância entre
as estrelas:
uma escada não faz
uma cidade:

A poesia merece ir para o saco

Mas quem ainda não notou haver atualmente inúmeros poetas escrevendo exatamente do mesmo jeito? Quem ainda não teria percebido que isso é fomentado por cursinhos de truques & macetes para candidatos a escritores que já sem pejos lançam-se à cena pública sem uma mínima carga de leitura? Quem ainda não percebeu que o jogral dos contemporâneos dissimula com frequência uma desafinação generalizada? Quem já não concluiu que as desabridas loas em órgãos de imprensa provêm de meros contatos privilegiados no campo jornalístico? A despeito da ausência de projetos estéticos consistentes, e diante da avidez pela notoriedade a qualquer custo, é crucial que os concursos literários estejam muito bem precavidos contra as ingerências desses partidos estéticos que, outrora revolucionários na época áurea das vanguardas, agora já se tornam títeres de espúrios interesses comerciais.

Kafka ou Sob o Signo de Odradek

Fábula às avessas, a “Tribulação de um pai de família”, de Franz Kafka, em suas poucas linhas, opera por meio de uma lógica desconcertante. Se nas fábulas tradicionais, os seres inanimados ganham vida e protagonizam uma história de cunho edificador e moralizante, nesta obra-prima de Kafka tudo se passa de maneira inversa. A narrativa se constrói na medida em que a humanização de um ser é apresentada por meio da sua desumanização. Uma técnica de narrar em que o esvaziamento existencial de um personagem, que percorre toda a história, encobre outro personagem que fica, por assim dizer, escondido nas entrelinhas. Neste caso, a moral da história que nos é apresentada é ácida e corrói as estruturas essenciais de poder e dominação por dentro. Talvez mais que isso, trata-se de uma moralidade que é quase que autofágica.

A poesia de Ronald Augusto e de Sangare Okapi

Ronald Augusto percorre um processo talvez ainda mais radical de desenvolvimento de uma poesia não-verbal, vasculhando os extremos da síntese e demonstrando pleno conhecimento do seu ofício ao mesclar suas experimentações com incontáveis referenciais das culturas afro-brasileiras, tanto no campo linguístico quanto da religiosidade. Tais códigos rasuram a linguagem tradicional da literatura brasileira, impactando o leitor desavisado, ainda mais que a presença negra na poesia de Augusto não é explícita para os que não são iniciados nesses códigos com o uso de palavras de origens africanas, das etnias que foram retiradas à força da África e aqui reconfiguraram seus falares, subvertendo e enriquecendo a língua portuguesa com esses outros vocábulos.

O atentado ao Charlie Hebdo

Fiquei sabendo por um telefonema do Chico Caruso: “E o Charlie Hebdo, hem?” Fiquei esperando o resto da piada. “Mataram o Wollinski, o Cabu e mais dez.” Quando caiu a ficha e me convenci de que era verdade, o impacto foi literalmente tão arrasa-quarteirão quanto o da explosão das Torres Gêmeas. Como disse o Ique no Jornal da Globo. Mas discordo quando acrescentou que, daqui pra frente, os cartunistas irão se atemorizar e diminuir suas críticas ao Irã, sem trocadilho. Os colegas de cartum, não sei, mas eu pretendo pegar mais pesado do que costumo. Para quem não viu a minha charge de quinta-feira passada, desenhei um suposto Alá com turbante e uma barba negra contrastando com a barba branca de um Deus ariano. Pela Lei do Corão, a reprodução de qualquer imagem do Profeta é crime que deve ser punido com a morte. E agora?

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Jean-Marie Gleize

JEAN-MARIE GLEIZE nasceu em Paris em 1º de abril de 1946. É professor de literatura na Universidade de Aix-en-Provence e na École Normale Supérieure de Lyon, onde também dirigiu o Centro de Estudos Poéticos (1999-2009). Com o conceito “simplificação”, o seu trabalho o leva a pensar, de modo crítico, na década de 1990, acerca da nudez e da literalidade como conceitos de análises poéticas e artísticas. Buscando fazer uma poesia realista, embora reconhecendo a impossibilidade de um resultado puramente objetivo, a sua escrita, aos poucos, se concentra em vários dispositivos, abrangendo notas, inclusão de textos heterogêneos, citação intertextual, referências de filmes e fotografia e apropriação pura e simples de materiais alheios. Além de suas várias publicações, é responsável pela gestão dos Nioques, núcleo no qual se retomam e exploram temas das vanguardas históricas de 1960-1970.

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Yi Sha

YI SHA nasceu em 1966 em Chegdu e mudou-se aos dois anos, junto com a família, para a cidade de Xi’an, na província de Shaanxi, cidade da China Central. Ainda na escola, publicou seus primeiros poemas. Estudou chinês na Universidade Normal de Beijing [Pequim] e tornou-se uma figura conhecida entre os poetas chineses que estudavam na universidade. Trabalhou para revistas literárias, como apresentador de TV, como editor independente, e agora é professor assistente junto à Universidade de Estudos Internacionais de Xi’an. Em 1988 publicou sua primeira coletânea de versos, mimeografada, Rua solitária, mas encontrou um editor oficial para sua próxima coletânea, Que os poetas morram de fome! (1994).

Murilo Mendes por Ungaretti

Edifício onde Murilo Mendes residiu em Roma, foto de Régis Bonvicino, 2014.
Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?…

Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Fernando Aguiar

FERNANDO AGUIAR nasceu em Lisboa, em 1956. É licenciado em Design de Comunicação pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e professor de Educação Visual. Poeta, artista plástico e performer, publicou, entre outros, Poemas + ou – Histo(é)ricos (1974), O dedo (1981), Minimal poems (1994), Os olhos que o nosso olhar não vê (1999), Tudo por tudo (2009) e Estratégias do gosto (2011). Organizou, entre outras, as antologias de poesia experimental Poemografias: Perspectivas da Poesia Visual Portuguesa (1985, com Silvestre Pestana), Visuelle Poesie Aus Portugal (1990) Poesia Experimental dels 90 (1994) e Imaginários de Ruptura, Poéticas Experimentais (2002). Exposições individuais: POESI AV ISUAL (Lisboa, 1979), Ensaios para uma Nova Expressão da Escrita (Lisboa, 1983), Palavras Sob Palavra (Torres Vedras, 1984) e O Papel dos Signos (Setúbal, 1992). Tem performances documentadas em Rede de canalização (1987), Recent Actions (1997) e A essência dos sentidos (2001).