Uma leitura do livro Deste Lugar, de Paulo Franchetti

A ideia de uma subjetividade diante do decurso do tempo já está posta na epígrafe de abertura, tirada de Watching the Wheels, de John Lennon: I’m just sitting here watching the wheels. Por um lado, a lyrics de Lennon sintetiza a situação recorrente do sujeito lírico dos poemas, o qual, em um lugar sempre delimitado, o espaço de onde vê, sente e fala, “deste lugar”, fica olhando conscientemente o movimento incessante do mundo. Por outro, a escolha de uma letra de música parece encerrar uma atitude despretensiosa, antilivresca e avessa ao eruditismo pedante [...]

Direito de crítica jornalística: o caso especial da sátira e da caricatura

A informação jornalística se decompõe na notícia e na crítica, esta intimamente ligada àquela, por ter como objeto o fato noticiado. Mas, em função da possibilidade de a diferenciação entre uma notícia e uma crítica engendrar diferentes consequências jurídicas relativamente à responsabilidade do jornalista, é importante que sejam assim claramente distinguidas, ainda que isto, na prática, se mostre bastante difícil, se não mesmo em muitos casos impossível, “uma vez que toda comunicação sobre fatos pressupõe um juízo valorativo sobre a fonte de informação e uma seleção do que é relevante, os quais podem influenciar a opinião do público destinatário”.

Há sessenta anos esperamos Godot

Escrita em francês em apenas quatro meses, no ano de 1949, Esperando Godot, a peça mais conhecida do escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989), estreou somente em 1953, no Théâtre de Babylone, em Paris.

Na época, Beckett ofereceu ao ator e diretor teatral parisiense Roger Blin duas peças suas: Eleutheria (1947) e Esperando Godot. Blin optou por montar a segunda, porque considerou que os custos de produção de Godot não seriam tão altos quanto os de Eleutheria, que precisava de um cenário móvel e dezessete atores em cena. Godot requeria apenas cinco atores e um cenário praticamente vazio, com uma arvorezinha ao fundo.

A peça estreou sob a direção e atuação de Roger Blin, que se tornou o grande parceiro teatral de Beckett. Ao final da primeira apresentação, a plateia aparentava estar perplexa. O que se havia passado no palco? Nada, como se percebe logo na primeira fala de Esperando Godot: “Estragon (desistindo de novo): Nada a fazer”. A propósito, “Nada a fazer” é uma frase que retorna regulamente à boca dos personagens.

O que se diz ao editor a propósito de poemas

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo embalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,

terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Poesia contemporânea e crítica de poesia

Hoje, quando as fronteiras entre o que é e o que não é literário são flexíveis e incertas, quando o estético já não se sustenta a partir do cânone, mas, pelo contrário, se vê explicitamente submetido ao político (e aqui estou pensando, por exemplo, nos cânones alternativos, nos quais o valor estético ou se quer outro, ou é modalizado por, ou tem menor importância do que o recorte político, sexual, étnico, genérico), mais se faz evidente, para o bem e para o mal, o mecanismo crítico básico de avaliar o objeto inserindo-o numa narrativa particular, dentro da qual ganha densidade e sentido.

Virna Teixeira: Três Poemas

Linha azul sobre o têxtil turco. Uma mulher nua bordada no calico. Deitada embaixo do mar. It hurts. Ela disse não. Love is blue, mas a água recobre argumentos. Netuno e a erosão marinha. Âmnio, mergulho no Tirreno. Banhos exfoliantes de haman, amor devocional, descalços na mesquita. Futuro uma luxúria, mas como medir a perda. Esta espera, quem escapa do tempo presente. Tentar ópio. Atenta aos sinais de fumaça. Uma costura circular dispersa outra vez a voz interna.

Borges

Prezado editor, li com muito gosto o artigo de Fabio Riggi sobre a tradução dos poemas de Borges. Não concordo com a natureza de alguns argumentos, nem com algumas conclusões, mas é muito bom a Sibila dar espaço para jovens críticos, que não se contentam com a repetição do mesmo, nem se dedicam à celebração vazia, mas analisam, argumentam e exercitam a inteligência. Abraço, Paulo Franchetti

Transcriador ofusca poemas de Borges

Não se justifica, por exemplo, o arcaísmo do verso “A aparência superficial das cousas” para “La vana superficie de las cosas”. A explicação é simples: centrado nos encantos sonoros do verso borgeano, do qual a rima perfeita é um recurso explorado, Augusto de Campos preferiu um termo fora de uso para casar com “rosas”. Ademais, combina com as rimas do quarteto anterior “exploro” e “ouro”. A música foi, em verdade, reforçada – o que é diferente de potencializada ou renovada, mas por conta de uma palavra o poema empoeirou uns séculos.

Lendas, mitos e histórias sobre a serpente

Desde os tempos mais remotos, a serpente está presente de forma marcante em mitos, lendas e fábulas chinesas. Provavelmente, por fazer parte do ecossistema da Ásia, os materiais arqueológicos encontrados indicam a cobra como um dos principais totens das tribos primitivas. Em Shan’haijingO Livro da Natureza, há vários registos de seres fantásticos, espécies mistas de serpente, dragão e humano. A tribo Xuanyuan [轩辕] do Imperador Amarelo [黄帝 Huángdì], o mítico ancestral chinês, possuía o totem de uma serpente com cabeça humana. Ainda hoje, a cobra é reverenciada por etnias minoritárias no sul e sudeste da China, que realizam procissões em sua homenagem, no décimo quinto dia do primeiro mês lunar.

Eu gostaria

Eu gostaria
de nascer
em todos os países,
ter um passaporte
para todos eles,
botar
todos os ministérios do exterior
em pânico
ser todos os peixes
em todos os oceanos
e todos os cães
passeando pelas ruas do mundo.
Não quero me agachar
diante dos ídolos