Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Abreu Paxe

ABREU CASTELO VIEIRA DOS PAXE nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe, província do Uíge, Angola, país africano com população estimada em 22 milhões de habitantes. Angola tornou-se independente de Portugal em 1975. Paxe licenciou-se em Língua Portuguesa no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) de Luanda, cidade com cerca de oito milhões e meio de habitantes. É professor de Literatura Angolana no ISCED e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). É autor, entre outros, de A chave no repouso da porta (2003 − Prémio António Jacinto) e de O vento fede de luz (União dos Escritores Angolanos, 2007). Em 2000, foi o ganhador do prêmio “Um Poema para África”. Para ele “a poesia se realiza nos elementos que se perdem no cotidiano”.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Paxe: Sim, leio poesia e demais textos que me aproximam da ideia mais ampliada que se pode ter da poesia hoje.

Sibila: Que poesia você lê?

Paxe: Leio todo tipo de poesia, mas com grande inclinação àquela que nos coloca sérios desafios. E procuro-a em todos os suportes onde ela se torna possibilidade.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Paxe: Como de qualquer outro texto. Acredito nisso em relação à poesia porque foi ela quem me levou para o território da cultura. Nas sociedades da tradução, como as nossas América Latina e África, a poesia se realiza nos elementos que se perdem no cotidiano. Para mim tem sido estimulante estudar também esses processos tradutórios da poesia!

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Paxe: A construção de todo um quadro de possibilidades relacionais.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Paxe: Quando ela nos dá a possibilidade de relacionar até o inusitado, o inesperado.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Paxe: Se entender o interesse público como o mercado, posso ter certeza que não. Mas se for como indagação filosófica, posso ter certeza que sim!

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Publicação de poesia

Sibila: Qual a melhor suporte para a sua poesia?

Paxe: Todos os que lhe possibilitem realizar-se como comunicação. Falo de todas as mídias codificadas ou ainda em gênese.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Paxe: A capacidade de transformar, de levar as pessoas a inventar, de ver e sentir as coisas de outro modo, de colocar sua experiência em permanente prova.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Paxe: O que não a transforme num território fechado, num lugar de convenções. Numa autoestrada de profecias, num lugar de controle.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Paxe: Encontrar pela leitura seus criadores, e os lugares onde se anulam a lembrança, a esperança, a memória.

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Civis em fuga de área de guerra civil no Uíje, norte de Angola em 1975. Foto de Sebastião Salgado.

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Alguns poemas de Abreu Paxe


Certas tarefas são os meus medos essas gavetas de silêncios
as ruas com janelas são portas sem ruas, essas janelas daqui se ausentam de casa
amanhecem sem luz em varandas portas alheias
os cheiros das noites escondidas em todas as tardes murmúrio de máscaras
as contas que não aprendemos a fazer nas relações do poder
o céu de Deus esse caiu também de silêncio

Entre a retaguarda e a vanguarda

No silêncio das rodas circulam cabeças todo o troço e membros
meus movimentos as sombras do muceque seus muros
feriam todos os materias são lentas chuvas
as sonoridades são danças vagarosas são breves carnes
em cada lado a brasa de cada lado nkonko o rio
maré cheia, cheira a libongo tua brancura de noite mabanga suada

Desenhos de areia

os desenhos de areia são formas de silêncios construidos no chão sem lápis sem conveções
codificadas as vontades ventos areia deserto cálculos são mesmo olhos volitivos as linhas
as narrativas os acidentes olhos de sol o sal do sol também
os verbos atravessados por cabelos crescidos bagres saujoka muna saú
engula também a saliva embora fale sem saliva u rio e a água
as vontades são mesmo securas esses desenhos de areia o deserto sol

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Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.

Sobre Abreu Castelo Vieira dos Paxe

Nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe, província do Uíge, Angola, país africano com população estimada em 22 milhões de habitantes. Paxe licenciou-se em Língua Portuguesa no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) de Luanda, cidade com cerca de oito milhões e meio de habitantes. É professor de Literatura Angolana no ISCED e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). É autor, entre outros, de A chave no repouso da porta (2003 − Prémio António Jacinto) e de O vento fede de luz (União dos Escritores Angolanos, 2007). Em 2000, foi o ganhador do prêmio “Um Poema para África”. Para ele “a poesia se realiza nos elementos que se perdem no cotidiano”.