Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Tina Quintana

AGUSTINA QUINTANA nasceu em 1994, em La Falda, Argentina. É uma das participantes da antologia Cuentos de grandes pequeños a los trece años. Viveu por uns tempos na selva panamenha, onde escreveu uma novela sobre um falso pastor e a crise argentina de 2001. Mora em Buenos Aires, onde estuda Filologia. Escreve desde os seis anos.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Quintana: Procuro fazê-lo.

Sibila: Que poesia você lê?

Quintana: Trato de ler a poesia mais estranha possível, a que me faça repropor minha concepção daquilo que a poesia pode lograr. Porque, depois de tudo, o que é poesia? Uma receita de cozinha pode ser poesia. Aproveito sobretudo os escritos obscuros de autores desconhecidos, de gente que não escreve nem leva a escritura mais a sério do que uma perturbação que a impele.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Quintana: Depende da pessoa e do texto. Quem sabe o maior efeito da boa poesia seja o de derrubar os preconceitos sobre ela mesma, os que dizem que toda poesia é algo piegas, sobre o amor ou sobre paisagens bonitas.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Quintana: Ao escrever poesia não espero nada, nem sequer o momento de libertar-me de minhas obrigações mundanas. Posso estar dentro de um ônibus quando as palavras vêm à minha cabeça e, então, eu tenho que anotá-las. Como resultado espero que se alivie um pouco essa contradição da alma de que falava Schelling, que se sintetize em uma forma concreta e sensível algo dessa loucura interior tão em conflito com as formas toscas da vida nesse mundo.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Quintana: Que as mentes prevaleçam sobre os corpos. Não em seu aspecto racional, o da ação, mas em sua essência estática e profunda.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Quintana: Minha esperança é que ela tenha, ao menos, interesse privado para um grupo de perversos.

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Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Quintana: Qualquer caminho que desemboque em palavras é válido, para mim. Não sou purista quanto ao papel, mas é claro que desejo que todos os meus livros tenham três dimensões para aqueles que não têm acesso à tecnologia ou que sofrem de intolerância em relação à tela de um monitor, como ocorre com muitos de meus amigos, que, por essa razão, nunca leram um livro meu.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Quintana: Espero que minha poesia seja lida por pessoas que não conheço, sem que ninguém as obrigue a lembrar uma palavra do que leram, mas que tenham, sim, uma sensação ou o ressaibo de uma sensação efervescente sobre a língua fria de uma múmia egípcia.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Quintana: Quem chegar ao final de meu livro é o melhor leitor possível e meu coração se regozija na flora e na fauna de sua estranha cabeça.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Quintana: Que alguém aproveite, em alguma parte, o que escrevi. Nesse momento já estarei escrevendo mais quatro livros.

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Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Quintana: Procuro hacerlo.

Sibila: Que poesia você lê?

Quintana: Trato de leer la poesía más extraña que encuentre, la que me haga replantear mi concepción de lo que la poesía puede lograr. Porque después de todo, ¿qué es poesía? Una receta de cocina puede ser poesía. Disfruto sobre todo los escritos oscuros de autores ignotos, de gente que no escribe ni se toma la escritura más en serio que esa perturbación que los empuja.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Quintana: Depende de cada persona y de cada texto. Quizás el mayor efecto de la buena poesía sea derribar los prejuicios sobre ella misma, los que dicen que toda la poesía es cursi, de amor o sobre paisajes bonitos.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Quintana: Para escribir no espero nada, ni siquiera el momento de liberarme de mis tareas mundanas. Puedo estar viajando en colectivo cuando las palabras vienen a mi cabeza y no tengo más remedio que anotarlas. Como resultado espero que se alivie aunque sea un poco esa contradicción del alma de la que hablaba Schelling, que se sintetice en una forma concreta y sensible algo de esa locura interior tan en conflicto con las formas toscas de la vida en este mundo.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Quintana: Que las mentes prevalezcan sobre los cuerpos. No en su aspecto racional, el de la acción, sino en su esencia estática y profunda.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Quintana: Mi esperanza es que tenga por lo menos interés privado para un manojo de perversos.

Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Quintana: Cualquier camino que desemboque en las palabras me resulta válido. No soy purista del papel, pero claro que quiero que todos mis libros tengan tres dimensiones para aquellos que no accedan a la tecnología o sufran de intolerancia a la pantalla, como les pasa a muchos de mis amigos que nunca leyeron un libro mío por esa razón.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Quintana: Que la lean personas que no conozco sin que nadie los obligue y que al día siguiente no recuerden ni una palabra pero sí una sensación o el resabio de una sensación efervescente sobre la lengua fría de una momia egipcia.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Quintana: Quien llegue al final de mi libro es un lector inmejorable y mi corazón se regocija en la flora y la fauna de su extraña cabeza.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Quintana: Que alguien lo disfrute en alguna parte. En ese momento yo estaré escribiendo cuatro libros más.

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Raya del cosmos

Rayo del cosmos, raya del culo, Sendero Luminoso
Forro (anticonceptivo), forro (mala persona), FARC
Mercedes Sosa, mercenario soso, ETA
Cazadores de nazis, cazadores de OVNIS, UCR
Estado de sitio, estádio de fútbol, ERP
La historia sin fin, Delfín hasta el Fin, Frente Para la Victoria
Monja mojada, jamón cocido, insurgencia iraquí
Etiquetalo en Facebook, enterralo en Beirut, Unión Campesina
Arjona cantando, Arjuna luchando, Tamil Eelam
Salir del closet, Samir El-Yousef, Anonymous
Sensación de inseguridad, negación de la realidad, Carapintadas
Tipo fachero, facho tachero,
Censor vacuno, censo 2001,
Valencia de mercurio, violencia de género,
Juicio por tortura, Puta Locura,
Tenochtitlán, festival tecno,
Ku Klux Klan, Kurt Cobain

Linha do cosmos

Raio do cosmos, linha do cu, Sendero Luminoso
Forro (contraconceptivo), forro (má pessoa), FARC
Mercedes Sosa, mercenário sonso, ETA
Caçadores de nazistas, caçadores de OVNIs, UCR
Estado de sítio, estádio de futebol, ERP
A história sem fim, Delfim até o fim, Frente Para a Vitória
Monja molhada, presunto cozido, insurgência iraquiana
Etiquetá-lo no Facebook, enterrá-lo em Beirute, União Camponesa
Arjona cantando, Arjuna lutando, Tamil Eelam
Sair do closet, Samir El-Yousef, Anonymous
Sensação de insegurança, negação da realidade, caras pintadas
Tipo fashionista, fáscio tacheiro,
Censor vaqueiro, censo 2001
A química do mercúrio, a violência de gênero
Juízo por tortura, Puta Loucura
Tenochtitlán, festival techno,
Ku K-l-u-x Klan, K-u-r-t Cobain

Tradução: Régis Bonvicino

Ouça Agustina lendo este poema

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Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.