Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Rery Maldonado

RERY MALDONADO nasceu em Tarija (Bolívia) em 1976. Desde 1997 vive em Berlim, onde trabalha como tradutora, autora e desenvolve projetos culturais.

Publicou Los superdemokraticos, eine politische literarische Theorie (Verbrecher Verlag, 2011) com Nikola Richter, La república en el espejo (Montevideo, La Propia Cartonera, 2011) e Andar por casa (Buenos Aires, Eloísa Cartonera, 2007, e La Paz, Yerba Mala Cartonera, 2009). Com o grupo Los Superdemokraticos, realizou uma turnê de leituras por alguns países da América Latina (Goethe Institut) e pela Hungria (Universidad de Debrezen) em 2011. Participou do “Poesiefestival Berlin 2011”, “Latinale, festival de poesía latinoamericana de Berlín” (2008, 2009, 2010 e 2013) e do “Der ekart över havet” em Malmö, Suécia, em 2010.

Seus textos foram publicados em diversas antologias e revistas latino-americanas e europeias, também foram traduzidos para o alemão e para o sueco. Em 2013 Limache 250 publicou uma pequena antologia com suas traduções do poeta alemão Jörg Fauser, sob o título Bandera roja.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Maldonado: Sim, principalmente quando uma palavra ao acaso provoca um incêndio oportuno, uma fogueira de textos.

Sibila: Que poesia você lê?

Maldonado: Com paixão, leio basicamente a poesia que encontro quando a poesia me assalta. Esteticamente me interessa o expressionismo, informativamente as editoras independentes e os livros-objeto. Há livros de poesia magníficos, em formatos revolucionários que alteram definitivamente a relação do leitor com o texto.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Maldonado: Sim, creio que a poesia toca pontos abstratos da consciência nos seres humanos. Aquilo que chamamos alma – mesmo que essa palavra se use apenas fora das igrejas, o que é uma pena – e, inclusive, quando o gênero não é muito familiar ao leitor, se o trabalho é bom, se é autêntico, é difícil que a pessoa fique indiferente, que a “palavra” não tenha consequências; por isso a linguagem é tão importante. Penso que o verdadeiro poder em nossas sociedades se exerce e se sustenta através das palavras.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Maldonado: Sobreviver. Aprendi que com ela sou capaz de ver o mundo, o poder, essa construção imediata e vigiada da história, e manter o espírito intacto. Ajuda-me a travar com nobreza minhas próprias batalhas.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Maldonado: Conseguir que minha interlocutora ou interlocutor, o público abstrato diante do qual me exponho diretamente, vá para casa com alguns versos em sua cabeça, que o assaltem em suas situações cotidianas. Prepará-lo, remetê-lo, referi-lo a uma realidade que é urgente julgar.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Maldonado: Espero que sim, porque além do trabalho em si, como experiência – que é o que é, um estado de consciência no qual submerjo –, de acordo com a teoria eu tenho um leitor ideal, um leitor real e um leitor possível.

Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Maldonado: Eu gosto muito dos livros enquanto objetos que podem ser colecionados, um defeito de livreira que conservo. Porém, não estou fechada a nenhum formato ou suporte. Creio que os textos encontram o seu caminho, sendo que o mais importante é chegarem ao leitor.

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Maldonado: De imediato, espero conseguir provocar uma reação no leitor, uma tomada de atitude diante do que leu, do que foi exposto, que gere nele a distância necessária em relação ao contexto, em relação àquilo que chamamos realidade. Idealmente, espero que ele chegue a evocar. Que o verso, a ideia trabalhada, tome de assalto o meu interlocutor. Que o verso apareça para ele em situações cotidianas, ou em referência a outros textos. Que seja o inconsciente dos outros a arranjar para mim um espaço na estante ou na memória do computador, ao lado de vizinhos que eu respeito.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Maldonado: Literalmente, qualquer pessoa. Esforço-me por trabalhar a linguagem de modo que seja próxima, quase cotidiana, sem renunciar à complexidade que lhe dá origem, seguindo linhas estéticas claras.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Maldonado:

*  *  *

Follar

Follar (quizá del lat. follis, fuelle) 1.tr.
vulgar. Practicar el coito.
U.t.c.intr.2.tr.vulg. fastidiar, molestar.
Sin. Copula sexual, ayuntar coger
cascar culear tirar singar
dejar que te entierren la batata
con la confianza del silencio
y la libertad de fumar
en marco apaisajado
con el tiempo
echarse un polvo
después fornicar
hasta sudar con confianza
entre las sábanas
para terminar
cohabitando
en un plano astral
cuando se va por la vida
escuchando música

*  *  *

Lectura de poesía

Sibila: ¿Usted lee poesía?

Maldonado: Sí, sobre todo cuando una palabra al azar provoca un incendio oportuno, un fogonazo de textos.

Sibila: ¿Qué poesía lee?

Maldonado: Con pasión, básicamente la que encuentro cuando la poesía me toma por asalto. Estéticamente me interesa el expresionismo, informativamente las editoriales independientes y particularmente los libros objeto. Creo que hay libros de poesía magníficos en formatos plásticos revolucionarios, que alteran definitivamente la relación del lector con el texto.

Sibila: ¿Leer poesía tiene algún efecto?

Maldonado: Sí, creo que la poesía toca puntos abstractos de la conciencia en el ser humano. Aquello que llamamos alma – aunque esa palabra se use apenas fuera de las iglesias, lo que es una lástima – e incluso cuando el receptor no es cercano al género, si el trabajo está bien hecho, si es auténtico, es difícil que la persona permanezca indiferente. Que “la palabra” no tenga consecuencias, por eso es tan importante el lenguaje. Pienso que el verdadero poder en nuestras sociedades se ejerce y se sostiene atraves de las palabras.

Escritura de poesía

Sibila: ¿Qué espera usted al escribir poesía?

Maldonado: Sobrevivir. He aprendido que con ella soy capaz de ver el mundo, el poder, esta construcción inmediata y vigilada de la historia y sostener el espíritu intacto. Me ayuda a librar con hidalguía mis propias batallas

Sibila: ¿Cuál sería el mejor efecto que puede uno obtener de la práctica de poesía?

Maldonado: Lograr que mi interlocutora o mi lector, el público abstracto en una lectura ante quien me expongo directamente, vuelva a casa con algunos versos en la cabeza, que luego lo tomen por asalto en situaciones cotidianas. Prepararlo, remitirlo, referirlo a una realidad que urge poner en tela de juicio.

Sibila: ¿Su poesía tiene interés público?

Maldonado: Espero que sí, porque más allá del trabajo en sí mismo, como experiencia – que es lo que es, un estado de conciencia en el que me sumerjo – según la teoría tengo un lector ideal y uno real y uno posible.

Publicación de poesía

Sibila: ¿Cuál es el mejor soporte para su poesía?

Maldonado: Me gustan mucho los libros como objetos coleccionables, un defecto de librera que conservo. Sin embargo no estoy cerrada a ningún formato o soporte. Creo que los textos encuentran su camino, al respecto considero que lo más importante es llegar al lector.

Sibila: ¿Cuál es el mejor resultado que espera de la publicación de su poesía?

Maldonado: Inmediatamente, conseguir una reacción en el lector, una toma de postura ante lo dicho, ante lo expuesto, que genere en él la distancia necesaria con el contexto, con lo que llamamos realidad. Idealmente llegar a la evocación. Que el verso, la idea trabajada, asalte a mi interlocutor. Que se le aparezca ante situaciones cotidianas o en referencia a otros textos. Que sea el inconsciente de los otros el que me haga un espacio en la estantería o el disco duro, al lado de vecinos que respeto.

Sibila: ¿Quién sería el mejor lector de sus libros de poesía?

Maldonado: Literalmente cualquiera, me esfuerzo por trabajar el leguaje de manera que sea próximo, casi ordinario, sin renunciar a la complejidad conceptual que le da origen, siguiendo claras líneas estéticas.

Sibila: ¿Qué es lo que más le gustaría que sucediera después de la publicación de su poesía?

Maldonado:

*  *  *

Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.

Sobre Rery Maldonado

Nasceu em Tarija (Bolívia) em 1976. Desde 1997 vive em Berlim, onde trabalha como tradutora, autora e desenvolve projetos culturais. Publicou Los superdemokraticos, eine politische literarische Theorie (Verbrecher Verlag, 2011) com Nikola Richter, La república en el espejo (Montevideo, La Propia Cartonera, 2011) e Andar por casa (Buenos Aires, Eloísa Cartonera, 2007, e La Paz, Yerba Mala Cartonera, 2009). Com o grupo Los Superdemokraticos, realizou uma turnê de leituras por alguns países da América Latina (Goethe Institut) e pela Hungria (Universidad de Debrezen) em 2011. Participou do “Poesiefestival Berlin 2011”, “Latinale, festival de poesía latinoamericana de Berlín” (2008, 2009, 2010 e 2013) e do “Der ekart över havet” em Malmö, Suécia, em 2010.