Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Paula Claire

PAULA CLAIRE é uma conhecida e reconhecida poeta experimental inglesa contemporânea. Começou a escrever poesia em 1961, recém-graduada na University College, Londres. Há mais de 25 anos, integra com Bob Cobbing o duo Koncrete Canticle. Publicou, entre outros, Mobile poems (Oxford 1968); Declarations, Poems 1961-91 (I.C.P.A. No 30, 1991); (Cat No 379) DI-VERS-ITY Poems 1991-2001 (I.S.V.P.A. No 37, 2001). WORDSWORKWONDERS (Selected Poems 1961-2010). Tornou-se “Fellow” da Royal Society of Arts em 2003. Mantém a página The Paula Claire Archive of Sound and Visual Poetry.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Claire: Apesar de eu amar TODOS os tipos de poesia e de tentar manter-me a par com o que está sendo produzido aqui e no exterior, o verbo “ ler” não é exatamente o que pode ser-me aplicado. Isso porque, desde os últimos anos da década de 1960, meu foco é poesia visual e poesia sonora. Elas oferecem uma linguagem internacional porque, na poesia visual, a aparência das palavras ou os sinais da linguagem são a mensagem essencial; e a poesia sonora pode ser em qualquer língua ou uma mistura delas e ela comunica por estar tão próxima da música.

Sibila: Que poesia você lê?

Claire: Por meio de meus contatos por mensagem eletrônica eu envio e recebo internacionalmente exemplos de poesia visual e então publico minha poesia sonora em websites-chave, como, por exemplo, o The Other Room; este grupo progressivo de Manchester mantém uma newsletter dinâmica em seu website e um arquivo com todas as performances e entrevistas dos poetas participantes. Repare também no fato que muita poesia visual é também uma partitura para a expressão vocal. Um dos maiores sites é o Renegade Visual Poetry dirigido por Andrew Topel (EUA), que acaba de aceitar alguns de meus text-iles para máquina de escrever.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Claire: Fazer a experiência da poesia é uma verdadeira alquimia: TRANSFORMA o espírito humano.

Escrita de poesia

claireSibila: O que você espera ao escrever poesia?

Claire: Uma cristalização de minhas próprias percepções.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Claire: Um sentido renovado da extraordinária natureza de todas as línguas, na miríade de suas expressões sonoras e visuais.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Claire: Desde que comecei a apresentar meu trabalho, em novembro de 1969, em Londres, o publico o intrega, é participativo, em termos vocais. Criei duas formas de participação: “vozes respondentes”, em que as pessoas repetem frases-chave; e “vozes interagentes”, em que as pessoas recebem meus poemas e passam a falar em grupos de vozes . Um exemplo disso pode ser encontrado em meu website ONE HUNDRED FIELD NAMES OF OXFORDSHIRE (1980). Eu fui uma das pioneiras a trabalhar ao ar livre. Um exemplo muito bom de meu modo de trabalhar pode ser encontrado em meu canal próprio no YouTube, ligado ao meu website, que mostra um extrato de minha performance de SUNFLOWERPOWER, em que todos cantam em coro, no Porto, que foi a Capital da Cultura, em 2001, um poema em inglês e em português. Que culmina com o gesto simbólico de atirar 100 girassóis—como estrelas no espaço–no rio Douro, daquela ponte imensa! Minha poesia é muito pública e visa mesmo animar a COMUNIDADE.

Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Claire: A mensagem eletrônica é maravilhosa para compartilhar poemas e ideias com as pessoas que o usam, em toda parte. Meus estilos de trabalho ainda são considerados pouco usuais, por isso eu confio nos colegas do mundo inteiro, que conheci durante muitos anos e com os quais eu tenho trocado publicações para meus arquivos: Mirella Bentivoglio (Itália), Fernando Aguiar (Portugal), Klaus Peter Dencker (Alemanha), Karl Kempton (EUA), Chima Sunada (Japão), Alex Selenitsch (Austrália), só para citar alguns. A Universidade de Oxford continua muito desconfiada quanto às formas poéticas inovadoras!

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Claire: A ampliação da compreensão do escopo da poesia em toda sua DI-VER-SI-DA-DE. Isso é ILIMITADO e UNIVERSAL.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Claire: As pessoas de mente aberta. As crianças são brilhantes porque elas adoram rabiscar linhas que se tranformam em signais e letras e adoram gritar em qualquer espaço que ressoe.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Claire: Não espero nada: ENTÃO coisas extraordinárias acontecem, de repente.

*  *  *

Moving people

moving_peopleOuça e veja Paula Claire

*  *  *

Mykonos in sunlight (1968)

Roofs of Mykonos: threshing-floor of light
stand * diaphanous swirls
garments winds * the olive
* dance urged
quivers shapes
weaves the body * sways its flying gauzes
shadows dancing doves ascending
flails of windmills
* dance surged
sway revolve * in purling white off houses:
Mykonos dance in the threshing-floor of light.

Mykonos à luz do sol (1968)

Telhados de Mykonos: eiras de luz
de pé * redemoinhos diáfanos
roupas ventos * a azeitona
* urge a dança
treme forma
tece o corpo * move suas gazes voadoras
sombras dançando pombas subindo
rastros de moinhos de vento
* dança ressurge
movendo girando * surrupiando o branco das casas:
Mykonos dança na eira de luz.

Tradução: Régis Bonvicino e John D. Rowell

*  *  *

Reading poetry

Sibila: Do you read poetry?

Claire: Although I love ALL kinds of poetry and try to keep up to date with what is being produced here and abroad, the verb ‘read’ is not exactly applicable to me because my main focus since the late 1960s is visual and sound poetry. These offer an international language because in visual poetry the appearance of the words or language signals is the over-riding message; and sound poetry can be in any or a mixture of languages and communicates because it is so close to music.

Sibila: What kind of poetry do you read?

Claire: Though my e-mail contacts internationally I receive and send examples of visual poetry, and put my sound poetry on key websites such as The Other Room; this progressive Manchester group run a dynamic newsletter on their website and an archive of all participating poets’ performances and interviews. Please note that much visual poetry is simultaneously a score for vocal expression. A major site is Renegade Visual Poetry run by Andrew Topel (USA) who has just accepted some of my typewriter text-iles.

Sibila: Do you think that reading poetry would produce any effect?

Claire: Experiencing poetry is true alchemy: it TRANSFORMS the human spirit.

Writing poetry

Sibila: What do you expect from writing poetry?

Claire: A crystalising of my own perceptions.

Sibila: In your opinion, which is the best effect one can get from practising poetry?

Claire: A renewed sense of the extraordinary nature of all language in its myriad visual and sound expressions.

Sibila: Do you think your poetry has any public value?

Claire: Ever since I began presenting my work in public, in November 1969 in London, I have invited everyone who comes to my event to participate vocally. I have created 2 forms of participation: ‘responsive voices’ where people repeat key phrases; and ‘interactive voices’ where people are given my poem and speak in groups of voices, an example on my website ONE HUNDRED FIELD NAMES OF OXFORDSHIRE (1980). I have pioneered working outdoors. An excellent example of my way of working is on my YouTube slot linked to my website showing an excerpt from my performance of SUNFLOWERPOWER with everyone chanting the choruses in Oporto Capital of Culture 2001, a poem in English and Portuguese that culminates in the symbolic gesture of casting 100 sunflowers – like stars in space — into the Rio Douro from that great iron bridge! My poetry is very public and aims to foster COMMUNITY.

Publishing poetry

Sibila: Which is the best support for your poetry?

Claire: Sharing poems and ideas with fellow practitioners wherever they are: e-mail is marvellous for this. The styles I work in are still considered unusual, so I rely on colleagues around the world I have known for years and with whom I have exchanged publications for my Archive: Mirella Bentivoglio (Italy), Fernando Aguiar (Portugal), Klaus Peter Dencker (Germany), Karl Kempton (USA), Chima Sunada (Japan), Alex Selenitsch (Australia), to name but a few. Oxford is still very suspicious of innovative poetic forms!

Sibila: Which is the best result you expect from the publishing of your poetry?

Claire: The widening of understanding of the scope of poetry in all its DI-VERS-ITY. It is BOUNDLESS and UNIVERSAL.

Sibila: Who is the best reader of your poetry?

Claire: The Open-minded. Young children are brilliant because they adore scrawling lines that turn into signs and alphabets, adore calling out in any resonant space.

Sibila: What would you most like to happen after the publication of your poetry?

Claire: Expect nothing: THEN extraordinary things come out of the blue.

*  *  *

Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.