Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Charles Bernstein

O poeta e professor CHARLES BERNSTEIN, nascido em 1950 em Nova Iorque, onde vive, é uma das principais forças das letras norte-americanas. Autor de vários livros de poesia e de crítica literária, é o co-fundador e co-editor de PennSound, o maior arquivo de leituras de poetas do mundo todo e do pioneiro Electronic Poetry Center. No Brasil, publicou o livro Histórias da guerra em 2008. Para ele, “a poesia é alguma coisa em longo prazo”. Nome de alcance mundial, ele afirma que o melhor suporte para sua poesia é o diálogo: “Tenho tido a sorte, desde quase o primeiro momento, de contar com bons companheiros”.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Bernstein: Pode apostar.

Sibila: Que poesia você lê?

Bernstein: Encontrei uma porção de lacunas em minhas leituras; por isso, muitas vezes eu divago, felizmente. Eu leio mais poesia de fora dos Estados Unidos e de antes do século XX. Procuro me manter a par do trabalho de velhos amigos, mas também, nem que seja de modo rápido, procuro acompanhar trabalhos recentes, especialmente os que lidam com alguma coisa que não tenha visto ainda. Manter-me atualizado, porém, está ficando cada vez mais difícil. Compro uma porção de novos livros, assino uma porção de séries, leio on-line (especialmente quando ouço falar de um poema pela primeira vez). Já tenho uns duzentos livros de poesia recentes (e cada vez menos recentes) na minha estante de “poesia para ler”.

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Bernstein: Espero que não. Às vezes fico desapontado.

Leitura de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Bernstein: Cada vez menos. Estou indo rumo ao perfeito grau zero.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Bernstein: Eu compreendi (já sabia disso há muito tempo) que escrever, para mim, é uma obsessão. Não procuro nenhum efeito ao escrever um poema, escrevo-o apenas. Às vezes eu sinto que é minha mente quem o está ditando para mim, embora “Eu” interfira bastante nele.

Às vezes os poemas parecem controlar minha consciência e se escrevem sozinhos – não no sentido sobrenatural, mas sim, diria, sobrenatural (poética do eco), mas digo isto apenas para descrever a experiência. Desse modo eu estou demasiado absorvido (no ato de escrever) para imaginar o efeito; depois, já é tarde demais.

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Bernstein: Público como oposto ao interesse privado?

Leitura de poesia

Sibila: Qual a melhor suporte para a sua poesia?

Bernstein: Tenho tido a sorte, desde quase o primeiro momento, de contar com bons amigos e companheiros que publicaram meus livros: Douglas Messerli na Sun & Moon Press e em Green Integer, James Sherry na Roof Books. Isto antes de eu me mudar para a Editora da Universidade de Chicago. Alan Thomas publicou My Way: Speeches and Poems e With Strings, depois de eu sugerir a ele o livro como um título fora de quaisquer coleções, como foi o meu livro de ensaios, e não como parte de uma série poética. Ele publicou depois With Strings um livro de poemas. Desde então publico por lá. Antes disso eu sobretudo preferia publicar em revistas com as quais eu sentia que tinha alguma ligação, nas quais o meu trabalho se conectava ou tinha algo em comum com o dos outros colaboradores, como La Bas de Douglas ou ROOF, de James Sherry, Temblor de Lee Hickman’, Sulfur de Clayton Eshleman e nosso trabalho em Sibila, tal como a revista que publico com o poeta Eduardo Espina, S/N. Na web: Jacket, de John Tranter’s, e agora, Jacket 2, ou os arquivos web Eclipse (Craig Dworkin), EPC (com Loss Pequeno Glazier) e PennSound (com Al Flireis e Mike Hennessey). Também estou muito engajado, a qualquer momento, com traduções e tradutores: Leevi Lehto (Finlândia), Peter Waterhouse and Versatorium (Áustria), Enrique Winter (Chile), Ernesto Livon-Grosman (EUA/Argentina), Norbert Lange e outros (Alemanha), Ian Probstein (EUA/Rússia), meus amigos da revista OEI como Jonas (J) Magnusson (Suécia), Lianggong Luo, Nie Zhenzhao, & Li Zhimin (China),  Zeyar Lynn (Burma), Martin Richet & Abigail Lang (França), Heriberto Yepez (México), Dubravka Djuric (Sérvia) e Régis Bonvicino (Brasil).

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Bernstein: Expectativas são os pais da ansiedade. Poesia é alguma coisa a longo prazo. Basicamente espero que o trabalho saia conforme o esperado, trabalhando com cuidado para comprovar e ter certeza de que os poemas tenham também, visualmente, o aspecto desejado.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Bernstein: Estou interessado em resenhas, comentários e respostas – sempre curioso por saber o que as pessoas acham do meu trabalho. Mas não ligo especialmente para quem poderia ser “o melhor”. Poderia, isto sim, pensar em pessoas que poderiam ser “os piores” leitores de minha poesia – e, embora não possa dizer que apreciaria seus comentários, há sempre maneiras em que essas respostas hostis não deixam de ser uma comprovação do que eu faço.

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Bernstein: Ir em frente, para os próximos trabalhos.

*  *  *

Também nasce o sol

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Asfixiado invalidou seu reenvio

IgnóbilIncorrigívelIgnorante o marcou em Klimaximum

EuQueroSerSeuCavalinho cutucou você

PoetinhaEntufado adicionou-o ao grupo dos Poetastros Demoníacos

SiloVacante deixou a página por dez minutos

AmigoPraValer marcou você, de novo

ColesterolAlto baixou o seu drive C

AlienígenasHabitamMeuFígado truncou o seu reenvio

SeduçãoCética desnudou o seu status

DestinoSoporífero espelhou seu link

AnjoDaAcne encaminhou o seu espelho

ODecadente entrou no sistema

PantomimaFrágil mudou seu nome na tela

InventorDePerfisFalsos caiu de sono

SonsoBelicoso curtiu sua atividade

UmCorcunda se arrepende deste post

 

Tradução: Régis Bonvicino e John Rowell

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Reading poetry

Sibila: Do you read poetry?

Bernstein: You betcha.

Sibila: What kind of poetry do you read?

Bernstein
: I find various gaps in what I’ve read so get sidetracked, happily, much of the time. Especially poetry from outside U.S. and before the 20th century. I try to keep up with the work of old friends but then also to at least briefly attend to current works, especially ones doing something I haven’t quite seen before. But keeping up is increasingly hard for me. I buy a lot of new books, subscribe to series, read on-line (especially when I first am learning of a poet). I’ve got a couple of hundred recent (and increasing less recent) poetry book on my “to read” shelf.

Sibila: Do you think that reading poetry would produce any effect?

Bernstein:
I am hoping not. Sometimes I am disappointed.

Writing poetry

Sibila: What do you expect from writing poetry?

Bernstein: Less and less. I am moving toward that perfect zero degree.

Sibila: In your opinion, which is the best effect one can get from practising poetry?

Bernstein:
I’ve realized (I’ve know it for a long time) that writing is an obsession for me. I am not trying for an effect just working out the poem at hand. Sometimes I feel my mind is dictating the poems to me, though “I” interfere a lot. Poems often feel like they take over my consciousness and write themselves – I don’t mean that in an supernatural sense, it’s more infranatural if anything (echopoetics), but just to describe the experience. So I am too absorbed to consider the effect until it’s too late.

Sibila: Do you think your poetry has any public value?

Bernstein: As opposed to private value?

Publishing poetry

Sibila: Which is the best support for your poetry?

Bernstein: I’ve been lucky from near the outset to have good friends and comrades publish my books – Douglas Messerli’s Sun & Moon and Green Integer, James Sherry’s ROOF … before moving to University of Chicago Press. Alan Thomas had published My Way: Speeches and Poems and after that I suggested to him With Strings as a trade book, like my essay book, not as part of a poetry series. He took on With Strings. It’s been perfect ever since. Earlier on, I liked best publishing in magazines that I felt a direct connection to, as an ongoing contributor whose work was connected to the other contributors, as with Douglas’s La Bas or James’s ROOF, Lee Hickman’s Temblor, Clayton Eshleman’s Sulfur and then our work together in Sibila as well as the magazine I edit with Eduardo Espina, S/N.  On the web: John Tranter’s Jacket and now Jacket 2, or the web archives Eclipse (Craig Dworkin), EPC (with Loss Pequeno Glazier), and PennSound (with Al Flireis and Mike Hennessey). I am also very involved with translations and translators and at any given time, those people are the ones I am mostly intimately in exchange Leevi Lehto (Finland), Peter Waterhouse and Versatorium (Austria), Enrique Winter (Chile), Ernesto Livon-Grosman (U.S../Argentina), Norbert Lange and co. (Germany), Ian Probstein (U.S./Russia), my OEI friends (Sweden), Lianggong Luo, Nie Zhenzhao, & Li Zhimin (China),  Zeyar Lynn (Burma), Martin Richet & Abigail Lang (France), Heriberto Yipez (Mexico), Dubravka Djuric (Serbia), and Régis Bonvicino (Brazil).

Sibila: Which is the best result you expect from the publishing of your poetry?

Bernstein:
Expectations are the father of anxiety. It’s a long-term business. Fundamentally I hope the work comes out as intended, working hard to proof and make sure the poems look right visually. After that distribution: knowing the book is available to those who may want to read it.

Sibila: Who is the best reader of your poetry?

Bernstein:
I am engaged with reviews and commentaries and responses – always curious to hear what individuals make of the work. But I don’t hold any special store by “best”. I can think of some people who could be said to be the “worst” readers of my poetry – and though I can’t say I appreciate their commentaries, there are ways in which those hostile responses are a proof of what I do.

Sibila: What would you most like to happen after the publication of your poetry?

Bernstein: Go on to the next works.

* * *

Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.