Sibila, lugares contemporâneos da poesia: Jean-Marie Gleize

JEAN-MARIE GLEIZE nasceu em Paris em 1º de abril de 1946. É professor de literatura na Universidade de Aix-en-Provence e na École Normale Supérieure de Lyon, onde também dirigiu o Centro de Estudos Poéticos (1999-2009). Com o conceito “simplificação”, o seu trabalho o leva a pensar, de modo crítico, na década de 1990, acerca da nudez e da literalidade como conceitos de análises poéticas e artísticas. Buscando fazer uma poesia realista, embora reconhecendo a impossibilidade de um resultado puramente objetivo, a sua escrita, aos poucos, se concentra em vários dispositivos, abrangendo notas, inclusão de textos heterogêneos, citação intertextual, referências de filmes e fotografia e apropriação pura e simples de materiais alheios. Além de suas várias publicações, é responsável pela gestão dos Nioques, núcleo no qual se retomam e exploram temas das vanguardas históricas de 1960-1970.

Leitura de poesia

Sibila: Você lê poesia?

Gleize: Sim, claro, e de preferência a qualquer outro tipo de escrita.

Sibila: Que poesia você lê?

Gleize: Precisamente a poesia que não se define como tal (que coloca em questão os critérios formais de “reconhecimento” da “poesia”).

Sibila: Você acha que a leitura de poesia tem algum efeito?

Gleize: A leitura (do que quer que seja) produz “efeitos”, ou não os produz. Esta questão implica reflexão sobre as modalidades e as condições da recepção em geral. Impossível respondê-la de modo simples (ou ingenuamente). Ou melhor, sim, é bem possível respondê-la ingenuamente (em função de alguma ilusão). Eu me recuso, portanto.

Escrita de poesia

Sibila: O que você espera ao escrever poesia?

Gleize: Nada. A “situação de espera” para mim é uma situação “crônica” como as doenças de mesmo nome. O objeto da espera não é definível. A poesia não é uma solução para os problemas inerentes a essa situação de espera, nem a nenhuma outra doença crônica.

Sibila: Qual o melhor efeito que você imagina para a prática da poesia?

Gleize: Nenhum, a poesia não é uma medicação (outra formulação encontra-se na resposta à questão anterior).

Sibila: Você acha que a sua poesia tem interesse público?

Gleize: É o mesmo que a questão 3. O texto não visa a um “público” particular, nem sei se ele produz “efeitos”; se produz efeitos, eles variam em função dos receptores, dos contextos, das circunstâncias e são completamente imprevisíveis (logo, não são absolutamente previstos ou preparados no ato da produção).

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Publicação de poesia

Sibila: Qual o melhor suporte para a sua poesia?

Gleize: O livro, mas não exclusivamente. Há outros suportes (o vídeo, por exemplo).

Sibila: Qual o melhor resultado que você espera da publicação da sua poesia?

Gleize: Curioso, a palavra “resultado” se substitui aqui aos precedentes “efeitos”, “expectativa”, “interesse” para (um público). Não tenho outra resposta a não ser as já formuladas: não escrevo para ou em vista de.

Sibila: Qual o melhor leitor de seu livro de poesia?

Gleize: ?

Sibila: O que você mais gostaria que acontecesse após a publicação da sua poesia?

Gleize: O que espero de um texto publicado é que suscite em mim o desejo de continuar. Eu escrevo porque tento elucidar uma série de questões coletivas ou de enigmas, para os quais não existem respostas. Trata-se, portanto, de prosseguir.

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Leia um poema de Gleize na Sibila

Ouça Gleize

Audiatur 2014 Day 2 01: Jean Marie Gleize from Audiatur on Vimeo.

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Lecture de poésie

Sibila: Lisez vous poésie?

Gleize: Oui, bien sûr, de préférence à tout autre mode d’écriture.

Sibila: Quel genre de poésie?

Gleize: Précisément de la poésie qui ne se définit pas comme telle (qui remet en question les critères formels dereconnaissance de lapoésie”).

Sibila: Pensez vous que la lecture de poésie produit quelque effet?

Gleize: La lecture (de quoi que ce soit) produit deseffets”, ou n’en produit pas. Cette question relève d’une réflexion sur les modalités et les conditions de la réception en général. Il est impossible d’y répondre simplement (ou naïvement). Ou plutôt si, il est très possible de répondre naïvement (ou en fonction de telle ou telle illusion). Je m’y refuse, donc.

Écriture de poésie

Sibila: Qu’est ce que vous attendez en écrivant poésie?

Gleize: Rien. La situation d’attente est pour moi une situation chronique”(comme les maladies du même nom). L’objet de l’attente n’est pas cernable. La poésie n’est pas une solution (aux problèmes inhérents à cette situation d’attente, ni à aucun autre malaise chronique).

Sibila: Quel est le meilleur effet que vous imaginez pour la pratique de la poésie?

Gleize: Aucun, la poésie n’est pas un médicament (autre formulation dans la réponse à la question 4).

Sibila: Pensez vous que votre poésie pourra avoir un certaine valeur pour lepublic? Lequel?

Gleize: C’est la même question que la question 3. Le texte ne vise pas un public particulier et s’il produit des effets, ceux-ci sont variables en fonction des récepteurs, des contextes, des circonstances, et sont tout à fait imprévisibles (donc ne sont en aucune façon prévus ou préparés dans l’acte de production).

Publication de poésie

Sibila: Quel est le meilleur support pour votre poésie?

Gleize: Le livre mais non exclusivement d’autres supports (video par exemple).

Sibila: Quel est le résultat le plus intéressant que vous attendez de la publication de votre poésie?

Gleize: Etrange, le motrésultat se substitue ici aux précédents:effets,objet de l’attente”, “valeurpour (un public). Pas d’autre réponse que celles déjà formulées. Je n’écris pas pour, en vue de, etc.

Sibila: Quel est le meilleur lecteur de votre livre de poésie?

Gleize: ?

Sibila: Quelle est la chose la plus intéressante qui pourrait se produire pour vous après la publication de votre poésie?

Gleize: Ce que j’attends d’un texte publié c’est qu’il suscite en moi le désir de continuer. J’écris parce que je cherche à élucider un certain nombre de questions ou de nœuds ou d’énigmes, pour lesquels il n’y a pas véritablement de réponses. Il s’agit donc de poursuivre.

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Leia a série completa

 

Lugares contemporâneos da poesia

Concepção do projeto: Alcir Pécora e Régis Bonvicino
Texto introdutório: Alcir Pécora
Realização: Régis Bonvicino, com a colaboração de Aurora Bernardini e Charles Bernstein

Há reiterados momentos do contemporâneo em que a prática da poesia se parece exatamente apenas uma prática, uma empiria, uma rotina. Faz-se poesia porque poesia é feita. Edita-se poesia porque livros de poesia são editados e foram editados. Por que não continuar editando-os?

Mas qual o significado da arte, quando a arte se reduz a empiria, procedimento habitual que não problematiza os seus meios? Que deixa de inventar os seus próprios fins? Que não desconfia de sua forma conhecida, nem arrisca um lance contra si, inconformada?

Para tentar saber o que pensam a respeito da poesia que produzem alguns dos mais destacados poetas estrangeiros em ação hoje, a Revista Sibila propôs-lhes algumas perguntas simples, primitivas até – silly questions! –, cujo escopo principal é deixar de tomar como naturais ou óbvios os automatismos da prática.

Trata-se de saber dos poetas, da maneira mais direta possível, o que ainda os move a ler, a escrever e a lançar um livro de poesia – ou, mais genericamente, a publicar poesia, seja qual for o suporte.

A condição de, por ora, ouvir apenas os estrangeiros é estratégica aqui. Convém evitar respostas que possam ser neutralizadas a priori por posicionamentos desconfiados de vizinhança.

Leitura de poesia, esforço de poesia e publicação de poesia: nada disso é compulsório, nada disso se explica de antemão. Tudo o que se faz, nesse domínio, é fruto de exigência apenas imaginária. Nada obriga, a não ser a obrigação que se inventa para si.

A revista Sibila quer saber que invenção é essa. Ou seja: o que os poetas ainda podem imaginar para a prática que os define como poetas.

Contemporary places for poetry

There are plenty of moments in our current life when the practice of poetry seems exactly a practice, something empirical, a kind of routine. One makes poetry because poetry has been made. One publishes poetry because books of poetry are published and were published, why not going on publishing them?

But what meaning does art have when art is reduced to empiricism, the habitual procedure which doesn’t discuss its means? Which doesn’t any longer make up its own aims? Which is not suspicious of its usual form, nor runs the risk of a move against itself, unresigned?

Trying to know what some of the most distinguished foreign poets in action today think about their own poetry, Sibila proposed some very simple questions, some naïve questions – silly questions! –, whose principal aim is no longer to consider as natural ( as obvious) the automatisms of the poetical practice.

Sibila asks the poets to tell in the more direct way what still moves them to read, to write, to publish a book of poetry – or, more generically, to publish poetry, in whatever support.

The choice, for the moment, to listen only to foreign poets’ voice is a strategic one. It’s better to avoid answers which would be neutralized a priori, due to suspicious neighbourly attitudes.

Reading poetry, straining to write poetry, publishing poetry: not at all compulsory, all this, not at all explainable in advance. Everything you do in this domain is the result of mere imaginary exacting. Nothing obliges you, unless the obligation you invent yourself, for yourself. Sibila wants to know what kind of invention is that. Id est: what poets may still make up for the practice which defines them as poets.

Sobre Jean-Marie Gleize

Nasceu em Paris em 1º de abril de 1946. É professor de literatura na Universidade de Aix-en-Provence e na École Normale Supérieure de Lyon, onde também dirigiu o Centro de Estudos Poéticos (1999-2009). Com o conceito “simplificação”, o seu trabalho o leva a pensar, de modo crítico, na década de 1990, acerca da nudez e da literalidade como conceitos de análises poéticas e artísticas. Buscando fazer uma poesia realista, embora reconhecendo a impossibilidade de um resultado puramente objetivo, a sua escrita, aos poucos, se concentra em vários dispositivos, abrangendo notas, inclusão de textos heterogêneos, citação intertextual, referências de filmes e fotografia e apropriação pura e simples de materiais alheios. Além de suas várias publicações, é responsável pela gestão dos Nioques, núcleo no qual se retomam e exploram temas das vanguardas históricas de 1960-1970.